quarta-feira, 30 de março de 2011

serra da canastra, onde nasce o velho chico

no alto do parque

a fabulosa casca d'anta




cachoeira da chinela
na janela do chalé
um veado campeiro nos observa
um tamanduá na relva
a silhueta de um gavião
um carcará

um gavião pomba e sua presa


tinha uma cascavel no caminho







fotos de gê césar de paula

sexta-feira, 18 de março de 2011

debate: focault e chomsky

O vídeo abaixo apresenta um interessante documento histórico com um debate ocorrido em 1971 na Holanda entre dois influentes intelectuais da época, o filósofo Michel Foucault, falecido em1984 e o linguísta Noam Chomsky hoje com 83 anos.
A discussão pode parecer em princípio datada, mas algumas das questões levantadas, ou permanecem ou foram substituídas por verdades pré-moldadas e necessidades fabricadas, sobre as quais um outro filósofo, Herbert Marcuse, se debruçou naquela efervescente virada dos anos 60 para os 70.
O debate começa pela questão da sociedade tecnológica e caminha para noções de poder e conceitos de natureza humana e justiça. O vídeo mostra apenas um trecho do debate mas, ainda assim, vale pela curiosidade.


o belas artes fecha as portas







Ontem à noite fui ao Belas Artes, não para assistir algum filme mas apenas para me despedir. Pena não ter levado minha câmera. A cena lembrava a de um velório, em que pessoas formam pequenos grupos, murmuram coisas, se recostam em cantos, se apoiam em paredes. De repente alguém se exalta, dizendo da importância cultural do espaço, como aqueles que, em velórios, exaltam as qualidades morais do defunto.
Por aquelas salas escuras, visitei a Veneza de Visconti, a Berlim de Fassbinder, a Roma de Fellini e também de Rosselinni, a Estocolmo de Bergman, a Tókio de Kurosawa, a Paris de Truffaut, o espaço sideral de Tarkovsky e também de Kubrick, o imaginário psicológico de Antonioni...
Não sei, é bem verdade, se todas estas visitas e sensações se deram no Belas Artes, ou em outro cinema enterrado de São Paulo: a memória nos prega peças por vezes. Mas fica a memória afetiva, do mesmo jeito que falou o Ugo Giorgetti, em coluna recente na Folha. Giorgetti disse outra coisa ainda, que se assemelha ao que sinto: “Agora, acompanhando o mundo a que pertenceu, o Belas Artes se vai para sempre. Não vou sentir saudades dele. O que sinto, no fundo, é saudades de mim, nele”.
PS: um link:
http://letrasdespidas.wordpress.com/2011/01/09/o-fim-do-cinema-belas-artes/



quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

el tango del pasillo (corredor)

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

universidade livre de música tom jobim, o desmonte


A sanha privatista do Governo do Estado de São Paulo parece não ter fim. O alvo agora é a área cultural. Depois de um processo lento de descaracterização da TV Cultura, o governo apura o foco agora para o desmonte da Universidade Livre de Música Tom Jobim. Criada em 1989, Tom Jobim foi seu primeiro reitor. A universidade oferece cursos regulares e cursos livres, além de recitais, workshops e masterclasses. Os cursos são gratuítos e visam a formação de músicos profissionais. Sua sede principal fica na Luz, justamente ali, onde os governos municipal e estadual projetam uma revitalização do bairro.
Para não ser repetitivo, aponto o link abaixo com os comentários do Luis Nassif e do Gustavo Cherubine Belic:

http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/o-desmonte-da-universidade-livre-de-musica


terça-feira, 25 de janeiro de 2011

ela fez 457 anos

foto: gê cesar de paula

ele faria 84 anos

wave

domingo, 2 de janeiro de 2011

revés do avesso


Por alguns anos fui colaborador da extinta revista Revés do Avesso dirigida por Frei Giorgio Callegari, falecido em 2003. Escrevi cerca de vinte artigos entre 1995 e 2002. Infelizmente a revista não foi digitalizada e, como tinha uma tiragem relativamente pequena, há uma tendência de se perder no tempo.
Com toda a dificuldade que tenho com a informática, fui apresentado a um programa chamado “Acrobat” e depois de anotar detalhadamente, passo a passo, e botar a mão na massa, consegui digitalizar e depois transformar em documento “word” que permite a postagem no blog. Dessa forma, pretendo recuperar e documentar alguns desses artigos.
Hoje escolhi o artigo “Fragmentos da Arte” publicado no final de 1996. Coincidentemente, escrevi recentemente o texto “sobre arte” (antes de reler “Fragmentos da Arte”) e muito das ideias sobre arte da época permanecem, demonstrando, talvez, que não evoluí muito sobre a matéria. Outra percepção é que eu usava na época o termo “neoliberal”, vivo na época, e que foi caducando nos últimos anos , sendo enterrado e colocado nos livros de história, a partir da crise econômica mundial de 2008.


