quarta-feira, 30 de março de 2011
sexta-feira, 18 de março de 2011
debate: focault e chomsky
A discussão pode parecer em princípio datada, mas algumas das questões levantadas, ou permanecem ou foram substituídas por verdades pré-moldadas e necessidades fabricadas, sobre as quais um outro filósofo, Herbert Marcuse, se debruçou naquela efervescente virada dos anos 60 para os 70.
O debate começa pela questão da sociedade tecnológica e caminha para noções de poder e conceitos de natureza humana e justiça. O vídeo mostra apenas um trecho do debate mas, ainda assim, vale pela curiosidade.
o belas artes fecha as portas




Por aquelas salas escuras, visitei a Veneza de Visconti, a Berlim de Fassbinder, a Roma de Fellini e também de Rosselinni, a Estocolmo de Bergman, a Tókio de Kurosawa, a Paris de Truffaut, o espaço sideral de Tarkovsky e também de Kubrick, o imaginário psicológico de Antonioni...
Não sei, é bem verdade, se todas estas visitas e sensações se deram no Belas Artes, ou em outro cinema enterrado de São Paulo: a memória nos prega peças por vezes. Mas fica a memória afetiva, do mesmo jeito que falou o Ugo Giorgetti, em coluna recente na Folha. Giorgetti disse outra coisa ainda, que se assemelha ao que sinto: “Agora, acompanhando o mundo a que pertenceu, o Belas Artes se vai para sempre. Não vou sentir saudades dele. O que sinto, no fundo, é saudades de mim, nele”.
PS: um link:
http://letrasdespidas.wordpress.com/2011/01/09/o-fim-do-cinema-belas-artes/
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
universidade livre de música tom jobim, o desmonte

Para não ser repetitivo, aponto o link abaixo com os comentários do Luis Nassif e do Gustavo Cherubine Belic:
http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/o-desmonte-da-universidade-livre-de-musica

