quinta-feira, 5 de abril de 2012

trilogia da psicanálise

Por sugestão do amigo, psicólogo e cinéfilo Mario Milanello, anoto (e dessa vez apenas anoto mesmo) três filmes que tratam de psicanálise. O primeiro, o já clássico, "Freud Além da Alma" de 1962 com roteiro de Sartre (*) e dirigido por Jonh Huston. O filme percorre a história do ínicio da psicanalise e os tormentos de Freud com as pressões da classe médica.
O segundo é "Jornada da Alma", de 2003, dirigido por Roberto Faenza com o enfoque na história de Jung com sua cliente e depois amante Sabina Spielrein.
Os dois filmes encontrados em DVD.

 
O terceiro está em cartaz em São Paulo:  "Um Método Perigoso", dirigido por David Cronenberg, que coloca  Freud, Jung e a paciente Sabina, naquilo que poderíamos chamar de um "triângulo psicanalítico".

Três formas de contemplação cinematrogáfica. No divã ou na poltrona.

(*)Alertado que fui, o roteiro final não é de Sartre.  Luiz Zanin nos relata: "Tocado pela aura de Freud, Huston tinha em mente um projeto ambicioso. Tanto assim que convidou ninguém menos que o filósofo francês Jean-Paul Sartre para escrever o roteiro. Sartre aceitou, demorou-se para entregar o texto e, quando o fez, este veio na forma de um calhamaço de centenas de páginas, definido por Huston como “infilmável”. Sartre não baixou o facho e, ofendido, comentou que diretores de cinema “ficavam tristes quando tinham de pensar”. Enfim, Freud, segundo Sartre, não foi para o celuloide. Acabou publicado em forma de livro (no Brasil pela Nova Fronteira, com 769 págs.).Dessa forma, o roteiro de Freud Além da Alma vem assinado por Charles Kaufman e Wolfgang Reinhardt que, se pode dizer, fizeram bom trabalho para Huston, fornecendo-lhe uma base sólida sobre a qual ele pudesse construir suas imagens. "

quarta-feira, 4 de abril de 2012

giacometti, de chirico e modigliani

Jean-Paul Sartre descreveu as esculturas de Giacometti como "retrato de todos os homens". O filósofo francês escreveu dois belíssimos ensaios sobre a obra de Alberto Giacometti, suiço-italiano nascido em 1901. Os ensaios foram publicados pela Editora Martins Fontes.
A oportunidade de mencionar os ensaios de Sartre se dá pela grande exposição de Giacometti aberta em março e que ficará até 17 de junho na Pinacoteca de São Paulo contando com 280 obras. Seguirá para o Rio, no MAM, e encerrará esse curto ciclo sulamericano em Buenos Aires a partir de outubro.
Giacometti não é, propriamente, um artista popular, mas suas obras sempre causaram grande fascínio. Em 2010 um exemplar de "O homem caminhado I" alcançou em um leilão em Londres a exorbitante quantia de 65 milhões de libras.
Véronique Wiesinger, curadora da mostra e diretora da Fundação Alberto e Annette Giacometti tenta resumir: "A arte de Giacometti é muito generosa, já que fala para todos. É como um buraco negro no qual você é estimulado a depositar tudo que está dentro de você: memórias, sensações, visões, experiências" . Essas sensações talvez sejam a razão das enormes filas que têm se formado quase todos os dias em frente à Pinacoteca.

Em São Paulo uma outra grande exposição: a do artista grego Giorgio De Chirico, " o sentimento da arquitetura".
Nascido no final do século 19, De Chirico influenciou não só muitos artistas, mas também um  movimento, o surrealismo, ainda que de uma forma indireta. As formas de um delírio pictórico, não representavam os sonhos, base do surrealismo, mas a visão metafísica do artista inspiraram os surrealistas a transgredirem a ordem direta da representação. Tarsila do Amaral e Di Cavalcanti foram dois artistas brasileiros muito identificados com De Chirico e outro, Iberê Camargo, chegou a ser seu aluno.
A exposição, com 45 pinturas, 11 esculturas e 66 litografias fica no MASP até maio e segue para a Casa Fiat de Cultura em Belo Horizonte.

A terceira grande exposição é a do italiano Amedeo Modigliani, intitulada "Modigliani: imagens de uma vida". São apenas 12 pinturas e 5 esculturas, mas o enfoque principal é apresentar a trajetória do artista e para isso, são apresentadas obras de pintores contemporâneos que influenciaram ou foram influenciados por ele, além de documentos que perpassam a conturbada vida do artista precocemente falecido com apenas 36 anos.
A Mostra fica no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro até maio, ou talvez junho, e depois desembarca em São Paulo no MASP.

sexta-feira, 30 de março de 2012

militares: os fardados e os de pijama



No vídeo acima, aparece uma mulher encostada na parede, mais ou menos na passagen dos 30 segundos, observando tudo atentamente. É Hildegard Angel, filha de Zuzu Angel e irmã de Stuart Jones, mortos pela ditadura. Hildegard escreveu um texto sobre a manifestação. Segue o link: http://noticias.r7.com/blogs/hildegard-angel/2012/03/29/a-manifestacao-dos-caras-pintadas-diante-do-clube-militar/

quarta-feira, 28 de março de 2012

pina (economizando palavras)

É necessário que se assista Pina, obra prima de Wim Wenders.
Mas veja a versão em 3D.


Espetacular!

segunda-feira, 26 de março de 2012

a parede no escuro

Quatorze ou quinze narradores. O autor não sabe ao certo. Mas é com esta engenharia literária que o escritor Altair Martins deu forma ao romance “A parede no escuro”, livro vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura de 2009, na categoria primeiro romance.
O nome do livro nos remete imediatamente à A maça no escuro, da Clarisse Lispector, mas a semelhança fica apenas na lembrança que o nome sugere. Já a forma, lembra, em princípio, Willian Faulkner, autor estadunidense da primeira metade de século 20 sobretudo no seu romance "Enquanto Agonizo" (As I Lay Dying) publicado em 1930  com narrações de um mesmo fato sendo contado por várias personagens alternadamente. No romance de Martins, entretanto, não há, como em Faulkner, a identificação direta do narrador. Descobre-se, ou percebe-se cada um dos narradores pela linguagem, pelo jeito, pela dicção. Cada um deles desfiará o fio de uma meada que será, ora linear, ora circular. Martins faz ainda, algo que poderia desandar o bolo. Ele constrói o texto com o esmero de uma prosa poética, mas não há excessos ou desperdícios: cada palavra é encaixada com cuidado, e não há perdas no caminho da estrada principal, que é contar a história de uma trama muito bem enredada.

O tema central passa pela questão da paternidade, ou, mais propriamente, pela crise da paternidade e do desamparo.

Entre muitos personagens, quatro formam a célula principal. O padeiro Adorno, pai de Maria do Céu a quem, em dado momento, a expulsa de casa, e o professor de matemática Emanuel e seu pai Fojo, com quem vive uma crise que se inicia ainda na infância.
O principal ponto de inflexão do romance se dá quando Adorno, numa manhã de muita chuva e pouca visibilidade, é atropelado e morto por Emanuel. A partir daqui, o fluxo de linguagem segue com suas cuidadosas minúcias, e coloca o leitor como o observador que só a ele é dado saber o autor do atropelamento.

Grande estréia do jovem autor gaúcho em narração mais longa, já que ele já trazia na bagagem três livros de contos, Como se moesse ferro, Se choverem pássaros e Dentro do olho dentro.

Abaixo, o primeiro parágrafo de A parede no escuro, início que já prenuncia que teremos um grande texto pela frente.