FRAGMENTOS DA ARTE
César de Paula

Foram-se os tempos das vanguardas. Foram-se também as utopias?
São Paulo recebeu neste final de ano, principalmente no mês de outubro, formas e linguagens artísticas das mais variadas diversidades e dimensões. Festivais de Jazz e de Dança, Mostra Internacional de Cinema, exposições de e para todos os lados e, sobretudo, a Bienal.
Atenho-me no entanto a uma exposição em particular que se encontra na Casa das Rosas, na Av. Paulista em São Paulo, com nomes consagrados das artes plásticas brasileiras. O tema "Utopia", carregado de historicidade, aponta o caminho ao qual os artistas deveriam expressar as suas obras.
Etimologicamente, a palavra "Utopia" foi criada através de um topônimo por Thomas Morus em 1516. Queria representar uma ilha imaginária, local de um sistema social, legal e político perfeito. Já o socialismo utópico teve em Charles Fourier o seu grande ideário. A sua primeira obra, "Le Nouveau Monde Industriel et Societaire" (O Novo Mundo Industrial e Societário) de 1829, defendeu a extinção da sociedade burguesa, substituindo-a por uma sociedade de falanstérios, ou seja, um lugar onde não há propriedade privada mas uma comunidade. Imaginava uma sociedade sem laços familiares, sem uma divisão fixa de trabalho, com o desenvolvimento de atividades lúdicas e com a ausência de qualquer tipo de autoritarismo. Mais tarde defendeu uma utopia levada às últimas conseqüências, com a dissolução total dos laços familiares e, como proposta, o amor livre.
Herbert Marcuse retomou nos anos 60 o pensamento utópico e junto com o movimento dos estudantes colocou novamente em questão as idéias de Fourier, tendo como base a revolução erótica como elemento primordial para uma revolução social.
Voltemos à Casa das Rosas. Os artistas tinham em mãos um tema complexo, de difícil acesso mas de múltiplas possibilidades. Abstraíram-se. Não com o tema, forjado de abstrações, mas com as concepções. "Utopia" acabou como um suporte para projeções individualizadas. O tema poderia ser qualquer outro e essas projeções estariam ali. Aqui encontramos o impasse ao qual se debruça a arte atual.
As vanguardas se tornaram história. São clássicos. Estão expostas, por vezes, a uma descaracterização que as transforma em ausência do sentido. Quais as razões? Em suma, são as questões de mundo, representadas nas artes de um modo geral. A crise do coletivo: a individualização que se sobrepõe à individualidade. As novas linguagens, cada vez mais interativas, mais visuais, num mundo das imagens: a virtualidade. A tecnologia como personificação do indivíduo. O projeto neoliberal como filosofia da diferença, mas a diferença da competição, seleção e exclusão.
A falta de vanguardas, ou mesmo as revisitações a elas, não é um mal em si. Na colcha de retalhos contemporânea, há um campo vasto, aberto numa imensidão, como sendo uma teoria básica de liberdade. Só o conceito "liberdade" - e por conseqüência, "democracia"- demandaria muitas teses, sujeitas às mais diversas manipulações. Mas no processo da execução ao qual se prende o artista, a liberdade está sujeita a um limite. Esse entendimento do artista é que permite a obra. A última pincelada, o último acorde é o limite da liberdade da obra. Portanto há regras para a liberdade. Da mesma forma, só se pode pensar o coletivo a partir da revitalização da individualidade em contraposição à reafirmação do individualismo, uma panacéia neoliberal.
Entre toda vastidão, o acúmulo ilimitado de informações, que coloca pessoas como sujeitos, e não agentes dos acontecimentos. O excesso de informação tem um caráter enganador, de simulacro, em que se passa a idéia do ser inserido no mundo e dele captando todos os acontecimentos, quando na verdade ele atravessa apenas a superfície num instante cada vez mais rápido do tempo. Tem-se um reino das mil possibilidades. Platão ao falar do termo phármacon, o colocou como ambíguo. Aquilo que pode servir para o bem ou para o mal. O que cura ou o que mata. O remédio e o veneno.
O artista, como catalisador das emoções, ou como agente do mundo, está envolto nas brumas deste final de século. Merleau Ponty, há algumas décadas, disse ser o artista e não o filósofo o pensador das imagens. Hoje é o mercado quem impõe a imagem e através dele, a roda da história ganha uma outra dimensão.
Do outro lado da obra, o espectador que na sua suposta inteireza se divide. Muitas vezes - e percorrendo os corredores, escadas, cantos, carregados de marcas da história da Casa das Rosas, e que me serve de apoio - o espectador tem a missão de fruidor da contra-subjetividade e não especificamente da obra. Na verdade, choques de subjetividades: a sua e a do artista.
Se as utopias resistem como possibilidade do sonho dentro de um mundo que projeta verdades absolutas, elas não estiveram presentes no endereço ao qual serviu de exemplo para este artigo.
REVÉS DO AVESSO -NOVEMBRO/DEZEMBRO• 1996

