sábado, 5 de maio de 2018

o eterno retorno e o além do homem

A questão da temporalidade em Nietzsche através do "eterno retorno" e do "além do homem" na interpretação sintética de Oswaldo Giacoia Junior.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

nicolelis: uma entrevista imperdível

É necessário deixar aqui, neste empório, este registro. Esta entrevista do Miguel Nicolelis, ainda que carregada de tristezas, é fundamental para entender a isso que chamamos de Brasil.

domingo, 8 de abril de 2018

a tragédia consolidada / mas o ciclo ainda não se fechou

Foto de Francisco Proner Ramos, jovem
fotógrafo de 18 anos de idade.
Em 11 de junho de 2017 publicamos neste empório o artigo a tragédia brasileira, que procurou contextualizar essa trajetória da guerra em que fomos inseridos, pouco mais de um ano do Golpe parlamentar-jurídico-midiático de maio de 2016 sofrido pelo Brasil na figura da presidenta eleita Dilma Rousseff.
Nesta semana tivemos a consolidação do golpe e, portanto, dessa tragédia brasileira.
A tragédia não se dá tão somente pela prisão do ex-presidente Lula, o maior líder político da história do Brasil. Ela se dá, porque foi o resultado de uma manobra política que  o levou a uma condenação sem provas, que é o que define, na essência jurídica, o autoritarismo. É ainda uma tragédia porque, depois de 21 anos de ditadura em que vivemos - entre 1964 e 1985 -, vínhamos trilhando, com os naturais tropeções, um caminho de busca de um processo de consolidação de democracia e que acaba de ser interrompido. A retomada necessária desse processo será árdua e ainda de consequências imprevisíveis. E não será fácil, porque o ódio fabricado e disseminado pela grande mídia como estratégia política, saiu do controle. O fascismo volta a pisar firme pelas ruas brasileiras com a sua velha desenvoltura perdida há pelo menos três décadas. Não será fácil, ainda, porque as redes de conexões que produziram o golpe, produziram também um pacto de responsabilidade difícil de ser quebrado. O voto estapafúrdio e criminoso da ministra Rosa Weber, afirmando que votaria naquele momento de forma inconstitucional, é a evidência clara desse pacto.


Mas o ciclo ainda não se fechou


Para o enredo do golpe, a destituição da presidenta Dilma era apenas a etapa inicial. O fechamento seria com a decretação de inelegibilidade de Lula ou a sua prisão, e esta tendo, como a cereja do bolo, um cenário midiático: algemado e humilhado em praça pública.
Inelegível, mesmo preso, Lula não está. Sua candidatura será registrada e o TSE é que terá, diante de um quadro político complicadíssimo como este, de impugná-la. E, mesmo impugnada, caberá  recurso ao STF. Mas a disputa real que os executores do golpe terão é outra. Lula se entregou, mas não foi humilhado, porque ele decidiu a hora e como seria a sua chegada em Curitiba. Quando deveria estar preso, por determinação de Sérgio Moro, o ex-presidente estava fazendo um discurso histórico para dezenas de milhares de pessoas nas apertadas ruas do entorno da também histórica sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Um discurso que lembrava a todos que há abstrações, além do corpo, que não podem ser encarceradas.
Neste aspecto, entra um elemento que não pode ser matematicamente planejado. Mesmo com o país dividido e os ânimos cada vez mais acirrados, Lula deve sair desse processo ainda maior do que entrou e isso faz parte das variáveis que os roteiristas do golpe não tinham o poder de decidir.
Lula é, ainda que a narrativa oficial não diga, um preso político.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

um magistrado exemplar

Em um país em que a justiça age de forma a fazer as suas escolhas a dedo, dependendo da condição social, econômica e política do indivíduo, um texto saudosista como este de Milton Hatoum, deveria fazer, mas acaba não fazendo nenhum sentido..., para muitos dos que compõe o nosso corpo jurídico. 

Existe magistrado exemplar?
Não só existe, como conheci essa rara figura. Aliás, raríssima, de dar inveja (data venia) aos mais nobres magistrados. Não sei se era religioso; talvez sim, mas com uma generosa pitada de agnosticismo, que é o sal do niilismo moderno.
Sei que era francês. Eu o conheci nos meus primeiros dias de Paris, no inverno tenebroso de 1978. Passamos uma tarde inteira e uma parte da noite num café da rue Fouarre. Que magistrado incrível! Que exemplo de juiz de instrução, ainda mais neste tempo de privilégios, que há séculos é o tempo brasileiro.
(continua em "mais informações")

quarta-feira, 7 de março de 2018

o idiota tecnológico

Este artigo de Raphael Silva Fagundes, publicado no Le Monde Diplomatique Brasil deste mês, toca num tema que sobrepõe muitas das discussões rasteiras e cotidianas que acabamos travando, muito porque é o que nos sobra discutir. Acima dessas discussões existe um controle sistêmico sobre o comportamento das pessoas que se acomoda nas entranhas dos fios do tecido social. Muitos pensadores já se de debruçaram sobre o tema. Fagundes toma como partida, MacLuhan.
Em vez de reproduzimos o artigo indicamos o seu link abaixo:

o idiota tecnológico...

sábado, 17 de fevereiro de 2018

política com chapéu



Erratas: o vídeo, gravado em fluxo direto ( não sei fazer edição), merece ao menos três correções. (clicando em mais informações)

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

da natureza do golpe

O Brasil, todos sabemos, sofreu um golpe. Mais um na sua história. No dia seguinte ao golpe, a população brasileira acordou, se espreguiçou, bocejou, lavou o rosto, tomou o seu café, iniciou as suas atividades, cada um com os seus problemas, dilemas ou prazeres. Aqueles pobres, aqueles remediados, aqueles abastados... Os desonestos, muitos dos honestos; os que avançam os sinais, qualquer sinal, daqui, dali ou acolá; os clientes, todos os clientes, os inseridos no mercado e os que desejam se inserirem no mercado; os tristes e os alegres; os bons e os maus. 
Pelo dia, o Brasil foi seguindo o seu passo manso, introspectivo, com a calma paciente dos justos, distraídos por não se perceberem injustos. O Brasil atravessou o dia, comendo, bebendo, trabalhando, vagando, gozando, trocando idéias fúteis, inconseqüentes...
”como tá abafado”, “é, vai chover”, “odeio carregar guarda-chuva”, “eu também”, “será que vão prender o homem?”, “acho que sim”, “tem jogo hoje?”