Se enxergasse no escuro, Adorno veria os dois olhos vermelhos do rato. Os pêlos do focinho experimentariam o ambiente, e o rato faria o simples: com oito patas, deslizaria rente à parede da janela do quarto, pararia junto a um pilar de madeira, escutaria perigos e seguiria para uma nova parede onde cheiros o fariam erguer levemente a cabeça e provar o ar. E seria nesse momento que, se pudesse ver no escuro, Adorno levantaria os olhos muito acima do rato e veria no relógio da parede, na imagem do Cristo, que estava atrasado. Sem ser notado, o rato escorreu para dentro de um buraco mínimo do assoalho, num canto à esquerda da cabeceira da cama.




domingo, 18 de março de 2012

vidigal vendo leblon e ipanema


 

fotos de gê césar de paula

outras fotos:

sexta-feira, 16 de março de 2012

aziz ab'sáber

Depois de mais de um mês, reabro este empório com uma notícia muito triste. O Brasil fica mais pobre: acaba de falecer o professor Aziz Ab'Sáber.
Muito mais que o brilhante cientista, decano da geografia física, foi voz ativa nas discussões que trazem a  dimensão humana como elemento fundamental.
Lembro-o, em uma palestra, escorrerem-lhe as lágrimas com aquilo que se chamou à época, de "privatização" da Cia Vale do Rio Doce, depois de destrinchar o valor real da Cia.

Há aqueles que fazem falta quando nos deixam. O professor Aziz é um daqueles que nos deixam órfãos.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

a terceira margem do rio


Depois de anos, reli este belíssimo conto de Guimarães Rosa e resolvi compartilhá-lo neste empório.



Guimarães Rosa

Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente — minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.


Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, própria para dever durar na água por uns vinte ou trinta anos. Nossa mãe jurou muito contra a idéia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se poder ver a forma da outra beira. E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta.
(continua..clique em "mais informações")

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

raimundo belmiro será assassinado

Não se trata de novela da Globo.
Em 25 de maio de 2011 eu postei
"madereiros em festa: a morte anunciada de zé cláudio na semana de aprovação do código florestal ". Dois dias depois eu postei  "mais uma morte e, de novo, anunciada". Naquela oportunidade  foi assassinado Adelino Ramos, agricultor e líder comunitário.
Na Amazônia é assim. Raimundo Belmiro tem a cabeça a prêmio. É mais um..Vejam reportagem de Eliana Brum:

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

yoani sánches não vê, mas “Esta noite, 200 milhões de crianças dormirão nas ruas do mundo. Nenhuma delas é cubana”.

O Lúcio de Castro é uma figura e tanto no meio jornalístico. Ótima pena e, meio sem paciência com as coisas tortas do mundo, acaba sendo um tanto ranzinza e mal humorado à cerca das discussões referentes aos temas que trata. Ganhou  inúmeros prêmios como Anamatra Direitos Humanos 2009, Prêmio Direitos Humanos MJDH/OAB 2008 e 2010, Ibero-Americano (UNICEF-EFE) Fundación Nuevo Periodismo (dirigida por Gabriel Garcia Márquez) e Vladimir Herzog (2011). A sua praia hoje é o jornalismo esportivo. Saiu da Sportv, vinculada à Rede Globo, porque lá  era impedido de dizer o que pensava da CBF, do Ricardo Teixeira, do Nuzman, do COB e congêneres, e hoje atua na  ESPN onde mantém um blog. Mas como ele é um cara diferente, por vezes, ele não trata de esportes, como esta postagem em que ele trata da, hoje famosa,  blogueira cubana Yoani Sánchez.
Os seus comentários e a entrevista com Yoani realizado por Salim Lamrani e que o Lúcio nos trás, são, mais do que brilhantes, reveladores. A entrevista, como o próprio Lúcio aponta, é muito longa, mas é, eu diria, imperdível e eu a coloquei após a quebra de página.( Para quem quiser ir direto à fonte...:
http://espn.estadao.com.br/luciodecastro/post/238103_A+BLOGUEIRA+QUE+VIROU+SANTA+E+A+DONA+DA+SEMANA#comentarioAba )
A blogueira que virou santa é a dona da Semana

ENTREVISTA COM YOANI SÁNCHEZ, por SALIM LAMRANI:
por Lúcio de Castro
Não sei se ainda é a ressaca da volta das férias, relatada aqui no último texto. Não sei nem ao certo se as coisas sempre foram e são assim ou se esse sentimento de que tudo em volta anda carregado é desses dias ou desde sempre. O fato é que os últimos dias tiveram cor de chumbo. Não o chumbo dos anos de sufoco, mas um chumbo misturado com cinismo, com a “força da grana que mata e destrói coisas belas”, e uma sensação de que as coisas estão passando como rolo compressor por todo mundo, e a tal força da grana, o poderio econômico, a concentração de poder nos meios de comunicação e os tempos do pensamento único no mundo chegaram definitivamente para paralisar todo mundo. Com a agravante de que, em tempos de redes sociais, todo mundo se acha fazendo sua parte tuitando. É a rebeldia emoldurada em 140 caracteres.

Dias de envergonhar a espécie humana, com a barbárie do Pinheirinho, a omissão de sempre dos governantes nos prédios que desabam (como já tinha sido no bonde, nos temporais, em tantas coisas...), com o chocante relato na reportagem de Eliane Brum (sempre ela...!), “A Amazônia, segundo um morto e um fugitivo”, disponível na internet. Para completar, na semana que entra, temos a monótona, repleta de chavões e inverdades, parcial, acrítica, e muitas vezes beirando o desonesto, cobertura da visita da presidenta Dilma a Cuba. Desde já, nossa imprensa elegeu a personagem da viagem, não importando o que irá acontecer: Yoani Sánchez, a blogueira cubana. Eleita estrela pop pela imprensa mundial já há algum tempo.

Yoani Sánchez todos conhecem. Ou acham que sim. A tal blogueira que virou símbolo mundial na luta “pelos direitos humanos em Cuba”, “contra a falta de liberdade de expressão em Cuba”, etc... Não iria aqui (prestem atenção nesse trecho antes de enviar afirmações deturpadas sobre minhas opiniões... ) ignorar problemas, alguns graves, ocorridos ao longo do processo revolucionário em Cuba, desde 1959. Apenas é preciso tentar ver o outro lado sem a dose de cinismo com que geralmente a nossa imprensa o faz, assim como a maioria esmagadora da imprensa do ocidente. Sem ignorar os bloqueios, as sabotagens, as criminosas tentativas de homicídio partidas de Washington e outras variáveis. Estive na ilha por diversas e diferentes razões, e por isso gosto mais ainda dos versos de Pablo Milanez, equilibrado em reconhecer as contradições da revolução e seus méritos em “Acto de Fe”.

É preciso se despir de preconceitos, conceitos prontos e chavões para ao menos manter o senso crítico quando se vê, repetidas e monótonas vezes, a afirmação dos “desrespeitos e violação aos direitos humanos em Cuba”. Ou se fala com absoluto conhecimento de causa, se é capaz de afirmar com conhecimento e critério jornalístico, provando, ou nos resta como referência o órgão mundial que trata sobre o assunto. E segundo a Anistia Internacional, que de forma alguma pode ser apontada como conivente com Cuba, (muito pelo contrário), em parecer de abril de 2011, “no continente americano, é o país que menos viola os direitos humanos ou que melhor os respeita é Cuba. O parecer está no sítio da Anistia Internacional, em três idiomas. De qualquer forma, sempre chega a ser risível falar em “violação aos direitos humanos” vivendo no Brasil de Pinheirinhos, das remoções nas grandes cidades pelo estado de exceção que se instala por causa da Copa de 2014 e das Olimpíadas de 2016, da Candelária, do Carandiru, da reportagem acima citada de Eliane Brum... E poderíamos seguir dando tantos exemplos, infinitos, né?

O mesmo informe da Anistia Internacional dá conta de que 23 dos 27 países que votaram por sanções contra Cuba por violações dos direitos humanos são apontados pela própria Anistia como violadores muito maiores do que Cuba nos direitos humanos. O que nos leva a crer que a maior violação aos direitos humanos em Cuba está mesmo na base militar americana de Guantánamo. Quem dirá o contrário, quem será capaz?