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

é natal



sábado, 18 de dezembro de 2010

minha estação da luz

















quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

algo sobre arte


Documenta de Kassel, Bienal de Veneza, Bienal de São Paulo. Estas são ainda as mais significativas mostras de arte no mundo, num mundo da decadência das mostras de arte.
A 29º Bienal de São Paulo está aí, aberta ao público até 12 de dezembro e muita gente nem sabe que ela está acontecendo. Outros tantos que sabem não se mobilizam a visitá-la.
Lembro da expectativa que a Bienal criava em outros tempos. Tempos em que ter uma postura ou uma consciência crítica trazia o sentido de um mundo que poderia e deveria ser interpretado e, a partir dessa interpretação, poderia ser projetado.
A bienal é apenas mais uma das instituições que foi perdendo o caráter de um espaço de discussão.
A decadência das mostras de arte explica, de certa forma, o contexto histórico em que vivemos. Os espaços para o contraditório são substituídos pelas verdades midiáticas, tão prontas como as novas necessidades fabricadas que encontramos pelas gôndolas dos supermercados. E há ainda o caráter do imediato. Hoje vivemos no mundo das imagens, mas também o do tempo encurtado, aquele que está mais próximo de nós. Tudo que é selecionado pela mídia para compor notícias, ganha e perde importância do dia para noite. Há uma avalanche de assuntos e de informações descartáveis entre os intervalos dos anúncios publicitários. A arte que temos hoje é apenas o resultado do mundo que temos.
O século 20 nos trouxe revoluções políticas, comportamentais, tecnológicas e, junto a todos esses eventos, vieram os manifestos e os movimentos de arte aos quais chamávamos de “vanguardas” que, a partir das variadas formas de representação, impulsionavam as reflexões de um novo tempo, cada vez mais rápido.
Mas parece que já superamos a fase dos movimentos e manifestos de arte. Ultrapassamos as possibilidades que as vanguardas propunham e adotamos um pragmatismo que dispensa a reflexão. O mundo hoje se auto representa.
Os questionamentos que a arte do século 20 propôs, esbarram hoje num individualismo em seu momento de exacerbação. Há ainda o aspecto do avanço muito rápido das tecnologias que criam novas linguagens e inúmeras possibilidades.
Via de regra, as instalações perderam o caráter da intersubjetividade para se fecharem na subjetividade do autor. Nas ocasiões dessas ocorrências, perde-se o diálogo entre o espectador e a obra.

Menos pinturas, mais videoartes

As últimas bienais têm nos apresentado cada vez menos pinturas que são substituídas paulatinamente por instalações, e estas, sendo compostas ou substituídas cada vez mais por videoarte. A imagem em movimento nos computadores, nos celulares, nas pocket tvs, se incorporaram ao nosso cotidiano e é com base nesse elemento que os artistas do nosso tempo têm desenvolvido em maior medida as suas inspirações.
Uma das obras mais impactantes desta bienal, "Pedintes", do artista turco Kutlug Ataman, trabalha com o elemento imagético. Ele apresenta vários monitores em uma sala escura, com imagens de pessoas em situação de rua, olhando para o espectador em câmera lenta como se estivessem pedindo esmola ou compartilhando seus sofrimentos. Para quem se detém a essas imagens a sensação é de incômodo.
Há outras obras que da mesma forma, trabalham com as imagens. O artista belga Davi Claerbout apresenta dois trabalhos: "As Seções de um Momento Feliz de Argel e Alvorada”, com imagens em fotogramas, e o vídeo "Sunrise" de 40 minutos, dois dos trabalhos mais interessantes da mostra. Outro artista belga, radicado no México, Francis Alÿs, filmou tornados durante dez anos e os editou de forma a tornar o vídeo um material igualmente interessante.
Mas é sintomático notar que a questão do tempo é imperiosa. As pessoas parecem ter pressa: entram nas salas de projeções apenas para olharem rapidamente, o que ali está acontecendo mas não se detém a tentar descobrir a proposta que ali está sendo apresentada. Isso leva um certo tempo, e a maioria dos visitantes da bienal não são mais fruidores de arte, mas apenas espectadores do efêmero. A bienal parece competir com outros eventos e representar mais uma passagem rápida do tempo, como o jornal da noite que mostrará outras efemeridades passageiras.