Chegada a noite, os corpos cansados atravessam as portas residenciais, se acomodam nos seus cantos, se aconchegam..., todos aqueles que têm portas residenciais, que têm cantos e que têm a possibilidade do aconchego, e que poderão, depois de um boa noite de willian bonner, descansar para um outro dia, para um novo bocejo, um outro lavar de rosto, um novo café, para os novos dilemas, novos problemas ou novos prazeres. Tudo muito natural. Natural como um golpe.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

deu nisso

Viu só Lula! Você foi inventar de morar em São Bernardo do Campo, justo num lugar marcado pela luta operária...! Tanto lugar para você morar...,Higienópolis, por exemplo, ou Alto de Pinheiros...! Tomar café em padaria?! Onde já se viu...!,tendo a Vila Boim, por exemplo, onde você poderia ler o Le Monde. Ah, mas você não aprendeu o francês. Viu?, tinha que ter estudado mais! Foi inventar de ter uma chacrinha chamada “Los Fubangos”. “Los Fubangos??”, Lula! Aí não dá! E nem mesmo um apartamento no Guarujá você foi capaz de inventar. Mas seria pouca coisa. O bom seria se você tivesse comprado um em Paris. Olha que chique! Tem uma avenida lá Lula, chamada Avenue Foch. Dizem que é linda. Daria para você passear pelas alamedas floridas, pensar na vida, quem sabe até escrever a sua biografia. Foi se meter em vagar pelo Brasil... Falar com gente pobre, sem cultura. Por que você, em vez de ficar rodando pelas estradas, não comprou uma fazenda no coração do Brasil, em Buritis, por exemplo? Você poderia contratar um arquiteto renomado, ver, quem sabe, com a Camargo Correa, por exemplo, se ela não construía para você - um homem de prestígio- uma pista de pouso.
Foi inventar de juntar as consoantes de parte do nome do pai com o nome da mãe pra dar nome pra sua filha. Não seria melhor um nome mais, assim, digamos, normal, como Verônica, por exemplo, ou quem sabe Luciana? Imagina só, se tudo desse certo, ela poderia até virar sócia do homem mais rico do país, já pensou nisso?
Mas você foi inventar tantas outras coisa, Lula... Onde já se viu, você ficar de conversinhas com essa gente da África, essa gente esquisita da América Latina. Foi ainda falar grosso com o Bush, falar com a cabeça erguida com a Merkel. Imperdoável!
E ainda essa coisa de tirar gente da pobreza! Você provou, é verdade, que colocar essa gente no orçamento do Estado, faz girar e impulsionar toda a economia. Mas precisava? Eles já estavam lá quietinhos, acostumados. Os mais abastados estavam ali, tranquilos, não tendo que pensar em dividir espaço em aeroporto. E você foi mexer nisso!
Pensando bem, você tava lá, 50 ano atrás, empregado, numa empresa internacional, torneando peças (olha que bonito: “torneando”); o único problema foi perder um dedo, mas foi o dedo mindinho que não serve pra muita coisa. Batia a sua bolinha, tomava a sua cachacinha, ia ver o Corinthians... Não tava bom? Foi querer lutar pela gente; foi querer ocupar o lugar de quem sempre mandou. Deu nisso!


sábado, 6 de janeiro de 2018

o tempo, que não é de drummond, e a legião de imbecis

Há mais de dez anos publicamos neste empório uma sequência daquilo que chamamos de equívocos literários: textos falsamente atribuídos a grandes figuras da literatura.
Nesta passagem de ano, um poema circulou por todos os lados e foi parar até no elevador do meu condomínio, que é administrado pela tal da Lello. Trata-se do poema intitulado "O Tempo". Acho que muita gente deve tê-lo recebido na sua caixa postal. É aquele que começa assim: "Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, / a que se deu o nome de ano, / foi um indivíduo genial..." e blá, blá, blá.  Atribuíram-no ao coitado do Carlos Drummond de Andrade. A bem da verdade, o poema era até pouco tempo de autor desconhecido mas parece ter um autor já identificado, mas como não tenho certeza, não mencionarei o nome.
Atribuir falsas autorias parece que foi um dos primeiros vícios que a rede estimulou. Em momentos em que o fascismo saiu dos boeiros, como este em que vivemos, essas práticas podem parecer café pequeno, e de fato são: uma pequena imbecilidade diante das imbecilidades perigosas. Mas não há como não lembrar de Umberto Eco que disse, pouco antes de morrer, que "as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis".

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

transitório

transitório
como o cão que um dia tive
como a palavra interrompida e não dita
como a folha, que seca,
pousa de eterna entre as letras do livro

transitório
como o movimento minimalista da mão que cerca esta taça

como a poeira que penetra e se adensa
no espaço a que não pertenço
porque nele me instalo como transitório

como a partícula, a célula, a bactéria
que se acomodam na não existência do olhar

transitório como a lupa
que amplia o passar

como o passo que não acolhe o caminho

como o rio heráclito

como a relva orvalhada desfalecida ao meio do dia

transitório como a dor sentida
e o amor perdido

transitório como a pausa irrefletida
como o cansaço ora assumido

como a intenção
(não qualquer intenção mas aquela imprudente que se acerca do que não a extrapola,
daquilo que lhe escapa, daquilo que lhe corrompe)

como a matéria não aparente
aquela que transborda
aquela que sucumbe

transitório
como o esteves sem metafísica
como todas as tabacarias
como o ar neblinado e como o tempo não acolhido

transitório
como o interregno
(mais que o interregno: aquilo que não mais sendo, ainda não é)

como a pedra que ensina
a pedra lisa
a pedra áspera
a pedra densa
a pedra de joão

transitório como a queda

transitório como uma vida sem rumo

como as sobras esfareladas
que vão se perdendo
uma
a
uma

uma
a
uma
...
.
.
.