Tampouco eu seria panfletário ou bobinho de falar em “liberdade de expressão” em Cuba. Apenas não sou panfletário ou bobinho de omitir o nosso quadro. Ou o das grandes corporações, dos barões da mídia mundiais. Alguém ignora o quanto de poderio econômico serve de filtro para o noticiário nosso de cada dia, para escolher o que vai para as páginas ou ao ar? Se não acredita, então fique esperando no horário nobre a apuração séria dos desmandos da Copa de 2014 ou 2016. Não vale algo pontual, quando o próprio interesse está em jogo...

Esqueçam as duas linhas de quatro, o 4-2-3-1 e as confusões da Turma do Didi (diretoria do Flamengo) e Luxemburgo, além da operação de Rogério Ceni. A semana que começa será de Yoani Sánchez, alguém tem dúvida? Brasileiros envolvidos na cobertura da visita de Dilma a Cuba irão procurar a blogueira. Traçarão perfis. Ela que ganhou espaço como colunista do Globo, que recebeu o Jornal Nacional esses dias e tem dado entrevista pra todos os órgãos de imprensa brasileiros, irá falar mais do que nunca. Espera-se que os envolvidos na cobertura tenham ao menos um pouco da categoria e cumpram os deveres do ofício como fez o jornalista francês Salim Lamrani, professor da Sorbonne. O único jornalista do mundo até aqui a fazer algumas perguntas elementares para Yoani. O único a estranhar que a blogueira tenha recebido Bisa Williams, diplomata americana em sua casa e não tenha revelado. O único a pelo menos questionar o que poderia estar por trás da dimensão que Yoani ganhou no mundo, além dos 300 mil euros recebidos em prêmios nos últimos tempos. Uma entrevista que vale a pena. É enorme, mas vale. Pelo menos para que possamos ter algumas interrogações quando começar a “semana Yoani”.

Aos colegas envolvidos na cobertura in loco, boa sorte. Independentemente de sistemas políticos, o que fica ao fim de tudo, sempre, é gente. Curtam essa gente especial. Em alguns momentos, não saberão se estão na Pedra do Sal, aqui em São Sebastião do Rio de Janeiro ou em Habana Vieja. Esqueçam as questões ideológicas e travem conversa com aqueles que mais rápido falam no mundo. Ninguém consegue falar mais rápido do que um cubano, quase engolindo sílabas. Esqueça os chavões, o que leu. Não comece a conversa por “companheiro”. Quem é de rua sabe que nas quebradas o papo é outro. Bote a mão no ombro, chame de “sócio”, “cumpadre”, “amigo” que seja. Vai encontrar uma gente altiva, de cabeça erguida. Na correria, como em qualquer lugar do mundo. Lembrem-se também que o mojito é na Bodeguita e o daiquiri na Floridita... E na hora em que estiver trabalhando, oxalá possa deixar os preconceitos de lado. Nem de um lado nem do outro. Do mesmo jeito que não valem as versões e protocolos oficiais, se der para relativizar pelo menos tudo o que vê de mazelas, tentar entender o contexto, ir além, vai dar para sair de cabeça erguida. Do contrário, se for mais um voltando com velhos chavões e preconceitos, será mais um a conhecer a maldição da despedida em Cuba. Consta que todos aqueles que não foram capazes de manter o equilíbrio e a correção em coberturas habaneiras, ganharam um nó eterno na garganta, adquirido na hora de ir embora e que acompanha o resto da vida, em forma de vergonha. Bate forte como arrependimento quando se pensa em tudo o que se escreveu pensando na voz do dono. Um mal que acomete a quem pecou diante de Gutemberg, e vem quando se passa pelos dizeres na saída do aeroporto (nada pode ser mais devastador):

“Esta noite, 200 milhões de crianças dormirão nas ruas do mundo. Nenhuma delas é cubana”.
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(para ler a entrevista, clicar em "mais informações)

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

névoa na paisagem: foi-se angelopoulus

Tristeza! Só agora fiquei sabendo do acidente estúpido que matou o grande cineasta grego Theo Angelopoulus aos 76 anos.


Filmes como “O passo suspenso da cegonha” (1991), “Um olhar a cada dia” (1995) a “A eternidade e um dia” (1998), ou “Paisagem na neblina” são filmes que marcam a história do cinema, aquela história que se contrapõe a inúmeras bobagens visuais que a indústria do entretenimento despeja mundo afora a todo momento.


Talvez a grande voz da arte grega atual, Angelopoulus estava em processo de filmagem. As suas lentes estavam captando, com a sua sensibilidade incomum, os sérios problemas que atingem hoje a Grécia. Infelizmente, não poderemos nos defrontar com a subjetividade do grande diretor sobre esse tema tão marcante da nossa atualidade.


Para quem gosta de cinema, ver ou rever os seus filmes é uma experiência emocionante.

domingo, 22 de janeiro de 2012

miles davis



Ótima chance para quem ainda não foi. A exposição Queremos Miles!, que conta a história do trompetista Miles Davis - o Leonardo da Vinci do Jazz, segundo o amigo Mário Siqueira - foi prorrogada até o dia 29 de janeiro.


Concebida pela Cité de la Musique, com curadoria de Vincent Bessiéres, a exposição ocupa cerca de 600 m² do SESC Pinheiros em São Paulo e exibe mais de 300 peças de coleção para contar a trajetória do músico. É uma exposição para ver e ouvir. Imagens e sons, pelos corredores, pelas salas, transportam os fruidores para a atmosfera de Miles. Bom esquecer do tempo. Pressa não combina com a experiência proposta pela exposição.
Imperdível!

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

da carta maior


http://www.cartamaior.com.br/

Contra o estrago do liberalismo, recuperar o Marx filósofo

O filósofo francês Dany-Robert Dufour refletiu sobre as mutações que esvaziaram o sujeito contemporâneo de narrativas fundadoras. Essa ausência é, para ele, um dos elementos da imoralidade liberal que rege o mundo hoje. Seu trabalho como filósofo crítico do liberalismo culmina agora em um livro que pergunta: que indivíduo surgirá depois do liberalismo? Talvez seja o caso, defende, de recuperar o Max filósofo, que defendia a realização total do indivíduo fora dos circuitos mercantis.

Alguns já o veem terminado, outros a ponto de cair no abismo, ou em pleno ocaso, ou em vias de extinção. Outros analistas estimam o contrário e afirmam que, embora o liberalismo esteja atravessando uma série crise, seu modelo está muito longe do fim. Apesar das crises e de suas consequências, o liberalismo segue de pé, produzindo seu lote insensato de lucros e desigualdades, suas políticas de ajuste, sua irrenunciável impunidade. No entanto, ainda que siga vivo, a crise expôs como nunca seus mecanismos perversos e, sobretudo, colocou no centro da cena não já o sistema econômico no qual se articula, mas sim o tipo de indivíduo que o neoliberalismo terminou por criar: hedonista, egoísta, consumista, frívolo, obcecado pelos objetos e pela imagem fashion que emana dele.
(...continua)

melancholia, por maria rita kehl

Flânerie bipolar – A melancolia, da excentricidade romântica à patologia farmacêutica


MARIA RITA KEHL //

Descrita até a modernidade como um fenômeno da cultura, sinal de excentricidade e reclusão, a melancolia perdeu, com o advento da psicanálise, o caráter criativo. No século 21, se converte em patologia ”bipolar”. Publicação de clássico do século 17 e filme de Lars von Trier trazem o melancólico de volta à cena.

O PLANETA MELANCHOLIA não é o Sol negro do poema de Nerval. É uma Lua incansável, cuja órbita desgovernada a aproxima da Terra indefesa até provocar uma colisão devastadora.

O filme de Lars von Trier mistura ficção científica com parábola moral, sofisticada e um tanto ingênua, como convém ao gênero. A destruição do mundo pela melancolia é precedida de um longo comentário sobre a perda de sentido da vida, pelo menos entre os habitantes da sociedade que Trier critica desde ”Dançando no Escuro” (2000) e cujo imaginário o cineasta dinamarquês, confiante em seu método paranoico-crítico, conhece pelo cinema sem jamais ter pisado lá: os EUA.