A curadoria

Por fim, há um outro aspecto que me chama a atenção. A Bienal de São Paulo tem se transformado em uma mostra de curadoria, em que o curador determina caminhos que limitam a diversidade e enquadram as escolhas no jeitão global do momento, concedendo espaço, por exemplo, àquilo que chamamos há pelo menos uma década de “politicamente correto”. Tem sido assim nas últimas mostras. Neste ano, talvez chacoalhados pela invasão dos pichadores na bienal anterior, e das muitas críticas sobre o rumo que ela tem tomado, os curadores procuraram um caminho que desviasse do “politicamente correto” e trouxeram o artista pernambucano Gil Vicente com sua obra polêmica – a meu ver, mais do que agressiva e desnecessária, explicitamente personalista – em que ele próprio, artista, atenta contra a vida de personalidades mundiais, aos quais ele chama de “inimigos”.
Há ainda a instalação gigantesca do artista Nuno Ramos contendo no seu interior urubus. Neste caso, o “politicamente correto” foi determinado por pretensos grupos ambientalistas que, aos gritos, protestavam junto à instalação, provocando barulho muito maior do que aquele que eles acusavam os visitantes de fazê-lo, e que causavam, segundo eles, estresse nos animais. Eles venceram, e os animais, que nasceram e sempre viveram em cativeiro, foram levados de volta ao seu lar de origem, uma gaiola mais modesta que à instalada no prédio projetado pelo centenário Oscar Niemeyer.

domingo, 14 de novembro de 2010

tiradentes - mg








fotos gê cesar de paula

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

uma história severina


Passada a eleição ficam os rescaldos. Muitas análises já foram feitas: as perspectivas do novo governo; o caminho que tomará a nova velha oposição e, sobretudo, como se darão as novas discussões que uma democracia de fato pressupõe.
Mas o vale-tudo desta campanha não pode, assim me parece, ser legado a um esquecimento a partir das apurações das urnas como se a campanha, e tudo que nela se disse, fosse um pretérito que se encerra nela mesma.
Rebaixar a possibilidade de discustir as grandes questões nacionais para trazer temas como a religião e o aborto, é reduzir a capacidade de formulação de idéias e assumir a irresponsabilidade de tratar uma campanha eleitoral como um fronte de guerra em que o inimigo deve ser derrotado seja de que forma for.
Nesta campanha, a religião foi desrespeitada na simbologia do que lhe é sagrado e, da mesma forma, a questão do aborto, que compõe tantas e tamanhas subjetividades, foi apenas objeto da matemática dos votos que o tema poderia render.
"Aborto", de fato, não foi discutido nesta campanha. E nem poderia, já que não é tema de ocasião eleitoral. Mas foi jogado na campanha como o pescador que, jogando a rede ao mar, só pensa nos rendimentos da sua ação.

Mas há discussões mais sérias. Lembro de um filme que discutiu a questão. O documentário "Uma história Severina", com direção e roteiro de Débora Diniz e Eliane Brum. O filme retrata o sofrimento de uma mulher que junto com seu marido, peregrinam pelo interior de Pernambuco buscando interromper a gestação de seu filho que já se sabia, anencéfalo. As diretoras intercalam o drama do casal com as falas proferidas pelo Ministro Cezar Peluso e o Procurador Geral da República Cláudio Fonteles, que impressionam pela junção da falta de sensibilidade e do conhecimento da realidade do país. Peluso diz: " Não me convence a circunstância de que o feto anencéfalo é um condenado à morte. Todos o somos. O sofrimento em si não é alguma coisa que degrade a dignidade humana" e Fonteles emenda em tom teatralmente emocional: " Não posso!Não posso, como ser humano, tirar a ilação de que o ventre materno, por ter um bebê anencéfalo, ali não há um ser vivo...Meu Deus!"

Abaixo, reproduzo a sinopse e o link do filme que tem duração de 25 minutos.

Severina é uma mulher que teve a vida alterada pelos ministros do Supremo Tribunal Federal. Ela estava internada em um hospital do Recife com um feto sem cérebro dentro da barriga, em 20 de outubro de 2004. No dia seguinte, começaria o processo de interrupção da gestação. Nesta mesma data, os ministros derrubaram a liminar que permitia que mulheres como Severina antecipassem o parto quando o bebê fosse incompatível com a vida. Severina, mulher pobre do interior de Pernambuco, deixou o hospital com sua barriga e sua tragédia. E começou uma peregrinação por um Brasil que era feito terra estrangeira - o da Justiça para os analfabetos. Neste mundo de papéis indecifráveis, Severina e seu marido Rosivaldo, lavradores de brócolis em terra emprestada, passaram três meses de idas, vindas e desentendidos até conseguirem autorização judicial. Não era o fim. Severina precisou enfrentar então um outro mundo, não menos inóspito: o da Medicina para os pobres. Quando finalmente Severina venceu, por teimosia, vieram as dores de um parto sem sentido, vividas entre choros de bebês com futuro. E o reconhecimento de um filho que era dela, mas que já vinha morto. A história desta mãe severina termina não com o berço, mas em um minúsculo caixão branco.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

depoimentos

Tínhamos aqui três postagens referentes às eleições presidenciais que já envelheceram. Mas, para respeitar o histórico do blog, mantenho em uma única postagem, os links dos depoimentos em vídeos.

Depoimento de Fernando Morais:
Depoimentos de Chico Buarque e Leonardo Boff
Marilena Chauí fala em ato pró Dilma:



terça-feira, 21 de setembro de 2010

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

há 100 anos lá no bom retiro...

“O Corinthians é o time do povo e é o povo quem vai fazer o time.”