segunda-feira, 27 de novembro de 2017

o fim do sonho americano

Agora liberado no Youtube, o documentário/entrevista com Noam Chomsky é uma peça fundamental para entendermos a construção do mundo em que vivemos.


sexta-feira, 27 de outubro de 2017

pitacos da mostra 2017

Os "pitacos da mostra" é uma seção tradicional deste empório com comentários ( e não necessariamente sinopses) brevíssimos dos filmes que vamos assistindo neste post que é dinâmico. Neste ano, o tempo ( sempre ele) se apresenta mais curto e talvez a seção seja mais enxuta. Boa Mostra!
(a partir de "mais informações")

sábado, 21 de outubro de 2017

41° mostra internacional de cinema de são paulo


Com dois dias de atraso, este empório que tradicionalmente acompanha a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, dá boas vindas ao maior e mais antigo evento cinematográfico do país.
Se na Mostra de 2016 os temas políticos foram a essência ( lembramos a postagem feita no ano passado aqui e os costumeiros pitacos da mostra ) a deste ano não fugirá dessa essência, tratando novamente da questão dos refugiados com o essencial filme do chinês radicado na Alemanha Ai Weiwei com o seu filme "Human Flow " e de outros temas da emergência do mundo atual. Há ainda, neste ano pela primeira vez, a apresentação de filmes com tecnologia de realidade virtual. Serão 19 ao todo. Mas como se tratam de mais de 400 filmes, a definição de uma linha conceitual acaba por ficar mais flexível, como de certa forma, sempre foi a proposta da Mostra.

Com o atropelo do tempo - tema, aliás, tão pertinente nos nossos "tempos" e do editor deste empório - trago o texto de Maria do Rosário Caetano da Revista de Cinema que apresenta as suas impressões a partir das considerações da diretora da Mostra, Renata de Almeida. O texto aqui 


(S
e o tempo for um aliado nas duas próximas semanas, este empório tentará postar paulatinamente os seus Pitacos da Mostra).



terça-feira, 26 de setembro de 2017

jardim de epicuro, por josé américo motta pessanha

Em tempos tenebrosos como o que vivemos, Epicuro pode ser um "phármakon", na sua forma de remédio. O professor José Américo Motta Pessanha, falecido precocemente em 1993, nos deu uma boa síntese do tema.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

art blakey & the jazz messangers live in '58

Uma preciosidade
(o vídeo postado anteriormente era o show inteiro mas foi bloqueado. Do mesmo show tiramos, então, liberada, a música Moanin)

na estrada com hettie jones

O movimento beat do final do anos 50 e início dos 60 nos EUA e que precedeu o movimento hippie, foi sinteticamente definido por Allen Ginsberg "como um grupo de amigos que trabalharam juntos na poesia, na prosa e numa consciência cultural". Além de Ginsberg, os outros dois expoentes do movimento sempre lembrados são  Jack Kerouac e William  S. Burroughs.
Mas há muitos mais e muitas mulheres compuseram o movimento. A professora Miriam Adelman trabalhou sobre o tema no estudo "Metáforas de autoria feminina" publicado inicialmente naRevista Contemporartes ". Um outro estudo, pesquisando na internet, é de Priscila Finger do Prado, que se debruçou sobre o tema com enfoque principal sobre a poeta Hettie Jones que tem como obra central o livro "Drive". O estudo aqui. "Drive" remete à estrada, à liberdade, mas diante de uma perspectiva femininista. Abaixo o poema Direção ( Hard Drive) de Hettie Jones com tradução de Miriam Adelman.
Direção 

No sábado os ursos de pelúcia flutuavam de novo
sobre o Major Deegan
dançando no plástico ao longo do corrimão da ponte
sob um céu meio nublado, meio azul
e havia nuvens brancas
chegando do oeste

o que talvez fosse suficiente
para alguém acostumado ao prazer
em pequenas dosagens

Porém mais tarde ao pôr do sol
dirigindo rumo ao norte pelo Saw Mill
no vento forte, com as nuvens grandes que flutuavam
por sobre a estrada como animais
mostrando orgulhosomente suas rosadas barrigas
num momento de luz intensa
vi uma casa tipo Edward Hopper
tão simultânea e extraordinariamente clara e escura
que eu chorei todo o caminho da Rota 22
aquelas lágrimas incontroláveis
 “como se o corpo chorasse”

e portanto,  mulheres jovens
eis aqui o dilema
em si a solução:

sempre fui ao mesmo tempo
mulher o suficiente para comover-se até o pranto
e homem o suficiente
para pegar o carro e me mandar
em qualquer direção