Ao longo do filme, Trier semeia indicações de sua familiaridade com a história da melancolia no Ocidente. O cineasta, que se fez “persona non grata” em Cannes com provocações descabidas em defesa de Hitler, mostrou compreender a posição do melancólico como a de um sujeito em desacordo com o que se considera o Bem, no mundo em que vive. Em “Melancholia”, esta é a posição de Justine (Kirsten Dunst), prestes a se casar com um rapaz tão obsequioso em contentá-la que presenteia a noiva com a foto das macieiras em cuja sombra ela deverá ser feliz.

(...continua)

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

terence blanchard- levees

Há coisas que devem ser feitas sozinho. Ouvir Terence Blanchard é uma delas.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

lembrando a entrevista de novembro/2011 do prof. luiz renato martins apoiando a ocupação da usp pelos estudantes e a saída do reitor joão grandino



No dia 9 de novembro, foi postado no YouTube uma entrevista que o professor Luiz Renato Martins, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo, concedeu a jornalistas da Rádio Bandeirantes, TV Bandeirantes, Rede TV, TV Brasil, SBT e Record em frente à Reitoria da USP.

Na rápida conversa que teve com os repórteres, Luiz Renato Martins fala dos laços existentes entre o reitor da USP, João Grandino Rodas, e episódios autoritários ocorridos nos últimos anos dentro e fora da Universidade. Um exemplo é a propensão de Rodas — conhecida publicamente desde 2007, pelo menos — por resolver os problemas políticos pelo viés da militarização.
O professor da ECA defende que é exatamente devido a esse histórico que Rodas foi nomeado pelo ex-governador José Serra para assumir a Reitoria da USP, mesmo tendo perdido a eleição indireta realizada pelo Conselho Universitário — até então, instância decisória soberana dentro da Universidade.

(do blog coletivo Outras Palavras http://rede.outraspalavras.net/pontodecultura/ )

sábado, 7 de janeiro de 2012

a mídia com penas

(Fugindo um pouco da proposta do blog...)
Por Fredi do blog Futebol, Política e Cachaça ( http://www.futepoca.com.br/ )



Terça-feira, Dezembro 20, 2011
A cumplicidade da mídia matará o PSDB


"O tempo lança à frente


todas as coisas e pode

transformar o bem

em mal e o mal em bem"


Maquiavel in O Príncipe




Das poucas coisas que aprendi da política, e do contato com políticos, uma delas é que, ao contrário do que pensa o senso comum, a política não é intrinsencamente ruim. É necessária à sociedade como modo de mediação das relações sociais e o que pode um dia transformá-la. O que a torna podre, muitas vezes, é quando se submete a interesses menores, a pessoas que gravitam em torno do poder para adquirir vantagens. E a arte da política é muitas vezes confundida com a chegada ao poder. E este, sim, o poder corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente.

Uma das formas que a sociedade moderna encontrou de controlar em parte essa face discricionária foi a alternância de grupos no poder e a liberdade de expressão. No lugar-comum, o sol é o melhor desinfetante, a luz do dia revela.

Pois bem, e o que aconteceu no Brasil em bom período e em São Paulo até hoje? Um pacto entre um grupo político e os maiores meios de comunicação por interesses comuns. Pode-se falar em ideologia, negócios, defesa do livre-mercado, o que for... O que fica claro e foi demonstrado mais uma vez pelo livro "Privataria Tucana" é que os grandes meios de comunicação nunca foram equânimes.

Chegaram, esses meios de comunicação, a transformar em escândalo acordo da ministra Gleisi Hoffmann para ser mandada embora da Telebras e receber o FGTS, coisa que qualquer trabalhador faz. Ao mesmo tempo em que fazem de conta que não viram as investigações na Suíça e na Alemanha sobre propinas a tucanos pela empresa Alstom no fornecimento de equipamentos para o Metrô paulistano, quando deixaram de investigar as causas do soterramento de pessoas em acidentes na estação Pinheiros do mesmo Metrô (alguém já sabe de quem é a culpa?), ou, agora, quando deixam de noticiar a lavanderia documentada de dinheiro no exterior que coincide com as privatizações e que tornou pessoas próximas a José Serra milionárias. E que permitiu inclusive comprar a casa em que ele mesmo mora.

Ora, está provado que, para a grande mídia, o pau que dá no PT não dá no PSDB. Ok, os petistas podem reclamar com justa indignação. Mas, no longo prazo, creio que essa atuação será muito mais danosa para os tucanos.

Sem cobrança, sem fiscalização, achando que serão sempre encobertos façam o que fizerem, a tendência de se queimarem em escândalos cada vez maiores é muito grande. E quando o PSDB não puder mais ser instrumentalizado pela burguesia e pela grande mídia em defesa de seus interesses, será mais um partido jogado no lixo da história. Como já foram outros como o natimorto PFL, seu sucedâneo, o DEM, e outros mais antigos, como o PSD original. Claro que surgirá outro grupo disposto a defender os interesses da burguesia, e muitos personagens do atual PSDB estarão nesse novo veículo, que também se esgarçará com o tempo.

Disso tudo sobrará para a maioria das pessoas mais uma vez a descrença na política, enquanto os interesses de quem sempre mandou e manipulou continuarão intocados. Com a conivência de muitos.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

daniel piza

Com muito atraso, soube agora da morte do jornalista Daniel Piza. Que sentimento estranho! Não o conhecia pessoalmente, mas já brigamos. Trocamos vários e-mails em que travávamos discussões, algumas com um tom de acidez e ironia, alguns tons acima do normal. Ele era teimoso, assim como sou, quando me meto numa discussão em que tenho as minhas convicções formadas e, sobretudo, quando tenho um interlocutor que as contrapõe com argumentos fundamentados. Nunca houve um vencedor nessas nossas discussões e, tão pouco acho que um dos dois tenha convencido o outro. Em dado momento, achei que não valia mais a pena. Desisti. Parei de ler as suas colunas e blog faz tempo, mas com a notícia de sua morte, retomei a alguns de seus textos. Pulei os de caráter político, dos quais nunca teríamos qualquer acerto, mas li os de futebol, literatura, música e cinema e percebi, ou lembrei, que haviam assuntos sobre os quais poderíamos ter tido discussões convergentes. A vida é assim: nem sempre enxergamos o que de melhor se apresenta pra gente.


Na sua última postagem, cinco dias antes de morrer, ele discorreu, em tom melancólico e confessional, sobre o natal, de seus presentes e de suas ausências. Reproduzo o texto abaixo.

Daniel Piza, aos 41 anos, deixa mulher e três filhos.


25.dezembro.2011 07:45:18
De presentes e ausências


Nesta época é comum ver, além das retrospectivas, os apelos piegas ao tal espírito natalino, abusos de expressões como “renovar esperanças”, previsões furadas de astrólogos, tarólogos e outros loucos, textos que lamentam onde estão os natais d’antanho, mensagens de boas festas com listas de virtudes. Meu impulso é perguntar por que as pessoas não procuram ser assim o ano todo, e não apenas no solstício que foi apropriado pela religião e pelo folclore para se tornar uma data paradoxal em que se discursa sobre bons sentimentos enquanto se consome em ritmo febril; até mesmo os nacionalistas se calam diante do fato de que a festa não tem cara do calor de 34 graus. E então me ponho a pensar em como generosidade e respeito, para ficar só nesses dois itens, andam em falta nos tempos atuais, especialmente nas grandes cidades, e em como a tecnologia que deveria nos aproximar nos tem dispersado. Mas lembro os Natais de infância, comparo com o dos meus filhos e as diferenças se

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

como é possível?

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

corinthians, sócrates, arte...

Domingo passado o Corinthians conquistou o seu 5° título do campeonato brasileiro, um dia que começou muito triste com a notícia do falecimento do Dr. Sócrates, figura singular, que extrapolou os campos de futebol. Médico formado ainda bem jovem, Sócrates militou em outras frentes. Teve forte presença no movimento das Diretas Já e liderou a Democracia Corinthiana em plena Ditadura Militar. Nunca foi um atleta, na acepção da palavra, e, ainda assim, foi um extraordinário jogador, daqueles que praticavam o futebol arte. Teve problemas quando se mudou para a Itália para atuar pela Fiorentina. Por lá, ficou pouco tempo, jogou bem mas menos do o clube esperava e a razão é um tanto inusitada. A cidade de Florença, sede do clube, envolta por tantas obras de arte, roubou a atenção e o foco do jogador pelo futebol, razão pela qual Sócrates foi contratado.