Miguel Bataglia, primeiro presidente do Corinthians.




(Hoje é 1° de setembro. Há exatos 100 anos surgia um clube de futebol que seria a representação do povo, como profeticamente previa Miguel Bataglia, alfaiate e principal financiador do sonho de nove operários reunidos numa esquina do bairro do Bom Retiro.
Assim, resolvi trazer de volta um texto que postei há 3 anos. Naquele, eu acrescentava sugestões de leituras, como do escritor uruguaio Eduardo Galeano ou do historiador medievalista Hilário Franco Júnior. Mas hoje é o centenário do Corinthians e nesta postagem só se fala do Corinthians. Na próxima postagem, talvez, volte a sugerir livros da literatura esportiva. Mas acrescentarei novos links de vídeos que trazem imagens que falam por si.)





Era uma noite de lua nova na provinciana São Paulo do começo do século 20. Mais precisamente em 1° de setembro de 1910 por volta das 20h30. Sob à luz de um lampião à gás na esquina da Rua dos Italianos com a Rua dos Imigrantes (atual José Paulino), no bairro do Bom Retiro, um grupo de cansados trabalhadores esperavam o bonde. Joaquim Ambrósio, Antonio Pereira e César Nunes, eram pintores de parede. Rafael Perrone, diziam, era um sapateiro dos bons. Anselmo Correia exercia um profissão um tanto exótica: era motorista. Alexandre Magnani ganhava a vida como fundidor. Salvador Lopomo entendia mesmo era de macarrão. Para o João da Silva não tinha tempo ruim. Aceitava qualquer tipo de trabalho braçal. Antonio Nunes era um popular alfaiate.
Eles não eram lá muito letrados. Nenhum deles sabia da existência de um tal Lima Barreto que, mulato e escritor, havia lutado contra a escravidão e anos mais tarde, além de escrever o “Triste fim de Policarpo Quaresma”, fundaria uma Liga contra o Futebol lá no distante Rio de Janeiro por ser este, um esporte da cultura racista da elite branca. Tão pouco vieram a conhecer um outro tal, de nome Graciliano Ramos, que profetizava que esse negócio de futebol não iria pegar. Mas, sobretudo, o que eles não sabiam, pra valer, é que eles estavam ali - cansados, em uma noite de lua nova -, fundando o primeiro time de futebol que seria a representação de tanta gente, porque estava nascendo ali o time do povo.
O futebol começava, naquele Brasil pré-industrial, a sair da esfera aristocrata-cafeeira e ganhar as ruas dos meninos de pés no chão. E o Corinthians, fundado por trabalhadores, sob à luz de um lampião, incorporaria esses meninos, inicialmente nos campos das várzeas paulistanas e depois, além delas, nas arquibancadas, palcos que os transformariam em agentes de uma nova identidade assimiladas pelos seus filhos, netos, bisnetos... Estava nascendo não um time, mas uma torcida. Uma torcida que tinha (e tem) um time de futebol.

Sugestão de vídeos:

maracanã corinthiano por osmar santos
http://www.youtube.com/watch?v=Jm7b6P1f6ck&feature=related

maracanã corinthiano pelo canal 100
http://www.youtube.com/watch?v=FqfcNqa-TGc&feature=related

redenção, de novo, por osmar santos
http://www.youtube.com/watch?v=WDk7GNcGP_g&feature=related

aos devotos de são jorge
http://www.youtube.com/watch?v=aJmc-LxAa4w&feature=related

você sabe?
http://www.youtube.com/watch?v=8P0SUlZ2q8I&feature=related

tabu? que tabu?
http://www.youtube.com/watch?v=5ST6CGHcNzg

terça-feira, 24 de agosto de 2010

carta testamento


Há exatos 56 anos, em 24 de agosto de 1954, o presidente Getúlio Vargas apontou uma garrucha para o próprio coração e puxou o gatilho. Encerrava-se com aquele ato, não apenas a vida do presidente da república, mas uma crise fomentada pelas forças conservadoras que, muito provavelmente, desencadearia em um golpe militar e a derrubada do governo.
Há um consenso que o suicídio de Getúlio Vargas adiou o golpe, que acabaria sendo dado 10 anos depois em 1964. A dramaticidade do ato foi completada pela carta testamento, escrita por Vargas na noite anterior e lida por João Goulart no enterro do presidente. A Carta Testamento é um dos mais importantes documentos do século 20 e talvez o mais impactante.


"Mais uma vez, a forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam, e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes.

Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre.

Não querem que o povo seja independente. Assumi o Governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia, a ponto de sermos obrigados a ceder.

Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo, que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar, a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida.

Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com o perdão.

E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História."