terça-feira, 25 de janeiro de 2011
domingo, 2 de janeiro de 2011
revés do avesso

Por alguns anos fui colaborador da extinta revista Revés do Avesso dirigida por Frei Giorgio Callegari, falecido em 2003. Escrevi cerca de vinte artigos entre 1995 e 2002. Infelizmente a revista não foi digitalizada e, como tinha uma tiragem relativamente pequena, há uma tendência de se perder no tempo.
Hoje escolhi o artigo “Fragmentos da Arte” publicado no final de 1996. Coincidentemente, escrevi recentemente o texto “sobre arte” (antes de reler “Fragmentos da Arte”) e muito das ideias sobre arte da época permanecem, demonstrando, talvez, que não evoluí muito sobre a matéria. Outra percepção é que eu usava na época o termo “neoliberal”, vivo na época, e que foi caducando nos últimos anos , sendo enterrado e colocado nos livros de história, a partir da crise econômica mundial de 2008.
FRAGMENTOS DA ARTE
Foram-se os tempos das vanguardas. Foram-se também as utopias?
Atenho-me no entanto a uma exposição em particular que se encontra na Casa das Rosas, na Av. Paulista em São Paulo, com nomes consagrados das artes plásticas brasileiras. O tema "Utopia", carregado de historicidade, aponta o caminho ao qual os artistas deveriam expressar as suas obras.
Etimologicamente, a palavra "Utopia" foi criada através de um topônimo por Thomas Morus em 1516. Queria representar uma ilha imaginária, local de um sistema social, legal e político perfeito. Já o socialismo utópico teve em Charles Fourier o seu grande ideário. A sua primeira obra, "Le Nouveau Monde Industriel et Societaire" (O Novo Mundo Industrial e Societário) de 1829, defendeu a extinção da sociedade burguesa, substituindo-a por uma sociedade de falanstérios, ou seja, um lugar onde não há propriedade privada mas uma comunidade. Imaginava uma sociedade sem laços familiares, sem uma divisão fixa de trabalho, com o desenvolvimento de atividades lúdicas e com a ausência de qualquer tipo de autoritarismo. Mais tarde defendeu uma utopia levada às últimas conseqüências, com a dissolução total dos laços familiares e, como proposta, o amor livre.
Herbert Marcuse retomou nos anos 60 o pensamento utópico e junto com o movimento dos estudantes colocou novamente em questão as idéias de Fourier, tendo como base a revolução erótica como elemento primordial para uma revolução social.
Voltemos à Casa das Rosas. Os artistas tinham em mãos um tema complexo, de difícil acesso mas de múltiplas possibilidades. Abstraíram-se. Não com o tema, forjado de abstrações, mas com as concepções. "Utopia" acabou como um suporte para projeções individualizadas. O tema poderia ser qualquer outro e essas projeções estariam ali. Aqui encontramos o impasse ao qual se debruça a arte atual.
As vanguardas se tornaram história. São clássicos. Estão expostas, por vezes, a uma descaracterização que as transforma em ausência do sentido. Quais as razões? Em suma, são as questões de mundo, representadas nas artes de um modo geral. A crise do coletivo: a individualização que se sobrepõe à individualidade. As novas linguagens, cada vez mais interativas, mais visuais, num mundo das imagens: a virtualidade. A tecnologia como personificação do indivíduo. O projeto neoliberal como filosofia da diferença, mas a diferença da competição, seleção e exclusão.
A falta de vanguardas, ou mesmo as revisitações a elas, não é um mal em si. Na colcha de retalhos contemporânea, há um campo vasto, aberto numa imensidão, como sendo uma teoria básica de liberdade. Só o conceito "liberdade" - e por conseqüência, "democracia"- demandaria muitas teses, sujeitas às mais diversas manipulações. Mas no processo da execução ao qual se prende o artista, a liberdade está sujeita a um limite. Esse entendimento do artista é que permite a obra. A última pincelada, o último acorde é o limite da liberdade da obra. Portanto há regras para a liberdade. Da mesma forma, só se pode pensar o coletivo a partir da revitalização da individualidade em contraposição à reafirmação do individualismo, uma panacéia neoliberal.
Entre toda vastidão, o acúmulo ilimitado de informações, que coloca pessoas como sujeitos, e não agentes dos acontecimentos. O excesso de informação tem um caráter enganador, de simulacro, em que se passa a idéia do ser inserido no mundo e dele captando todos os acontecimentos, quando na verdade ele atravessa apenas a superfície num instante cada vez mais rápido do tempo. Tem-se um reino das mil possibilidades. Platão ao falar do termo phármacon, o colocou como ambíguo. Aquilo que pode servir para o bem ou para o mal. O que cura ou o que mata. O remédio e o veneno.
O artista, como catalisador das emoções, ou como agente do mundo, está envolto nas brumas deste final de século. Merleau Ponty, há algumas décadas, disse ser o artista e não o filósofo o pensador das imagens. Hoje é o mercado quem impõe a imagem e através dele, a roda da história ganha uma outra dimensão.
Do outro lado da obra, o espectador que na sua suposta inteireza se divide. Muitas vezes - e percorrendo os corredores, escadas, cantos, carregados de marcas da história da Casa das Rosas, e que me serve de apoio - o espectador tem a missão de fruidor da contra-subjetividade e não especificamente da obra. Na verdade, choques de subjetividades: a sua e a do artista.
Se as utopias resistem como possibilidade do sonho dentro de um mundo que projeta verdades absolutas, elas não estiveram presentes no endereço ao qual serviu de exemplo para este artigo.REVÉS DO AVESSO -NOVEMBRO/DEZEMBRO• 1996
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
sábado, 18 de dezembro de 2010
domingo, 5 de dezembro de 2010
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
algo sobre arte