Foi-se uma voz, daquelas que fazem falta.

Mas volto ao Corinthians. Remexendo em arquivos, achei um rascunho em que relacionava o Corinthians e outros clubes com alguns movimentos de arte. Aproveitando esta conquista corinthiana, lá vai..:


“Com todo o respeito aos outros times, mas o Corinthians tem um 'quê' que o diferencia dos demais. Suas tintas (ainda que preta e branca) carregam uma dramaticidade, digamos, expressionista. É isso: acho que há times impressionistas, muitos, com tons mais amenos (Cruzeiro, Palmeiras, Fluminense..); românticos (os Américas, o Botafogo..); os realistas, pragmáticos (chatos, como a ausência da poesia, como o São Paulo, por exemplo). O Corinthians é expressionista. Não há clube que tenha tantas tentativas de entendimento: são inúmeras as teses de sociologia sobre o Corinthians na USP, Unicamp, Puc. A origem operária, e por conseqüência, o vínculo com as questões da opressão, das lutas, reivindicações etc, talvez traga alguma indicação. Osmar Santos, o grande narrador dramático, pintava cores extravagantes descrevendo o Corinthians entrando em campo. (Escutei outro dia, uma dessas narrações, descrevendo a cena épica do Corinthians entrando em campo no Maracanã em 1976 contra o Fluminense). Osmar dizia, exatamente, das perplexidades de um “povo sofrido” (estávamos na ditadura), que exaltava um time como quem tocava as portas do paraíso. Não por acaso, todos os intelectuais de esquerda, que falaram de futebol nos anos de chumbo, se auto-proclamavam corinthianos.
"Os dramas corinthianos sempre tiveram proporções enormes. Lembro, ainda menino, a final perdida para o Palmeiras em 1974(eram 20 anos sem títulos), com um choro coletivo de 120 mil corinthianos, que jogavam suas bandeiras arquibancada abaixo. Três anos depois, campeão contra a Ponte Preta, olhávamos uns para os outros e, perplexos, nos perguntávamos: o que será de nós, que agora somos campeões?”


Não sei quando fiz este rascunho. Talvez quando o time caiu para a segunda divisão. Mas vou dizer algo que dificilmente um são paulino entenderia. O Corinthians está se estruturando de uma forma que poderá transformá-lo em um ganhador emérito de títulos. É evidente que títulos são importantes, mas nunca foi essa a razão central do alicerce em que o Corinthians foi construído. Essa é a razão de ser do São Paulo. O projeto da atual direção do Corinthians é transformá-lo não só num clube super estruturado e vencedor, mas também elitizá-lo, o que me parece, neste ponto, ruim, porque contrapõe a construção histórica do clube.
Por outro lado - e não sei se é só marketing - essa mesma administração lançou uma campanha de marketing que tirará do uniforme oficial as estrelas, que representam conquistas, para realçar o emblema do clube, com o mote, “ O Corinthians não vive de títulos, vive de Corinthians”. Vamos ver...

Só espero que o “time do povo” não mude de corrente artística e passe a ser pintado, junto com o São Paulo, num quadro realista.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

coca cola

por Valmir Jordão, poeta pernabuncano

coca para os ricos

cola para os pobres


coca-cola é isso aí...

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

sábado, 15 de outubro de 2011

leon cakoff

Meu tornozelo ainda precisava de tratamento: alguns ajustes terapêuticos para o meu caminho mais seguro. E estava lá eu, na sala de espera aguardando ser chamado para mais uma sessão de fisioterapia. Apenas eu na sala, quando escuto a campainha. Alguém entra. Levanto a cabeça e vejo um homem, baixinho, roupa meio desgrenhada, na dúvida de qual poltrona se apossar. Alguns minutos em silêncio e aí, meio tímido, solto: “eu tô lendo um livro seu”. Surpreso, ele devolve, “qual?”. “Cinema sem fim”, respondo. O livro que conta a história da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Leon Cakoff , o criador da Mostra e o autor do livro que eu lia naquele momento, ali, sentado à minha frente numa confluência enquadrada de uma sala de espera. Ele, sem espera, me perguntou se eu acompanhava a Mostra e há quanto tempo. “Há muito tempo”, disse, sem precisar. Ele me pergunta sobre filmes. Neste momento fui chamado, mas deu tempo de lembrar do filme Malpertuis (um marco pra mim) que assisti, disse a ele, no Palácio das Convenções. “Do (Harry) Küme!l” disse ele. “Faz tempo hein!”, completou.


Lembrei desse encontro inusitado de três ou talvez quatro anos atrás, é evidente, por conta da triste notícia da morte do Leon nesta sexta-feira, a uma semana da abertura da 35° Mostra.
Outubro é o mês tradicional da Mostra. O acaso escolheu um outubro para subir os créditos, apagar as luzes e cerrar as cortinas para Leon Cakoff.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

ainda o 11 de setembro

A internet nos leva, por vezes, a caminhos inusitados. Estava pesquisando sobre a chamada A Árvore da Vida - assim chamada porque vive, há pelo menos 400 anos, em pleno deserto do Bahrein em meio a um mundo de areia e sem água para alimentá-la - quando caí no blog microargumentos ( http://microargumentos.blogspot.com/ ) de Ângela Schoor, escritora que esculpe instigantes mini contos. De lá, pulei para um outro espaço, também da escritora, o idélia ( http://idealiapolaris.blogspot.com/ ) e ali descobri a existência de um filme, o 11th September, dirigido por 11 diretores.
O trecho abaixo é de Ken Loach (*) que nos lembra, como na minha postagem anterior, do outro 11 de setembro.


(*)..de Ventos da Liberdade, Palma de Ouro em Cannes em 2006 e, talvez, mais famoso, Terra e Liberdade de 1995.


domingo, 11 de setembro de 2011

o outro 11 de setembro

Há um outro 11 de setembro. O de 1973 no Chile, dia em que um golpe instalaria uma das mais sangrentas ditaduras do continente, depondo e matando Salvador Allende, presidente eleito pela via democrática.
Abaixo, a primeira parte do filme A Batalha do Chile de Patricio Guzmán. Mais abaixo, os links que continuam o filme.



http://www.youtube.com/watch?v=guxCOhh_MA0&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=vPRoAOvYH0w&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=hm-AIzvUfvY&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=qzKjmzrmMKY&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=m8_3PhxFhlU&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=m8_3PhxFhlU&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=nmlViidz-aM&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=Ya3tdUiqOS0&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=LOgYAK4pvqk&feature=related

artigo: a inauguração do século 21

Em 12 de setembro de 2001 escrevi o texto abaixo que foi publicado na edição daquele mês da Revés do Avesso. Hoje, evidentemente, teria uma outra abordagem para tratar do acontecimento. Mas o texto também seria outro se tivesse escrito na mesma semana, mas dois, três ou sete dias depois. Escrevi, portanto, ainda sob o impacto do evento já no prazo de fechamento da revista. Dez anos se passaram mas o marco do início do século estava lá, na fumaça e nos escombros das duas torres.  Muita coisa passou por cima e por baixo de muitas pontes: Bush invadiu o Afeganistão e depois montou uma peça de ficção para justificar a invasão ao Iraque às portas de uma nova eleição; Madrid e Londres sofreram atentados; uma crise econômica eclodiu; Bin Laden morreu; a palavra "guerra" continuou sendo palavra de ordem nos EUA que avisam, agora, que vetarão o reconhecimento do Estado Palestino na Onu.
Republico o artigo que mesmo envelhecido, ainda trás algumas das tensões e incompreensões de um mundo, que desde 2001, é  menos livre e mais inseguro.




 •EUA/11 de setembro


A Inauguração do Século 21


Por César de Paula

O dia 11 setembro de 2001 já ficou na história como um marco de um novo estabelecimento das relações no planeta. O ataque aos EUA aponta um novo momento, como que abrindo o século para novas situações que o mundo terá que enfrentar daqui para frente.