(Rio de Janeiro, 23/08/54 - Getúlio Vargas)

domingo, 8 de agosto de 2010

nina simone - i love(s) you porgy

émile zola

Émile Zola (1840-1902) foi mais que um escritor dito, naturalista. Zola foi aquilo que poderíamos chamar de um observador e militante atento do seu tempo. Em “J’Accuse” (Eu acuso), um artigo em formato de carta endereçada ao presidente da república e publicado no jornal L’Aurore em 13 de janeiro de 1898, colocou abaixo toda a
credibilidade do Judiciário do Conselho de Guerra francês que condenou injustamente o capitão do exército francês de origem judaica Alfred Dreyfus de traição. O artigo inaugurou uma discussão que extrapolaria o território francês e avançaria por muitos anos, naquilo que ficou conhecido como o Caso Dreyfus.
Mas o propósito desta postagem é lembrar de um Émile Zola, quase quatro décadas antes da publicação de J’Accuse, um jovem jornalista e crítico de arte, engajado em defender e fazer entender aos conservadores, que uma nova leva de artistas e um movimento novo estava surgindo no cenário das artes plásticas. Ingres e Delacroix estavam mortos. Pissarro, Cézanne, Manet, Degas entre outros, estavam rompendo as barreiras do academicismo naquilo que mais tarde ficou conhecido como Impressionismo. Para lembrar desse Zola mordaz e irônico, retiro do livro “A Batalha do Impressionismo”, edição da Paz e Terra, a carta

Ao Sr. F. Magnard, Redator do Figaro
Meu caro colega,
Peço-lhe a gentileza de fazer inserir estas poucas linhas de retificação.
Trata-se de um de meus amigos de infância, de um jovem pintor cujo talento vigoroso e pessoal estimo de maneira especial.
O senhor recortou, em Europe, um trecho de prosa onde o assunto era um tal sr. Sésame, que teria exposto, em 1863, no Salão dos Recusados(*), “dois pés de porco em cruz”, e que neste ano teria tido recusada uma outra tela intitulada "O grogue de vinho".
Confesso ao senhor que tive uma certa dificuldade para reconhecer, sob a máscara que haviam colado em seu rosto, um de meus camaradas de colégio, o sr. Paul Cézanne, que não tem nenhum pé de porco em sua bagagem artística, pelo menos até este momento. Faço esta restrição, pois não vejo a razão de não se pintarem pés de porco como se pintam melões e cenouras.
Com efeito, o sr. Cézanne teve, juntamente com muitos outros, duas telas recusadas este ano: O grogue de vinho e Embriaguez. O sr. Arnold Mortier resolveu divertir-se com esses quadros e descreveu-os como esforços de imaginação que correspondem bem ao seu espírito. Sei muito bem que tudo isso não passa de uma agradável brincadeira, com a qual não devo me preocupar. Mas o que posso fazer? Nunca pude compreender este singular método de crítica que consiste em zombar de confiança, em condenar e ridicularizar algo que nem mesmo se viu. Faço, pelo menos, questão de dizer que as descrições do sr. Arnold Mortier são inexatas.
Até o senhor, meu caro colega, acrescenta em boa-fé o seu grão de sal: o senhor está “convencido de que o autor pode ter colocado em seus quadros uma idéia filosófica”. Esta é uma convicção deslocada. Se o senhor quiser encontrar artistas filósofos, dirija-se aos alemães, ou até mesmo a nossos belos sonhadores franceses. Mas saiba que os pintores analistas, e a jovem escola que tenho a honra de defender, contentam-se com as vastas realidades da natureza.
Aliás, depende somente do sr. de Nieuwerkerke a decisão de que "O grogue de vinho" e "Embriaguez" sejam exposto. O senhor deve saber que um grande número de pintores acaba de assinar uma petição pedindo o restabelecimento do Salão dos Recusados. Talvez um dia o sr. Arnold Mortier tenha a oportunidade de ver as telas que julgou tão levianamente. Acontecem tantas coisas estranhas...
É verdade que o sr. Paul Cézanne nunca se chamará sr. Sésame, e que, haja o que houver, ele nunca será o autor de “dois pés de porco em cruz”.
Seu colega devotado.
Emile Zola


(*) -Nota minha - O Salão de Artes era uma tradição na França desde o século 17. Em 1863 por ocasião de protestos de muitos artistas e por determinação do Imperador Napoleão III, foi instituído o “Salão dos Recusados” como uma exposição paralela que passaria a receber posteriormente, muitos dos artistas impressionistas. O Salão dos Recusados acabou se tornando assim, importante marco para um novo desenvolvimento pictórico que desembocaria na arte moderna.

(lá em cima, Zola retratado por Manet)

quinta-feira, 15 de julho de 2010

quarta-feira, 7 de julho de 2010

do blog do saramago

José Saramago
1922-2010
"Mas não subiu para as estrelas,
se à terra pertencia"

Memorial do Convento





José Saramago repousará no Campo das Cebolas, após remodelação no local, em frente à Casa dos Bicos, sede da Fundação José Saramago, à sombra de uma oliveira centenária que será transplantada da sua aldeia natal, Azinhaga, para Lisboa.
A frase do "Memorial do Convento" estará inscrita em pedra de Pero Pinheiro. Um banco de jardim possibilitará que os seus amigos leiam fragmentos da sua obra ou observem a paisagem que o Escritor teria da sua janela.

