terça-feira, 29 de dezembro de 2009

aula show

Fisguei, e coloquei nas duas postagens abaixo, dois de oito vídeos de uma das aulas shows de José Miguel Wisnik com as preciosíssimas participações de Arthur Nestroviski e Paula Morelenbaum (e também do Johnny Walker Red Label).
O caminho percorrido é Vinícius de Moraes, mas no vídeo Parte II (4/4) um atalho para Jorge Helder e Chico Buarque.
Vale muito assistir aos outros vídeos acessando
os links que completam a aula show:
Parte I (2/2) http://www.youtube.com/watch?v=ktXbVcSzu30&feature=related
Parte II (1/4) http://www.youtube.com/watch?v=mONtGbKMTUA&NR=1
Parte II (2/4) http://www.youtube.com/watch?v=QQERzPPRFEE&NR=1
Parte II (4/4) http://www.youtube.com/watch?v=r7u0D28RDI0&feature=related
Parte III(1/2) http://www.youtube.com/watch?v=ss35HZ4jTs8&feature=related
Parte III (2 / 2) http://www.youtube.com/watch?v=GUpgv72GFWc

palavra e música - parte II (3/4)

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

nara leão - ensaio

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

depois de matisse, outros grandes mestres








Em São Paulo há sempre muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo e nem sempre é possível acompanhar tudo. Mas, para os aficionados das artes, há mais duas exposições, além do Matisse - cuja exposição já falei um pouco abaixo -, com aberturas nesta semana que são imperdíveis. No Centro Cultural Banco do Brasil a exposição Vanguarda Russa, com obras de Malevitch, Kandinsky e Chagall, entre muitos outros. No Sesc Pinheiros a exposição do (mítico) fotógrafo Henri Cartier Bresson, mais um evento das comemorações do ano da França no Brasil.



1. Acima à esquerda, foto de Henri Cartier Bresson
2. Acima à direita obra de Kandinsky
3. À esquerda, obra de Chagall
4. À direita, obra de Maliévitch








terça-feira, 1 de setembro de 2009

saramago


Que pena! O Saramago está se despedindo do seu blog, “O Caderno de Saramago” cujo link há tempos coloco aí ao lado e no qual ele expressava quase que diariamente, desde o dia 15 de setembro de 2008, artigos com suas opiniões e reflexões pessoais. Abaixo, a sua despedida:
Despedida
Agosto 31, 2009 por José Saramago
Diz o refrão que não há bem que sempre dure nem mal que ature, o que vem assentar como uma luva no trabalho de escrita que acaba aqui e em quem o fez. Algo de bom se encontrará neste textos, e por eles, sem vaidade, me felicito, algo de mal terei feito noutros e por esse defeito me desculpo, mas só por não tê-los feito melhor, que diferentes, com perdão, não poderiam eles ser. Às despedidas sempre conveio que fossem breves. Não é isto uma ária de ópera para lhe meter agora um interminável adio, adio. Adeus, portanto. Até outro dia? Sinceramente, não creio. Comecei outro livro e quero dedicar-lhe todo o meu tempo. Já se verá porquê, se tudo correr bem. Entretanto, terão aí o “Caim”.
P. S – Pensando melhor, não há que ser tão radical. Se alguma vez sentir necessidade de comentar ou opinar sobre algo, virei bater à porta do Caderno, que é o lugar onde mais a gosto poderei expressar-me.

sábado, 22 de agosto de 2009

mutações: a experiência do pensamento

Já se vão mais de 20 anos, e o incansável professor Adauto Novaes continua atento aos dilemas que cercam a humanidade. “Os sentidos da paixão”, “O olhar”, “O desejo”, “Ética”, “Tempo e História”, “Rede imaginária – televisão e democracia”, “Artepensamento”, “A crise da razão”, “Libertinos/libertários”, “A descoberta do homem e do mundo”, “O silêncio dos intelectuais”, foram alguns dos temas abordados ao longo desse percurso, discutidos sempre por pensadores das mais diversas áreas: filósofos, sociólogos, artistas, cientistas, psicanalistas. A maioria dos ciclos foram publicados em livros.

Nesta semana teve início o ciclo de conferências “Mutações: a experiência do pensamento”, que reunirá 21 intelectuais em torno de um tema: “o que é pensar hoje?”.
Neste ano, além de Rio e São Paulo, o ciclo será levado também para Belo Horizonte e, em versão reduzida, para Brasília. “A experiência do pensamento” é o quarto ciclo dentro da série “Mutações”.
Em 2008 as conferências refletiam sobre as formas como a tecnociência transforma o corpo e a condição humana. Este ano os debates tratam do lugar do pensamento e dos próprios intelectuais num mundo em constante mutação. Novaes nos diz:— O momento que o Ocidente vive hoje não é uma crise, é uma mutação, provocada pela revolução científica e tecnológica. E essa revolução é diferente das anteriores, porque afeta o próprio homem. As conferências vão refletir sobre os impasses colocados nesse momento. E completa: A ciência e a técnica estão de um lado e o pensamento, de outro. A ciência não pensa, calcula; a filosofia pensa. No mundo contemporâneo, a técnica avança, mas o pensamento vai a reboque. Quando tudo pode ser calculado, o pensamento se torna superficial e há uma predominância do fato sobre o pensamento. O intelectual engajado desapareceu. A esfera pública mudou; a universidade, a imprensa e o poder mudaram. O intelectual não tem mais a palavra, não tem interlocutores. Assim, ele tende a desaparecer e ser substituído pelo técnico, que pode falar especificamente sobre um tema. Mas perde-se aquele que pode fazer a síntese.
Na conferência de abertura, quarta-feira em São Paulo, no auditório do SESC Av. Paulista, o professor de literatura e músico José Miguel Wisnik discorreu sobre o “pensar em pessoa”, trazendo o universo de Fernando Pessoa e seus heterônimos pensantes. “Sentir é compreender. Pensar é errar (“errar”, explica Wisnik, no sentido de errância, de fluxo). Compreender o que outra pessoa pensa é discordar dela. Compreender o que outra pessoa sente é ser ela.”¹
Nada poderia ser melhor para iniciar o ciclo. Um público absolutamente fisgado pelo Zé Miguel navegando no mar português de Fernando Pessoa.