Na Guerra do Golfo em 1991, a propaganda dos EUA falava em “ataques cirúrgicos" que atingiriam apenas alvos militares e nunca civis. Foi a primeira guerra transmitida ao vivo com imagens espetaculares como jogos de videogame. Pessoas, civis, morriam com o distanciamento que a televisão permitia e com a estética que os índices de audiência apontavam para a venda dos espaços comerciais. Os tiros não foram cirúrgicos e os "heróis" americanos foram recebidos na Quinta Avenida com chuva de papéis picado.
Já no atentado aos EUA a cirurgia foi precisa. Atingiu-se a economia e a defesa, patrimônios simbólicos dos EUA representados pelo World Trade Center e o Pentágono.

Do ponto de vista mais objetivo é quase irônico imaginar como algumas poucas pessoas, ainda que colocando o próprio corpo, e portanto, a vida, como a principal arma, sem nenhum caça supersônico, sem a posse de nenhuma bomba ou qualquer artefato explosivo, sem sequer estarem munidos de revólveres, mas tão somente portando facas e estiletes, puderam abalar como abalaram, uma nação que já gastou bilhões de dólares com programas militares como o “Guerra nas Estrelas" ou com o mais atual, o "Escudo Antimísseis".

O fato é que os EUA continuaram se preparando após a Guerra Fria para enfrentar um adversário que hoje não existe. A guerra possível passa a não ser mais a dos mísseis balísticos, muito menos a da paranóia hollywoodiana de uma ação bélica nos corredores da via-láctea. O adversário do império militar e econômico neste 11 de setembro, não só não tinha armas, como não tinha rosto. Com o fim da Guerra Fria e a dissolução da União Soviética, uma ordem bipolar que regulava de certa forma as relações entre Estados, e situava as culturas dentro de quadros ideológicos mais consistentes, se desfez, criando uma nova ordem no tabuleiro do jogo das relações internacionais. O que parecia ser em princípio a hegemonização e homogeneização dos conceitos, práticas e culturas vindas do norte da América (o american way of life, passando definitivamente a iluminar o mundo como um novo sol) mostrou, num tempo histórico muito rápido, que o quadro estava se transformando, ao contrário do que se supunha, num campo vasto, visualizado por uma janela de heterogeneidades étnicas, religiosas e de escolhas de verdades centradas no microcosmo de algumas e determinadas sociedades. O acirramento da defesa de conceitos in veritum que afloraram à medida que se abriu um vácuo antes ocupado por ideologias mais definidas e que eram, em última instância, fatores aglutinadores que se sobrepunham às questões de caráter étnico-religioso. O conflito nos Bálcãs foi o grande exemplo inicial dessa nova fase.

Essa nova realidade entraria em conflito com o quase determinismo de uma nova ordem mundial arquitetada.

As imagens do atentado que todos assistimos ao vivo, como um filme catastrófico – bem ao gosto do público que lota as salas de cinema dos EUA -, mostrou, na população nova-iorquina, além do componente de sofrimento direto, objetivo, que foram as milhares de vidas que se perderam, um segundo componente: o drama psicológico de quem sente o orgulho ferido.

A construção de todo império se alicerça na positividade da auto-estima de sua sociedade. Esse foi o grande terceiro símbolo atingido. A lição dura e trágica que o episódio nos aponta, é que o mundo rico e, sobretudo a sociedade estadunidense, devem voltar os olhos para além dos seus quintais ajardinados, e que os líderes dos países desafortunados abram as janelas dos seus gabinetes acarpetados ou então, as guerras que trazem os corpos como armas se difundirão a ponto de se sobreporem, em números de vítimas, àquelas que já sucumbem pela fome nas periferias do planeta.



César de Paula é articulista colaborador da Revés do Avesso.



terça-feira, 30 de agosto de 2011

a casa amarela

Gero Camilo é uma daquelas figuras que sintetizam o ser artístico. Poeta, dramaturgo, ator, cantor, compositor, tem na bagagem mais de 40 trabalhos entre teatro, cinema televisão, atuando, dirigindo ou escrevendo, além de participações em inúmeros shows.

Neste momento vive Van Gogh, segundo ele,"(...) um grande homem, preocupado em dar à humanidade discernimento e espasmo. Sua loucura é demasiado grande para que a psicologia possa tratá-la. Sua pintura é poesia pura. Sua escritura, pura pintura. E sua carne, resistência e fortaleza".
O monólogo, escrito e interpretado por Camilo, encontra a sua perfeita espacialidade no palco do Tuca Arena, que lhe permite caminhar pelo círculo da vida ali representado, como os girassóis que se voltam em direção ao sol, e que o leva à Casa Amarela, o local onde o pintor holandês imaginava instalar uma comunidade de criação artística, depois de sair de Paris e encontrar a luminosidade da cidade de Arles.

Em cena, as cores, as idéias e o desespero de Van Gogh ganham força e vitalidade e se misturam com a veia pulsante de Gero Camilo.
Imperdível!

domingo, 21 de agosto de 2011

mais de philippe genty



Do sítio http://www.midiorama.com.br/
Philippe Genty, um dos maiores mestres do ilusionismo teatral deste século, o francês Philippe Genty, nascido em 1938, é considerado o criador do moderno teatro de fantoches em todas as suas dimensões.

Artista plástico por formação, Philippe Genty ganhou uma bolsa da UNESCO entre 1962 e 1966 para fazer um documentário sobre as várias manifestações do teatro de fantoches no mundo, quando percorreu lugares insólitos que mais tarde serviriam de base para suas criações. Apresentou seus primeiros espetáculos em cabarés e em programas de TV, e em 1968 fundou a Compagnie Philippe Genty, que rapidamente se tornou um marco ao misturar em suas apresentações vários tipos de fantoches, teatro, dança, mímica, sombras e luzes, música e sons.
Altamente influenciado pelas experiências de bonecos gigantes nos Estados Unidos, incluindo o Bread and Puppet Theatre, Philippe Genty começou gradualmente a usar cada vez mais materiais reciclados para fabricar as suas formas de animação e criação de pequenos bonecos. Suas criações foram desde o início um enorme sucesso, permitindo que sua companhia ficasse rapidamente conhecida por toda a França e, posteriormente, pelo mundo inteiro.
Até o final da década de 80, Genty levou sua arte a quase todo o planeta, em turnês que foram vistas nos Estados Unidos, Japão, África, Austrália, Grã-Bretanha, China, União Soviética, França, América do Sul, Índia, entre outros. Nos anos 80, transformou-se em um autor consagrado, com a criação de espetáculos como Rond comme un cube, Désirs parade, Sigmund Follies, e Dérives. No começo dos anos 90 ganhou o Prêmio da crítica no Festival de Edinburgo e, em 95, criou seu mais famoso espetáculo – Le Voyageur immobile (O Viajante Imóvel).
Em 96 participou do Festival de Adelaide, na Austrália, para o qual criou o espetáculo Passagers clandestins. Pouco depois aliou-se à Exposição Universal de Lisboa, criando e encenando Océans et utopies em um estádio coberto de 10 mil lugares, com 200 atores, bailarinos, artistas de circo e técnicos. “Uma isca para um público que nunca vai ao teatro”, coloca Genty, que teve 525 representações em cinco meses, em um total de três milhões e trezentos mil espectadores.
Em 2000, Genty criou Concert incroyable no quadro da Grande Galeria da Evolução em Paris com 40 coristas e 12 atores-bailarinos. Em 2003 foi a vez de Ligne de Fuite, trabalho experimental em torno da luz, que marcou uma nova colaboração musical com René Aubry e resultou em uma turnê internacional até outubro de 2005. De volta à França, Genty remontou Zigmund Follies e lançou La Fin des Terres, espetáculo como o qual iniciou nova turnê que se estendeu até o fim de 2008. Durante os anos de 2009 e 2010, Genty e sua esposa e parceira desde 1967, Mary Underwood, percorreram novamente o mundo com seus espetáculos e workshops, passando por lugares como a Austrália e a Patagônia, Ásia, Europa e América do Norte.