José Saramago está em Lisboa, nos seus livros, mas, sobretudo, nos nossos corações.

A Fundação
( http://blog.josesaramago.org/ )

sexta-feira, 18 de junho de 2010

hoje ficamos mais pobres

josé saramago * 1922-2010

segunda-feira, 10 de maio de 2010

maureen bisilliat - fotografias




Um privilégio. Este é o substantivo que cabe a quem adentrar a Galeria de Arte do Sesi, na Av. Paulista, 1313, em São Paulo, até 4 de julho. Está instalado ali, um pedaço do universo de Maureen Bisilliat: suas tecituras, seus encantamentos, seu olhar poético se fundindo com a poética de Cabral, de Rosa; de sertões de Euclides; de bahias de Amado; de terra xingu...Nascida inglesa, Maureen se tornou brasileira por circunstância ou por destino e por aqui, sem que talvez pudesse supor, ou sonhar, captou a essência que a lente não rouba, mas empresta, pelo tempo de um click, a alma de quem por ela se deixou fotografar.



Mais, e com mais propriedade, falaram Rubens Fernando Júnior e Juan Esteves


sexta-feira, 7 de maio de 2010

os eua x john lennon


Gostaria de ter feito esta postagem há mais tempo, logo após ter assistido ao filme “Os EUA x John Lennon”, documentário assinado por David Leaf e John Scheinfield, que permanece em cartaz em São Paulo, agora, apenas, no Frei Caneca Unibanco Artplex.
O nome já dá uma idéia de que se trata de um confronto. De um lado um país vivendo ainda os rescaldos do marcarthismo; em plena Guerra Fria e com a ação direta na sangrenta Guerra do Vietnã. No comando de tudo isso, Richard Nixon. Do outro lado uma geração contestadora, que unia jovens, ativistas políticos, estudantes, artistas que queriam uma nova configuração mundial e, sobretudo, sem guerras. John Lennon estava deste lado, discutindo em entrevistas e debates, produzindo ações e músicas que viraram hinos cantados em manifestações à frente da Casa Branca. Acabou virando alvo do FBI.
O filme nos transporta para o momento da efervescência histórica do final dos anos 60 início dos 70, recuperando cenas da época além de depoimentos de peso como dos ecritores Gore Vidal e Tariq Ali, do linguista Noam Chomsk, do jornalista Carl Berstein ( que, em parceria com Bob Woodwarde, desvendou o caso Watergate que derubaria o presidente Nixon) e o do fundador do Panteras Negras, Bob Seale, com quem Lennon se alia.

Abaixo o link do trailer. (Não achei nenhum com legendas):

http://www.youtube.com/watch?v=N8RvaWblqic

quinta-feira, 6 de maio de 2010

domingo, 2 de maio de 2010

a última vitória da ditadura

Hoje faço um intervalo na poesia, nas artes plásticas, na fotografia, nas músicas.

O Supremo Tribunal Federal me fez lembrar de uma história que sinteticamente relato.

Lá pelo final dos anos 80, conheci na USP uma moça, estudante do curso de história, que não passou a adolescência com os pais. Foi criada por uma tia. Quando criança, presenciou, numa tarde chuvosa, quando brincava no corredor que ligava o seu quarto com a sala, dois homens desconhecidos levarem seu pai e sua mãe. Ela não sabia que seria a última vez que veria o seu pai. A mãe, ela ainda veria mais uma vez, quando a tia a levou em um lugar que parecia ser uma delegacia de polícia. Menina, que carregava sempre com ela um ursinho de pelúcia, pôde perguntar para a mãe o porquê dela estar ali, presa, e não em casa. A mãe, olhando para o ursinho, lhe disse: porque eu queria que todas as crianças pudessem ter brinquedos como você tem.
Esta foi a última lembrança que guardou da sua mãe.

Nunca mais vi essa moça, mas me lembrei muita dela nesta semana em que o STF julgou improcedente os argumentos da OAB de que a Lei de Anistia, promulgada em 1979, não amparava as ações dos agentes da repressão, que torturaram e mataram muitos opositores do regime militar que governou o Brasil entre 1964 e 1985.

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Sempre procuro colocar imagens nas minhas postagens. Pesquisei algumas fotos que representam a nossa ditadura na internet: aquela famosa da Guerra da Maria Antonia; a foto montada do Vladimir Herzog; imagens do amigo Frei Giorgio Callegari falecido há seis anos carregando ainda as sequelas das torturas que sofreu. Mas resolvi não colocá-las. Acho que aqui, neste momento, as palavras se bastam, inclusive as palavras do Taiguara, que por coincidência, postei, abaixo, em 18 de abril.

