Em vez de falar do fotógrafo japonês Haruo Ohara, que chegou ao Brasil com 18 anos de idade acompanhando da família para trabalhar na lavoura, vamos apresentar algumas das suas fotos e indicar dois sites que retratam a sua trajetória. A página do Instituto Moreira Sales e a da Revista Zum que traz uma matéria citando uma outra matéria, do The New York Times cujo tema foi Ohara e também o ótimo documentário de Rodrigo Grota sobre o fotógrafo nipo-brasileiro.
A revista do Sesc nos ofereceu na edição de janeiro uma entrevista com o professor filósofo Peter Pál Pelbart, que sintetiza a vida contemporânea, enredada em suas conexões, seus processos de produtividade e os seus limites pré-determinados.
Este empório compartilha abaixo essa importante reflexão.
Peter Pál Pelbart
Crédito: Leila Fugii
Filósofo e professor fala sobre conexão, produtividade, modos de existência e mecanismos de controle na sociedade contemporânea Nascido na Hungria, Peter Pál Pelbart é filósofo, tradutor e professor titular de Filosofia na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Entre outros livros, é autor de Da Clausura do Fora ao Fora da clausura: Loucura e Desrazão (Brasiliense, 1989), sobre a relação entre filosofia e loucura, e Vida Capital (Iluminuras, 2003), sobre a relação entre política e subjetividade. Sua obra mais recente é O Avesso do Niilismo – Cartografias do Esgotamento (n-1 edições, 2013), no qual mapeia as zonas de esgotamento no mundo contemporâneo e propõe uma política orientada pelo desejo. Nesta entrevista, Peter Pál fala sobre estes e outros temas ligados à vida contemporânea: “Sou a favor de que haja interrupções nesse trem louco que vem vindo há muitas décadas numa velocidade crescente e nos obriga a mobilizar toda a nossa energia com finalidades cada dia mais desconhecidas e inúteis. Enquanto não se frear esse trem, não será possível inventar finalidades outras que não a produção pela produção, o lucro pelo lucro e essa espécie de racionalidade capitalista que nos enlouquece literalmente”.
A atrocidade do ataque que matou 12 jornalistas do "Charlie Hebdo" ficará na história da humanidade como um crime hediondo. Analisar, entretanto ( e é necessário que se faça um "entretanto"), o atentado, desassociado da construção histórica que o resultou, é fechar os caminhos para a sua compreensão; é construir muros.
A muralha da China, o muro de Berlim, o muro da Faixa de Gaza, foram construções físicas que concretizaram barreiras, cada um para o seu objetivo político determinado. Mas os outros inumeráveis muros não físicos que a geopolítica ao longo deste percurso humano criou, cimentados pelas disputas consequentes das relações de poder e da dominação, são os grandes anteparos formadores das atrocidades que não cessaremos de vivenciar, já que os muros permanecem tão intactos quanto intactas são as suas convicções de poder.
O que levou os dois irmãos ao ato extremo, em defesa de Maomé, não pode ser explicado por uma questão simples de causa e efeito. É muito mais do que isso. Não dá para sermos apenas "Charlie".
Para entendermos ao menos uma "pedrinha" dessa história, compartilho três textos:
Os dois primeiros, duas grandes análises do jornalista Paulo Moreira Leite. Este, escrito no dia posterior ao atentado e este, um artigo que apresenta um contexto histórico que nos oferece algumas lanternas que nos possibilitam caminhar por essas escuras vielas.
O terceiro, reproduzo abaixo, clicando em "mais informações". Trata-se da matéria da jornalista Eliane Trindade da Folha, com uma didática e imprescindível análise de Alexandra Baldeh Loras, consulesa da França em São Paulo.
A Polônia dos anos 60 ainda não havia curado as suas cicatrizes da guerra. É o que nos lembra Pawel Pawlikowski, no seu filme Ida.
Quando o filme se inicia, nos deparamos com uma tela em formato 1:37, quadrada, o que já nos coloca em um cenário diferente do que nos acostumamos com o formato widescreen que hoje, saiu do cinema para invadir as nossas televisões. O filme é, ainda, em preto e branco, naquilo que se revelará uma belíssima e adequada fotografia.
Anna é uma jovem noviça que desconhece o seu passado e que esta prestes a fazer os votos definitivos para se tornar uma freira e viver eternamente no convento em que está desde que ficou órfã. O ato é interrompido pela madre superior que a obriga a conhecer o único membro da sua família que restou: a sua tia Wanda, " a vermelha", uma juíza amargurada que carrega com dignidade a história de uma Polônia em dívida com o seu passado e que vê na bebida, no cigarro e nos encontros sexuais furtivos a razão paralela de uma vida que perdeu o sentido.
O encontro das duas escancara um choque de realidade. Para Anna, tão logo se conhecem, sem subterfúgios, a tia lhe revela que seu nome é Ida, e que ela é filha de judeus que foram mortos durante a Segunda Guerra. Para Wanda, a sobrinha é a personificação da irmã assassinada.
A busca dos corpos enterrados, será uma jornada sensível e densamente humana e se transformará no encontro e no desamparo que selará a história das duas personagens.
Um filme para sentir.
Ida, de Pawel Pawilikowski, com as ótimas Agata Trzebuchowska (Anna/Ida) e Agata Kulessza ( Wanda), em São Paulo no Cine Livraria Cultura.
O Masp ( Museu de Arte de São Paulo) é um dos temas recorrentes deste blog. Na lista dos "marcadores" esta será a 12° postagem sobre o museu. Em uma destas postagens, tratamos da política do museu, quando da saída de Júlio Neves da sua direção, depois de longos e desastrosos 14 anos. Trata-se do artigo pra não dizer que não falei de brunelleschi .
Na ocasião, lamentávamos que, mesmo com a saída de Júlio Neves, o Masp não teria uma mudança significativa já que o "continuísmo tomou corpo com a posse do ex secretário de Júlio Neves" o empresário João de Azevedo, "que já demonstrou não ter nenhuma vocação para pensar o Masp como uma instituição que formula e estimula o pensamento".
O texto fazia apenas uma ressalva amenizadora, que era a indicação para a curadoria, do professor Teixeira Coelho que iniciou uma nova agenda de exposições temáticas a partir da coleção do museu. Mas enfatizava, no entanto, que Teixeira não pretendia discutir o museu tal qual foi pensado pela sua idealizadora, a arquiteta Lina Bo Bardi.
Pois bem, parece que temos novos ares no Masp. O museu conta agora com uma nova direção. O empresário e consultor Heitor Martins, que presidiu a Bienal, é o novo presidente do Masp. E ele trouxe como novo curador, ou diretor artístico - já que contará na sua equipe com outros três curadores - o editor e ensaísta Adriano Pedrosa.
Pedrosa pretende reestruturar o museu voltando às suas origens, conforme foi idealizado por Lina.
O MASP, o principal museu do hemisfério sul e com um dos mais relevantes acervos do mundo, além de acumular uma dívida estimada em R$ 12 milhões, ficou relegado, nos últimos vinte anos, a uma condição de coadjuvante, como se fosse uma instituição menor. Martins alterou o estatuto do museu possibilitando uma mudança drástica do conselho que aumentou de 30 para 80 membros, viabilizando canais de abertura para a entrada de novas receitas. Com elas, serão retomadas as obras do anexo, que possibilitará ampliar o espaço das exposições. Mas a maior alteração será no conceito da museologia. Pedrosa já prometeu o retorno dos cavaletes de vidro de Lina, marca fundadora do MASP, e visualiza um espaço "mais penetrável", "menos opaco", ou seja, com a transparência proposta pela arquiteta. Essa "transparência" já pode ser vista na exposição "MASP EM PROCESSO, no subsolo do museu, de terça a domingo das 10 às 18h, quinta das 10 às 20h.
"Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu. Como não sou judeu, não me incomodei. No dia seguinte, vieram e levaram meu outro vizinho, que era comunista. Como não sou comunista, não me incomodei.". Mas "no quarto dia vieram e me levaram. Já não havia ninguém para reclamar".
(Martin Niemoler)
Ao ler a famosa frase do pastor luterano nascido na Alemanha e testemunha dos horrores da Segunda Guerra Mundial, simplesmente não dá para ficarmos calados diante da onda de ódio, preconceito e intolerância que toma conta de alguns setores ditos “politizados” do Brasil. Escolhermos nos calar nesse instante, significa pecarmos por omissão diante do monstro que aos poucos vai sendo fomentado por uma elite que se recusa a repartir até migalhas, quanto mais construir uma sociedade minimamente civilizada e que faça jus, ao menos, de ser chamada de democrática.
Estou lendo com muita atenção a obra recém lançada do filósofo francês Jacques Rancière“Ódio à Democracia” e é incrível perceber o quanto a conquista de direitos por minorias – entendamos por minoria os oprimidos política, cultural e economicamente – traz consigo a intolerância daqueles que antes detinham determinados privilégios.
Temos vivido isso nessas primeiras semanas pós eleições. Na verdade uma certa onda de intolerância e preconceito já nos ronda bem antes da campanha desse ano. Quem não se lembra da frase recheada de preconceitos jactada por Jorge Bornhausen em 2005? Naquela oportunidade o então senador pelo PFL de Santa Catarina expôs o sentimento de muitos dos seus confrades ao se referir ao PT, seus membros e simpatizante como “raça” – “Vamos acabar com essa raça. Vamos nos ver livres dessa raça por pelo menos 30 anos”.
Em 18 de outubro este empório postou, logo abaixo, o texto reforma e regulação . Ainda não havia saído a edição da revista Veja, mas havia a expectativa que algo estava sendo preparado. A revista que chega às bancas sempre aos sábados, antecipou a sua capa para ser disseminada na rede já na quinta-feira e vendida nas bancas na sexta, a tempo do candidato Aécio Neves ser por ela pautado na reta final da campanha - inclusive no debate - e, na tabelinha costumeira, ser repercutido no Jornal Nacional da Rede Globo, o já tradicional Jornal Nacional dos sábados anteriores às eleições nacionais.
Para quem conhece o cenário e a já tradicional tentativa de interferência da mídia nas eleições desde 1989, início do processo de redemocratização, não se surpreendeu. Quando no início da semana decisiva os dois principais institutos de pesquisa apontavam a vitória de Dilma mas com uma margem que poderia ser revertida, já se esperava a reação midiática que viria a partir da capa da Veja. Não houve, portanto, surpresa. Houve espanto. A virulência ultrapassou os limites, elevando a revista a atingir a categoria - como momeou o jornalista Paulo Nogueira, do DCM - de delinquência editorial.
O tema é antigo. Este empório já o trouxe inúmeras vezes, mas, ainda que seja antigo, o marco regulatório da mídia nunca foi tratado de maneira objetiva e não o foi, porque foi transformado pelos donos da comunicação no país como um tema tabu. E em "temas tabus", o melhor é evitá-los. Este é o recado não tão subliminar, que os donos da comunicação exortam. O estágio de delinquência editorial que a revista Veja alcançou nesta eleição, só foi atingido porque no setor, há a certeza que a eles tudo é e deve ser permitido. É a licença para matar do velho oeste, onde primeiro vem o tiro e depois a pergunta. A mídia se sente livre para assassinar reputações sem nenhuma culpa ou constrangimento.
Mas o enfrentamento dessa questão já está mais do que latente. Um marco regulatório para as comunicações é um fundamento para o avanço da democracia. Todos os países que a consolidaram, passaram por esse processo.
Essa mídia que odeia Cuba e aponta o dedo para a falta de liberdade de expressão na ilha, é a mesma que, com seu sentimento onipotente, conspira contra a verdadeira liberdade de expressão.
PS.: O jornalista e sociólogo Venício Lima lembra em artigo ( ver aqui ) que "(...) urge ser regulamentado e cumprido o parágrafo 5° da Constituição Federal do artigo 220 que reza: 'Os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio'".
Há duas proposições políticas que são fundamentais se quisermos avançar a democracia no país. Uma delas é a reforma política, colocando na pauta o financiamento público de campanha, os partidos de aluguel a fidelidade partidária entre outros temas. Uma reforma como essa, dificilmente sairá do Congresso Nacional porque interesses corporativos entrarão na discussão. A reforma terá que vir da sociedade organizada, seja através de um plebiscito ou de uma constituinte exclusiva para tratar a matéria. Essa discussão tem que, necessariamente, avançar no país. A outra proposição é a pauta da regulação da mídia. Esse tema já foi tratado neste empório várias vezes ( nos "marcadores" - vejam ao lado e mais embaixo - o tema "mídia" aparece 27 vezes, ). No artigo o risco que corremos de outubro de 2012, tratamos do posicionamento da mídia oligopolizada na relação com a Ação Penal 470, novelisticamente chamada de "mensalão".
A regulação da mídia está diretamente relacionada ao nível ou etapa do processo democrático em que um país se encontra. As grandes e consolidadas democracias europeias como, França, Alemanha, Bélgica, Holanda, Espanha, Suécia, Dinamarca, têm leis que regulam a atividade jornalística. O mesmo ocorre no continente americano, com Canadá e EUA e agora, a duras penas, na Argentina. A Inglaterra está rediscutindo a questão para estabelecer uma nova legislação a partir do escândalo que culminou com o fechamento sumário do centenário tabloide News of the World no conhecido caso Murdoch. No nosso processo democrático, ainda gatinhamos nessa matéria, e qualquer movimento no sentido de ampliação dessa discussão retumba uma reação enlouquecida das poucas famílias que controlam a comunicação do país, alegando, em causa de seus interesses, que não se pode interferir na "liberdade de imprensa" ou "liberdade de expressão". Mas a extrapolação, sobretudo das revistas Veja, Isto É e Época nas últimas semanas, excitadas com a possibilidade de uma vitória eleitoral de quem representa os seus interesses, indica que a democratização dos meios de comunicação é uma pauta urgente e que tem que ser enfrentada, ainda que se saiba dos muros espinhosos que terão que ser transpostos.
Hoje faz exatamente 41 anos da morte de Victor Jara. Diretor de teatro, professor, poeta, músico e compositor, Jara foi preso, brutalmente torturado e assassinado pela ditadura de Pinochet apenas 5 dias após o golpe de estado. O assassinado de Jara e a forma como se deu é mais uma demonstração da criminosa estupidez de que é capaz a espécie humana.
Mais uma data em agosto. Cem anos de Julio Cortázar. Em homenagem e em lembrança, publicamos um dos seus contos mais conhecidos: "Casa Tomada", de 1947 e publicado no livro "Bestiário" de 1951.
Gostávamos da casa porque,
além de ser espaçosa e antiga (as casas antigas de hoje sucumbem às mais
vantajosas liquidações dos seus materiais), guardava as lembranças de nossos
bisavós, do avô paterno, de nossos pais e de toda a nossa infância.
Há sessenta anos o presidente Getúlio Vargas pôs fim a sua vida em meio a uma enorme tensão política. Em 24 de agosto de 2010, este empório publicou um comentário junto com a Carta Testamento. Para lembrar o fato clique aqui
Abaixo, um vídeo com a leitura da Carta Testamento por Paulo Cesar Pereio.
Uma ótima notícia é a estréia do premiado "O Mercado de notícias", de Jorge Furtado, diretor de vasta filmografia, entre eles O homem que copiava, Meu tio matou um cara e o ótimo e ainda atual curta (o filme é de 1989) Ilha das Flores.
Com um humor sarcástico, Furtado abre um interessante e necessário debate sobre o papel da imprensa e o mote é uma peça escrita pelo dramaturgo inglês Ben Jonson, contemporâneo de Shakespeare, logo na fase inicial da imprensa. O roteiro intercala um diálogo instigante entre a peça, os "cases" apresentados e os depoimentos de vários jornalistas. São eles, Bob Fernandes, Cristiana Lôbo, Fernando Rodrigues, Geneton Moraes Neto, Janio de Freitas, José Roberto de Toledo, Leandro Fortes, Luis Nassif, Mauricio Dias, Mino Carta, Paulo Moreira Leite, Raimundo Pereira e Renata LoPrete.
Algumas afirmações são contundentes, como a de Janio de Freitas, que diz que “O jornalismo no Brasil é feito por empresas capitalistas interessadas no lucro, e não no futuro do jornalismo”, ou a de Bob Fernandes, "Não conheço nenhum caso recente de censura do Estado, que tanto temem. E eu conheço, e qualquer jornalista conhece, centenas de casos de censura feita pelos dono do meio de comunicação. Como é que as pessoas não dizem isso com todas as letras?”, ou ainda a de Mino Carta, “A mídia brasileira é um partido político, mas escondendo-se por trás de uma suposta isenção, ao mesmo tempo em que elege escândalos e personagens a quem crucifica impiedosamente e outros de quem oculta ou relativiza os pecados.”
O paradoxo, "compreensível", é que a imprensa tem procurado ocultar este filme e a razão é que ele é, na sua essência, a favor do jornalismo e isso tende a incomodar quem vende mas não produz jornalismo. Em um ano eleitoral, esse debate se torna ainda mais imprescindível.
Imperdível! Veja o site: http://www.omercadodenoticias.com.br/
Esta foto retrata Suhaib Hijazi de dois anos e seu irmão Muhammad de três, mortos em novembro de 2012 quando um míssil israelense atingiu a casa em que moravam em Gaza. O pai das crianças foi morto no mesmo ataque e a mãe foi internada em estado grave. Parentes, transtornados, carregavam as crianças mortas. A foto, de Paul Hansen, ganhou o prêmio da World Press Photo de jornalismo.
Lembrei desta foto porque neste momento, outras crianças também estão morrendo na Faixa de Gaza em ataques israelenses em retaliação às ações do Hamas.
Nesta última noite, pelo menos 40 pessoas foram mortas, um "massacre de civis", segundo o Ministério de Saúde em Gaza.
Os ataques aconteceram depois de um pacto de trégua. Segundo o site Ópera Mundi, "Durou pouco o cessar-fogo humanitário promovido pela Cruz Vermelha para evacuar palestinos de um bairro de Gaza. O governo de Israel e o Hamas tinham combinado neste domingo (20/07) uma trégua humanitária de duas horas no bairro de Shayahía, na cidade de Gaza, que foi intensamente bombardeado na noite de sábado." "No momento em que o exército de Israel confirmou que aceitava o cessar-fogo, uma procissão de ambulâncias e viaturas de resgate se dirigiu ao bairro. Entretanto, poucos minutos após o começo da trégua humanitária, recomeçaram as explosões, causando caos na caravana de ambulâncias.lum dia depois de o Hamas ter proposto um atrégua e Israele teria aceitado"
Desde o início do conflito, 390(*) pessoas morreram e mais de 3.000 ficaram feridas. A presidenta Dilma classificou a ofensiva israelense como desproporcional.
Não basta à Israel desconsiderar todas, absolutamente a todas as resoluções da ONU. Desconsidera também qualquer ação, como fez o governo de Netanyahu em setembro de 2011, à solicitação documental de intelectuais, cientistas e artistas, muitos deles judeus, em favor da criação do Estado Palestino, que já tem, inclusive, assento na ONU, mas que continua sendo desconsiderado olimpicamente por Israel e pelos EUA. Não há dúvidas: Israel continuará a exercer o seu impressionante poderio e fará o que bem entender e, ao que tudo indica, veremos mais fotos como essa de Paul Hansen.
(*) Hoje, 05 de agosto, já passam de 1.800 os palestinos mortos.
Chegamos ao final. Alemanha campeã e Argentina vice mais uma vez em uma das melhores Copas da história. A seleção brasileira deu vexame dentro do campo e, fora dele, demonstrou viver uma realidade paralela através das entrevistas coletivas que beiraram o patético. Se na Copa de 1982 tivemos o personagem Pacheco, nesta tivemos a Dona Lúcia, figura que se candidata a ficar no folclore do futebol nacional. Mas, se a "pátria de chuteiras" e os profetas do apocalipse que apostaram que tudo iria dar errado perderam, o Brasil ganhou e muito. A Copa foi um sucesso em todos os sentidos. Alavancou uma imagem positiva do país nos quatro cantos do mundo, com a enorme receptividade dos brasileiros; com estruturas adequadas ao evento e com grande poder de organização. Não houve pane nas comunicações (muito ao contrário: foi a Copa mais conectada da história) nem nos aeroportos; os estádios ficaram prontos, os transportes funcionaram sem solavancos, levando milhares de torcedores que acompanharam suas seleções às cidades-sede, e, mesmo as manifestações que prometiam infernizar o mês de junho se apequenaram diante do envolvimento que a Copa proporcionou.
O impacto econômico também é outra grande marca. A Isto É Dinheiro publicou estudo da Fipe/Usp (ver matéria aqui ) que indica que a Copa movimentou R$ 30 bilhões. Destes, R$ 25 bilhões foram investimentos do governo federal em infra-estrutura. Os custos com estádios representaram R$ 8 bilhões e são empréstimos do BNDES. R$ 12 bilhões foram destinados à construção de corredores de ônibus e novas vias de acessos além de R$ 7,3 bilhões para a modernização de aeroportos. São legados que ficam. Foram criados 900 mil empregos durante a Copa. O setor de turismo também teve um retorno acima da expectativa. Diz a matéria da Isto É, que a cidade de São Paulo esperava um ganho de R$ 700 milhões mas a uma semana do encerramento da Copa o volume já passava de R$ 1 bilhão. Há ainda uma pesquisa que demonstrou que a grande maioria dos turistas que aqui tiveram tem o interesse de retornar.
Enfim, agora basta esperar que o Felipão e a sua turma, descansem em paz, nos seus recantos aprazíveis e que levem com eles os milionários vasos da CBF e os apocalípticos profetas que devem estar com uma ressaca danada.
O futebol, não há dúvida, tem como principal combustível a paixão o que não significa que ele possa, e por vezes deva, ser racionalizado. A literatura tem sido prodigiosa com o tema. José Miguel Wisnik escreveu o ótimo "Veneno Remédio", editado pela Cia. das Letras. Há um livro que sempre recomendo que é o "Cuentos de Futbol Argentino", uma seleção deliciosa de contos organizados por Roberto Fontanarrosa e editado pela Alfagarra, até onde sei, sem, ainda, a tradução para o português. São 18 contos, dentre eles os de José Luis Borges e Adolfo Bioy Casares. É ótimo também "Futebol, ao Sol e à Sombra", de Eduardo Galeano editado pela LPM. Cito por fim, um grande estudo do historiador medievalista Hilário Franco Júnior, "A Dança dos Deuses, Futebol, Sociedade e Cultura" (Cia. das Letras), de onde fisgo dois trechos: "Torcer supõe alterar a configuração de um evento, moldar psiquicamente um fato para adequá-lo ao espaço do desejo", e, "No futebol, o vencedor comemora e o perdedor justifica. Como na vida. Entretanto, o futebol apresenta um fator positivo do ponto de vista psicológico: cada partida, cada temporada, oferece a esperança de um novo recomeço. Reescrever periodicamente o script da vida só é possível no futebol". Feito este preâmbulo, vou à razão desta postagem: a abertura da Copa do Mundo. Houve tempo, muito tempo para que fosse produzido algo que nos representasse, não só simbólica e culturalmente, como também pela capacidade de realização. Não sei qual foi a interferência da Fifa neste evento de abertura, mas o que se viu foi uma estereotipia vesga, fantasiada de samambaia, que faria Joãozinho Trinta, se vivo fosse, rubro de vergonha. O ápice do imbróglio, se deu quando, na abertura da bola incandescente, surgiu aquela que representou a nossa musicalidade. Para um país que produziu Villa Lobos, Chiquinha Gonzaga, Guiomar Novaes, Nelson Freire, Pixinguinha, Noel Rosa, Cartola, Elis,Tom, Vinícius, Gismonti, Gonzagão, Gonzaguinha, Caymmis, Chicos, Gils, Caetanos, Bethanias, Claras, Naras, samba, chorinho, frevo, maracatu, baião, xaxado e muito mais, fomos representados por uma escolha da indústria cultural. Mas isso não bastava. No meio de tamanha bagunça, ficou escondido aquilo que deveria ser o ponto máximo do evento: o caminhar e o pontapé inicial de Juliano Pinto, paraplégico, usando o exoesqueleto criado pelo neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis. Parece ser sintomático, nesse caldeirão, que Nicolelis ficasse renegado. Depois tivemos a apresentação, emocionante, para muitos, do patriotismo com hino brasileiro cantando à capela e regado pelas lágrimas do nosso goleiro e dos nossos zagueiros. O culto à nação, representado pela "pátria de chuteiras" alcançou outro patamar, não com as vaias, democráticas na sua natureza, mas com a agressão ignóbil, grosseira, desqualificada que uma parcela da elite, posicionada nos setores mais caros do estádio, desferiu, aos berros, à presidenta do país. Essa elite, que tem a pretensão de se apropriar e ressignificar os nossos símbolos, cantou com toda a emoção o hino nacional e talvez com a mesma empolgação, não teve nenhum constrangimento de ordem ética com a farsa burlesca impetrada pelo nosso centroavante Fred que culminou com um pênalti que nos levaria à vitória. De toda sorte, nas quatro linhas, depois de três dias de competição, a arte do futebol parece redimir os nossos pecados e os "idiotas da objetividade", para lembrar Nelson Rodrigues, vão ficando menores. Tão menores, que aquela caixinha, a "caixinha de surpresas", que tão folcloricamente já definiu o futebol, pode acondicionar todos eles.
Esaú e Jacó, além de famosos personagens bíblicos, dão nome a uma das grandes obras da literatura brasileira. O penúltimo livro de Machado de Assis, escrito 4 anos antes da sua morte, retrata a vida dos gêmeos Pedro e Paulo, irmãos antagônicos como Esaú e Jacó, como Caim e Abel, como Omar e Yaqub - do livro "Dois Irmãos" de Milton Hatoun, que este Empório já resenhou .
O propósito desta postagem é apenas para instigar a leitura do bom e velho Machado, cuja obra completa está na condição de domínio público e, assim, pode ser encontrada na íntegra na internet.
Coloco na nossa prateleira, abaixo, o Capítulo XIX que, se não explica a origem da história, e nem antecede o que virá, mostra a técnica narrativa muito particular do grande autor brasileiro, em um dos trechos mais significativos da nossa literatura.
CAPÍTULO XIX
APENAS DUAS - QUARENTA ANOS. TERCEIRA CAUSA
Um dos meus propósitos neste livro é não lhe pôr lágrimas. Entretanto, não posso calar as duas que rebentaram certa vez dos olhos de Natividade, depois de uma rixa dos pequenos. Apenas duas, e foram morrer-lhe aos cantos da boca. Tão depressa as verteu como as engoliu, renovando às avessas e por palavras mudas o fecho daquelas histórias de crianças: "entrou por uma porta, saiu pela outra, manda el-rei nosso senhor que nos conte outra". E a segunda criança contava segunda história, a terceira terceira, a quarta quarta, até que vinha o fastio ou o sono. Pessoas que datam do tempo em que se contavam tais histórias afirmam que as crianças não punham naquela fórmula nenhuma fé monárquica, fosse absoluta, fosse constitucional; era um modo de ligar o seu Decameron delas, herdado do velho reino português, quando os reis mandavam o que queriam, e a nação dizia que era muito bem.
Esta postagem não está referenciada a uma data redonda. Pelo menos não exatamente redonda. Ocorreu há pouco mais de 20 anos. Exatamente, seriam 20 anos, dois meses e cinco dias. Em 15 de março de 1994 o Jornal Nacional teve que ceder preciosos minutos para cumprir uma ordem judicial de direito de resposta à Leonel Brizola. Um momento histórico, sobretudo se pensarmos que os abusos da grande e oligopolizada mídia, continuam a cometer os abusos que atrasam o nosso processo democrático e que tornam tão importante a discussão sobre a Regulação da Mídia. Cid Moreira, a grande voz do dono, foi o responsável pela narração. Abaixo o vídeo e mais abaixo o texto de Fernando Brito contando os bastidores da ação, publicado no Tijolaço no dia da data redonda, dois meses e cinco dias atrás.
por Fernando Brito, noTijolaço
Hoje, se completam 20 anos do dia em que Cid Moreira, com seu ar afetado e
seus cabelos brancos (nem os muito velhos se lembram dele de cabelos pretos…),
começou a ler o histórico direito de resposta de Leonel Brizola no Jornal
Nacional.
Foi a penúltima vitória do guri que saiu de Carazinho para enfrentar o
mundo, um quixote gaúcho, do tempo em que os gaúchos eram quixotes e provocavam
os versos geniais do pernambucano Ascenso Ferreira: Riscando os cavalos!/Tinindo
as esporas!/Través das cochilhas!/Sai de meus pagos em louca arrancada!/— Para
que?/— Pra nada!
Se, apesar da situação econômica melhor, o sentimento é pior, claro que se trata de algo induzido.
Janio de Freitas
Com intervalo de quatro dias, dois dos jornalistas que mais respeito pela integridade e aprecio pela qualidade, Vinicius Torres Freire e Ricardo Melo, levam-me a ser mais uma vez desagradável com o meu meio.
Este texto de Laurindo Leal recupera um pouco da nossa memória roubada. A TV Excelsior era a principal emissora do país na primeira metade da década de 60. Tida pela junta militar como mais independente do que deveria ser, passou a ser perseguida e sistematicamente censurada pela ditadura. Sofreu ainda dois incêndios em uma mesma semana e, finalmente, em 1° de outubro de 1970 o falecido jornalista Ferreira Neto, a serviço da ditadura, invade os estúdios, e, ao vivo, informa aos telespectadores que a TV estava extinta. Iniciava-se ali, o reinado da Rede Globo.
"O segredo de uma velhice agradável consiste na assinatura de um honroso pacto com a solidão"
Este era Gabo: "Um homem só tem o direito de olhar um outro de cima para baixo para ajudá-lo a levantar-se".
Nesta entrevista, Ivana Bentes vai muito além dos ditames básicos do jornalismo. Ela discorreu sobre tudo ou muito daquilo que nos cerca nessa pólis contemporânea. A entrevista foi publicada na Revista Cult edição 188.
por Eduardo Nunomura
Respeitosamente vândala
Confira, na íntegra, a entrevista com a pensadora e ativista Ivana Bentes, publicada na CULT 188
“Inocente, pura e besta”. É assim que a ensaísta e professora Ivana Bentes diz ter chegado ao Rio de Janeiro, em 1980, família de comerciantes, sem sobrenome para ostentar, nascida em Parintins, no Amazonas, e tendo passado a juventude em Rio Branco, no Acre. Foi a entrada em uma universidade pública, a Escola de Comunicação (ECO) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que mudou sua trajetória.
Segundo ela, frequentar um espaço que ainda forma uma elite não foi uma inclusão, mas uma intrusão social, daquelas que fazem uma pessoa dar um salto astronômico. Foi naquele ambiente universitário borbulhante de oportunidades e desafios que Ivana foi traçando sua carreira profissional. Primeiro como redatora e ensaísta no Caderno Ideias, do Jornal do Brasil, onde teve a oportunidade de se conectar com centenas de escritores, intelectuais e pensadores. E antes escrevendo sobre cinema na revista TABU,do Grupo Estação Botafogo, o icônico cinema carioca, que deu a ela a chance de se formar cinematográfica e culturalmente e mais tarde protagonizar polêmicas como a que lançou em torno do filme Cidade de Deus e sua “cosmética da fome”. No Jornal do Brasil, entendeu o jogo de influência cultural, política e de intervenção no mercado da mídia e suas engrenagens.
No início dos anos 1990, engatou um mestrado e um doutorado na ECO, mas foi com a formação em grupos de estudo de filosofia, onde mergulhou no pensamento de Gilles Deleuze, Michel Foucault e mais recentemente Antonio Negri, que pôde perceber o poder de mobilização dos conceitos. Na ECO, onde entrou como aluna, se tornou professora da pós-graduação e diretora, tendo como professores e depois colegas Muniz Sodré, Márcio Tavares d’Amaral, Emanoel Carneiro Leão, Heloísa Buarque de Hollanda. Percebeu rapidamente que a Universidade só faria diferença se fosse o ambiente para o surgimento de formadores de opinião, críticos, pensadores e agentes de transformação e não formar o profissional fordista substituível das redações. Entre 2006 e 2013, ela assumiu a direção da ECO decidida a usar o grande laboratório universitário para radicalizar práticas democráticas, estimulando os alunos a participarem de ações de ativismo, movimentos culturais e sociais da cidade, redes de mídia e cultura.
Nesta entrevista, Ivana Bentes discute as novas diretrizes para os cursos de jornalismo, política e comunicação, o midialivrismo, a sociedade em rede e as mutações pós-mídiasdigitais. Para ela, se o capitalismo é comunicacional, a revolução terá que ser também midiática. Ciente da importância do campo das Comunicações nos dias de hoje, para muito além dos bancos universitários, a professora afirma que há momentos em que é preciso sair do figurino acadêmico para poder se comunicar e falar para o público fora da academia. Talvez por isso a jovem “inocente, pura e besta” topou posar para a foto dessa reportagem numa pose que ela chama de “respeitosamente vândala”. (clique em "mais informações" para ler a entrevista)
Nesta segunda, 31 de março a partir das 9 horas, a Comissão estadual da Verdade Rubens Paiva organiza o ato Ditadura Nunca Mais: 50 anos do golpe militar que se realizará no antigo prédio do DOI-CODI, na rua Tutóia 921 em São Paulo. Aqui, o link que traz todas as informações além do manifesto na íntegra.
Há cinquenta anos, em 31 de março de 1964, o Brasil sofreu um golpe militar, instigado e apoiado por uma elite civil burra. Esta lembrança é necessária porque a democracia no país é ainda um processo não consolidado. Falamos um pouco sobre isso no artigo o risco que corremos em outubro de 2012. Há ainda outras postagens que trataram do tema, como a última vitoria da ditadura em maio de 2010, ou, militares, os fardados e os de pijama há exatos dois anos, em março de 2012. Mais recentemente, em dezembro de 2013, publicamos a postagem Jango e a história fabricada e também fizemos a resenha crítica do filme 1964: um golpe contra o Brasil de Alípio Freire.
Este empório sugere, ainda, um extenso e importante artigo/reportagem do jornalista Luiz Cláudio Cunha publicado na revista Brasileiros, edição de janeiro de 2014, que causou grande repercussão. Cunha se deteve a analisar as razões do mea culpa da Rede Globo em relação à ditadura brasileira e do posicionamento crítico dos militares na ativa da Argentina, do Chile, e do Uruguai em relação aos regimes militares em seus respectivos países, em contrapartida à posição dos militares brasileiros. O artigo "Por que os militares não imitam a Rede Globo" pode ser lido aqui .
Abaixo, uma entrevista de Anivaldo Padilha, pai do ex ministro Alexandre Padilha, concedida à Antonio Abujamra no seu programa "Provocações". A segunda parte pode ser vista acessando o link abaixo do vídeo.
Aos 91 anos, Alain Resnais estava em plena atividade. Recentemente escreveu e dirigiu "Amar, beber e cantar", premiado no festival de Berlim e trabalhava e um novo filme. Criador de mais de 50 filmes, a estrela da Nouvelle Vague deixou algumas obras primas. "Hiroshima, meu amor", "O ano passado em Marienbad", "Providence", entre muitos outros, marcaram a história do cinema. Este empório comentou em agosto de 1997, o filme "Medos privados em lugares públicos". Veja aqui .
Cinéfilos de todo o mundo de luto.
Entrevista/debate com Franklin Martins. Programa Contraponto da TV do Sindicato dos Bancários com parceria do Centro de Mídia Alternativa Barão de Itararé.
Abaixo o link para a discussão sobre o marco civil da internet:
http://www.youtube.com/watch?v=xazWpZgh41Y
Putz! Que notícia! Acaba de ser assassinado Eduardo Coutinho. Em novembro de 2007 este Empório comentou sobre o filme Jogo de cena, dizendo na época que "Eduardo Coutinho, reeducando o olhar, é a luz do cinema nacional."
O diretor de "Cabra Marcado para Morrer" nos deixa aos 80 anos.
Em julho de 2011 escrevi a crítica sobre o filme Cópia Fiel de Abbas Kiarostami. Lembrei deste filme porque o diretor iraniano nos leva a uma viagem que tem como ponto de partida o conceito de "cópia". Este não é o tema de "A grande beleza", filme do diretor italiano Paolo Sorrentino, mas ele foi acusado - é bem verdade que por uma minoria de críticos - de fazer uma cópia, atualizada ( o que seria o único atenuante) de Fellini, sobretudo de A Doce Vida. Bobagem! Isso me parece resvalar em saudosismo reverencial e mitificador ao grande mestre. Fellini não precisa disso. Sorrentino não esconde em momento nenhum a sua fonte. Nela se alimenta e dela segue seu caminho. Como escrevo este texto no momento em que o filme já esta saindo de cartaz, muito já foi dito e não há muito a acrescentar, apenas, talvez, uma subjetividade amarga...de que o que Sorrentino nos traz é uma história universal que aponta para o sentido, ou falta dele, da vida. Em um dado momento o filme se sintetiza e somos lembrados que tudo termina da mesma forma: com a morte, "mas primeiro havia a vida", sempre escondida nas palavras, nas conversas que nos colocam no mundo. "Está tudo sedimentado nos falatórios e rumores", que perpassam nos silêncios, nos sentimentos, nos medos e nas emoções. E tudo envolto pelos "insignificantes e inconstantes lampejos de beleza". Mas depois há "a miséria desgraçada e o homem miserável (...) sepultado sob a capa do embaraço de estar no mundo". É preciso assim, falar, falar, falar até que as palavras não façam mais sentido. Até que a vida se desenlace pelas futilidades cotidianas que nos carregam pelo tempo finito, sem um Deus a nos guiar, aqui sim, como em Fellini, de A Doce Vida. O "Aparelho humano" é o livro sobre o qual nada sabemos. É o livro que Jep Gambardela, a figura central do filme, escreveu há muito tempo. (O nome parece sugestionar o livro "A Condição Humana" de Hannah Arendt que, coincidência ou não, trata da vida condicionada ao mundo, com todos os elementos que levam o homem a se integrar à esfera pública.). O que sabemos apenas, é que, seja lá do que trate o livro, ele marcou um momento e fez do escritor, de um único livro, o personagem de si mesmo. Aquele que vagueia por Roma como o notívago que desvenda a dualidade da melancolia associada a confortante beleza que a cidade pode conceder. O filme é belo fotograficamente, e traz uma Roma- personagem do filme -, ainda que decadente, esplendorosa. O simbolismo do moderno apartamento de Jep Gambarlela, que da varanda tem a vista para o Coliseu me parece dizer que o absurdo - nos mesmos moldes de que nos falou Albert Camus - não se prende a uma época; ele faz parte da história da humanidade e neste aspecto, Sorrentino pede licença e se descola de Fellini. Um filme dos grandes!