terça-feira, 11 de julho de 2017

a tragédia brasileira

Talvez a questão ou a pergunta central hoje é: "como chegamos nesta situação?"
A história do Brasil se mistura com a construção histórica de colonização pela qual passa e, de uma certa forma continua passando, a América Latina.
As cercas que foram sendo instaladas no continente, arquitetaram uma dominação hereditária moldada pela perpetuação e, por isso, as classes dominantes sempre se eriçaram quando ameaçadas, usando as forças compatíveis para cada ameaça. O resultado foram os inúmeros golpes de estado perpetrados, muitos deles de forma sanguinária. Os golpes hoje têm caráter diferente. Não são mais necessários os tanques dos exércitos nas ruas (para lembrar de um artigo premonitório de 2012, o risco que corremos). É o que acontece no Brasil neste momento de rompimento do processo de construção da democracia que vínhamos exercitando. E o rompimento se deu não porque tivesse havido uma ameaça que pudesse mudar a propriedade do capital. Nem tão pouco um pequeno abalo sísmico nessa propriedade fazia parte do roteiro. De 2003 a 2014 o país apenas deu uma guinada civilizatória; um olhar novo, que apontava para as classe sociais que mais necessitavam, e esse desvio do olhar passou a chamar a atenção e incomodar os hereditários donos do poder. Pobres tendo mais dignidade, negros sendo inseridos, indígenas sendo respeitados, mulheres exercendo posições de comando, questões de gênero sendo discutidas com respeito. É tudo que os donos do poder não admitem. E pouco importa se a economia cresceu barbaramente. Se as suas empresas venderam como nunca. Se o desemprego desapareceu. O que eles não queriam e não querem é que o sumo desse crescimento seja melhor distribuído, ainda que isso não altere em nada as suas fortunas. O que não aceitam é que, ainda que timidamente, os dos andares de baixo vislumbrem alguma possibilidade de se colocarem em espaços aos quais a eles não foram destinados. Os aeroportos se estabeleceram, no período, como locais do simbolismo do incômodo. Por definição histórico-elitista, aos serviçais a rodoviária ou, nos aeroportos, apenas na condição de serviçais.
Aos donos hereditários do poder não importa que o Brasil seja respeitado no hemisfério norte. Preferem o vexame da sua elite representada ao sucesso, se este vier de um representante com a cara do povo.
(segue em "mais informações")


segunda-feira, 26 de junho de 2017

alice..., do giramundo

Neste empório, variados são os produtos na prateleira. É como a Mercearia Paraopeba, objeto de duas postagens aqui . Os nossos temas são variados. Quando falamos de cultura em geral ou das artes, fazemos artigos que se relacionam com eventos que visitamos ou assistimos e, das observações, cunhamos as críticas. Não é o caso desta postagem. Não é possível acompanhar tudo que a vontade instiga. O tempo é sempre escasso. Como uma metáfora da vida, mais acumulamos perdas do que achados.
É o caso do espetáculo "Aventuras de Alice no País das Maravilhas" do excelente grupo mineiro de teatros de bonecos, o Giramundo, que não assistimos, o que acumula a nossa pilha das perdas.
O "Alice no País das Maravilhas" do Giramundo explora com maestria, segundo a maioria das críticas, o universo construído por Lewis Carrol, essa obra que gera infindáveis interpretações e que cabem nas mais variadas caixas. O Giramundo abriu as suas e liberou seus bonecos para adentrar a toca do coelho.
Abaixo, o vídeo que conta a construção dessa viagem.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

gonçalo m. tavares

Acabo de ler o livro "Aprender a rezar na era da técnica" do escritor português Gonçalo M. Tavares. Já havia lido dele "Os velhos também querem viver". Gostei, sobretudo de "Aprender a rezar...", mas é pouco para dizer qualquer coisa a respeito do escritor. Este livro faz parte da tetralogia "O Reino" que inclui ainda Um homem: klaus Klump, A Máquina de Joseph Walser e Jerusalén.
Saramago, ao entregar ao escritor um dos vários prêmios que recebeu, disse-lhe: "você não tem o direito de escrever tão bem aos 35 anos: dá vontade de te bater". E essa é uma questão. Tavares, apesar de jovem ( tem hoje 47 anos) já tem uma estante cheia só com os seus livros e isso, segundo o crítico português Gonçalo Mira, torna a sua obra muito irregular.
Abaixo a crítica, publicada no portal português Público

CRÍTICA LIVROS

De mau a excelente

Não é incompatível dizer que Gonçalo M. Tavares é o melhor escritor português do século XXI e que também faz livros maus. Duas obras simultâneas provam-no

segunda-feira, 15 de maio de 2017

"deserto vermelho", um incômodo

Revi ontem, depois de, não sei, talvez vinte anos, o filme "Deserto Vermelho" de Michelangelo Antonioni que faz parte da grande mostra Aventura Antonioni que ocorre no Centro Cultural Banco do Brasil e no Sesc.
Terminado o filme, pensei que este deve ter sido um dos filmes de cabeceira de David Lynch em função da peculiar construção da narrativa e comecei a rascunhar uma crítica, interrompida, porque me senti contemplado com a crítica de Ruy Gardnier da Revista de Cinema Contracampo.
A personagem Giuliana, vivida por Monica Vitti, tem uma pertubação mental e a trama é toda enredada a partir dessa pertubação o que causa um certo incômodo no espectador.
Destaco uma frase, antes de reproduzir a crítica na íntegra: Deserto Vermelho consegue a enorme façanha de ser fiel à desorientação de sua personagem. É, de fato, uma façanha.


1
2



3
4
(o texto clicando em "mais informações")

sexta-feira, 12 de maio de 2017

foi-se antonio candido

Já com 98 anos, o mestre Antonio Candido concedeu esta generosa entrevista.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

belchior em 1974

Um vídeo raro e muito interessante de Belchior ainda antes de "Alucinação". O programa era o MPB Especial, que daria no Ensaio, consagrado por Fernando Faro.
Uma curiosidade é que a música "A Palo Seco" já existia quando foi feita a entrevista e o trecho em que Belchior, no disco lançado em 1976, diz "...que esse desespero é moda em 76" no vídeo que é de 74, o trecho era "...que esse desespero é moda em 73".
Vale à pena assistir.



sexta-feira, 28 de abril de 2017

mac usp

foto de gê cesar de paula
Foi muito difícil o processo. A partir de 2009 uma contenda entre a Secretaria da Cultura e a reitoria da USP do então reitor, e de não boas lembranças, João Grandino Rodas, escolhido a dedo pelo governador da ocasião José Serra, atrasou a ocupação do MAC no histórico prédio no Ibirapuera por décadas ocupado pelo Detran.
O prédio, originalmente projetado por Oscar Niemeyer, foi inaugurado em 1954 para abrigar o Palácio da Agricultura mas de 1959 a 2008 foi sede do Detran.
E, finalmente, precisando ainda de alguns ajustes, os 8 andares do prédio principal, inclusive o terraço, estão disponíveis para a visitação. E apresenta grandes exposições (veja aqui ) com uma parte do acervo que conta com mais de 10 mil obras, entre elas, Picasso, Miró, Matisse, De Chirico, Klee, Morandi, Kandisnk, Modigliani entre muitos outros, bem como mestres da arte contemporânea brasileira como Tarsila, Anita, Di Cavalcanti, Volpi, Brecheret...
Vale se debruçar também sobre a exposição "Vizinhos Distantes", que apresenta grandes obras, de arte latino americana, também do acervo do museu. Mas chama atenção a exposição-experiência "Momentos Temporários" do artista russo Fyodor Pavlov-Andreevich que instiga a reflexão sobre opressões e desigualdades sociais e que, segundo uma fonte, exatamente pelos temas que aborda, o folheto da exposição teria sido recolhido. Ficamos assim, com o verbo no condicional.