A ditadura acumulou muitas vitórias. O STF lhe forneceu a última.

domingo, 18 de abril de 2010

o esquecido taiguara

domingo, 7 de fevereiro de 2010

pra não dizer que não falei de brunelleschi





No final de 2008, o Masp conseguiu se livrar de Júlio Neves, o arquiteto da Daslu, que por 14 anos presidiu desastradamente o museu que conta com um magnífico acervo, um patrimônio de todos. Mas, infelizmente, tamanha a crise a que foi submetido o museu, parece ter espantado a oxigenação possível e necessária que uma bem estruturada oposição poderia ter fornecido, e o continuísmo tomou corpo com a posse do ex secretário de Júlio Neves, o empresário João de Azevedo, que já demonstrou não ter nenhuma vocação para pensar o Masp como uma instituição que formula e estimula o pensamento.
Hoje, a apreciação do acervo fica comprometida porque a iluminação e os arranjos são inadequados e, sobretudo, por uma ambientação contrária ao espírito do prédio. A museografia proposta por Lina Bo Bardi, originalíssima e única no mundo, com o seus cavaletes que se abriam para o vasto salão iluminado por luz natural, numa integração espacial acolhedora e desmitificadora da obra de arte, trazia o entendimento do espaço que está longe do alcance de qualquer entendimento que esta administração do museu possa ter.
O museu tem um conselho que exigiu, pelo menos, o retorno da figura do curador. A tarefa coube ao professor Teixeira Coelho que tem se desdobrado para montar exposições temáticas a partir das obras do museu. Parece, entretanto, que Coelho não pretende discutir o museu tal qual foi pensado pela Lina.
Bom, acabei me empolgando e abrindo esta postagem falando da política do Masp, mas o que eu queria falar era justamente daquilo que foge às ingerências diretas da cúpula do Masp e que escapa da sua mesmice: a área de Serviço Educativo do Masp, coordenada por Paulo Portella Filho, que proporciona um dos melhores programas culturais da cidade.
Trata-se do Curso Introdutório à História da Arte, aberto a todos, e que toma como base, obras do acervo do museu. As aulas são ministradas pelo excelente professor Renato Brolezzi e acontecem, via de regra, todos os primeiros sábados de cada mês.
Neste último sábado, a aula teve como ponto de partida, a obra “Ressurreição de Cristo” de Rafael.
Em mais ou menos duas horas de aula, Brolezzi sempre propõe uma viagem através de contextualizações históricas, geográficas e de artistas referenciais ao artista que é o objeto da aula. Nessa viagem pelo mundo de Rafael, chegamos a Brunelleschi,
Filippo Brunelleschi, o escultor e arquiteto renascentista nascido e morto em Firenze, que iniciou a representação plana de objetos em três dimensões, tornando-se uma referência da estética renascentista.
A sua obra mais importante foi abordada na aula: a abóboda da Catedral de Florença, a Santa Maria de Fiore. Uma obra ousada para a época, tanto pela concepção como pela execução.
A construção da Catedral foi iniciada em 1294 e apenas em 1418 deu-se o início da construção da abóbada, a partir de um concurso no qual Brunelleschi teve o seu projeto escolhido.
O arquiteto pôs em prática um método original para a sustentação da cúpula com base em intrincados cálculos matemáticos e, para a sua realização, projetou e concebeu todo um maquinário que ainda não existia.
Há muitos textos na internet que traçam o perfil e a importância histórica de Brunelleschi. Pincei, sobretudo, dois: o do professor e doutor pela FAUSP Jorge Marão Carnielo Miguel, http://www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq040/arq040_02.asp e o do Laboratório de Mecânica Computacional vinculado ao Departamento de Engenharia de Estruturas e Fundações da Escola Politécnica da USP – Poli (http://www.lmc.ep.usp.br/people/hlinde/Estruturas/florenca.htm ) que aponta mais para as questões estruturais da obra e seus detalhes.

Já estão agendadas as próximas seis aulas. São elas:
06/03: “Retrato do Cardeal Cristoforo Madruzzo”, de Ticiano;
10/04: “Auto-retrato com Corrente de Ouro, de Rembrant;
08/05: “Retrato do Conde-Duque de Olivares” de Velázquez;
12/06: “Pepe Illo fazendo reverência ao touro”, de Goya
07/08: “Juno Ordena a Eolo a Destruição da Frota de Enéias", de Delacroix.

Observação final: a aula pode terminar com a visitação da obra mencionada. Ocorre que nem sempre a obra estudada está disponível para a visitação, em função do rodízio das obras ao qual o museu está submetido. A “Ressurreição de Cristo” de Rafael, por exemplo, não estava exposta.

sábado, 2 de janeiro de 2010

josé luís peixoto

Descobri há pouco tempo o jovem escritor português José Luís Peixoto. Abaixo um de seus poemas do livro "A Criança em Ruínas". Aqui, um link de uma de suas entrevistas:
http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM1178757-7823-JOSE+LUIS+PEIXOTO+DIZ+QUE+POESIAS+PARA+ELE+E+UMA+ESPECIE+DE+SUPERPODERES,00.html

na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu, depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.