¹De “Reflexões paradoxais, Obra em prosa, Nova Aguilar, 1982, p.37.

matisse na pinacoteca








A partir de 5 de setembro, a Pinacoteca de São Paulo será colorida por 80 obras do mestre (e rival de Picasso) Henri Matisse.
A mostra trará ainda, pinturas, esculturas, desenhos, gravuras e papéis recortados dos artistas Cécile Bart, Christophe Cuzin, Frédérique Lucien, Pierre Mabille e Phillipe Richard, cinco representantes da arte contemporânea francesa. Imperdível!




sábado, 27 de junho de 2009

vermeer

Neste quadro, "A Leiteira", Johannes Vermeer - o mestre holandês que viveu no século 17 - nos apresenta uma cena do cotidiano. Cenas do cotidiano feminino eram basicamente o seu tema, sempre permeados por composições de luzes e sombras que nos remetem a uma atmosfera muito peculiar. Há quem o aponte como um pintor realista. Não vejo nada de real. Em Vermeer só vejo poesia.

domingo, 10 de maio de 2009

são vito

a rede



homem na escada

sábado, 9 de maio de 2009

fresta


uma fresta na porta é nossa quando do vento que há, um instante nos cerca

quando um matiz de luz leva os olhos pra além do pensamento

quando uma fisgada atravessa os insetos zumbindo

e o negro que nos cobre una a carne e a memória.

domingo, 28 de dezembro de 2008

billie holiday, lady sings the blues

Fui fazer uma edição e não sei o que fiz, e o filminho direto do Youtube sumiu desta e das postagens anteriores. Assim, coloco apenas os links. (É duro não entender desse troço!):
http://www.youtube.com/watch?v=YtqjW2uhBT4

domingo, 9 de novembro de 2008

pantanal



Eu e Cláudia fizemos um retiro de uma semana no Pantanal. Do nosso safári, alguns registros:


Um macaco prego e uma sequência de jacarés abaixo


Um socó secando as asas


Tuiuiu, o símbolo do Pantanal, é uma ave de grande porte, mede aproximadamente três metros de uma ponta da asa a outra e pode chegar até 1 metro e 60 de altura
Ó ele aí de novo

Uma garça maguari, a maior garça brasileira


Uma garça maguari alçando vôo

Um gavião preto ao cair da tarde

sábado, 27 de setembro de 2008

brasil

Mapa do Brasil

foto: gê césar de paula


São Conrado, área nobre do Rio de Janeiro.
Ao fundo a Rocinha.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

pedaços de tempo (3)



um pão

no fundo

do armário

alimenta

o

tempo

faminto


terça-feira, 9 de setembro de 2008

pedaços de tempo (2)


molas pra lá
parafusos pra cá
engrenagens confusas

no meio o menino
que jogou o relógio
no chão

ele queria conhecer
o tempo

domingo, 7 de setembro de 2008

pedaços de tempo (1)




a bicicleta
parada

na aragem
descansa

no meio
do
tempo








foto:gê césar de paul 
 

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

as águas do mundo

Aí está ele, o mar, o mais ininteligível das existências não humanas. E aqui está a mulher, de pé na praia, o mais ininteligível dos seres vivos. Como o ser humano fez um dia uma pergunta sobre si mesmo, tornou-se o mais ininteligível dos seres vivos. Ela e o mar. Só poderia haver um encontro de seus mistérios se um se entregasse ao outro: a entrega de dois mundos incognoscíveis feita com a confiança com que se entregariam duas compreensões. Ela olha o mar, é o que se pode fazer. Ele só lhe é delimitado pela linha do horizonte, isto é, pela sua incapacidade humana de ver a curvatura da terra. São seis horas da manhã. Só um cão livre hesita na praia, um cão negro. Por que é que um cão é tão livre? Porquê ele é o mistério vivo que não se indaga. A mulher hesita porque vai entrar. Seu corpo se consola com sua própria exigüidade em relação a vastidão do mar porque é a exiguidade do corpo que o permite manter-se quente e é essa exigüidade que a torna livre gente, com sua parte de liberdade de cão nas areias. Esse corpo entrará no ilimitado frio que sem raiva ruge no silêncio das seis horas. A mulher não está sabendo: mas está cumprindo uma coragem. Com a praia vazia nessa hora da manhã, ela não têm o exemplo de outros humanos que transformam a entrada no mar em simples jogo leviano de viver. Ela está sozinha. O mar salgado não é sozinho porque é salgado e grande, e isso é uma realização. Nessa hora ela se conhece menos ainda do que conhece o mar. Sua coragem é a de , não se conhecendo, no entanto prosseguir. É fatal não se conhecer, e não se conhecer exige coragem. Vai entrando. A água salgada é de um frio que lhe arrepia em ritual as pernas. Mas uma alegria fatal - a alegria é uma fatalidade - já a tomou, embora nem lhe ocorrera sorrir. Pelo contrário, está muito séria. O cheiro é de uma maresia tonteante que a desperta de seus mais adormecidos sonos seculares. E agora ela está alerta, mesmo sem pensar, como um caçador está alerta, mesmo sem pensar. A mulher é agora uma compacta e uma leve e uma aguda- e abre caminho na gelidez que, líquida, se opõe a ela, e no entanto a deixa entrar, como no amor em que a oposição pode ser um pedido. O caminho lento aumenta as coragem secreta. E de repente ela se deixa cobrir pela primeira onda. O sal, o iodo, tudo líquido, deixam-na por uns instantes cega, toda escorrendo- espantada de pé, fertilizada. Agora o frio se transformou em frígido. Avançando, ela sobre o mar pelo meio. Já não precisa da coragem, agora já é antiga no ritual. Abaixa a cabeça dentro do brilho do mar e retira uma cabeleira que sai escorrendo toda sobre os olhos salgados que ardem. Brinca com a mão na água, pausada, os cabelos ao sol quase imediatamente já estão endurecendo de sal. Com a concha das mãos faz o que sempre fez no mar, e com altivez dos que nunca darão explicação nem a eles mesmos: com a concha das mãos cheia de água, bebe em goles grandes, bons. E era isso o que estava lhe faltando: o mar por dentro como o líquido espesso de um homem. Agora está toda igual a si mesma. A garganta alimentada se constringe com o sal, os olhos avermelham-se pelo sal secado pelo sol, as ondas suaves lhe batem e voltam pois ela é um anteparo compacto. Mergulha de novo, de novo bebe mais água, agora sem sofreguidão pois não precisa mais. Ela é a amante que sabe que terá tudo de novo. O sol se abre mais e arrepia-a ao secá-la, ela mergulha de novo: está cada vez menos sôfrega e menos aguda. Agora sabe o que quer. Quer ficar de pé parada no mar. Assim fica pois. Como contra os costados de um navio, a água bate, volta, bate. A mulher não recebe transmissões. Não precisa de comunicação. Depois caminha dentro da água de volta à praia. Não está caminhando sobre as águas- ah, nunca faria isso depois que há milênios já andaram sobre as águas- mas ninguém lhe tira isso: caminhar dentro das águas. Às vezes o mar lhe impõe resistência puxando-a com força para trás, mas então a proa da mulher avança um pouco mais dura e áspera. E agora pisa na areia. Sabe que está brilhando de água , e sal e sol. Mesmo que o esqueça daqui a uns minutos, nunca poderá perder tudo isso. E sabe de algum modo obscuro que seus cabelos escorridos são de náufrago. Porque sabe - sabe que fez um perigo. Um perigo tão antigo quanto o ser humano.
Clarice Lispector. In: Felicidade Clandestina

sábado, 19 de abril de 2008

portela


Existem coisas difíceis de explicar. Por que sou Portela, por exemplo? Talvez, entre tantas coisas, por esta música: http://www.paixaoeromance.com/70decada/foi_um_rio/h_foi_um_rio.htm Mas talvez seja por ela

http://www.youtube.com/watch?v=8CLeUlZXvfE&feature=related

Acho que, de fato, não há explicação..

viola enluarada



O ano era 1967. Anos bicudos aqueles! Estávamos a um ano do AI5 e o cenário musical brasileiro fervia. Os irmãos Paulo Sérgio Valle e Marcos Valle (na foto nos anos 60) fizeram esta pequena obra prima:

http://www.paixaoeromance.com/60decada/viola/hviola.htm

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

schopenhauer?