Como o prédio fica no complexo do Parque do Ibirapuera, sugiro um ótimo artigo de Leão Serva "Quem roubou a metade do Ibirapuera" publicado em agosto de 2014. O texto aqui .

sexta-feira, 31 de março de 2017

primeira dor

O conto "Primeira dor" inicia uma sequência de quatro pequenos contos de "Um Artista da fome" que, junto com a novela "A Construção" fazem, conforme o crítico e tradutor da obra Modesto Carone, "o testemunho literário de Franz Kafka". A coletânea foi escrita pouco antes da morte do escritor que ocorreu em 1924.
"Primeira dor", o menor conto do livro, nos apresenta o trapezista que - como o Barão de o "Barão nas Árvores" de Ítalo Calvino que escolheu nunca mais descer ao solo - não tinha como perspectiva da sua vida descer do trapézio. A dor não física, é apresentada por Kafka de maneira cortante.
A partir de "mais informações", o pequeno grande conto na íntegra.

domingo, 5 de março de 2017

chega de saudade e la fiesta



 ...e de quebra (e que "quebra") um (ou o grande) clássico de Chick Corea, "La Fiesta", também com mágica participação de Gary Burton.

sexta-feira, 3 de março de 2017

os moedeiros falsos e o brasil privatizado

Neste momento de neoliberalismo subserviente e antiquado pelo qual passa o país, nos parece pertinente lembrar de um artigo escrito em 1994 por José Luis de Fiori, e que depois virou livro, os dois com o mesmo nome: "Os moedeiros falsos", uma alusão ao livro de mesmo nome de André Gide. Outro livro que procura dar conta do momento de entrega do país através de FHC é o "Brasil Privatizado" de Aloysio Biondi, escrito inicialmente em 1999 e reeditado em 2014 ( boa matéria aqui ). São duas obras que explicam o país.
Abaixo o longo artigo publicado pela Folha, uma outra Folha, a de 94.

" O real não foi criado para eleger FHC, FHC é que foi concebido para viabilizar no Brasil as teses do Consenso de Washington".


OS MOEDEIROS FALSOS
JOSÉ LUÍS FIORI
ESPECIAL PARA A FOLHA
"Afinal é preciso admitir, meu caro, que há pessoas que sentem necessidade de agir contra seu próprio interesse..."
André Gide
"É importante para um 'technopol' vencer a próxima eleição para continuar a implementar sua agenda e não para manter-se no cargo. Vencer uma eleição abandonando suas posições é para ele uma vitória de Pirro."
John Williamson
1
Entre os dias 14 e 16 de janeiro de 1993, o Institute for International Economics, destacado "think tank" de Washington, tendo à frente Fred Bergsten, reuniu cerca de cem especialistas em torno do documento escrito por John Williamson, "In Search of a Manual for Technopols" (Em Busca de um Manual de 'Tecnopolíticos'), num seminário internacional cujo tema foi: "The Political Economy of Policy Reform" (A Política Econômica da Reforma Política).
Durante dois dias de debates, executivos de governo, dos bancos multilaterais e de empresas privadas, junto com alguns acadêmicos, discutiram com representantes de 11 países da Ásia, África e América Latina "as circunstâncias mais favoráveis e as regras de ação que poderiam ajudar um 'technopol' a obter o apoio político que lhe permitisse levar a cabo com sucesso" o programa de estabilização e reforma econômica, que o próprio Williamson, alguns anos antes, havia chamado de "Washington Consensus" (Consenso de Washington).
Um plano único de ajustamento das economias periféricas, chancelado, hoje, pelo FMI e pelo Bird em mais de 60 países de todo mundo. Estratégia de homogeneização das políticas econômicas nacionais operada em alguns casos, como em boa parte da África (começando pela Somália no início dos anos 80), diretamente pelos técnicos próprios daqueles bancos; em outros, como por exemplo na Bolívia, Polônia e mesmo na Rússia até bem pouco tempo atrás, com a ajuda de economistas universitários norte-americanos; e, finalmente, em países com corpos burocráticos mais estruturados, pelo que Williamson apelidou de "technopols": economistas capazes de somar ao perfeito manejo do seu "mainstream" (evidentemente neoclássico e ortodoxo) à capacidade política de implementar nos seus países a mesma agenda e as mesmas políticas do "Consensus", como é ou foi o caso, por exemplo, de Aspe e Salinas no México, de Cavallo na Argentina, de Yegor Gaidar na Rússia, de Lee Teng-hui em Taiwan, Manmohan Singh na Índia, ou mesmo Turgut Ozal na Turquia e, a despeito de tudo, Zélia e Kandir no Brasil.
Um programa ou estratégia sequencial em três fases: a primeira consagrada à estabilização macroeconômica, tendo como prioridade absoluta um superávit fiscal primário envolvendo invariavelmente a revisão das relações fiscais intergovernamentais e a reestruturação dos sistemas de previdência pública; a segunda, dedicada ao que o Banco Mundial vem chamando de "reformas estruturais": liberalização financeira e comercial, desregulação dos mercados, e privatização das empresas estatais; e a terceira etapa, definida como a da retomada dos investimentos e do crescimento econômico.
(continua em "mais informações")