Outros links:
http://www.youtube.com/watch?v=yYMIpOIii6Y&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=toYCGhdSeI8&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=I3vAFmD9IVY&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=OyIcT_V_TG8&feature=related

compagnie philippe genty - voyageurs lmmobiles (viajantes imóveis)

Um maravilhoso acaso me direcionou para o Teatro Municipal (de São Paulo) em 15 de julho passado que me colocou diante de um segundo acaso: um casal com um ingresso sobrando para um espetáculo cujos ingressos haviam se encerrados há dias. Tratava-se da Cia. francesa Philippe Genty, que eu não conhecia e que me supreendeu como um dos melhores espetáculos que eu vi. Abaixo, uma pequena amostra da parte final da apresentação. Mais abaixo um texto tirado do sítio http://www.midiorama.com.br/



Há mais de três décadas a conceituada Companhia Philippe Genty é responsável por fantásticas criações multidisciplinares, nas quais mistura teatro, dança, música e marionetes. O trabalho é baseado na relação entre o corpo e diferentes objetos, e explorada através de uma linguagem visual original e tocante. As criações da célebre companhia francesa pertencem ao mundo do sonho, onde atores e bailarinos, manipulando marionetes e objetos de várias dimensões, surgem em cena tecendo histórias diante dos olhos do público.

Na criação de seus espetáculos, Genty mantém a exploração da linguagem visual que é a mais marcante característica de sua companhia, refletindo o conflito do homem contra si mesmo e onde a “cena” é o próprio ”inconsciente”.


Na forma de um sonho, o espetáculo não mostra a psicologia de personagens clássicos, “o intuito é mexer com as nossas paisagens interiores, tirar das profundezas de nossos medos essas esperanças selvagens, as vergonhas por desejos reprimidos, esses espaços sem limites, enfrentando o impossível, produzindo choques visuais”, diz Genty.

Em “Viajantes Imóveis”, o espectador deixa de ser um mero observador passivo de um drama ou de uma comédia. Ele é atraído para uma viagem através de uma série de quebra-cabeças, cada um produzindo uma impressão diferente, um eco de suas próprias perguntas ou simplesmente fazendo-o mergulhar em uma desordem inquietante.

No palco, a arte de Genty cria uma ilusão visual, onde os espectadores não sabem se os bonecos estão dando vida aos atores ou vice-versa. Com Genty, os objetos e materiais têm uma alma. Eles representam as nossas paisagens interiores, com nossos momentos de loucura, conflitos e monstros internos. Tudo é possível.

O cenário nunca é realista e está em constante mutação, a idéia, segundo Genty, “é deixar sempre o campo aberto para a imaginação do espectador”. Os personagens surgem em cena – o lugar do inconsciente – para se transformarem, evoluírem e desaparecerem.

Genty começou a imaginar o espetáculo durante uma passagem pelo deserto do Baluquistão, no Paquistão, em 1962




sábado, 6 de agosto de 2011

meia noite em paris

Desse filme não quero falar muito, até porque muito já foi dito. Na realidade, tudo que foi dito, foi dito com meias palavras. Mesmo o trailer não diz mais do que meias palavras e meias imagens, porque esse é um daqueles filmes que ser tagarela estraga as surpresas que Woody Allen nos presenteia nessa viagem por Paris. Embarque! Nem precisa levar bagagens.

gainsbourg

Por aqui foi traduzido por "Gainsbourg - o homem que amava as mulheres" e está em cartaz, ainda, em algumas poucas salas. Serge Gainsbourg , como nos diz Thales de Menezes na crítica com link abaixo, tinha inúmeros predicados para ser biografado e o foi brilhantemente, em filme dirigido por Joann Sfar, um conhecido ilustrador francês, que entre outras coisas, se dedica aos quadrinhos.
Abaixo, então, a crítica de Menezes e o trailer legendado.
http://ancine.myclipp.inf.br/default.asp?smenu=ultimas&dtlh=24273&iABA=Not%EDcias


segunda-feira, 25 de julho de 2011

cópia fiel

Abbas Kiarostami é um daqueles raros cineastas que abre as suas lentes com o foco direcionado para um certo reaprendizado do olhar com o qual se deparam os fruidores dos seus filmes. O seu tempo é outro, muito diferente da pirotecnia hollywoodiana.



O desenrolar de seus filmes com narrativas simples e planos sequências longos, entremeados de silêncios, percorrem, via de regra, estradas, lugares inóspitos, que culminam com encontros que vão deixando pelo caminho a impressão que nada está sendo dito e o quase incômodo da percepção que se apresenta ao final, de que muito foi dito; e mais do que isso: que não poderia ser dito de outra forma. Kiarostami sempre foi exigente com o espectador de seus filmes e aos atentos, os recompensava. Foi assim com “Onde fica a casa do meu amigo” de 1987, ou a “Vida e nada mais” de 1991, ou “Através das Oliveiras”, de 1994, ou “Gosto de Cereja” de 1997 ou outros tantos de sua já extensa filmografia de quase 20 filmes.


Há uma característica marcante: o diretor sempre nos leva de carona para algum lugar. Há sempre um itinerário, um deslocamento.


Quando nos deparamos com Cópia Fiel, seu primeiro filme rodado fora do seu habitat natural, o Irã, parece que estamos em princípio, diante de um outro Kiarostami. O cenário agora é europeu, não há mais a dureza da paisagem, os rostos e as vestes são ocidentalizados, a narrativa se apresenta de forma mais evidente, a língua é outra (na realidade são outras) mas a essência está lá. Trata-se do velho Kiarostami que nos leva em carona até um vilarejo e da mesma forma que em outros de seus filmes ele também nos provocará um estado de inquietação.
O filme se passa na Itália, em Toscana, e se inicia com a palestra do escritor inglês James Miller (interpretado por Willian Shimmell) que no lançamento do seu livro defende a ideia de que uma boa cópia vale tanto ou ainda mais que o original e a partir dessa questão filosófica, há uma pergunta que transcorrerá em metalinguagem por todo o filme: uma cópia pode ser tão verdadeira quanto a original? Elle, interpretado brilhantemente por Juliette Binoche, é uma francesa que há anos vive na Itália e além de proprietária de uma galeria de arte é leitora de Miller. Ela discutirá a questão com ele, tão logo se conhecem (ou se reencontram..), e a discussão tomará formas inusitadas quando ela o leva para um passeio à Comuna de Lucgnato. Lá, há um museu onde se encontra uma pintura reconhecidamente como cópia que é a principal atração do lugar. Mas a obra que seria em princípio o exemplo melhor acabado do tema em discussão, não atrai nenhuma atenção de James, para surpresa de Elle. A “cópia” se apresentaria, mais do que nas artes, na vida.
O fio condutor é alterado quando a dona de um Café confunde os dois com um casal e enxerga neles as questões relativas a qualquer casal. Aparece nesse momento um outro elemento: os idiomas, ou a forma que se trava a comunicação ( o que lembra aqui, “Um filme Falado”, de Manoel de Oliveira, pela razão inversa já que Oliveira fala dos idiomas numa "anti-torre de babel”). Mas enfim, a comunicação é o que une ou o que separa? É também ela, cópia da realidade? De qualquer forma, a partir da cena do Café, um jogo parece ser montado e Elle e James são agora (ou sempre foram?) um casal. Há uma verdade na condição de casados ou a representação de uma situação de casados é um simulacro que se apresenta? Ou ainda, indiferente de uma cópia ou de um original, o que importa são os olhos de quem vê? Pela nossa janela pouco importa se Elle e James brincam, representando para eles mesmo que são um casal ou se realmente o são. A questão central já está posta. Reprodução ou originalidade? Quantas vezes nosso padrão de relacionamento se apresenta como cópia? Quantas vezes a aparência das coisas nos acomoda na escolha de não ir além ou se, de fato, se faz necessário ir além? Na arte como na vida o que vale mais, o que se apresenta como verdade ou a verdade que a nossa subjetividade representa?
Walter Benjamin escreveu um longo ensaio para discutir a reprodução da obra de arte em "A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica". Para Benjamin, "...em sua essência, a obra de arte sempre foi reprodutível. O que os homens faziam sempre podia ser imitado por outros homens". Imitar faria parte, assim, da cultura de ser humano mas, da mesma forma, a criação e a recriação também o são. A reprodução em grande escala coloca a obra acessível àqueles que, sabendo que não estão diante do original, a acomodam com o valor que a possibilidade permite.
Não sei se Kiarostami tentou traçar um paralelo ou buscar uma inspiração no texto do filósofo alemão. Mas de alguma forma, a condição da cópia em Kiarostami, ponto de partida de seu “Cópia Fiel”, extrapolou a arte e alcançou a vida, o que nos remete a tão propalada e talvez ainda verdadeira frase, que “a arte imita a vida”.