O poema da postagem anterior, é de Helena Schopenhauer Borges, personagem que conheci no sítio da Márcia Tiburi ( http://www.marciatiburi.com.br/ ), professora de filosofia e já bastante conhecida por suas aparições na telinha. A descrição e a trajetória de Helena, eu deixo por conta da própria Márcia Tiburi, num texto extraído do seu sítio. Vale a pena uma visita por ali, não só para a descoberta de outros poemas, como também pelos depoimentos de pessoas que, de alguma forma, tiveram alguma interação com esta instigante personagem.


Helena Schopenhauer Borges suicidou-se em 1977 aos 45 anos em Santana do Livramento no interior do Rio Grande do Sul, fronteira com o Uruguai. Viveu nas ruas a partir de seus quatorze anos passando esporádicos períodos no hospício da cidade vizinha Rivera (Hospital de La Santíssima Luz) fechado em final dos anos sessenta, sendo transferidos os poucos internos de nacionalidade brasileira para o hospital de Ana Rech próximo a Caxias do Sul. Seu registro de nascimento diz que foi bisneta de Amália Schopenhauer, parente de Arthur Schopenhauer, o filósofo, herdeira de alguns de seus bens (uma caneta de ouro do tio distante com suas iniciais e dois livros com dedicatória, bem como uma soma em dinheiro que não ficou especificada nos documentos que pudemos compilar) com os quais veio ao Brasil junto aos colonos alemães que chegaram para povoar a serra gaúcha em 1835. A família tentou a sorte na fronteira distante. Sua chegada data de 1844 junto aos pais Caspar e a mãe Tessa para casar-se com Lúcio Borges, promissor dono da funerária local, descendente de açorianos. Teve nove filhos e entre eles, Maria, a mais nova de todas nascida quando a mãe já era avó em 1870 e filha de um escravo alforriado pela própria Amália que se tornou viúva relativamente cedo. Maria foi mãe de Letícia, Suetônia e Laura, nascida em 1910 e que, após parir Helena, bastarda depois de três filhas legítimas, foi internada pelo próprio marido, um tal Leitão Pandolfo num hospício no interior de Mostardas morrendo ali em data não sabida. Maria, ao que consta, era poeta, deixou antes de partir para o sanatório, alguns poemas inacabados. Helena nasceu em 1932. Não sendo adotada pelo padrasto enraivecido, foi registrada com o nome da mãe. O pai desconhecido era uma verdadeira ferida social naqueles tempos de moralismos ferrenhos. Helena foi criada pela nova esposa, cujo nome não é mencionado em documento algum, que foi mãe de outros 12 filhos do traído Leitão. A pequena Helena cresceu no esquecimento, sobrevivendo ao discurso torpe sobre sua origem indecente.



Os textos de Helena, dos quais aqui apresento uma amostra do que pude ler até agora, são o conjunto de seu espólio que me foi confiado em 2005 por um grupo de professoras de língua portuguesa da distante cidade gaúcha, que vinham reunindo os escritos em diferentes estágios de destruição pelo tempo, pelo armazenamento. Apresento os textos atualmente com algumas correções e até mesmo interferências de meu próprio trabalho de linguagem, já que há nele um rumor inovador, algo de antigo e louco que me cativa. Posso dizer que eu gostaria de refazer sua obra, rica em imagens e sentimentos com intensa atualidade, ainda que inacabada, talvez por isso mesmo.



Não sei que rumo irá tomar, pois pude avaliar apenas uma parte do espólio que, notei, ainda que sem tempo de debruçar-me sobre sua totalidade, está dividido entre os textos assinados por Helena Borges, seu nome verdadeiro, e outros assinados por Helena Schopenhauer, seu nome não exatamente verdadeiro, mas possível devido a seu ancestral remoto. O que a teria levado a assinar com tal nome é algo que ainda não decifrei. O material chegou até mim em 5 caixas cuidadosamente organizadas pela Professora Dra. Luciana Argêntea da Luz e suas alunas Beatriz Braz Vargas e Aletéia Pessoa, a quem agradeço, em diversas pastas de papel pardo que ainda devo abrir. Ao telefone afirmaram que não podiam mais guardar um material tão precioso em condições precárias de pesquisa e sem ajuda institucional. É a situação da história da literatura no Brasil. Nas pastas que pude abrir vejo que há textos que não são de Helena, mas que, certamente, eram sua leitura, como um livro todo de Mary Wollstonecraft, Mary Albany e Juliette Donnée, em inglês e francês como se lia na época em que a literatura brasileira era coisa para poucos.

helena schopenhauer borges

Insones
Canto amaldiçoado em ré menor


Páris,
Como sofro longe dos teus olhos descansados
Eu viveria em teu túmulo
Se deixassem que eu fosse a terra a proteger teus ossos do frio.

Me guardam o dia todo dentro de um vaso de lama e moscas
voam ao meu redor


Guardaria teus olhos de vidro dentro de um copo de cristal
Olharia para eles todos os dias antes de dormir
Rezando atrás das vozes inéditas das borboletas

Choraria
Sabes bem que eles me trancaram longe de tudo o que posso ver
Nem a ti
Com quem me casaria
Em silêncio
E para sempre
hoje sonhei com tuas mãos abrindo a janela e vindo salvar
a tua amada.

1. Inventei um jeito de sair do tempo
Com o relógio da parede
Foi só arrancar os ponteiros
Estavam parados e era preciso limpar com força e vontade


Lavar cada número com um pano molhado
Não havia água e eu usei saliva
Não ficou muito limpo
Deu para apagar a memória

Era o mais importante

Agora que não tenho mais passado, terei futuro?

Desde que estou aqui com minha janela quadrada e
os que passam para todos os lados
o dia todo como loucos sei que estou fora do tempo

Quem ainda precisa disso?

2.

Maria Amélia está sobre as asas, barriga para cima, gorda e seca
E se pudesse me ver veria os olhos arregalados
As asas seriam mais leves
Eu esperaria sem vontade de sair

Do teu campo de visão
Entre uma parede e outra,
Entre os tijolos
O pó e o pó

3.

Disse-nos o homem que é ao pó que retornaremos
Eu não vou esperar o apocalipse
Não quero ver meus dentes sobre a terra
Nem a faca sobre o mármore explicando o fio de sangue
Não quero ver onde fui com os dedos apertados
esperando que me atendessem as preces
Eu que já acreditei em deus
Agora acredito nas múmias e nas cartas que dizem o futuro

E o escuro passa tapeando o meu campo de visão
As sementes do inverno acrescem-se de dízimos

Homens se mabarba vem despertar os não dormidos
É o tempo da noite
Que se planta e se resume a ver e ver
Por todos os lados evitam nosso olhar
Evitam ouvir
Evitam saber que entre o céu e nosso lar há
somente a erva das sepulturas

4.
Quando viajo entre os terrenos baldios da memória
O que vejo são paisagens de sangue
Meu pai de olhos estalados
Solto de seu pescoço
A mãe justifica-se sobre a pedra
E os irmãozinhos saltam uns sobre os outros
como se nada tivesse acontecido

Vem os homens de preto com as capaz de lã,
Advogam a própria pele e o direito de usufruir
sobre as filhas dos pobres
Derramam sobre elas a lama da morte
Eia,
Aqui tudo é deste reino
Ninguém se confunde, ninguém teme os fins e o sincero
veio por onde escorre o veneno de todos conhecido
Minha mãe ri para mim do outro lado do inferno
Eu grito,
Mãe, o que fazes aí?
Ela apenas sorri
A dobrinha do sarcasmo não abandona seus olhos claros
Eu vejo que me acena com uma vara de vime e os
caniços à beira da água são de outro mundo
Digo-lhe, mãe, foste encerrada
Estas enganada
Estás com medo?
Repete-se a frase por muitos dias
E nenhuma resposta resvala daqueles olhos

5.
Há morte e luz nos dedos de Paris
Me faz acordar a noite toda e rever seus contornos
Para que não se vão.
Espero cativa de seus gestos
Dos sons que emanam de seus moveres
Silenciosos
Acordes
Levitam sobre meus pés os meus corpos todos,
todos os corpos que conhecem Paris
Todos os corpos que ameaçam fugir quando Páris não está
O que dizer a Paris para que fique e
colha a eternidade como sempre fez?
Antes que Maria Amélia recolha-os para o fim do mundo.

ausência


Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
Carlos Drumond de Andrade

minha vida no campo


Por quase dois anos, no início dos anos 90 – lá no século passado -, morei em uma chácara no interior de São Paulo, na zona rural de Jacareí. Os vizinhos eram poucos e esparsos. Eu não tinha telefone; a televisão virou um móvel para apoiar objetos, já que, por ser um vale, não captava nenhuma imagem. Eu tinha uma vitrola, alguns discos e os meus livros. Entre estes, Kierkegaard, Nietzsche, Shopenhauer, Clarisse Lispector..., o que, convenhamos, não são lá leituras para, digamos, um “descanso no campo”. Alguns dos amigos que fiz por lá, não seriam, vamos assim dizer, as pessoas mais recomendadas para se levar para almoçar na casa da mãe num domingo. Por vezes, escutava uma trovoada de rojões, o que indicava que a encomenda dos meus amigos estava à disposição. Lembrando sempre do ditado “amigos, amigos, negócios à parte”, a minha estratégia era não misturar os negócios: eu contava umas histórias a eles que por vezes os divertiam; não consumia deles, nada que pudessem me fornecer, além de umas singelas cachacinhas, e tão pouco me colocava à disposição para ser um representante de vendas da promissora empresa. Dessa forma, e diante da minha franciscana vida, não me importunavam e, mais do que isso, estabeleciam ordens para ninguém me importunasse. Com a tranqüilidade conquistada e com sobra de tempo, cultivava hortaliças; revisava textos acadêmicos; capinava o mato; chupava manga coquinho no pé e, por vezes, rascunhava poemas, como este:


Primeiro Balanço

Após dois meses de exílio campestre,
nada se pode esperar.
Mudamos as roupas
por outras,
abertas e despretensiosas
os costumes
por outros, rupestres, como pintar à cal, pés de mangueira

Mudamos a relação com o tempo

Contamos as rúculas do quintal
como os homens místicos
que contam estrelas.

Não há lucidez no que fazemos.
Nem mesmo no tempo,
que por ser mais lerdo,
segura para si quase tudo que há:
as sementes que plantamos,
as palavras jogadas
e uma parcela do ar,
que engolimos.




Gê César de Paula


Veraneio Ijal, Jacareí, São Paulo, 18 de novembro de 1990.

sábado, 29 de dezembro de 2007

grupo corpo

Ficha Técnica

Ficha técnica da coreografia do Grupo Corpo, postado abaixo:

Xiquexique (Tom Zé e Zé Miguel Wisnik) Vozes: Arnaldo Antunes, Nà Ozzetti, Luanda, Nilza Maria, Tom Ze, Zé Miguel Wisnik, Paulo Tatit Sanfonas.: Toninho FerraguttiViolão e Baixolão: Gilberto Assis Bandolim: Jarbas MarizGuitarra: Marco Prado Percussão: Marcos SuzanoFontes (bochexaxado, bexiguinha no dente): Tom Zé, Neto.

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Outros equívocos...


Clarisse Lispector ?


Não te amo mais


Estarei mentindo dizendo que
Ainda te quero como sempre quis
Tenho certeza que
Nada foi em vão
Sinto dentro de mim que
Você não significa nada
Não poderia dizer mais que
Alimento um grande amor
Sinto cada vez mais que
Já te esqueci
E jamais usarei a frase
Eu te amo
Sinto, mas tenho que dizer a verdade
É tarde demais...

Não, Clarisse não cometeria este poema, mas na Internet jogaram-lhe a bomba no colo. Há outro “poema” famoso, “Procura-se por um amigo”, que prefiro não reproduzir, que alguém culpou o Vinícius de Moraes por tê-lo feito. Eu digo que o poetinha é inocente.

O Instante, que Borges não só escreveria, como escreveu


EL INSTANTE:

¿Dónde estarán los siglos, dónde el sueño / de espadas que los tártaros soñaron, / dónde los fuertes muros que allanaron, / dónde el Árbol de Adán y el otro Leño? / El presente está solo. La memória / erige el tiempo. Sucesión y engaño / es la rutina del reloj. El año / no es menos vano que la vana historia. / Entre el alba y la noche hay un abismo / de agonías, de luces, de cuidados; / el rostro que se mira en los gastados / espejos de la noche no es el mismo. / El hoy fugaz es tenue y es eterno; / otro Cielo no esperes, ni otro Infierno.


Aqui, trata-se de Borges.

Equívocos literários (3)


Da mesma forma que “Instantes”, que comento na postagem abaixo, “Marionete” é um poema em prosa que não guarda nenhuma relação com o autor a quem alguém pretendeu destinar a autoria: Gabriel García Márquez. O que intriga é que os dois poemas tratam do mesmo tema, um olhar histórico e revisionista sobre si mesmo num embalo de mensagem de vida, muito em moda. Borges nunca escreveria “Instantes”; Garcia Marques nunca escreveria “Marionete” e George Bush nunca escreveria Ana Karenina.

Marionete



Se por um instante Deus se esquecesse de que sou uma marionete de trapo, e me presenteasse um pedaço de vida, possivelmente não diria tudo o que penso, mas definitivamente pensaria tudo o que digo.

Daria valor às coisas, não pelo que valem, senão pelo que significam. Dormiria pouco e sonharia mais, entendo que por cada minuto que fechamos os olhos, perdemos sessenta segundos de luz.

Andaria quando os demais se detêm, despertaria quando os demais dormem, escutaria enquanto os demais falam, e como desfrutaria de um bom sorvete de chocolate...

Se Deus me obsequiasse um pedaço de vida, me vestiria com simplicidade, me atiraria de bruços ao sol, deixando descoberto, não somente meu corpo, mas também minha alma. Deus meu, se eu tivesse um coração.... Escreveria meu ódio sobre o gelo, e esperaria que saísse o sol.

Pintaria com um sonho de Van Gogh sobre as estrelas um poema de Benedetti,e uma canção de Serrat seria a serenata que ofereceria à lua. Regaria com minhas lágrimas as rosas, para sentir a dor de seus espinhos,e o encarnado beijo de suas pétalas...

Deus meu, se eu tivesse um pedaço de vida... Não deixaria passar um só dia sem dizer à gente que quero, que a quero. Convenceria a cada mulher e homem de que são meus favoritos e viveria enamorado do amor.

Aos homens provaria quão equivocados estão ao pensar que deixam de enamorar-se quando envelhecem, sem saber que envelhecem quando deixam de se enamorar. A uma criança daria asas, mas deixaria que ela aprendesse a voar sozinha. Aos velhos, a meus velhos, ensinaria que a morte não chega com a velhice, mas com o esquecimento.

Tantas coisas aprendi de vocês, homens..... Aprendi que o mundo todo quer viver no alto da montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está na forma de subir a escarpa. Aprendi que quando um recém-nascido aperta com seu pequeno punho pela primeira vez o dedo de seu pai, o tem amarrado para sempre.

Aprendi que um homem unicamente tem direito de olhar outro homem de cima para baixo, quando o tiver ajudado a se levantar.

São tantas coisas as que pude aprender de vocês, mas finalmente de muito não haverão de servir porque quando me guardem dentro desta maleta, infelizmente estaria morrendo....



De autor anônimo - Atribuído a García Márquez

Equívocos literários (2)


Instantes

Se eu pudesse viver novamente a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros.


Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais.

Seria mais tolo ainda do que tenho sido; na verdade, bem poucas pessoas levariam a sério.

Seria menos higiênico.

Correria mais riscos, viajaria mais, contemplaria mais entardeceres, subiria mais montanhas, nadaria mais rios.

Iria a mais lugares onde nunca fui, tomaria mais sorvete e menos lentilha, teria mais problemas reais e menos imaginários.

Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e produtivamente cada minuto da sua vida. Claro que tive momentos de alegria.

Mas, se pudesse voltar a viver, trataria de ter somente bons momentos.

Porque, se não sabem, disso é feito a vida: só de momentos - não percas o agora.

Eu era um desses que nunca ia a parte alguma sem um termômetro, uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas; se voltasse a viver, viajaria mais leve.

Se eu pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço no começo da primavera a continuaria assim até o fim do outono.

Daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças, se tivesse outra vez uma vida pela frente.

Mas, já viram, tenho 85 anos e sei que estou morrendo.



Jorge Luis Borges é um daqueles escritores que é mais conhecido e citado do que propriamente lido. Um poema, no entanto, foi muito lido, tornando, repentinamente popular, o escritor argentino. Trata-se do poema Instantes. Ocorre, apenas (!), que o poema não é de Borges. Quem o conhece minimamente, não se deixaria enganar: Borges nunca escreveria um texto como este. Entretanto, o texto foi espalhado na rede como sendo de sua autoria, por uma dessas razões difíceis de explicar. Há dúvidas quanto à autoria. Já se disse que era de Nadine Stair, uma senhora norte-americana. Mas parece que também não é. O poema não aparecia nas obras completas do autor, mas, ainda assim, foi preciso que a viúva de Borges, Maria Kodama, fosse à justiça, registrar que o poema não era de Borges e que, como herdeira, não receberia pelos direitos autorais.

sábado, 8 de dezembro de 2007

Equívocos literários (1)

Nem sempre se sabe a origem, e por vezes, nem mesmo a razão, mas inúmeros equívocos literários foram espalhados mundo afora, e muitos deles alcançam quase uma condição de verdade irretorquível. Um deles é um poema que se chamaria “A caminho com Maiakovski” e que seria de autoria de Bertolt Brecht. Também já disseram ser de Maiakovsk. O poema seria assim:






Na primeira noite,
eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim: não dizemos nada.
Na segunda, já não se escondem.
Pisam as flores, matam o nosso cão e não dizemos nada.
Até que um dia o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz e,
conhecendo o nosso medo, arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
O poema verdadeiro, vejam só, é de Eduardo Alves da Costa, brasileiríssimo de Niterói, nascido em 1936 e se chama, NO CAMINHO COM MAIAKÓVSKI, e é assim:
Assim como a humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakósvki.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz:
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio
Mas no tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares,
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo.
Por temor, aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita - MENTIRA
!

domingo, 25 de novembro de 2007

Jogo de Cena


Acabei de assistir “Jogo de Cena” do documentarista Eduardo Coutinho. Ainda estou processando tudo que vi e ouvi: pensando o que é real e o que é criação. Parece que Coutinho está em um processo de desmistificação do real, e nos mostra, através da sua lente de documentarista, que o real pode ser manipulado. É quase como se nos dissesse que montamos a nossa interpretação cotidiana em função do olhar do outro, esse olhar que se coloca como uma câmera oculta. Esse caminho, Coutinho já vem traçando, de uma certa forma, desde Santo Forte e Edifício Máster, e também Babilônia 2000, e O Fim e o Princípio. No filme, não sabemos nunca o que é verdade ou mentira e, ainda assim, nos sentimos (me senti, pelo menos) numa sessão de terapia. Não sei se isso é sintomático.

De qualquer forma, quando subiram os créditos, senti vontade de aplaudir e o fiz, internamente e sem alaridos.

Provavelmente amanhã eu teria outras palavras para definir o filme, o que não mudaria a certeza, para mim, de que Eduardo Coutinho, reeducando o olhar, é a luz do cinema nacional.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

sertão



do sertão
(relato de viagem pelo grande sertão: veredas)


eu andava pra num chegar
e fui e fui e fui

o sertão é assim:
seca e arrepia
mata e dá voltas
cria e engole o tempo


e foi tudo menos o chão
e foi tudo mais o chão


e o diabo a refestejar
e os rios estirados feito pau torto
e os buritis a pastar
as Gerais a chamar


o medo correndo feito boi brabo
cão danado


eu, ouvindo, cri em riobaldo, mascando palavras
fumei o ar das andanças
lambi os seios das brisas atrás das veredas
matei os hermógenes sob as pedras juramentadas dos caminhos
eu andava pra num chegar ( mas há que se chegar )

e vi diadorim que se foi
feito estrela diadorim


ficou o mundo seco como uma lágrima, que caída,
se espalha entre o céu
e as palavras
retintas do livro



gê césar de paula







sexta-feira, 26 de outubro de 2007

sobre a leveza


Há alguns temas que sempre me retornam. “Leveza” é um deles. Joguei por curiosidade a palavra no google e, naturalmente, muitos linques sobre o Milan Kundera e o seu livro “A insustentável leveza do ser” vieram à tona. Li o livro há muitos anos e lembro de ter gostado, mas de tê-lo achado pretensiosamente filosófico. Assisti anos depois o filme dirigido por Philip Kaufman e também gostei, apesar de achá-lo um tanto quanto deslocado do livro. O tema central é sobre o absurdo da existência humana, que, segundo Kundera, cria a insustentável leveza do ser. De qualquer forma, compartilho a pesquisa que fiz, colando abaixo as três primeiras partes do livro e depois com alguns trechos selecionados por um blog chamado “óbvius”, além de um comentário do Ítalo Calvino.

A LEVEZA E O PESO 1

A idéia do eterno retorno é uma idéia misteriosa, e uma idéia com a qual Nietzsche muitas vezes deixou perplexos outros filósofos: pensar que tudo se repete da mesma forma como um dia o experimentamos, e que a própria repetição repete-se ad infinitum! O que significa esse mito louco? De um ponto de vista negativo, o mito do eterno retorno afirma que uma vida que desaparece de uma vez por todas, que não retorna, é feito uma sombra - sem peso, morta de antemão; quer tenha sido horrível, linda ou sublime, seu horror, sublimidade ou beleza não significam coisa alguma. Uma tal vida não merece atenção maior do que uma guerra entre dois reinos africanos no século XIV, uma guerra que nada alterou nos destinos do mundo, ainda que centenas de milhares de seres tenham perecido em excruciante tormento. Algo se alterará nessa guerra entre dois reinos africanos do século XIV, se ela porventura repetir-se sempre, retornando eternamente? Sim: ela se tornará uma massa sólida, constantemente protuberante, irreparável em sua inanidade. Se a Revolução Francesa se repetisse eternamente, os historiadores franceses sentiriam menos orgulho de Robespierre. Como, porém, lidam com algo que jamais se repetirá, os anos sangrentos da Revolução transformaram-se em meras palavras, teorias e discussões; tornaram-se mais leves que plumas, incapazes de assustar quem quer que seja. Há uma diferença infinita entre um Robespierre que ocorre uma única vez na história e outro que retorna eternamente, decepando cabeças francesas. Concordemos, pois, em que a idéia do eterno retorno implica uma perspectiva a partir da qual as coisas mostram-se diferentemente de como as conhecemos: mostram-se privadas da circunstância atenuante de sua natureza transitória. Essa circunstância atenuante impede-nos de chegar a um veredicto. Afinal, como condenar algo que é efêmero, transitório? No ocaso da dissolução, tudo é iluminado pela aura da nostalgia, até mesmo a guilhotina. Não faz muito tempo, flagrei-me experimentando uma sensação absolutamente inacreditável. Folheando um livro sobre Hitler, comovi-me com alguns de seus retratos: lembravam minha infância. Eu cresci durante a guerra; vários membros de minha família pereceram nos campos de concentração de Hitler; mas o que foram suas mortes comparadas às memórias de um período já perdido de minha vida, um período que jamais retornaria? Essa reconciliação com Hitler revela a profunda perversidade moral de um mundo que repousa essencialmente na inexistência do retorno, pois, num tal mundo, tudo é perdoado de antemão e, portanto, cinicamente permitido.



2

Se cada segundo de nossas vidas repete-se infinitas vezes, somos pregados à eternidade feito Jesus Cristo na cruz. É uma perspectiva aterrorizante. No mundo do eterno retorno, o peso da responsabilidade insuportável recai sobre cada movimento que fazemos. É por isso que Nietzsche chamou a idéia do eterno retorno o mais pesado dos fardos (das schwerste Gewicht). Se o eterno retorno é o mais pesado dos fardos, então nossas vidas contrapõem-se a ele em toda a sua esplêndida leveza. Mas será o peso de fato deplorável, e esplêndida a leveza? O mais pesado dos fardos nos esmaga; sob seu peso, afundamos, somos pregados ao chão. E, no entanto, na poesia amorosa de todas as épocas, a mulher anseia por sucumbir ao peso do corpo do homem. O mais pesado dos fardos é, pois, simultaneamente, uma imagem da mais intensa plenitude da vida. Quanto mais pesado o fardo, mais nossas vidas se aproximam da terra, fazendo-se tanto mais reais e verdadeiras. Inversamente, a ausência absoluta de um fardo faz com que o homem se torne mais leve do que o ar, fá-lo alçar-se às alturas, abandonar a terra e sua existência terrena, tornando-o apenas parcialmente real, seus movimentos tão livres quanto insignificantes. O que escolheremos então? O peso ou a leveza? Parmênides levantou essa mesma questão no sexto século antes de Cristo. Ele via o mundo dividido em pares opostos: luz/escuridão, fineza/rudeza, calor/frio, ser/não-ser. A uma metade da oposição, chamou positiva (luz, fineza, calor, ser); à outra, negativa. Nós poderíamos achar essa divisão em um pólo positivo e outro negativo infantilmente simples, não fosse por uma dificuldade: qual é o positivo, o peso ou a leveza? Parmênides respondeu: a leveza é positiva; o peso, negativo. Tinha ou não razão? Essa é a questão. Certo é apenas que a oposição leveza/peso é a mais misteriosa, a mais ambígua de todas.


3

Há muitos anos venho pensando em Tomas, mas somente à luz dessas reflexões pude vê-lo claramente. Eu o vi postado junto à janela de seu apartamento, olhando através do pátio para as paredes do outro lado, sem saber o que fazer. Ele conhecera Teresa umas três semanas antes, numa cidadezinha tcheca. Não haviam passado sequer uma hora juntos. Ela o acompanhara até a estação, aguardando a seu lado até que ele embarcasse no trem. Dez dias mais tarde, foi visitá-lo. Fizeram amor no dia em que ela chegou. À noite, ela caiu de cama com febre e, gripada, passou uma semana inteira no apartamento dele. Tomas acabou por nutrir um amor inexplicável por aquela completa desconhecida; ela lhe parecia uma criança, uma criança que alguém colocara num cesto de vime revestido de piche e enviara rio abaixo, para que Tomas o apanhasse às margens de sua cama. Teresa ficou com ele uma semana, até recuperar-se, regressando em seguida para sua cidade, a uns duzentos quilômetros de Praga. E chegou então o momento que mencionei há pouco e que vejo como a chave de sua vida: postado junto à janela, ele olhava por sobre o pátio para as paredes defronte, ponderando. Devia chamá-la de volta a Praga para sempre? Temia a responsabilidade. Se a convidasse, ela viria, oferecendo-lhe a própria vida. Ou devia evitar uma aproximação? Nesse caso, ela permaneceria sendo uma garçonete num restaurante de hotel de uma cidade do interior, e ele jamais a veria de novo. Queria ou não que ela viesse? Olhando por sobre o pátio para as paredes defronte, ele procurava por uma resposta.


(...)

Olhando por sobre o pátio para as paredes sujas, Tomas percebeu que não tinha a menor idéia se aquilo era histeria ou amor. E afligiu-se por, numa situação na qual um homem de verdade saberia de imediato como agir, estar vacilando e privando de seu sentido os momentos mais belos que já vivera (ajoelhado à beira da cama, pensando que não sobreviveria se ela morresse). Irritou-se consigo próprio, até perceber que, na verdade, era bastante natural que não soubesse o que queria. Jamais nos é possível saber o que queremos, pois, vivendo uma única vida, não podemos compará-la a nossas vidas anteriores, ou aperfeiçoá-la em vidas futuras. Era melhor ficar com Teresa ou sozinho? Não há como testar qual decisão é a melhor, porque não há base para comparação. Vivemos as coisas conforme elas se apresentam, desavisados, feito um ator entrando frio em cena. E de que vale a vida, se o primeiro ensaio para ela é ela própria? É por isso que a vida é sempre como um esboço. Não, "esboço" não é bem a palavra, porque um esboço constitui-se das linhas gerais de alguma coisa, a base de uma pintura, ao passo que esse esboço que é nossa vida é um esboço de coisa alguma, linhas gerais de pintura nenhuma. Einmal ist keinmal, Tomas diz a si mesmo. O que só acontece uma vez, afirma o provérbio alemão, melhor seria que não tivesse acontecido. Se temos uma única vida para viver, melhor seria não ter vivido.

sobre a leveza (continuação)

Sobre o livro, Italo Calvino escreveu:
"O peso da vida, para Kundera, está em toda forma de opressão. O romance mostra-nos como, na vida, tudo aquilo que escolhemos e apreciamos pela leveza acaba bem cedo se revelando de um peso insustentável. Apenas, talvez, a vivacidade e a mobilidade da inteligência escapam à condenação -- as qualidades de que se compõe o romance e que pertencem a um universo que não é mais aquele do viver" Recordando alguns momentos da obra: "...Enquanto as pessoas são novas e as partituras musicais das suas vidas ainda só vão nos primeiros compassos, podem compô-las em conjunto e até trocarem temas (como Tomas e Sabina trocaram o tema do chapeu de coco). Porém, quando se conhecem numa idade mais madura, as suas partituras musicais já estão mais ou menos acabadas e cada palavra, cada objecto, tem um significado diferente na partitura de cada uma..." "Para Sabina, viver significa ver. A visão encontra-se limitada por duas fronteiras: Uma luz de tal modo intensa que nos cega e uma obscuridade total. Talvez seja daí que lhe vem a repugnância por todos os extremismos. Os extremos marcam a fronteira para lá da qual não há vida, e, tanto em arte como em política, a paixão do extremismo é um desejo de morte disfarçado." "... Franz é forte, mas a força dele está unicamente voltada para fora. Com as pessoas com quem vive, com aqueles que ama, é muito fraco. A fraqueza de Franz chama-se bondade. [...] Então perguntou a Franz: 'E porque é que de tempos a tempos não te serves da tua força contra mim?- Porque amar é renunciar à força', disse Franz, com duçura.Sabina percebeu duas coisas: primeiro, que aquela frase era bela e verdadeira; segundo, que, com aquela frase, Frans acabara de se desvalorizar para sempre na sua vida erótica" "Mas o que acontecera ao certo a Sabina? Nada. Deixara um homem porque queria deixá-lo. Esse homem tinha vindo atrás dela? Tinha querido vingar-se? Não. O seu drama não era o drama do peso, mas o da leveza. O que se abatera sobre ela não era um fardo, mas a insustentável leveza do ser."

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

reabrindo o empório


Caros e caras,
acho que é hora de dizer que este blog é resultado da má definição, caracterizadas por alto sinal em T2, com tênue realce pós-contrastes, comprometendo parte da (minha) medular óssea da porção antero-medial do tálus e da porção póstero-lateral do calcâneo, assim como do maéolo tibila medial, podendo corresponder a fratura incompleta do microtrabeculado ósseo. Não poderia deixar de mencionar, e por que não, agradecer, as más definições das(minhas) fibras dos ligamentos fíbulo talar e subtalar e – não poderia esquecer – do ligamento tíbio talar anterior pouco espessado, o qual apresenta alteração do sinal habitual e pelo seu sugestivo espessamento cicatricial. Não fosse este meu tornozelo – no popular – “bichado” -que me obrigou a um repouso com o pé imobilizado-, e o amigo Marcel não teria, em visita cordial, criado este blog, obra que eu jamais saberia como fazê-la. Hoje o pé já pisa firme no chão, mas o blog, reconheço, tropeça pelos caminhos. No início imaginei que postaria algumas fotos e os meus poemas e ponto. Mas foi tomando outra forma e o que é mais marcante: sem nenhuma regularidade. Nem com relação à peridiocidade; nem com relação aos temas; nem com relação a nada. Tenho lá os meus quase dez leitores – caso consideremos que aquilo que posto neste empório, sejam matérias de leituras –, e, potencialmente, tenho mais de 200 milhões de leitores espalhados pelo mundo (“minha pátria é minha língua”!), fruto do poderio colonizador dos nossos bravios e desbravadores irmãos portugueses. Vamos à luta, então! Esqueçamos, ora pois, a minha medular calcânea óssea, e também os meus potenciais leitores de além mar, para que eu possa dizer apenas e tão somente, que estou tentando reabrir este empório empoeirado e que gostaria de deixá-lo aberto, com todos os seus penduricalhos, à mercê dos olhares dos que passam na rua, das moscas dos dias e dos vaga-lumes das noites e, principalmente, dos meus quase dez fregueses para que eu possa receber as suas generosas caixinhas.., digo, contribuições. Escrevamos pois!

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Resenha crítica: Dois Irmãos, de Milton Hatoum

Dois Irmãos
Eu não a vi morrer, eu não quis vê-la morrer. Mas alguns dias antes de sua morte, ela deitada na cama de uma clínica, soube que ergueu a cabeça e perguntou em árabe para que só a filha e a amiga quase centenária entendessem (e para que ela mesma não se traísse):”meus filhos já fizeram as pazes?”. Repetiu a pergunta com a força que lhe restava, com a coragem que a mãe aflita encontra na hora da morte. Ninguém respondeu. Então o rosto quase sem rugas de Zana desvaneceu; ela virou a cabeça para o lado, à procura da única janelinha na parede cinzenta, onde se apagava um pedaço do céu crepuscular.