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

sábado, 18 de fevereiro de 2017

o dia em que raduan enfrentou o guarda

O DIA EM QUE RADUAN ENFRENTOU A GUARDA

por Irajá Menezes

'Infelizmente, nada é tão azul no nosso Brasil. Vivemos tempos sombrios'.
Do começo ao fim de seu discurso, Raduan Nassar se posicionou sem meias palavras contra o golpe e seus cães de guarda.
'Não há como ficar calado', concluiu.
Lendo sobre a atitude do nosso grande escritor, lembrei de uma história com o Roberto Freire, mas não esse, da triste figura de ministro golpista. Refiro-me a Roberto Freire o psicanalista-escritor-teatrólogo-novelista, criador da Somaterapia e pai daquele moço que toca viola que é uma maravilha.
Esse Freire de que vos falo, não muitos sabem, foi jurado de todos os concursos da chamada 'Era dos Festivais', no período entre 1965 e 1972.
Foi Freire, por exemplo, quem comunicou à produção da Record, em 66, que Chico Buarque não aceitava ganhar de 'Disparada' (e aí, "deu" empate entre 'A Banda' e a música do Vandré).
É importante lembrar que eram dois os grandes festivais que aconteciam anualmente na TV, um na Record e outro na Globo. O da Globo tinha duas etapas, a nacional e a internacional. As duas primeiras colocadas da primeira fase defendiam o Brasil no certame internacional.
No Festival da Globo de 1972 - aquele que teve 'Cabeça', de Walter Franco, 'Fio Maravilha' com Maria Alcina e 'Eu Quero é Botar meu Bloco na Rua' (desclassificada!!!), de Sérgio Sampaio - dias antes da final nacional, Solano Ribeiro, o diretor artístico, recebeu de Walter Clark (chefão da Globo) a seguinte instrução: 'Os militares mandaram você afastar a Nara do júri'.
(continua em mais informações)


domingo, 22 de janeiro de 2017

sartre e camus

As divisões no campo da esquerda nunca foram fenômenos localizados ou circunscritos a um determinado tempo. A dialética, ou o processo de reflexão da realidade e de construção histórica, sempre foram os componentes básicos para as disputas na esquerda. Nas décadas de 40 e 50 esses debates foram intensos, e dois personagens centrais da França ocupada pelos nazistas foram os protagonistas: Camus e Sartre. Este pequeno documentário faz uma síntese desse momento e dessas duas figuras.
(Documentário de 2014 de Chiloé Productions, veiculado pelo Canal Curta e reproduzido por Eremita.)

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

"human" por yann arthus-bertrand - volume 3

"O VOL.3 trata dos temas da felicidade, da educação, da deficiência, da corrupção e do sentido da
vida"

"human" por yann arthus-bertrand - volume 2

O VOL.2 trata dos temas da guerra, do perdão, da homossexualidade, da família e da vida após a
morte.

"human" por yann arthus-bertrand - volume 1

Yann Arthus-Bertrand é um fotógrafo e documentarista da vida. "Documentarista da vida", talvez seja uma boa definição para as realizações que ele faz através das suas fotos e de seus filmes. São peças com extraordinária beleza imagética e com conteúdos poderosos. Bertrand apresentou inicialmente várias regiões da Terra com imagens aéreas até começar a fazer filmes com temáticas ambientais apontando para os rumos aos quais o planeta está sendo levado. "Home" 2009, "Planeta Oceano" 2012 e "Terra" 2015, (imperdíveis) fazem parte dessa fase. Também em 2015 foi lançado o projeto "Human, uma viagem pela vida", que este empório agora reproduz os seus 3 capítulos já liberados no Youtube. Nesta postagem o primeiro e os posteriores nas postagens seguintes, acima.

"O VOL.1 trata dos temas do amor, das mulheres, do trabalho e da pobreza

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

o golpe, a caixa de pandora e o "quem nunca comeu mel quando come se lambuza"

A mitologia grega é riquíssima em nos fartar de metáforas que podem se encaixar a cada momento do nosso percurso histórico humano na Terra. (Já abro este parêntese para dizer que acho que a experiência humana na Terra definitivamente não deu certo, mas este é tema para um outro momento).
O cenário atual no Brasil me faz lembrar da "caixa de pandora". À Pandora, a primeira mulher da Terra,  foi-lhe entregue uma caixa, que parece era, no fundo, um jarro, contendo todos os males do mundo e, escondidinha em algum canto, a esperança. Pandora era, na síntese do mito, uma criação de Zeus como vingança por Prometeu - o titã criador e protetor da humanidade - ter presenteado os homens com o fogo para que dominassem a natureza, coisa que Zeus discordava. Ao receber a caixa, Pandora foi alertada para que não a abrisse e, exatamente por isso, ela a abriu, liberando todo o mal do mundo. Assustada, e vendo o que acabara de fazer, fechou-a rapidamente não dando tempo para que a esperança, eternamente aprisionada, escapasse.
Além da mitologia, o mundo é marcado pela riqueza metafórica dos ditados populares. Há um que também me faz associá-lo ao momento que vivemos: "quem nunca comeu mel, quando come se lambuza". Não sei se a caixa de Pandora ou o produto do esforço das abelhas é o que melhor ilustra o que está acontecendo neste momento no Brasil. Talvez uma mistura dos dois.

Já abordamos neste empório, que a construção do golpe se inicia em 2005. Mas a caixa de Pandora foi aberta logo depois da vitória de Dilma Roussef em 2014. Toda sorte de estratagemas foram arquitetados para pavimentar a consolidação do golpe, inclusive paralisar o país e acentuar a crise, exatamente como em 1954, cabendo agora ao PSDB, o papel que a UDN desempenhara na época. Presenciamos uma espécie de vale-tudo: dedo no olho, obstrução dos trabalhos legislativos, chute nas partes baixas, criação de pautas para o STF - papel cumprido pela grande mídia oligopolizada, que também se ocupou do processo de imbecilização de grande parcela da população -, aplicação da seletividade no aparato jurídico, reação violenta das polícias contra manifestações, entre outras maldades.
Claro está que além da tomada do poder, o que sempre tem um componente de exercício de ego, a razão maior do golpe se sintetiza na execução de ações que nunca seriam implementadas se tivessem que ser discutidas em um processo eleitoral. Como a PEC 55, que acaba de ser aprovada no Senado, e que é uma espécie de Ato Institucional que fere de morte o capítulo dos direitos sociais da Constituição, fazendo definhar até o orçamento da Educação. Ou como o desmantelamento do sistema de aposentadoria com uma reforma que faz Pandora arregalar os olhos de espanto, e como a outra, a reforma trabalhista que sepulta a CLT. Há ainda as privatizações, ou aquilo que sarcasticamente será chamado de privatizações. (Quem não assistiu ao filme Snowden, sugiro ao menos a entrevista do diretor Oliver Stone aqui. O tema, além do golpe, é ali tratado). E tudo isso feito a toque de caixa, com muita rapidez, para que não haja discussões, reflexões, e que não invada o ano de 2017, ano que poderemos ter o golpe dentro do golpe, como aconteceu em 1968.

"Lambuzação"

Consolidado o golpe, todos aqueles que o viabilizaram andam se lambuzando, excitados com o poder de exercer o poder, conforme nos demonstra o sintomático discurso do deputado Alceu Moreira. E como é prática de golpistas, ao se lambuzarem eles não têm nenhum freio, não se importam em escancararem que, obviamente, a questão ética na contraposição da corrupção, era apenas um discurso mais do que manjado, utilizado para quase todos os golpes em toda a parte do mundo em que se praticam golpes. Os lambuzados não se importam nem mesmo com o derretimento das instituições democráticas, que é o que estamos vendo no Brasil.

O risco que corríamos

Quando publicamos neste empório o artigo o risco que corremos há quatro anos, em outubro de 2012, havia uma apreensão e um risco de fato, que o nosso processo de democratização pudesse sofrer alguma interrupção. O comportamento da mídia agindo como um partido de oposição, o mais forte partido de oposição em função dos meios que dispõe; o posicionamento do STF, ressuscitando uma peça jurídica abandonada no mundo todo, como a Teoria do Domínio do Fato, e os golpes que já haviam se efetivados em Honduras e no Paraguai, nos alertavam que algo poderia ser tentado, mas, ainda assim, era difícil imaginar que um país com a importância que tinha alcançado no cenário mundial e sendo a 7° economia do mundo, fosse levado a ser rebaixado, de forma tão abruptamente rápida, à condição que imaginávamos superada, de uma republiqueta bananeira, ainda que a banana já não fosse nem de longe o mais importante dos nossos produtos.

Prometeu, na briga final com Zeus, depois de Pandora ter espalhado todos os males pelo mundo, levou a pior. Passou o resto da eternidade regenerando o fígado para que o órgão fosse cotidianamente comido por uma águia. A semelhança deste episódio mitológico com o Brasil é mera coincidência.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

500 anos de hieronymus bosch

Na série "obras do Masp", publicamos em 2011 os hieronymus bosch do masp .
A lembrança é válida por conta da data redonda dos 500 anos da morte do pintor holandês.
Abaixo, um artigo de Walnice Nogueira Galvão publicado no blog do Nassif .

O V Centenário de Hieronymus Bosch, por Walnice Nogueira Galvão


O V Centenário de Hieronymus Bosch
por Walnice Nogueira Galvão
Os 500 anos da morte do grande pintor foram alvo de muitas celebrações,  a mais visível sendo a do Museu do Prado, em Madri, esplêndida pinacoteca que disputa fácil a palma de melhor do mundo. Sua proeminência depende, como costuma ser o caso, do número de anos que a potência ocupou outros países e se fartou de pilhá-los, arrebatando seus tesouros para a metrópole. O Prado é um desses casos, oferecendo ao visitante um resumo da história do mundo e do imperialismo.
Talvez já se tenha perdido de vista o quanto a Espanha foi opulenta e poderosa no passado, mas o acervo do Prado refresca a memória. Pois é lá que, entre outras coisas, existe uma coleção extraordinária da chamada pintura flamenga, aquela que foi produzida na Holanda e na Flandres belga, sendo divergente da pintura renascentista que iria predominar na Itália e a partir dali no resto do mundo. Nada de formas arredondadas e amplas, perspectivas que se desenrolam, temas elevados, cunho majestoso e até monumental, bem mediterrâneo - características da pintura italiana. Na flamenga tudo é mais gótico, angular e rígido, com laivos nórdicos, bem como miudamente verista e menos grandioso. A fidelidade  ao realismo mais chão é sobretudo burguesa, já que esses países são burgueses avant-la-letre.
(continua em "mais Informações")

domingo, 6 de novembro de 2016

um olhar sobre a mostra internacional de cinema de são paulo

A Mostra deste ano trouxe reflexões sobre o mundo que vivemos. Pena que, ainda que os espaços das salas sejam sempre muito disputados, essas reflexões acabam ficando concentradas num público que já está previamente interessado e aberto a essas reflexões. Essa Mostra teve claramente um caráter ainda mais político do que costuma ter. Além dos filmes de Bellochio e de Wajda, trouxe muitos dos temas contemporâneos: os conflitos políticos, os refugiados, os esquecidos, as guerras, os cantos do mundo... Tudo aquilo que a grande mídia ocidental evita mostrar e que foram apresentadas, não só nos filmes produzidos em países latino-americanos ou em países como Síria, Iraque, Afeganistão, Irã, Tunísia ou europeus como Polônia (com muitos novos diretores), Grécia, Eslováquia, República Tcheca, Romênia, Bulgária, Islândia, mas em filmes produzidos na França/Bélgica - como "O Caminho para Istambul" - ou mesmo nos EUA - como "Cameraperson" que tratam de questões emergentes de um novo ordenamento mundial, ou ainda filmes coproduzidos entre França/Alemanha/Irã ou Filipinas/Singapura ou Malásia/Filipinas ou Síria/Líbano ou ainda Síria/Iraque que produziram o excelente documento "A Vida na Fronteira" - comentado nos pitacos da mostra mais abaixo - entre muitos outros.
Num mundo em que até as comoções são seletivas - vide as diferenças das coberturas midiáticas de um atentado na Nigéria e outro em Paris -, a Mostra tem um caráter plural de mostrar um mundo sem filtros, além daquele que nos é apresentado. Neste tempo em que a reflexão é tão combatida e substituída pela vida padronizada e comprada, a Mostra é uma pequena boia de salvação.