amy, mais nova

amy, mais uma

amy

sábado, 23 de julho de 2011

ela se foi

sábado, 9 de julho de 2011

sábado, 2 de julho de 2011

os "hieronymus bosch" do masp

Cristo perante Pilatos

As tentações de Santo Antão





sexta-feira, 27 de maio de 2011

mais uma morte e, de novo, anunciada



Eu queria falar de cinema, literatura, teatro etc, mas novamente desvio o assunto, nesta semana da aprovação do Código Florestal, para replicar a matéria do Acrítica Amazônia.



Líder de assentamento do Amazonas é assassinado por pistoleiros
Agricultor foi assassinado enquanto vendia verduras em município do Estado de Rondônia
Manaus , 27 de Maio de 2011
Elaíze Farias
O agricultor e líder de assentamento Adelino Ramos já havia feito várias denúncias sobre as ameaças de morte que vinha sofrendo
Adelino Ramos, 57, líder do Projeto de Assentamento Florestal (PAF) Curuquetê, localizado no município de Lábrea (a 701,62 quilômetros de Manaus), foi assassinado na manhã desta sexta-feira (27). Foram desferidos seis tiros contra o agricultor.
Conhecido como Dinho, o agricultor foi assassinado por volta de 10h em frente à casa de um cliente das verduras que ele vendia no município de Vista Alegre de Abunã, em Rondônia, na divisa com o Estado do Amazonas.
Ele também era líder do Movimento Camponês Corumbiara (MCC), que surgiu após o massacre de Corumbiara (RO), em 1996.
O advogado do assentamento e de Adelino Ramos, que pediu para não ter seu nome relevado, disse que o agricultor já havia denunciado as várias ameaças que vinha sofrendo para a Ouvidoria Agrária do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e para a Polícia Federal.
“As ameaças eram de fazendeiros e de toreros (pessoas que roubam toras de madeiras). Desde que o Incra doou a terra aos agricultores, os fazendeiros se viram lesados”, disse o advogado, que mora em Porto Velho (RO), onde Adelino será enterrado.
No PAF Curuquetê vivem aproximadamente 20 famílias. “As famílias estão com medo, algumas pessoas querem ir embora, se sentem desprotegidas”, disse ele.
Para o advogado, a demora do Incra em publicar a portaria regularizando o assentamento também contribui para aumentar a insegurança na área.
Denúncia
Adelino vinha recebendo várias ameaças de morte desde que a o PAF foi criado pelo Incra, há três anos.
No dia 22 de julho de 2010, Adelino Ramos esteve em Manaus onde participou de uma audiência com a Ouvidoria Agrária Nacional do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), intermediada pela Comissão Pastoral da Terra (CPT).
Segundo Auriédia Costa, coordenadora da CPT no Amazonas no Amazonas, representantes da ouvidoria se comprometeram de enviar um grupo até o assentamento, mas isto nunca aconteceu.
“Ele denunciou vários fazendeiros, deu nome e sobrenome. Mas ninguém fez nada. Os fazendeiros estavam revoltados porque, para eles, os assentados estavam fazendo denúncias para o Ibama sobre desmatamento”, disse Auriédia.
Para a coordenadora da CPT, o assassinato de Avelino é resultado da omissão do Estado e das autoridades policiais.
“Onde não há lei para regularizar, alguém faz esta lei. E quem está no comando é quem tem o capital”, comentou Auriédia.
Em 2008, outra liderança da então gleba Curuquetê, Francisco da Silva, também foi assassinada.
Fuga
Conforme Auriédia, vários líderes do movimento da reforma agrária e de assentamentos sofrem ameaças de madeireiros no sul do Amazonas, mas pouco se comenta sobre estes casos.
“O que parece é que não há ameaça, nem violência. Mas ao contrário do que se pensa, muitos trabalhadores estão impedidos de voltar hoje para Lábrea. Muitos fugiram”, disse.
Uma dessas lideranças é Nilcilene Miguel de Lima, 44, que fugiu da gleba Iquiri, próximo ao assentamento Gedeão, também no município de Lábrea.
“Fui espancada, queimaram minha casa, não posso voltar. Os fazendeiros nos ameaçam porque dizem que estamos denunciando desmatamento. Estou jurada de morte”, disse Nilcilene, que era amiga de Adelino Ramos. "Mataram meu amigo", disse, indignada.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

"uma informação sobre a banalidade do amor", ou seria "sobre a banalidade do teatro"?

Neste empório, tenho a vantagem de ter a prerrogativa de escolher os filmes, as peças teatrais e os livros sobre os quais rascunho críticas. Quase que invariavelmente escolho apenas aquilo que me causa impressões positivas. Abro uma exceção para “Uma Informação Sobre a Banalidade do Amor”, peça dirigida e encenada por Antonio Abujamra, em companhia de Tatiana de Marca que encerrou a sua temporada ontem em São Paulo, no teatro Eva Herz, na Livraria Cultura.
A peça é de uma integralidade poucas vezes vistas nos palcos brasileiros. Ela é integralmente ruim. São 60 minutos de um equívoco contumaz. A começar pelo texto, ou a tradução, do próprio Abujamra. O texto original é do dramaturgo argentino Mario Diament.
O roteiro pretende discorrer sobre a paixão entre Martin Heidegger e Hannah Arendt. Para aqueles que têm a expectativa de um diálogo com um mínimo de profundidade - já que a proposta é trazer à cena duas das principais figuras da filosofia do século 20 -, se deparam com clichês que talvez não fizessem feio em qualquer folhetim rasgado de uma novela mexicana. Heidegger, um expoente da filosofia da primeira metade do século vinte, flertou com o ideal nazista de Hitler. Arendt, judia, foi perseguida e exilada, primeiro na França (onde foi presa num campo de concentração) e depois nos EUA. O conflito existencial da relação traz enormes possibilidades de abordagem, mas o resultado final apresentou uma relação constrangedoramente adolescente. Constrangedora também são as interpretações. Abujamra está fora de forma e não cabe no papel. Ele, quase sempre estático (e pelo menos nessa noite, com erros freqüentes de texto) não se movimenta com a energia que a fala de Arendt faz supor, de um amante impetuoso. De Marca, por outro lado, comporta-se como uma menina leitora assídua da revista Contigo.
Mas parece que não basta. A peça traz mais surpresas. Ela pretende-se didática, e, em meio aos cinco encontros relatados, surgem imagens projetadas de atores (seriam atores?) que apresentam depoimentos que tentam transformar todo o imbróglio em uma mistura de teatro-cine-documentário. O resultado culmina em mais um constrangimento.
Tamanho mal entendido não poderia terminar de outra forma. Abujamra e De Marca, sentados em um banco de praça, desconfortáveis, preparam-se para o gran finale: se olham e começam, em um slow motion quase interminável, o caminho que selará a peça com um beijo. Nenhum final seria mais adequado.

domingo, 8 de maio de 2011

os "degas" do masp

O Masp conta com uma coleção completa de 73 esculturas e mais 3 pinturas de Edgar Degas. Interessante lembrar que apenas três museus no mundo contam com a coleção completa de esculturas de Degas: o D' Orsay, de Paris, o Metropolitan, de Nova Iorque e o Masp, em São Paulo.
Alguns exemplos: