Um ótimo debate sobre mídia. São pouco mais de 50 minutos que valem todos eles, mas se quiser um trechinho para um prévia, sugiro a primeira intervenção de Viviane Mosé, que vai do minuto 12 ao 16, mais ou menos.
Em entrevista ao programa Milênio da Globo News, Umberto Eco tratou do jornalismo sujo e, com sutilezas, falou da Globo sem se referir a ela. DoJornal GGNreproduzimos a entrevista.
Entrevista concedida pelo semiólogo Umberto Eco à jornalistaIlze Scamparini, para o programaMilênio — um programa de entrevistas, que vai ao ar pelo canal de televisão por assinaturaGloboNews às 23h30 de segunda-feira com repetições às terças-feiras (17h30), quartas-feiras (15h30), quintas-feiras (6h30) e domingos (14h05).
Umberto Eco é um italiano que olha a realidade com óculos especiais. Defini-lo como escritor e crítico literário seria muito pouco. Também seria insuficiente nominá-lo como linguista, esse piemontês de Alexandria, de fama internacional é também filósofo e um ensaísta vivaz. Semiólogo, usa a ciência dos símbolos como um esquema mental. Grande apaixonado pela Idade Média, produziu obras como O Nome da Rosa, de 1980, um suspense filosófico ambientado no ano de 1327, que virou best seller e inspirou um filme com Sean Connery. Estudioso do fenômeno da comunicação, foi um dos primeiros por aqui a falar de linguagem televisiva. Acompanhou o nascimento da televisão italiana e do pensamento americano sobre a TV. Um princípio fundamental da sua narrativa é a suspeita, a desconfiança no que se diz. Umberto Eco põe em discussão qualquer interpretação sobre os fatos. Na sua casa em Milão ele nos mostrou a edição brasileira de Número Zero, o seu último livro que cita histórias da época contemporânea para falar de chantagem, intrigas e de reputações enlameadas dentro da redação de um jornal.
Ilze Scamparini — O senhor acabou de lançar uma espécie de manual do mau jornalismo. Criou uma redação de pretensiosos. Essa ideia vem de onde? Umberto Eco — Há pelo menos, 30 anos que escrevo artigos e ensaios sobre os vícios do jornalismo. Uma visão de dentro, porque também escrevo em um jornal. Então, é um tema familiar para mim. (segue em "mais informações")
As fotos acima não são de nenhum país africano. Tão pouco é do Vale do Jequitinhonha, ou do sertão nordestino e, muito menos, de Cuba. São fotos da cidade de São Paulo, a mais rica do país. Poderíamos encher esta postagem com elas. Basta procurá-las na internet. Para aqueles que acham que São Paulo se resume à Higienópolis e Jardins, talvez esta seja a maneira mais fácil de conhecê-la além das suas alamedas floridas.
Mas a jornalista da Veja Nathalia Watkins, por desconhecer a cidade real, se expôs da maneira como poderemos ver no vídeo abaixo, na sua participação no programa Roda Viva ao fazer uma pergunta ao escritor cubano Leonardo Padura.
Sugerimos visita ao DCM para ler o Paulo Nogueira e também o bom artigo de Alberto Benitz publicado no Observatório de Imprensa e destacamos um comentário do leitor do artigo, Silvio Miguel Gomes, que nos informa que "...Após a enorme repercussão do episódio, sobretudo nas redes sociais, a editora do escritor cubano, Ivana Jenkins, revelou em sua conta pessoal no Facebook que Nathalia, ao final do Roda Viva e com as câmeras já desligadas, admitiu que fez apenas 'as perguntas que o Augusto [apresentador do programa] mandou' ". Interessante!
Guernica, obra de 1937 de Picasso que na exposição do CCBB é apresentado o seu projeto.