Documenta de Kassel, Bienal de Veneza, Bienal de São Paulo. Estas são ainda as mais significativas mostras de arte no mundo, num mundo da decadência das mostras de arte.
A 29º Bienal de São Paulo está aí, aberta ao público até 12 de dezembro e muita gente nem sabe que ela está acontecendo. Outros tantos que sabem não se mobilizam a visitá-la.
Lembro da expectativa que a Bienal criava em outros tempos. Tempos em que ter uma postura ou uma consciência crítica trazia o sentido de um mundo que poderia e deveria ser interpretado e, a partir dessa interpretação, poderia ser projetado.
A bienal é apenas mais uma das instituições que foi perdendo o caráter de um espaço de discussão.
A decadência das mostras de arte explica, de certa forma, o contexto histórico em que vivemos. Os espaços para o contraditório são substituídos pelas verdades midiáticas, tão prontas como as novas necessidades fabricadas que encontramos pelas gôndolas dos supermercados. E há ainda o caráter do imediato. Hoje vivemos no mundo das imagens, mas também o do tempo encurtado, aquele que está mais próximo de nós. Tudo que é selecionado pela mídia para compor notícias, ganha e perde importância do dia para noite. Há uma avalanche de assuntos e de informações descartáveis entre os intervalos dos anúncios publicitários. A arte que temos hoje é apenas o resultado do mundo que temos.
O século 20 nos trouxe revoluções políticas, comportamentais, tecnológicas e, junto a todos esses eventos, vieram os manifestos e os movimentos de arte aos quais chamávamos de “vanguardas” que, a partir das variadas formas de representação, impulsionavam as reflexões de um novo tempo, cada vez mais rápido.
Mas parece que já superamos a fase dos movimentos e manifestos de arte. Ultrapassamos as possibilidades que as vanguardas propunham e adotamos um pragmatismo que dispensa a reflexão. O mundo hoje se auto representa.
Os questionamentos que a arte do século 20 propôs, esbarram hoje num individualismo em seu momento de exacerbação. Há ainda o aspecto do avanço muito rápido das tecnologias que criam novas linguagens e inúmeras possibilidades.
Via de regra, as instalações perderam o caráter da intersubjetividade para se fecharem na subjetividade do autor. Nas ocasiões dessas ocorrências, perde-se o diálogo entre o espectador e a obra.
Menos pinturas, mais videoartes
As últimas bienais têm nos apresentado cada vez menos pinturas que são substituídas paulatinamente por instalações, e estas, sendo compostas ou substituídas cada vez mais por videoarte. A imagem em movimento nos computadores, nos celulares, nas pocket tvs, se incorporaram ao nosso cotidiano e é com base nesse elemento que os artistas do nosso tempo têm desenvolvido em maior medida as suas inspirações.
Uma das obras mais impactantes desta bienal, "Pedintes", do artista turco Kutlug Ataman, trabalha com o elemento imagético. Ele apresenta vários monitores em uma sala escura, com imagens de pessoas em situação de rua, olhando para o espectador em câmera lenta como se estivessem pedindo esmola ou compartilhando seus sofrimentos. Para quem se detém a essas imagens a sensação é de incômodo.
Há outras obras que da mesma forma, trabalham com as imagens. O artista belga Davi Claerbout apresenta dois trabalhos: "As Seções de um Momento Feliz de Argel e Alvorada”, com imagens em fotogramas, e o vídeo "Sunrise" de 40 minutos, dois dos trabalhos mais interessantes da mostra. Outro artista belga, radicado no México, Francis Alÿs, filmou tornados durante dez anos e os editou de forma a tornar o vídeo um material igualmente interessante.
Mas é sintomático notar que a questão do tempo é imperiosa. As pessoas parecem ter pressa: entram nas salas de projeções apenas para olharem rapidamente, o que ali está acontecendo mas não se detém a tentar descobrir a proposta que ali está sendo apresentada. Isso leva um certo tempo, e a maioria dos visitantes da bienal não são mais fruidores de arte, mas apenas espectadores do efêmero. A bienal parece competir com outros eventos e representar mais uma passagem rápida do tempo, como o jornal da noite que mostrará outras efemeridades passageiras.
A curadoria
Por fim, há um outro aspecto que me chama a atenção. A Bienal de São Paulo tem se transformado em uma mostra de curadoria, em que o curador determina caminhos que limitam a diversidade e enquadram as escolhas no jeitão global do momento, concedendo espaço, por exemplo, àquilo que chamamos há pelo menos uma década de “politicamente correto”. Tem sido assim nas últimas mostras. Neste ano, talvez chacoalhados pela invasão dos pichadores na bienal anterior, e das muitas críticas sobre o rumo que ela tem tomado, os curadores procuraram um caminho que desviasse do “politicamente correto” e trouxeram o artista pernambucano Gil Vicente com sua obra polêmica – a meu ver, mais do que agressiva e desnecessária, explicitamente personalista – em que ele próprio, artista, atenta contra a vida de personalidades mundiais, aos quais ele chama de “inimigos”.
Há ainda a instalação gigantesca do artista Nuno Ramos contendo no seu interior urubus. Neste caso, o “politicamente correto” foi determinado por pretensos grupos ambientalistas que, aos gritos, protestavam junto à instalação, provocando barulho muito maior do que aquele que eles acusavam os visitantes de fazê-lo, e que causavam, segundo eles, estresse nos animais. Eles venceram, e os animais, que nasceram e sempre viveram em cativeiro, foram levados de volta ao seu lar de origem, uma gaiola mais modesta que à instalada no prédio projetado pelo centenário Oscar Niemeyer.
domingo, 14 de novembro de 2010
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
uma história severina