Caim e Abel. Esaú e Jacó. Pedro e Paulo. Omar e Yaqub. A primeira dupla desta lista, a mais conhecida, integra uma das histórias mais antigas de desavenças entre irmãos, contada no livro do Gênesis da Bíblia e que resultou, como sabemos, na morte de Abel nas mãos de Caim. Esaú e Jacó, irmãos gêmeos e também personagens bíblicos, inspiraram Guy de Maussapant, assim como Machado de Assis, que nos relatou a trajetória de Paulo e de Pedro, estes, que iniciaram, ainda no ventre, uma disputa que seria eterna. Da mesma forma, Omar e Yaqub se odeiam, e é a eles que Zana, a mãe, se refere no trecho citado acima, que é, ao mesmo tempo, o início e o final da saga de Dois Irmãos, o segundo romance do escritor manauara Milton Hatoum, em reedição econômica lançado recentemente pelas Cia das Letras. A história se passa em Manaus na primeira metade do século 20, beliscando o início da ditadura nos anos 60, quando o avanço militar passa a ocupar a já cosmopolita capital do Amazonas. Manaus é, aliás, um grande personagem do romance, descrita quase sempre além das suas superfícies; nas suas entranhas, vilarejos, ruelas, rios e mangues; nas suas praças, na vida dos seus habitantes, nas mudanças que todo desenvolvimento desordenado acarreta às grandes cidades. Este é o cenário em que Hatoum nos apresenta a trajetória de imigrantes árabes como Galib e sua filha Zana, que se casa com o também imigrante Halim, e da família que os dois irão formar: os gêmeos Yaqub e Omar, personagens centrais da história; Rânia, a filha mais nova, que estabelece uma relação de amor indistinto com os irmãos; Domingas, a empregada índia e aquele que é o narrador, este que deixo ao leitor, descobrir por si mesmo, na construção temporal que cada página propiciará. A narrativa de Hatoun, influenciada sobretudo por Flaubert, Balzac e Faulkner, constrói uma trama em que o “contar uma história” é cercado por filigranas poéticas. O enredo trata, basicamente, do duelo fraternal, mas envolto por inúmeras subjetividades, como a nostalgia de Halim, que apaixonado pela esposa, perde a atenção dela para os filhos, sobretudo Omar, boêmio, impetuoso e sempre protegido por Zana. Rânia, a filha mais nova, dedicada à família e que toma às rédeas dos negócios. Yaqub, tímido e conservador, acaba se tornando mais independente, e se ausenta da vida familiar e assim do cenário da história nos momentos em que se auto-afirma, como na primeira viagem que faz, ainda adolescente para o Líbano, supostamente para separá-lo de Omar e, posteriormente, quando decide estudar em São Paulo - se negando a ter qualquer ajuda da família - onde se torna um reconhecido engenheiro. Há ainda o narrador, como um observador presente e atento, e, ao mesmo tempo, com um certo distanciamento que lhe permite um olhar analítico sobre o enredamento da história que nos conta. Hatoun percorre um trajeto na sua narrativa em que as tenções se apresentam sem que haja uma necessidade de dissipá-las. As histórias não fluem no texto de forma que devam apresentar resoluções. Ficam espaços abertos, mas não há falta. Ficam possibilidades e não certezas.



Milton Hautom, filho de pai libanês muçulmano e de mãe brasileira -mas filha de mulçumano-, nasceu em Manaus, em 1952. Estudou Arquitetura na Universidade de São Paulo. É professor de literatura na Universidade Federal do Amazonas e professor convidado na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Relato de um Certo Oriente, seu primeiro romance (Prêmio Jabuti 1990), foi publicado nos Estados Unidos, na França, na Itália, na Alemanha, em Portugal e na Suíça; entre outros países. Dois Irmãos é o seu segundo romance e, da mesma forma, foi publicado em vários países, rompendo mais uma fronteira em 2003, quando foi traduzido para o árabe.




gê cesar de paula

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Os Acrobatas, de Vinícius, por Camila Morgado

O vídeo sumiu. Coloco então o seu link:

http://www.youtube.com/watch?v=KkVu6LTEybA

domingo, 2 de setembro de 2007

1° de setembro de 1910: poesia e futebol

Era uma noite de lua nova na provinciana São Paulo do começo do século 20. Mais precisamente em 1° de setembro de 1910 por volta das 20h30. Sob à luz de um lampião à gás, na esquina da Rua dos Italianos com a Rua dos Imigrantes (atual José Paulino), no bairro do Bom Retiro, um grupo de cansados trabalhadores esperavam o bonde. Joaquim Ambrósio, Antonio Pereira e César Nunes, eram pintores de parede. Rafael Perrone, diziam, era um sapateiro dos bons. Anselmo Correia exercia um profissão um tanto exótica: era motorista. Alexandre Magnani, ganhava a vida como fundidor. Salvador Lopomo entendia mesmo era de macarrão. Para o João da Silva, não tinha tempo ruim. Aceitava qualquer tipo de trabalho braçal. Antonio Nunes era um popular alfaiate. Eles não eram lá muito letrados. Nenhum deles sabia da existência de um tal de Lima Barreto, que, mulato e escritor, havia lutado contra a escravidão e, anos mais tarde, além de escrever o “Triste fim de Policarpo Quaresma”, fundaria uma Liga contra o Futebol lá no distante Rio de Janeiro, por ser este, um esporte da cultura racista da elite branca. Tão pouco vieram a conhecer um outro tal, de nome Graciliano Ramos, que profetizava que esse negócio de futebol não iria pegar. Mas, sobretudo, o que eles não sabiam, pra valer, é que eles estavam ali - cansados, em uma noite de lua nova -, fundando o primeiro time de futebol que seria a representação de tanta gente, porque estava nascendo ali, o time do povo. O futebol começava, naquele Brasil pré-industrial, a sair da esfera aristocrata-cafeeira e ganhar as ruas dos meninos de pés no chão. E o Corinthians, fundado por trabalhadores, sob à luz de um lampião, incorporaria esses meninos, inicialmente nos campos das várzeas paulistanas e depois, além delas, nas arquibancadas, palcos que os transformariam em agentes de uma nova identidade, assimiladas pelos seus filhos, netos, bisnetos... Estava nascendo não um time, mas uma torcida. Uma torcida que tinha um time de futebol.


PS 1: Há muita literatura boa com o tema futebol. Vou lembrar três: “Cuentos de Fútbol Argentino”, seleção de contos organizados por Roberto Fontanarrosa” e editado pela Alfaguara (sem tradução, ainda, para o português) que apresenta 18 contos, entre eles, Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares. “Futebol, ao Sol e à Sombra”, de Eduardo Galeano, editora LPM. E “A Dança dos Deuses, Futebol, Sociedade e Cultura”, do historiador medievalista Hilário Franco Júnior, editado recentemente pela Cia. das Letras. Deste livro tiro duas frases: “Torcer supõe alterar a configuração de um evento, moldar psiquicamente um fato para adequá-lo ao espaço do desejo”. E, “No futebol, o vencedor comemora e o perdedor justifica. Como na vida. Entretanto, o futebol apresenta um fator positivo do ponto de vista psicológico: cada partida, cada temporada, oferece a esperança de um novo recomeço. Reescrever periodicamente o script da vida só é possível no futebol”.

PS 2: Dois momentos históricos (e de poesia popular): http://www.youtube.com/watch?v=sGVILAjGs-o&NR=1 http://www.youtube.com/watch?v=NqNqYgnK7Lc&mode=related&search=