Miró
São Paulo é uma cidade marcada por suas inúmeras e diversas contradições. Seja no clima, que pode apresentar mais de uma estação em um único dia, ou nas desavergonhadas diferenças sócio-econômicas escancaradas em cada esquina. Se há um lado em que a cidade mostra a sua face explicitamente conservadora, há um outro em que a apreensão de novos saberes são construídos nas oficinas das Casas de Cultura espalhadas pelas suas periferias. Ao mesmo tempo em que a cidade abarca comportamentos tão pouco citadinos, acolhe outras experiências culturais com exposições que atraem multidões. É o que acontece mais uma vez este ano.
No que se refere à difusão cultural, São Paulo, em 2015, ao mesmo tempo em que foi palco da destilação do ódio de uma parcela estridente da sua população, sempre instigada pela mídia local, foi e está sendo o ano de revisitações a importantes movimentos da arte no século 20, movimentos que forneceram significativos subsídios para o entendimento deste que foi o século de duas guerras mundias, de novos ordenamentos políticos e de mudanças que estabeleceram uma relação de tempo muito mais rápida.
Nas exposições pela cidade, há uma viagem pelo abstracionismo, pelo dadaísmo, pelo cubismo, pelo surrealismo, pela arte performática. Depois da exposição de Dali, Picasso desembarcou no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), acompanhado do mesmo Dali, de Miró, de Juan Gris, de Antonio Tàpies, de Julio González entre outros. No Centro Cultural Tomie Ohtake, Miró é a estrela única. O russo Kandinsk desembarca em São Paulo no CCBB em julho, com a exposição "Kandinsky: tudo começa num ponto". Uma outra exposição, de caráter performático, já encerrada, deixou a sua marca no ano: a sérvia, por vezes desconcertante, Marina Abramovic esteve no Sesc Pompéia. Já no ano passado, uma outra exposição da japonesa Yayoi Kusama, também performática e também desconcertante, por outros motivos, levou mais de 500 mil pessoas ao Tomie Ohtake.
Kandinsk
Picasso, Miró e Kandinsk em uma mesma temporada é um privilégio.
Requer-se, agora, para uma boa fruição, uma boa dose de espírito livre.
PS.: sobre filas e exposições fizemos um outra postagem em 2012 aqui / sobre "arte" mais 25 postagens, aqui
Foi-se Eduardo Galeano. O escritor latino-americano se despediu esta semana. O jornalista Lúcio de Castro nos conta aqui um pouco do que viveu com ele.
Há algumas figuras que são pouco conhecidas mas cultuadas no seu meio. O cineasta e escritor Mário Peixoto (1908/1992) é uma delas. O seu único filme terminado, "Limite" de 1931, já entrou em muitas listas de melhores filmes do século 20. O seu segundo filme "Onde a Terra Acaba" não foi concluído e o cineasta Sérgio Machado fez o ótimo documentário se utilizando do mesmo nome do filme inacabado de Peixoto e que este Empório tem o prazer de compartilhar. Mário Peixoto tem também uma obra literária que, entre outros livros, se destaca "O inútil de cada um".
Entre "Douro, Faina Fluvial" de 1931 e "O Velho do Restelo", 2014, foram 15 curtas. Entre "Aniki-Bobó" de 1942 e "O Gebo e a Sombra" mais 30 longas além de outros tantos documentários. No dia do lançamento de o "Velho do Restelo", Manoel de Oliveira completava 106 anos de vida. O mais longevo realizador do cinema finalmente descansou.
Martin Javo e André Köhler, professores da EACH-USP, escreveram para a revista de arquitetura Vitruvius, na seção Minha Cidade, artigo sobre a "nova polêmica" da administração Fernando Haddad em São Paulo: os grafites nos Arcos do Bixiga.
Os arcos não foram pintados, razão pela qual o Compresp ( Conselho Municipal de Preservação do Patromônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo) liberou as pinturas. O que foram pintados foram os muros de arrimo, que já foram pintados e repintados inúmeras vezes e voltarão a sê-los, já que o grafite é uma arte transitória. A discussão tem, é evidente, fundo político-partidário.
Os ódios fabricados fazem mal à saúde da cidade como já estão fazendo ao país.
O artigo pode ser lido aqui .
Em vez de falar do fotógrafo japonês Haruo Ohara, que chegou ao Brasil com 18 anos de idade acompanhando da família para trabalhar na lavoura, vamos apresentar algumas das suas fotos e indicar dois sites que retratam a sua trajetória. A página do Instituto Moreira Sales e a da Revista Zum que traz uma matéria citando uma outra matéria, do The New York Times cujo tema foi Ohara e também o ótimo documentário de Rodrigo Grota sobre o fotógrafo nipo-brasileiro.
A revista do Sesc nos ofereceu na edição de janeiro uma entrevista com o professor filósofo Peter Pál Pelbart, que sintetiza a vida contemporânea, enredada em suas conexões, seus processos de produtividade e os seus limites pré-determinados.
Este empório compartilha abaixo essa importante reflexão.
Peter Pál Pelbart
Crédito: Leila Fugii
Filósofo e professor fala sobre conexão, produtividade, modos de existência e mecanismos de controle na sociedade contemporânea Nascido na Hungria, Peter Pál Pelbart é filósofo, tradutor e professor titular de Filosofia na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Entre outros livros, é autor de Da Clausura do Fora ao Fora da clausura: Loucura e Desrazão (Brasiliense, 1989), sobre a relação entre filosofia e loucura, e Vida Capital (Iluminuras, 2003), sobre a relação entre política e subjetividade. Sua obra mais recente é O Avesso do Niilismo – Cartografias do Esgotamento (n-1 edições, 2013), no qual mapeia as zonas de esgotamento no mundo contemporâneo e propõe uma política orientada pelo desejo. Nesta entrevista, Peter Pál fala sobre estes e outros temas ligados à vida contemporânea: “Sou a favor de que haja interrupções nesse trem louco que vem vindo há muitas décadas numa velocidade crescente e nos obriga a mobilizar toda a nossa energia com finalidades cada dia mais desconhecidas e inúteis. Enquanto não se frear esse trem, não será possível inventar finalidades outras que não a produção pela produção, o lucro pelo lucro e essa espécie de racionalidade capitalista que nos enlouquece literalmente”.
A atrocidade do ataque que matou 12 jornalistas do "Charlie Hebdo" ficará na história da humanidade como um crime hediondo. Analisar, entretanto ( e é necessário que se faça um "entretanto"), o atentado, desassociado da construção histórica que o resultou, é fechar os caminhos para a sua compreensão; é construir muros.
A muralha da China, o muro de Berlim, o muro da Faixa de Gaza, foram construções físicas que concretizaram barreiras, cada um para o seu objetivo político determinado. Mas os outros inumeráveis muros não físicos que a geopolítica ao longo deste percurso humano criou, cimentados pelas disputas consequentes das relações de poder e da dominação, são os grandes anteparos formadores das atrocidades que não cessaremos de vivenciar, já que os muros permanecem tão intactos quanto intactas são as suas convicções de poder.
O que levou os dois irmãos ao ato extremo, em defesa de Maomé, não pode ser explicado por uma questão simples de causa e efeito. É muito mais do que isso. Não dá para sermos apenas "Charlie".
Para entendermos ao menos uma "pedrinha" dessa história, compartilho três textos:
Os dois primeiros, duas grandes análises do jornalista Paulo Moreira Leite. Este, escrito no dia posterior ao atentado e este, um artigo que apresenta um contexto histórico que nos oferece algumas lanternas que nos possibilitam caminhar por essas escuras vielas.
O terceiro, reproduzo abaixo, clicando em "mais informações". Trata-se da matéria da jornalista Eliane Trindade da Folha, com uma didática e imprescindível análise de Alexandra Baldeh Loras, consulesa da França em São Paulo.
A Polônia dos anos 60 ainda não havia curado as suas cicatrizes da guerra. É o que nos lembra Pawel Pawlikowski, no seu filme Ida.
Quando o filme se inicia, nos deparamos com uma tela em formato 1:37, quadrada, o que já nos coloca em um cenário diferente do que nos acostumamos com o formato widescreen que hoje, saiu do cinema para invadir as nossas televisões. O filme é, ainda, em preto e branco, naquilo que se revelará uma belíssima e adequada fotografia.
Anna é uma jovem noviça que desconhece o seu passado e que esta prestes a fazer os votos definitivos para se tornar uma freira e viver eternamente no convento em que está desde que ficou órfã. O ato é interrompido pela madre superior que a obriga a conhecer o único membro da sua família que restou: a sua tia Wanda, " a vermelha", uma juíza amargurada que carrega com dignidade a história de uma Polônia em dívida com o seu passado e que vê na bebida, no cigarro e nos encontros sexuais furtivos a razão paralela de uma vida que perdeu o sentido.
O encontro das duas escancara um choque de realidade. Para Anna, tão logo se conhecem, sem subterfúgios, a tia lhe revela que seu nome é Ida, e que ela é filha de judeus que foram mortos durante a Segunda Guerra. Para Wanda, a sobrinha é a personificação da irmã assassinada.
A busca dos corpos enterrados, será uma jornada sensível e densamente humana e se transformará no encontro e no desamparo que selará a história das duas personagens.
Um filme para sentir.
Ida, de Pawel Pawilikowski, com as ótimas Agata Trzebuchowska (Anna/Ida) e Agata Kulessza ( Wanda), em São Paulo no Cine Livraria Cultura.
O Masp ( Museu de Arte de São Paulo) é um dos temas recorrentes deste blog. Na lista dos "marcadores" esta será a 12° postagem sobre o museu. Em uma destas postagens, tratamos da política do museu, quando da saída de Júlio Neves da sua direção, depois de longos e desastrosos 14 anos. Trata-se do artigo pra não dizer que não falei de brunelleschi .
Na ocasião, lamentávamos que, mesmo com a saída de Júlio Neves, o Masp não teria uma mudança significativa já que o "continuísmo tomou corpo com a posse do ex secretário de Júlio Neves" o empresário João de Azevedo, "que já demonstrou não ter nenhuma vocação para pensar o Masp como uma instituição que formula e estimula o pensamento".
O texto fazia apenas uma ressalva amenizadora, que era a indicação para a curadoria, do professor Teixeira Coelho que iniciou uma nova agenda de exposições temáticas a partir da coleção do museu. Mas enfatizava, no entanto, que Teixeira não pretendia discutir o museu tal qual foi pensado pela sua idealizadora, a arquiteta Lina Bo Bardi.
Pois bem, parece que temos novos ares no Masp. O museu conta agora com uma nova direção. O empresário e consultor Heitor Martins, que presidiu a Bienal, é o novo presidente do Masp. E ele trouxe como novo curador, ou diretor artístico - já que contará na sua equipe com outros três curadores - o editor e ensaísta Adriano Pedrosa.
Pedrosa pretende reestruturar o museu voltando às suas origens, conforme foi idealizado por Lina.
O MASP, o principal museu do hemisfério sul e com um dos mais relevantes acervos do mundo, além de acumular uma dívida estimada em R$ 12 milhões, ficou relegado, nos últimos vinte anos, a uma condição de coadjuvante, como se fosse uma instituição menor. Martins alterou o estatuto do museu possibilitando uma mudança drástica do conselho que aumentou de 30 para 80 membros, viabilizando canais de abertura para a entrada de novas receitas. Com elas, serão retomadas as obras do anexo, que possibilitará ampliar o espaço das exposições. Mas a maior alteração será no conceito da museologia. Pedrosa já prometeu o retorno dos cavaletes de vidro de Lina, marca fundadora do MASP, e visualiza um espaço "mais penetrável", "menos opaco", ou seja, com a transparência proposta pela arquiteta. Essa "transparência" já pode ser vista na exposição "MASP EM PROCESSO, no subsolo do museu, de terça a domingo das 10 às 18h, quinta das 10 às 20h.