sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

corinthians, sócrates, arte...

Domingo passado o Corinthians conquistou o seu 5° título do campeonato brasileiro, um dia que começou muito triste com a notícia do falecimento do Dr. Sócrates, figura singular, que extrapolou os campos de futebol. Médico formado ainda bem jovem, Sócrates militou em outras frentes. Teve forte presença no movimento das Diretas Já e liderou a Democracia Corinthiana em plena Ditadura Militar. Nunca foi um atleta, na acepção da palavra, e, ainda assim, foi um extraordinário jogador, daqueles que praticavam o futebol arte. Teve problemas quando se mudou para a Itália para atuar pela Fiorentina. Por lá, ficou pouco tempo, jogou bem mas menos do o clube esperava e a razão é um tanto inusitada. A cidade de Florença, sede do clube, envolta por tantas obras de arte, roubou a atenção e o foco do jogador pelo futebol, razão pela qual Sócrates foi contratado.

Foi-se uma voz, daquelas que fazem falta.

Mas volto ao Corinthians. Remexendo em arquivos, achei um rascunho em que relacionava o Corinthians e outros clubes com alguns movimentos de arte. Aproveitando esta conquista corinthiana, lá vai..:


“Com todo o respeito aos outros times, mas o Corinthians tem um 'quê' que o diferencia dos demais. Suas tintas (ainda que preta e branca) carregam uma dramaticidade, digamos, expressionista. É isso: acho que há times impressionistas, muitos, com tons mais amenos (Cruzeiro, Palmeiras, Fluminense..); românticos (os Américas, o Botafogo..); os realistas, pragmáticos (chatos, como a ausência da poesia, como o São Paulo, por exemplo). O Corinthians é expressionista. Não há clube que tenha tantas tentativas de entendimento: são inúmeras as teses de sociologia sobre o Corinthians na USP, Unicamp, Puc. A origem operária, e por conseqüência, o vínculo com as questões da opressão, das lutas, reivindicações etc, talvez traga alguma indicação. Osmar Santos, o grande narrador dramático, pintava cores extravagantes descrevendo o Corinthians entrando em campo. (Escutei outro dia, uma dessas narrações, descrevendo a cena épica do Corinthians entrando em campo no Maracanã em 1976 contra o Fluminense). Osmar dizia, exatamente, das perplexidades de um “povo sofrido” (estávamos na ditadura), que exaltava um time como quem tocava as portas do paraíso. Não por acaso, todos os intelectuais de esquerda, que falaram de futebol nos anos de chumbo, se auto-proclamavam corinthianos.
"Os dramas corinthianos sempre tiveram proporções enormes. Lembro, ainda menino, a final perdida para o Palmeiras em 1974(eram 20 anos sem títulos), com um choro coletivo de 120 mil corinthianos, que jogavam suas bandeiras arquibancada abaixo. Três anos depois, campeão contra a Ponte Preta, olhávamos uns para os outros e, perplexos, nos perguntávamos: o que será de nós, que agora somos campeões?”


Não sei quando fiz este rascunho. Talvez quando o time caiu para a segunda divisão. Mas vou dizer algo que dificilmente um são paulino entenderia. O Corinthians está se estruturando de uma forma que poderá transformá-lo em um ganhador emérito de títulos. É evidente que títulos são importantes, mas nunca foi essa a razão central do alicerce em que o Corinthians foi construído. Essa é a razão de ser do São Paulo. O projeto da atual direção do Corinthians é transformá-lo não só num clube super estruturado e vencedor, mas também elitizá-lo, o que me parece, neste ponto, ruim, porque contrapõe a construção histórica do clube.
Por outro lado - e não sei se é só marketing - essa mesma administração lançou uma campanha de marketing que tirará do uniforme oficial as estrelas, que representam conquistas, para realçar o emblema do clube, com o mote, “ O Corinthians não vive de títulos, vive de Corinthians”. Vamos ver...

Só espero que o “time do povo” não mude de corrente artística e passe a ser pintado, junto com o São Paulo, num quadro realista.