Mas o vale-tudo desta campanha não pode, assim me parece, ser legado a um esquecimento a partir das apurações das urnas como se a campanha, e tudo que nela se disse, fosse um pretérito que se encerra nela mesma.
Rebaixar a possibilidade de discustir as grandes questões nacionais para trazer temas como a religião e o aborto, é reduzir a capacidade de formulação de idéias e assumir a irresponsabilidade de tratar uma campanha eleitoral como um fronte de guerra em que o inimigo deve ser derrotado seja de que forma for.
Nesta campanha, a religião foi desrespeitada na simbologia do que lhe é sagrado e, da mesma forma, a questão do aborto, que compõe tantas e tamanhas subjetividades, foi apenas objeto da matemática dos votos que o tema poderia render.
"Aborto", de fato, não foi discutido nesta campanha. E nem poderia, já que não é tema de ocasião eleitoral. Mas foi jogado na campanha como o pescador que, jogando a rede ao mar, só pensa nos rendimentos da sua ação.
Mas há discussões mais sérias. Lembro de um filme que discutiu a questão. O documentário "Uma história Severina", com direção e roteiro de Débora Diniz e Eliane Brum. O filme retrata o sofrimento de uma mulher que junto com seu marido, peregrinam pelo interior de Pernambuco buscando interromper a gestação de seu filho que já se sabia, anencéfalo. As diretoras intercalam o drama do casal com as falas proferidas pelo Ministro Cezar Peluso e o Procurador Geral da República Cláudio Fonteles, que impressionam pela junção da falta de sensibilidade e do conhecimento da realidade do país. Peluso diz: " Não me convence a circunstância de que o feto anencéfalo é um condenado à morte. Todos o somos. O sofrimento em si não é alguma coisa que degrade a dignidade humana" e Fonteles emenda em tom teatralmente emocional: " Não posso!Não posso, como ser humano, tirar a ilação de que o ventre materno, por ter um bebê anencéfalo, ali não há um ser vivo...Meu Deus!"
Abaixo, reproduzo a sinopse e o link do filme que tem duração de 25 minutos.
Severina é uma mulher que teve a vida alterada pelos ministros do Supremo Tribunal Federal. Ela estava internada em um hospital do Recife com um feto sem cérebro dentro da barriga, em 20 de outubro de 2004. No dia seguinte, começaria o processo de interrupção da gestação. Nesta mesma data, os ministros derrubaram a liminar que permitia que mulheres como Severina antecipassem o parto quando o bebê fosse incompatível com a vida. Severina, mulher pobre do interior de Pernambuco, deixou o hospital com sua barriga e sua tragédia. E começou uma peregrinação por um Brasil que era feito terra estrangeira - o da Justiça para os analfabetos. Neste mundo de papéis indecifráveis, Severina e seu marido Rosivaldo, lavradores de brócolis em terra emprestada, passaram três meses de idas, vindas e desentendidos até conseguirem autorização judicial. Não era o fim. Severina precisou enfrentar então um outro mundo, não menos inóspito: o da Medicina para os pobres. Quando finalmente Severina venceu, por teimosia, vieram as dores de um parto sem sentido, vividas entre choros de bebês com futuro. E o reconhecimento de um filho que era dela, mas que já vinha morto. A história desta mãe severina termina não com o berço, mas em um minúsculo caixão branco.
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
depoimentos
terça-feira, 21 de setembro de 2010
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
há 100 anos lá no bom retiro...
Assim, resolvi trazer de volta um texto que postei há 3 anos. Naquele, eu acrescentava sugestões de leituras, como do escritor uruguaio Eduardo Galeano ou do historiador medievalista Hilário Franco Júnior. Mas hoje é o centenário do Corinthians e nesta postagem só se fala do Corinthians. Na próxima postagem, talvez, volte a sugerir livros da literatura esportiva. Mas acrescentarei novos links de vídeos que trazem imagens que falam por si.)
Era uma noite de lua nova na provinciana São Paulo do começo do século 20. Mais precisamente em 1° de setembro de 1910 por volta das 20h30. Sob à luz de um lampião à gás na esquina da Rua dos Italianos com a Rua dos Imigrantes (atual José Paulino), no bairro do Bom Retiro, um grupo de cansados trabalhadores esperavam o bonde. Joaquim Ambrósio, Antonio Pereira e César Nunes, eram pintores de parede. Rafael Perrone, diziam, era um sapateiro dos bons. Anselmo Correia exercia um profissão um tanto exótica: era motorista. Alexandre Magnani ganhava a vida como fundidor. Salvador Lopomo entendia mesmo era de macarrão. Para o João da Silva não tinha tempo ruim. Aceitava qualquer tipo de trabalho braçal. Antonio Nunes era um popular alfaiate.
Eles não eram lá muito letrados. Nenhum deles sabia da existência de um tal Lima Barreto que, mulato e escritor, havia lutado contra a escravidão e anos mais tarde, além de escrever o “Triste fim de Policarpo Quaresma”, fundaria uma Liga contra o Futebol lá no distante Rio de Janeiro por ser este, um esporte da cultura racista da elite branca. Tão pouco vieram a conhecer um outro tal, de nome Graciliano Ramos, que profetizava que esse negócio de futebol não iria pegar. Mas, sobretudo, o que eles não sabiam, pra valer, é que eles estavam ali - cansados, em uma noite de lua nova -, fundando o primeiro time de futebol que seria a representação de tanta gente, porque estava nascendo ali o time do povo.
O futebol começava, naquele Brasil pré-industrial, a sair da esfera aristocrata-cafeeira e ganhar as ruas dos meninos de pés no chão. E o Corinthians, fundado por trabalhadores, sob à luz de um lampião, incorporaria esses meninos, inicialmente nos campos das várzeas paulistanas e depois, além delas, nas arquibancadas, palcos que os transformariam em agentes de uma nova identidade assimiladas pelos seus filhos, netos, bisnetos... Estava nascendo não um time, mas uma torcida. Uma torcida que tinha (e tem) um time de futebol.
Sugestão de vídeos:
maracanã corinthiano por osmar santos
http://www.youtube.com/watch?v=Jm7b6P1f6ck&feature=related
maracanã corinthiano pelo canal 100
http://www.youtube.com/watch?v=FqfcNqa-TGc&feature=related
redenção, de novo, por osmar santos
http://www.youtube.com/watch?v=WDk7GNcGP_g&feature=related
aos devotos de são jorge
http://www.youtube.com/watch?v=aJmc-LxAa4w&feature=related
você sabe?
http://www.youtube.com/watch?v=8P0SUlZ2q8I&feature=related
tabu? que tabu?
http://www.youtube.com/watch?v=5ST6CGHcNzg
terça-feira, 24 de agosto de 2010
carta testamento

