quinta-feira, 15 de julho de 2010

quarta-feira, 7 de julho de 2010

do blog do saramago

José Saramago
1922-2010
"Mas não subiu para as estrelas,
se à terra pertencia"

Memorial do Convento





José Saramago repousará no Campo das Cebolas, após remodelação no local, em frente à Casa dos Bicos, sede da Fundação José Saramago, à sombra de uma oliveira centenária que será transplantada da sua aldeia natal, Azinhaga, para Lisboa.
A frase do "Memorial do Convento" estará inscrita em pedra de Pero Pinheiro. Um banco de jardim possibilitará que os seus amigos leiam fragmentos da sua obra ou observem a paisagem que o Escritor teria da sua janela.

José Saramago está em Lisboa, nos seus livros, mas, sobretudo, nos nossos corações.

A Fundação
( http://blog.josesaramago.org/ )

sexta-feira, 18 de junho de 2010

hoje ficamos mais pobres

josé saramago * 1922-2010

segunda-feira, 10 de maio de 2010

maureen bisilliat - fotografias




Um privilégio. Este é o substantivo que cabe a quem adentrar a Galeria de Arte do Sesi, na Av. Paulista, 1313, em São Paulo, até 4 de julho. Está instalado ali, um pedaço do universo de Maureen Bisilliat: suas tecituras, seus encantamentos, seu olhar poético se fundindo com a poética de Cabral, de Rosa; de sertões de Euclides; de bahias de Amado; de terra xingu...Nascida inglesa, Maureen se tornou brasileira por circunstância ou por destino e por aqui, sem que talvez pudesse supor, ou sonhar, captou a essência que a lente não rouba, mas empresta, pelo tempo de um click, a alma de quem por ela se deixou fotografar.



Mais, e com mais propriedade, falaram Rubens Fernando Júnior e Juan Esteves


sexta-feira, 7 de maio de 2010

os eua x john lennon


Gostaria de ter feito esta postagem há mais tempo, logo após ter assistido ao filme “Os EUA x John Lennon”, documentário assinado por David Leaf e John Scheinfield, que permanece em cartaz em São Paulo, agora, apenas, no Frei Caneca Unibanco Artplex.
O nome já dá uma idéia de que se trata de um confronto. De um lado um país vivendo ainda os rescaldos do marcarthismo; em plena Guerra Fria e com a ação direta na sangrenta Guerra do Vietnã. No comando de tudo isso, Richard Nixon. Do outro lado uma geração contestadora, que unia jovens, ativistas políticos, estudantes, artistas que queriam uma nova configuração mundial e, sobretudo, sem guerras. John Lennon estava deste lado, discutindo em entrevistas e debates, produzindo ações e músicas que viraram hinos cantados em manifestações à frente da Casa Branca. Acabou virando alvo do FBI.
O filme nos transporta para o momento da efervescência histórica do final dos anos 60 início dos 70, recuperando cenas da época além de depoimentos de peso como dos ecritores Gore Vidal e Tariq Ali, do linguista Noam Chomsk, do jornalista Carl Berstein ( que, em parceria com Bob Woodwarde, desvendou o caso Watergate que derubaria o presidente Nixon) e o do fundador do Panteras Negras, Bob Seale, com quem Lennon se alia.

Abaixo o link do trailer. (Não achei nenhum com legendas):

http://www.youtube.com/watch?v=N8RvaWblqic

quinta-feira, 6 de maio de 2010

domingo, 2 de maio de 2010

a última vitória da ditadura

Hoje faço um intervalo na poesia, nas artes plásticas, na fotografia, nas músicas.

O Supremo Tribunal Federal me fez lembrar de uma história que sinteticamente relato.

Lá pelo final dos anos 80, conheci na USP uma moça, estudante do curso de história, que não passou a adolescência com os pais. Foi criada por uma tia. Quando criança, presenciou, numa tarde chuvosa, quando brincava no corredor que ligava o seu quarto com a sala, dois homens desconhecidos levarem seu pai e sua mãe. Ela não sabia que seria a última vez que veria o seu pai. A mãe, ela ainda veria mais uma vez, quando a tia a levou em um lugar que parecia ser uma delegacia de polícia. Menina, que carregava sempre com ela um ursinho de pelúcia, pôde perguntar para a mãe o porquê dela estar ali, presa, e não em casa. A mãe, olhando para o ursinho, lhe disse: porque eu queria que todas as crianças pudessem ter brinquedos como você tem.
Esta foi a última lembrança que guardou da sua mãe.

Nunca mais vi essa moça, mas me lembrei muita dela nesta semana em que o STF julgou improcedente os argumentos da OAB de que a Lei de Anistia, promulgada em 1979, não amparava as ações dos agentes da repressão, que torturaram e mataram muitos opositores do regime militar que governou o Brasil entre 1964 e 1985.

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Sempre procuro colocar imagens nas minhas postagens. Pesquisei algumas fotos que representam a nossa ditadura na internet: aquela famosa da Guerra da Maria Antonia; a foto montada do Vladimir Herzog; imagens do amigo Frei Giorgio Callegari falecido há seis anos carregando ainda as sequelas das torturas que sofreu. Mas resolvi não colocá-las. Acho que aqui, neste momento, as palavras se bastam, inclusive as palavras do Taiguara, que por coincidência, postei, abaixo, em 18 de abril.

A ditadura acumulou muitas vitórias. O STF lhe forneceu a última.

domingo, 18 de abril de 2010

o esquecido taiguara

domingo, 7 de fevereiro de 2010

pra não dizer que não falei de brunelleschi





No final de 2008, o Masp conseguiu se livrar de Júlio Neves, o arquiteto da Daslu, que por 14 anos presidiu desastradamente o museu que conta com um magnífico acervo, um patrimônio de todos. Mas, infelizmente, tamanha a crise a que foi submetido o museu, parece ter espantado a oxigenação possível e necessária que uma bem estruturada oposição poderia ter fornecido, e o continuísmo tomou corpo com a posse do ex secretário de Júlio Neves, o empresário João de Azevedo, que já demonstrou não ter nenhuma vocação para pensar o Masp como uma instituição que formula e estimula o pensamento.
Hoje, a apreciação do acervo fica comprometida porque a iluminação e os arranjos são inadequados e, sobretudo, por uma ambientação contrária ao espírito do prédio. A museografia proposta por Lina Bo Bardi, originalíssima e única no mundo, com o seus cavaletes que se abriam para o vasto salão iluminado por luz natural, numa integração espacial acolhedora e desmitificadora da obra de arte, trazia o entendimento do espaço que está longe do alcance de qualquer entendimento que esta administração do museu possa ter.
O museu tem um conselho que exigiu, pelo menos, o retorno da figura do curador. A tarefa coube ao professor Teixeira Coelho que tem se desdobrado para montar exposições temáticas a partir das obras do museu. Parece, entretanto, que Coelho não pretende discutir o museu tal qual foi pensado pela Lina.
Bom, acabei me empolgando e abrindo esta postagem falando da política do Masp, mas o que eu queria falar era justamente daquilo que foge às ingerências diretas da cúpula do Masp e que escapa da sua mesmice: a área de Serviço Educativo do Masp, coordenada por Paulo Portella Filho, que proporciona um dos melhores programas culturais da cidade.
Trata-se do Curso Introdutório à História da Arte, aberto a todos, e que toma como base, obras do acervo do museu. As aulas são ministradas pelo excelente professor Renato Brolezzi e acontecem, via de regra, todos os primeiros sábados de cada mês.
Neste último sábado, a aula teve como ponto de partida, a obra “Ressurreição de Cristo” de Rafael.
Em mais ou menos duas horas de aula, Brolezzi sempre propõe uma viagem através de contextualizações históricas, geográficas e de artistas referenciais ao artista que é o objeto da aula. Nessa viagem pelo mundo de Rafael, chegamos a Brunelleschi,
Filippo Brunelleschi, o escultor e arquiteto renascentista nascido e morto em Firenze, que iniciou a representação plana de objetos em três dimensões, tornando-se uma referência da estética renascentista.
A sua obra mais importante foi abordada na aula: a abóboda da Catedral de Florença, a Santa Maria de Fiore. Uma obra ousada para a época, tanto pela concepção como pela execução.
A construção da Catedral foi iniciada em 1294 e apenas em 1418 deu-se o início da construção da abóbada, a partir de um concurso no qual Brunelleschi teve o seu projeto escolhido.
O arquiteto pôs em prática um método original para a sustentação da cúpula com base em intrincados cálculos matemáticos e, para a sua realização, projetou e concebeu todo um maquinário que ainda não existia.
Há muitos textos na internet que traçam o perfil e a importância histórica de Brunelleschi. Pincei, sobretudo, dois: o do professor e doutor pela FAUSP Jorge Marão Carnielo Miguel, http://www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq040/arq040_02.asp e o do Laboratório de Mecânica Computacional vinculado ao Departamento de Engenharia de Estruturas e Fundações da Escola Politécnica da USP – Poli (http://www.lmc.ep.usp.br/people/hlinde/Estruturas/florenca.htm ) que aponta mais para as questões estruturais da obra e seus detalhes.

Já estão agendadas as próximas seis aulas. São elas:
06/03: “Retrato do Cardeal Cristoforo Madruzzo”, de Ticiano;
10/04: “Auto-retrato com Corrente de Ouro, de Rembrant;
08/05: “Retrato do Conde-Duque de Olivares” de Velázquez;
12/06: “Pepe Illo fazendo reverência ao touro”, de Goya
07/08: “Juno Ordena a Eolo a Destruição da Frota de Enéias", de Delacroix.

Observação final: a aula pode terminar com a visitação da obra mencionada. Ocorre que nem sempre a obra estudada está disponível para a visitação, em função do rodízio das obras ao qual o museu está submetido. A “Ressurreição de Cristo” de Rafael, por exemplo, não estava exposta.

sábado, 2 de janeiro de 2010

josé luís peixoto

Descobri há pouco tempo o jovem escritor português José Luís Peixoto. Abaixo um de seus poemas do livro "A Criança em Ruínas". Aqui, um link de uma de suas entrevistas:
http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM1178757-7823-JOSE+LUIS+PEIXOTO+DIZ+QUE+POESIAS+PARA+ELE+E+UMA+ESPECIE+DE+SUPERPODERES,00.html

na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu, depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

aula show

Fisguei, e coloquei nas duas postagens abaixo, dois de oito vídeos de uma das aulas shows de José Miguel Wisnik com as preciosíssimas participações de Arthur Nestroviski e Paula Morelenbaum (e também do Johnny Walker Red Label).
O caminho percorrido é Vinícius de Moraes, mas no vídeo Parte II (4/4) um atalho para Jorge Helder e Chico Buarque.
Vale muito assistir aos outros vídeos acessando
os links que completam a aula show:
Parte I (2/2) http://www.youtube.com/watch?v=ktXbVcSzu30&feature=related
Parte II (1/4) http://www.youtube.com/watch?v=mONtGbKMTUA&NR=1
Parte II (2/4) http://www.youtube.com/watch?v=QQERzPPRFEE&NR=1
Parte II (4/4) http://www.youtube.com/watch?v=r7u0D28RDI0&feature=related
Parte III(1/2) http://www.youtube.com/watch?v=ss35HZ4jTs8&feature=related
Parte III (2 / 2) http://www.youtube.com/watch?v=GUpgv72GFWc

palavra e música - parte II (3/4)

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

nara leão - ensaio

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

depois de matisse, outros grandes mestres








Em São Paulo há sempre muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo e nem sempre é possível acompanhar tudo. Mas, para os aficionados das artes, há mais duas exposições, além do Matisse - cuja exposição já falei um pouco abaixo -, com aberturas nesta semana que são imperdíveis. No Centro Cultural Banco do Brasil a exposição Vanguarda Russa, com obras de Malevitch, Kandinsky e Chagall, entre muitos outros. No Sesc Pinheiros a exposição do (mítico) fotógrafo Henri Cartier Bresson, mais um evento das comemorações do ano da França no Brasil.



1. Acima à esquerda, foto de Henri Cartier Bresson
2. Acima à direita obra de Kandinsky
3. À esquerda, obra de Chagall
4. À direita, obra de Maliévitch








terça-feira, 1 de setembro de 2009

saramago


Que pena! O Saramago está se despedindo do seu blog, “O Caderno de Saramago” cujo link há tempos coloco aí ao lado e no qual ele expressava quase que diariamente, desde o dia 15 de setembro de 2008, artigos com suas opiniões e reflexões pessoais. Abaixo, a sua despedida:
Despedida
Agosto 31, 2009 por José Saramago
Diz o refrão que não há bem que sempre dure nem mal que ature, o que vem assentar como uma luva no trabalho de escrita que acaba aqui e em quem o fez. Algo de bom se encontrará neste textos, e por eles, sem vaidade, me felicito, algo de mal terei feito noutros e por esse defeito me desculpo, mas só por não tê-los feito melhor, que diferentes, com perdão, não poderiam eles ser. Às despedidas sempre conveio que fossem breves. Não é isto uma ária de ópera para lhe meter agora um interminável adio, adio. Adeus, portanto. Até outro dia? Sinceramente, não creio. Comecei outro livro e quero dedicar-lhe todo o meu tempo. Já se verá porquê, se tudo correr bem. Entretanto, terão aí o “Caim”.
P. S – Pensando melhor, não há que ser tão radical. Se alguma vez sentir necessidade de comentar ou opinar sobre algo, virei bater à porta do Caderno, que é o lugar onde mais a gosto poderei expressar-me.

sábado, 22 de agosto de 2009

mutações: a experiência do pensamento

Já se vão mais de 20 anos, e o incansável professor Adauto Novaes continua atento aos dilemas que cercam a humanidade. “Os sentidos da paixão”, “O olhar”, “O desejo”, “Ética”, “Tempo e História”, “Rede imaginária – televisão e democracia”, “Artepensamento”, “A crise da razão”, “Libertinos/libertários”, “A descoberta do homem e do mundo”, “O silêncio dos intelectuais”, foram alguns dos temas abordados ao longo desse percurso, discutidos sempre por pensadores das mais diversas áreas: filósofos, sociólogos, artistas, cientistas, psicanalistas. A maioria dos ciclos foram publicados em livros.

Nesta semana teve início o ciclo de conferências “Mutações: a experiência do pensamento”, que reunirá 21 intelectuais em torno de um tema: “o que é pensar hoje?”.
Neste ano, além de Rio e São Paulo, o ciclo será levado também para Belo Horizonte e, em versão reduzida, para Brasília. “A experiência do pensamento” é o quarto ciclo dentro da série “Mutações”.
Em 2008 as conferências refletiam sobre as formas como a tecnociência transforma o corpo e a condição humana. Este ano os debates tratam do lugar do pensamento e dos próprios intelectuais num mundo em constante mutação. Novaes nos diz:— O momento que o Ocidente vive hoje não é uma crise, é uma mutação, provocada pela revolução científica e tecnológica. E essa revolução é diferente das anteriores, porque afeta o próprio homem. As conferências vão refletir sobre os impasses colocados nesse momento. E completa: A ciência e a técnica estão de um lado e o pensamento, de outro. A ciência não pensa, calcula; a filosofia pensa. No mundo contemporâneo, a técnica avança, mas o pensamento vai a reboque. Quando tudo pode ser calculado, o pensamento se torna superficial e há uma predominância do fato sobre o pensamento. O intelectual engajado desapareceu. A esfera pública mudou; a universidade, a imprensa e o poder mudaram. O intelectual não tem mais a palavra, não tem interlocutores. Assim, ele tende a desaparecer e ser substituído pelo técnico, que pode falar especificamente sobre um tema. Mas perde-se aquele que pode fazer a síntese.
Na conferência de abertura, quarta-feira em São Paulo, no auditório do SESC Av. Paulista, o professor de literatura e músico José Miguel Wisnik discorreu sobre o “pensar em pessoa”, trazendo o universo de Fernando Pessoa e seus heterônimos pensantes. “Sentir é compreender. Pensar é errar (“errar”, explica Wisnik, no sentido de errância, de fluxo). Compreender o que outra pessoa pensa é discordar dela. Compreender o que outra pessoa sente é ser ela.”¹
Nada poderia ser melhor para iniciar o ciclo. Um público absolutamente fisgado pelo Zé Miguel navegando no mar português de Fernando Pessoa.

¹De “Reflexões paradoxais, Obra em prosa, Nova Aguilar, 1982, p.37.

matisse na pinacoteca








A partir de 5 de setembro, a Pinacoteca de São Paulo será colorida por 80 obras do mestre (e rival de Picasso) Henri Matisse.
A mostra trará ainda, pinturas, esculturas, desenhos, gravuras e papéis recortados dos artistas Cécile Bart, Christophe Cuzin, Frédérique Lucien, Pierre Mabille e Phillipe Richard, cinco representantes da arte contemporânea francesa. Imperdível!




sábado, 27 de junho de 2009

vermeer

Neste quadro, "A Leiteira", Johannes Vermeer - o mestre holandês que viveu no século 17 - nos apresenta uma cena do cotidiano. Cenas do cotidiano feminino eram basicamente o seu tema, sempre permeados por composições de luzes e sombras que nos remetem a uma atmosfera muito peculiar. Há quem o aponte como um pintor realista. Não vejo nada de real. Em Vermeer só vejo poesia.

domingo, 10 de maio de 2009

são vito

a rede



homem na escada

sábado, 9 de maio de 2009

fresta


uma fresta na porta é nossa quando do vento que há, um instante nos cerca

quando um matiz de luz leva os olhos pra além do pensamento

quando uma fisgada atravessa os insetos zumbindo

e o negro que nos cobre una a carne e a memória.

domingo, 28 de dezembro de 2008

billie holiday, lady sings the blues

Fui fazer uma edição e não sei o que fiz, e o filminho direto do Youtube sumiu desta e das postagens anteriores. Assim, coloco apenas os links. (É duro não entender desse troço!):
http://www.youtube.com/watch?v=YtqjW2uhBT4

domingo, 9 de novembro de 2008

pantanal



Eu e Cláudia fizemos um retiro de uma semana no Pantanal. Do nosso safári, alguns registros:


Um macaco prego e uma sequência de jacarés abaixo


Um socó secando as asas


Tuiuiu, o símbolo do Pantanal, é uma ave de grande porte, mede aproximadamente três metros de uma ponta da asa a outra e pode chegar até 1 metro e 60 de altura
Ó ele aí de novo

Uma garça maguari, a maior garça brasileira


Uma garça maguari alçando vôo

Um gavião preto ao cair da tarde

sábado, 27 de setembro de 2008

brasil

Mapa do Brasil

foto: gê césar de paula


São Conrado, área nobre do Rio de Janeiro.
Ao fundo a Rocinha.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

pedaços de tempo (3)



um pão

no fundo

do armário

alimenta

o

tempo

faminto


terça-feira, 9 de setembro de 2008

pedaços de tempo (2)


molas pra lá
parafusos pra cá
engrenagens confusas

no meio o menino
que jogou o relógio
no chão

ele queria conhecer
o tempo

domingo, 7 de setembro de 2008

pedaços de tempo (1)




a bicicleta
parada

na aragem
descansa

no meio
do
tempo








foto:gê césar de paul 
 

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

as águas do mundo

Aí está ele, o mar, o mais ininteligível das existências não humanas. E aqui está a mulher, de pé na praia, o mais ininteligível dos seres vivos. Como o ser humano fez um dia uma pergunta sobre si mesmo, tornou-se o mais ininteligível dos seres vivos. Ela e o mar. Só poderia haver um encontro de seus mistérios se um se entregasse ao outro: a entrega de dois mundos incognoscíveis feita com a confiança com que se entregariam duas compreensões. Ela olha o mar, é o que se pode fazer. Ele só lhe é delimitado pela linha do horizonte, isto é, pela sua incapacidade humana de ver a curvatura da terra. São seis horas da manhã. Só um cão livre hesita na praia, um cão negro. Por que é que um cão é tão livre? Porquê ele é o mistério vivo que não se indaga. A mulher hesita porque vai entrar. Seu corpo se consola com sua própria exigüidade em relação a vastidão do mar porque é a exiguidade do corpo que o permite manter-se quente e é essa exigüidade que a torna livre gente, com sua parte de liberdade de cão nas areias. Esse corpo entrará no ilimitado frio que sem raiva ruge no silêncio das seis horas. A mulher não está sabendo: mas está cumprindo uma coragem. Com a praia vazia nessa hora da manhã, ela não têm o exemplo de outros humanos que transformam a entrada no mar em simples jogo leviano de viver. Ela está sozinha. O mar salgado não é sozinho porque é salgado e grande, e isso é uma realização. Nessa hora ela se conhece menos ainda do que conhece o mar. Sua coragem é a de , não se conhecendo, no entanto prosseguir. É fatal não se conhecer, e não se conhecer exige coragem. Vai entrando. A água salgada é de um frio que lhe arrepia em ritual as pernas. Mas uma alegria fatal - a alegria é uma fatalidade - já a tomou, embora nem lhe ocorrera sorrir. Pelo contrário, está muito séria. O cheiro é de uma maresia tonteante que a desperta de seus mais adormecidos sonos seculares. E agora ela está alerta, mesmo sem pensar, como um caçador está alerta, mesmo sem pensar. A mulher é agora uma compacta e uma leve e uma aguda- e abre caminho na gelidez que, líquida, se opõe a ela, e no entanto a deixa entrar, como no amor em que a oposição pode ser um pedido. O caminho lento aumenta as coragem secreta. E de repente ela se deixa cobrir pela primeira onda. O sal, o iodo, tudo líquido, deixam-na por uns instantes cega, toda escorrendo- espantada de pé, fertilizada. Agora o frio se transformou em frígido. Avançando, ela sobre o mar pelo meio. Já não precisa da coragem, agora já é antiga no ritual. Abaixa a cabeça dentro do brilho do mar e retira uma cabeleira que sai escorrendo toda sobre os olhos salgados que ardem. Brinca com a mão na água, pausada, os cabelos ao sol quase imediatamente já estão endurecendo de sal. Com a concha das mãos faz o que sempre fez no mar, e com altivez dos que nunca darão explicação nem a eles mesmos: com a concha das mãos cheia de água, bebe em goles grandes, bons. E era isso o que estava lhe faltando: o mar por dentro como o líquido espesso de um homem. Agora está toda igual a si mesma. A garganta alimentada se constringe com o sal, os olhos avermelham-se pelo sal secado pelo sol, as ondas suaves lhe batem e voltam pois ela é um anteparo compacto. Mergulha de novo, de novo bebe mais água, agora sem sofreguidão pois não precisa mais. Ela é a amante que sabe que terá tudo de novo. O sol se abre mais e arrepia-a ao secá-la, ela mergulha de novo: está cada vez menos sôfrega e menos aguda. Agora sabe o que quer. Quer ficar de pé parada no mar. Assim fica pois. Como contra os costados de um navio, a água bate, volta, bate. A mulher não recebe transmissões. Não precisa de comunicação. Depois caminha dentro da água de volta à praia. Não está caminhando sobre as águas- ah, nunca faria isso depois que há milênios já andaram sobre as águas- mas ninguém lhe tira isso: caminhar dentro das águas. Às vezes o mar lhe impõe resistência puxando-a com força para trás, mas então a proa da mulher avança um pouco mais dura e áspera. E agora pisa na areia. Sabe que está brilhando de água , e sal e sol. Mesmo que o esqueça daqui a uns minutos, nunca poderá perder tudo isso. E sabe de algum modo obscuro que seus cabelos escorridos são de náufrago. Porque sabe - sabe que fez um perigo. Um perigo tão antigo quanto o ser humano.
Clarice Lispector. In: Felicidade Clandestina

sábado, 19 de abril de 2008

portela


Existem coisas difíceis de explicar. Por que sou Portela, por exemplo? Talvez, entre tantas coisas, por esta música: http://www.paixaoeromance.com/70decada/foi_um_rio/h_foi_um_rio.htm Mas talvez seja por ela

http://www.youtube.com/watch?v=8CLeUlZXvfE&feature=related

Acho que, de fato, não há explicação..

viola enluarada



O ano era 1967. Anos bicudos aqueles! Estávamos a um ano do AI5 e o cenário musical brasileiro fervia. Os irmãos Paulo Sérgio Valle e Marcos Valle (na foto nos anos 60) fizeram esta pequena obra prima:

http://www.paixaoeromance.com/60decada/viola/hviola.htm

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

schopenhauer?

O poema da postagem anterior, é de Helena Schopenhauer Borges, personagem que conheci no sítio da Márcia Tiburi ( http://www.marciatiburi.com.br/ ), professora de filosofia e já bastante conhecida por suas aparições na telinha. A descrição e a trajetória de Helena, eu deixo por conta da própria Márcia Tiburi, num texto extraído do seu sítio. Vale a pena uma visita por ali, não só para a descoberta de outros poemas, como também pelos depoimentos de pessoas que, de alguma forma, tiveram alguma interação com esta instigante personagem.


Helena Schopenhauer Borges suicidou-se em 1977 aos 45 anos em Santana do Livramento no interior do Rio Grande do Sul, fronteira com o Uruguai. Viveu nas ruas a partir de seus quatorze anos passando esporádicos períodos no hospício da cidade vizinha Rivera (Hospital de La Santíssima Luz) fechado em final dos anos sessenta, sendo transferidos os poucos internos de nacionalidade brasileira para o hospital de Ana Rech próximo a Caxias do Sul. Seu registro de nascimento diz que foi bisneta de Amália Schopenhauer, parente de Arthur Schopenhauer, o filósofo, herdeira de alguns de seus bens (uma caneta de ouro do tio distante com suas iniciais e dois livros com dedicatória, bem como uma soma em dinheiro que não ficou especificada nos documentos que pudemos compilar) com os quais veio ao Brasil junto aos colonos alemães que chegaram para povoar a serra gaúcha em 1835. A família tentou a sorte na fronteira distante. Sua chegada data de 1844 junto aos pais Caspar e a mãe Tessa para casar-se com Lúcio Borges, promissor dono da funerária local, descendente de açorianos. Teve nove filhos e entre eles, Maria, a mais nova de todas nascida quando a mãe já era avó em 1870 e filha de um escravo alforriado pela própria Amália que se tornou viúva relativamente cedo. Maria foi mãe de Letícia, Suetônia e Laura, nascida em 1910 e que, após parir Helena, bastarda depois de três filhas legítimas, foi internada pelo próprio marido, um tal Leitão Pandolfo num hospício no interior de Mostardas morrendo ali em data não sabida. Maria, ao que consta, era poeta, deixou antes de partir para o sanatório, alguns poemas inacabados. Helena nasceu em 1932. Não sendo adotada pelo padrasto enraivecido, foi registrada com o nome da mãe. O pai desconhecido era uma verdadeira ferida social naqueles tempos de moralismos ferrenhos. Helena foi criada pela nova esposa, cujo nome não é mencionado em documento algum, que foi mãe de outros 12 filhos do traído Leitão. A pequena Helena cresceu no esquecimento, sobrevivendo ao discurso torpe sobre sua origem indecente.



Os textos de Helena, dos quais aqui apresento uma amostra do que pude ler até agora, são o conjunto de seu espólio que me foi confiado em 2005 por um grupo de professoras de língua portuguesa da distante cidade gaúcha, que vinham reunindo os escritos em diferentes estágios de destruição pelo tempo, pelo armazenamento. Apresento os textos atualmente com algumas correções e até mesmo interferências de meu próprio trabalho de linguagem, já que há nele um rumor inovador, algo de antigo e louco que me cativa. Posso dizer que eu gostaria de refazer sua obra, rica em imagens e sentimentos com intensa atualidade, ainda que inacabada, talvez por isso mesmo.



Não sei que rumo irá tomar, pois pude avaliar apenas uma parte do espólio que, notei, ainda que sem tempo de debruçar-me sobre sua totalidade, está dividido entre os textos assinados por Helena Borges, seu nome verdadeiro, e outros assinados por Helena Schopenhauer, seu nome não exatamente verdadeiro, mas possível devido a seu ancestral remoto. O que a teria levado a assinar com tal nome é algo que ainda não decifrei. O material chegou até mim em 5 caixas cuidadosamente organizadas pela Professora Dra. Luciana Argêntea da Luz e suas alunas Beatriz Braz Vargas e Aletéia Pessoa, a quem agradeço, em diversas pastas de papel pardo que ainda devo abrir. Ao telefone afirmaram que não podiam mais guardar um material tão precioso em condições precárias de pesquisa e sem ajuda institucional. É a situação da história da literatura no Brasil. Nas pastas que pude abrir vejo que há textos que não são de Helena, mas que, certamente, eram sua leitura, como um livro todo de Mary Wollstonecraft, Mary Albany e Juliette Donnée, em inglês e francês como se lia na época em que a literatura brasileira era coisa para poucos.

helena schopenhauer borges

Insones
Canto amaldiçoado em ré menor


Páris,
Como sofro longe dos teus olhos descansados
Eu viveria em teu túmulo
Se deixassem que eu fosse a terra a proteger teus ossos do frio.

Me guardam o dia todo dentro de um vaso de lama e moscas
voam ao meu redor


Guardaria teus olhos de vidro dentro de um copo de cristal
Olharia para eles todos os dias antes de dormir
Rezando atrás das vozes inéditas das borboletas

Choraria
Sabes bem que eles me trancaram longe de tudo o que posso ver
Nem a ti
Com quem me casaria
Em silêncio
E para sempre
hoje sonhei com tuas mãos abrindo a janela e vindo salvar
a tua amada.

1. Inventei um jeito de sair do tempo
Com o relógio da parede
Foi só arrancar os ponteiros
Estavam parados e era preciso limpar com força e vontade


Lavar cada número com um pano molhado
Não havia água e eu usei saliva
Não ficou muito limpo
Deu para apagar a memória

Era o mais importante

Agora que não tenho mais passado, terei futuro?

Desde que estou aqui com minha janela quadrada e
os que passam para todos os lados
o dia todo como loucos sei que estou fora do tempo

Quem ainda precisa disso?

2.

Maria Amélia está sobre as asas, barriga para cima, gorda e seca
E se pudesse me ver veria os olhos arregalados
As asas seriam mais leves
Eu esperaria sem vontade de sair

Do teu campo de visão
Entre uma parede e outra,
Entre os tijolos
O pó e o pó

3.

Disse-nos o homem que é ao pó que retornaremos
Eu não vou esperar o apocalipse
Não quero ver meus dentes sobre a terra
Nem a faca sobre o mármore explicando o fio de sangue
Não quero ver onde fui com os dedos apertados
esperando que me atendessem as preces
Eu que já acreditei em deus
Agora acredito nas múmias e nas cartas que dizem o futuro

E o escuro passa tapeando o meu campo de visão
As sementes do inverno acrescem-se de dízimos

Homens se mabarba vem despertar os não dormidos
É o tempo da noite
Que se planta e se resume a ver e ver
Por todos os lados evitam nosso olhar
Evitam ouvir
Evitam saber que entre o céu e nosso lar há
somente a erva das sepulturas

4.
Quando viajo entre os terrenos baldios da memória
O que vejo são paisagens de sangue
Meu pai de olhos estalados
Solto de seu pescoço
A mãe justifica-se sobre a pedra
E os irmãozinhos saltam uns sobre os outros
como se nada tivesse acontecido

Vem os homens de preto com as capaz de lã,
Advogam a própria pele e o direito de usufruir
sobre as filhas dos pobres
Derramam sobre elas a lama da morte
Eia,
Aqui tudo é deste reino
Ninguém se confunde, ninguém teme os fins e o sincero
veio por onde escorre o veneno de todos conhecido
Minha mãe ri para mim do outro lado do inferno
Eu grito,
Mãe, o que fazes aí?
Ela apenas sorri
A dobrinha do sarcasmo não abandona seus olhos claros
Eu vejo que me acena com uma vara de vime e os
caniços à beira da água são de outro mundo
Digo-lhe, mãe, foste encerrada
Estas enganada
Estás com medo?
Repete-se a frase por muitos dias
E nenhuma resposta resvala daqueles olhos

5.
Há morte e luz nos dedos de Paris
Me faz acordar a noite toda e rever seus contornos
Para que não se vão.
Espero cativa de seus gestos
Dos sons que emanam de seus moveres
Silenciosos
Acordes
Levitam sobre meus pés os meus corpos todos,
todos os corpos que conhecem Paris
Todos os corpos que ameaçam fugir quando Páris não está
O que dizer a Paris para que fique e
colha a eternidade como sempre fez?
Antes que Maria Amélia recolha-os para o fim do mundo.

ausência


Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
Carlos Drumond de Andrade

minha vida no campo


Por quase dois anos, no início dos anos 90 – lá no século passado -, morei em uma chácara no interior de São Paulo, na zona rural de Jacareí. Os vizinhos eram poucos e esparsos. Eu não tinha telefone; a televisão virou um móvel para apoiar objetos, já que, por ser um vale, não captava nenhuma imagem. Eu tinha uma vitrola, alguns discos e os meus livros. Entre estes, Kierkegaard, Nietzsche, Shopenhauer, Clarisse Lispector..., o que, convenhamos, não são lá leituras para, digamos, um “descanso no campo”. Alguns dos amigos que fiz por lá, não seriam, vamos assim dizer, as pessoas mais recomendadas para se levar para almoçar na casa da mãe num domingo. Por vezes, escutava uma trovoada de rojões, o que indicava que a encomenda dos meus amigos estava à disposição. Lembrando sempre do ditado “amigos, amigos, negócios à parte”, a minha estratégia era não misturar os negócios: eu contava umas histórias a eles que por vezes os divertiam; não consumia deles, nada que pudessem me fornecer, além de umas singelas cachacinhas, e tão pouco me colocava à disposição para ser um representante de vendas da promissora empresa. Dessa forma, e diante da minha franciscana vida, não me importunavam e, mais do que isso, estabeleciam ordens para ninguém me importunasse. Com a tranqüilidade conquistada e com sobra de tempo, cultivava hortaliças; revisava textos acadêmicos; capinava o mato; chupava manga coquinho no pé e, por vezes, rascunhava poemas, como este:


Primeiro Balanço

Após dois meses de exílio campestre,
nada se pode esperar.
Mudamos as roupas
por outras,
abertas e despretensiosas
os costumes
por outros, rupestres, como pintar à cal, pés de mangueira

Mudamos a relação com o tempo

Contamos as rúculas do quintal
como os homens místicos
que contam estrelas.

Não há lucidez no que fazemos.
Nem mesmo no tempo,
que por ser mais lerdo,
segura para si quase tudo que há:
as sementes que plantamos,
as palavras jogadas
e uma parcela do ar,
que engolimos.




Gê César de Paula


Veraneio Ijal, Jacareí, São Paulo, 18 de novembro de 1990.

sábado, 29 de dezembro de 2007

grupo corpo

Ficha Técnica

Ficha técnica da coreografia do Grupo Corpo, postado abaixo:

Xiquexique (Tom Zé e Zé Miguel Wisnik) Vozes: Arnaldo Antunes, Nà Ozzetti, Luanda, Nilza Maria, Tom Ze, Zé Miguel Wisnik, Paulo Tatit Sanfonas.: Toninho FerraguttiViolão e Baixolão: Gilberto Assis Bandolim: Jarbas MarizGuitarra: Marco Prado Percussão: Marcos SuzanoFontes (bochexaxado, bexiguinha no dente): Tom Zé, Neto.

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Outros equívocos...


Clarisse Lispector ?


Não te amo mais


Estarei mentindo dizendo que
Ainda te quero como sempre quis
Tenho certeza que
Nada foi em vão
Sinto dentro de mim que
Você não significa nada
Não poderia dizer mais que
Alimento um grande amor
Sinto cada vez mais que
Já te esqueci
E jamais usarei a frase
Eu te amo
Sinto, mas tenho que dizer a verdade
É tarde demais...

Não, Clarisse não cometeria este poema, mas na Internet jogaram-lhe a bomba no colo. Há outro “poema” famoso, “Procura-se por um amigo”, que prefiro não reproduzir, que alguém culpou o Vinícius de Moraes por tê-lo feito. Eu digo que o poetinha é inocente.

O Instante, que Borges não só escreveria, como escreveu


EL INSTANTE:

¿Dónde estarán los siglos, dónde el sueño / de espadas que los tártaros soñaron, / dónde los fuertes muros que allanaron, / dónde el Árbol de Adán y el otro Leño? / El presente está solo. La memória / erige el tiempo. Sucesión y engaño / es la rutina del reloj. El año / no es menos vano que la vana historia. / Entre el alba y la noche hay un abismo / de agonías, de luces, de cuidados; / el rostro que se mira en los gastados / espejos de la noche no es el mismo. / El hoy fugaz es tenue y es eterno; / otro Cielo no esperes, ni otro Infierno.


Aqui, trata-se de Borges.

Equívocos literários (3)


Da mesma forma que “Instantes”, que comento na postagem abaixo, “Marionete” é um poema em prosa que não guarda nenhuma relação com o autor a quem alguém pretendeu destinar a autoria: Gabriel García Márquez. O que intriga é que os dois poemas tratam do mesmo tema, um olhar histórico e revisionista sobre si mesmo num embalo de mensagem de vida, muito em moda. Borges nunca escreveria “Instantes”; Garcia Marques nunca escreveria “Marionete” e George Bush nunca escreveria Ana Karenina.

Marionete



Se por um instante Deus se esquecesse de que sou uma marionete de trapo, e me presenteasse um pedaço de vida, possivelmente não diria tudo o que penso, mas definitivamente pensaria tudo o que digo.

Daria valor às coisas, não pelo que valem, senão pelo que significam. Dormiria pouco e sonharia mais, entendo que por cada minuto que fechamos os olhos, perdemos sessenta segundos de luz.

Andaria quando os demais se detêm, despertaria quando os demais dormem, escutaria enquanto os demais falam, e como desfrutaria de um bom sorvete de chocolate...

Se Deus me obsequiasse um pedaço de vida, me vestiria com simplicidade, me atiraria de bruços ao sol, deixando descoberto, não somente meu corpo, mas também minha alma. Deus meu, se eu tivesse um coração.... Escreveria meu ódio sobre o gelo, e esperaria que saísse o sol.

Pintaria com um sonho de Van Gogh sobre as estrelas um poema de Benedetti,e uma canção de Serrat seria a serenata que ofereceria à lua. Regaria com minhas lágrimas as rosas, para sentir a dor de seus espinhos,e o encarnado beijo de suas pétalas...

Deus meu, se eu tivesse um pedaço de vida... Não deixaria passar um só dia sem dizer à gente que quero, que a quero. Convenceria a cada mulher e homem de que são meus favoritos e viveria enamorado do amor.

Aos homens provaria quão equivocados estão ao pensar que deixam de enamorar-se quando envelhecem, sem saber que envelhecem quando deixam de se enamorar. A uma criança daria asas, mas deixaria que ela aprendesse a voar sozinha. Aos velhos, a meus velhos, ensinaria que a morte não chega com a velhice, mas com o esquecimento.

Tantas coisas aprendi de vocês, homens..... Aprendi que o mundo todo quer viver no alto da montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está na forma de subir a escarpa. Aprendi que quando um recém-nascido aperta com seu pequeno punho pela primeira vez o dedo de seu pai, o tem amarrado para sempre.

Aprendi que um homem unicamente tem direito de olhar outro homem de cima para baixo, quando o tiver ajudado a se levantar.

São tantas coisas as que pude aprender de vocês, mas finalmente de muito não haverão de servir porque quando me guardem dentro desta maleta, infelizmente estaria morrendo....



De autor anônimo - Atribuído a García Márquez

Equívocos literários (2)


Instantes

Se eu pudesse viver novamente a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros.


Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais.

Seria mais tolo ainda do que tenho sido; na verdade, bem poucas pessoas levariam a sério.

Seria menos higiênico.

Correria mais riscos, viajaria mais, contemplaria mais entardeceres, subiria mais montanhas, nadaria mais rios.

Iria a mais lugares onde nunca fui, tomaria mais sorvete e menos lentilha, teria mais problemas reais e menos imaginários.

Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e produtivamente cada minuto da sua vida. Claro que tive momentos de alegria.

Mas, se pudesse voltar a viver, trataria de ter somente bons momentos.

Porque, se não sabem, disso é feito a vida: só de momentos - não percas o agora.

Eu era um desses que nunca ia a parte alguma sem um termômetro, uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas; se voltasse a viver, viajaria mais leve.

Se eu pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço no começo da primavera a continuaria assim até o fim do outono.

Daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças, se tivesse outra vez uma vida pela frente.

Mas, já viram, tenho 85 anos e sei que estou morrendo.



Jorge Luis Borges é um daqueles escritores que é mais conhecido e citado do que propriamente lido. Um poema, no entanto, foi muito lido, tornando, repentinamente popular, o escritor argentino. Trata-se do poema Instantes. Ocorre, apenas (!), que o poema não é de Borges. Quem o conhece minimamente, não se deixaria enganar: Borges nunca escreveria um texto como este. Entretanto, o texto foi espalhado na rede como sendo de sua autoria, por uma dessas razões difíceis de explicar. Há dúvidas quanto à autoria. Já se disse que era de Nadine Stair, uma senhora norte-americana. Mas parece que também não é. O poema não aparecia nas obras completas do autor, mas, ainda assim, foi preciso que a viúva de Borges, Maria Kodama, fosse à justiça, registrar que o poema não era de Borges e que, como herdeira, não receberia pelos direitos autorais.

sábado, 8 de dezembro de 2007

Equívocos literários (1)

Nem sempre se sabe a origem, e por vezes, nem mesmo a razão, mas inúmeros equívocos literários foram espalhados mundo afora, e muitos deles alcançam quase uma condição de verdade irretorquível. Um deles é um poema que se chamaria “A caminho com Maiakovski” e que seria de autoria de Bertolt Brecht. Também já disseram ser de Maiakovsk. O poema seria assim:






Na primeira noite,
eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim: não dizemos nada.
Na segunda, já não se escondem.
Pisam as flores, matam o nosso cão e não dizemos nada.
Até que um dia o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz e,
conhecendo o nosso medo, arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
O poema verdadeiro, vejam só, é de Eduardo Alves da Costa, brasileiríssimo de Niterói, nascido em 1936 e se chama, NO CAMINHO COM MAIAKÓVSKI, e é assim:
Assim como a humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakósvki.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz:
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio
Mas no tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares,
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo.
Por temor, aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita - MENTIRA
!