Há um consenso que o suicídio de Getúlio Vargas adiou o golpe, que acabaria sendo dado 10 anos depois em 1964. A dramaticidade do ato foi completada pela carta testamento

"Mais uma vez, a forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam, e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes.
Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre.
Não querem que o povo seja independente. Assumi o Governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia, a ponto de sermos obrigados a ceder.
Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo, que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar, a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida.
Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com o perdão.
E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História."
(Rio de Janeiro, 23/08/54 - Getúlio Vargas)

domingo, 8 de agosto de 2010
émile zola

credibilidade do Judiciário do Conselho de Guerra francês que condenou injustamente o capitão do exército francês de origem judaica Alfred Dreyfus de traição. O artigo inaugurou uma discussão que extrapolaria o território francês e avançaria por muitos anos, naquilo que ficou conhecido como o Caso Dreyfus.

Ao Sr. F. Magnard, Redator do Figaro
Meu caro colega,
Peço-lhe a gentileza de fazer inserir estas poucas linhas de retificação.
Trata-se de um de meus amigos de infância, de um jovem pintor cujo talento vigoroso e pessoal estimo de maneira especial.
O senhor recortou, em Europe, um trecho de prosa onde o assunto era um tal sr. Sésame, que teria exposto, em 1863, no Salão dos Recusados(*), “dois pés de porco em cruz”, e que neste ano teria tido recusada uma outra tela intitulada "O grogue de vinho".
Confesso ao senhor que tive uma certa dificuldade para reconhecer, sob a máscara que haviam colado em seu rosto, um de meus camaradas de colégio, o sr. Paul Cézanne, que não tem nenhum pé de porco em sua bagagem artística, pelo menos até este momento. Faço esta restrição, pois não vejo a razão de não se pintarem pés de porco como se pintam melões e cenouras.
Com efeito, o sr. Cézanne teve, juntamente com muitos outros, duas telas recusadas este ano: O grogue de vinho e Embriaguez. O sr. Arnold Mortier resolveu divertir-se com esses quadros e descreveu-os como esforços de imaginação que correspondem bem ao seu espírito. Sei muito bem que tudo isso não passa de uma agradável brincadeira, com a qual não devo me preocupar. Mas o que posso fazer? Nunca pude compreender este singular método de crítica que consiste em zombar de confiança, em condenar e ridicularizar algo que nem mesmo se viu. Faço, pelo menos, questão de dizer que as descrições do sr. Arnold Mortier são inexatas.
Até o senhor, meu caro colega, acrescenta em boa-fé o seu grão de sal: o senhor está “convencido de que o autor pode ter colocado em seus quadros uma idéia filosófica”. Esta é uma convicção deslocada. Se o senhor quiser encontrar artistas filósofos, dirija-se aos alemães, ou até mesmo a nossos belos sonhadores franceses. Mas saiba que os pintores analistas, e a jovem escola que tenho a honra de defender, contentam-se com as vastas realidades da natureza.
Aliás, depende somente do sr. de Nieuwerkerke a decisão de que "O grogue de vinho" e "Embriaguez" sejam exposto. O senhor deve saber que um grande número de pintores acaba de assinar uma petição pedindo o restabelecimento do Salão dos Recusados. Talvez um dia o sr. Arnold Mortier tenha a oportunidade de ver as telas que julgou tão levianamente. Acontecem tantas coisas estranhas...
É verdade que o sr. Paul Cézanne nunca se chamará sr. Sésame, e que, haja o que houver, ele nunca será o autor de “dois pés de porco em cruz”.
Seu colega devotado.
Emile Zola
(*) -Nota minha - O Salão de Artes era uma tradição na França desde o século 17. Em 1863 por ocasião de protestos de muitos artistas e por determinação do Imperador Napoleão III, foi instituído o “Salão dos Recusados” como uma exposição paralela que passaria a receber posteriormente, muitos dos artistas impressionistas. O Salão dos Recusados acabou se tornando assim, importante marco para um novo desenvolvimento pictórico que desembocaria na arte moderna.
(lá em cima, Zola retratado por Manet)
quinta-feira, 15 de julho de 2010
quarta-feira, 7 de julho de 2010
do blog do saramago
1922-2010
"Mas não subiu para as estrelas,
se à terra pertencia"
Memorial do Convento

José Saramago repousará no Campo das Cebolas, após remodelação no local, em frente à Casa dos Bicos, sede da Fundação José Saramago, à sombra de uma oliveira centenária que será transplantada da sua aldeia natal, Azinhaga, para Lisboa.
A frase do "Memorial do Convento" estará inscrita em pedra de Pero Pinheiro. Um banco de jardim possibilitará que os seus amigos leiam fragmentos da sua obra ou observem a paisagem que o Escritor teria da sua janela.
José Saramago está em Lisboa, nos seus livros, mas, sobretudo, nos nossos corações.
A Fundação
( http://blog.josesaramago.org/ )