sábado, 5 de novembro de 2016

neste momento crítico do país, resgatamos "a hora da despedida", por josé castelo

O momento pelo qual passamos é muito preocupante. Acabamos de sofrer um golpe no país e, à reboque, temos visto um insulto às instituições que fomentam a cultura e a formulação do pensamento. Em setembro de 2015, o crítico de literatura José Castelo foi dispensado da sua coluna de literatura "Prosa" que tinha no jornal O Globo.
A mídia, de uma forma geral -e as organizações Globo em particular-, prepara um novo ambiente para os próximos tenebrosos anos que teremos e um dos pontos estratégicos é esse, o de inibir a formulação de pensamentos. Este empório entende por bem recuperar o último texto da coluna de José Castelo, na sua "Hora da despedida" que antecipava este momento que vivemos, mas mantém no seu espaço de "literatura", o link dos arquivos dos seus ótimos textos.

Hora da despedida

POR JOSÉ CASTELLO
Chegou a hora de me despedir de meus leitores. Não é um momento fácil _ nunca é. Mas ele se agrava porque, com o fechamento do "Prosa", incorporado ao "Segundo Caderno", desaparece um último posto de resistência na imprensa do sudeste brasileiro. Os suplementos de literatura e pensamento já não existem mais. Um a um, foram condenados e derrotados pela cegueira e pela insensatez dos novos tempos. Comandado pela vigorosa Manya Millen, o "Prosa" resistia como um último lugar de luta contra a repetição e a dificuldade de pensar com independência. Isso, agora, também acabou.
(continua em "mais informações")

terça-feira, 25 de outubro de 2016

pitacos da mostra 2016

Iniciou-se este semana a 40° Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (link), o mais tradicional evento de cinema do Brasil. Estão sendo e serão exibidos mais de 300 filmes de 50 países. Há um forte viés político nesta Mostra com muitos diretores novos mas também com importantes retrospectivas, sobretudo do italino Marco Bellocchio e do polonês Andrzej Wajda, morto recentemente, mas também com a reapresentação do "Decálogo" de Kieslowski, de "Lucio Flávio, o passageiro da agonia", do Babenco e a homenagem dos 50 anos de "Persona" de Bergman.
Os Pitacos da Mostra é uma seção tradicional deste empório ( veja aqui) com comentários (e não necessariamente sinopses) brevíssimos dos filmes que vamos assistindo, neste que é um post dinâmico. ( Aqui todos as postagens do empório relacionadas ao cinema).

Tramontane, de Vatche Boulghourjian ( Líbano/França, 2016) - No mundo contemporâneo, em qualquer lugar dito civilizado, ter um registro de nascimento é a própria representação, ou possibilidade, da vida. Grande filme!

O Homem de Mármore, de Andrzej Wajda ( Polônia, 1976) - A Polônia de Hitler a Stalin. Clássico do diretor polonês que em 2008 fez a continuação com "O Homem de Ferro".

Poesia sem fim, de Alejandro Judorowsky (França/Chile, 2016) - Filme autobiográfico, Judorowsky revê o surreal e o grotesco da sua trajetória antes da chegada à Paris e o encontro com Fernando Arrabal. De perder o fôlego.

Um dia perfeito para voar, de Marc Recha ( Espanha, 2015) - uma pipa que se enrosca sempre nos arbustos. Tentativa de voo.

Aloys, Tobias Nöle ( Suiça/França, 2016) - A solidão cria os seus labirintos. Grande filme, à la David Lynch.

O Sol, o sol me cegou, de Anka Sasnal e Wilheim Sasnal (Polônia/Suiça, 2016) - Não há lugar no mundo. Sempre se é um estrangeiro, conforme já nos demonstrou Camus.

Porto, de Gabe Klinger ( EUA/França/Portugal, 2016 - Pequeno ( 87 min) grande filme. Com um roteiro que brinca com o tempo, uma noite que se instala na memória.

O caminho para Istambul, de Rachid Bouchareb ( Argélia/França/Bélgica, 2016) - Uma cacetada! "Vocês só querem os seus filhos enquanto nós, sírios, estamos morrendo". Uma fotografia terrível do mundo que inventamos.

O Violinista, de Bauddhayan Mukherji (India, 2016) - Um solo inspirado, dois desfechos possíveis. Outro pequeno (72 min) grande filme da ótima cinematografia indiana.

Futuro Perfeito, de Nele Wohlatz (Argentina, 2016) - Somos cada vez mais estrangeiros. Cinema experimental.

Ondas, de Grzegor Zariczny (Polônia, 2016) - A densidade dos desajustes se inicia na família.

Elle, de Paul Verhoeven(França/Alemanha, 2016) - Será que nos diferenciamos pelo grau de monstruosidades que cada um de nós carrega? Isabelle Huppert aceitou um papel de risco ao se associar a um Verhoeven que parece querer se livrar de Hollywood. Para uma França de Truffaut e Simone de Beauvoir, Elle parece como um ser estranho.

Somos todos estrangeiros, de Germano Pereira (Brasil/Síria, 2016) - Somos todos estrangeiros. Cada vez mais estrangeiros.

24 semanas, de Anne Zohra Berrached (Alemanha, 2016) - A questão sempre difícil do aborto e como as diferenças entre um país como Alemanha e outro como o Brasil se fazem presente. Um filme necessário. Infelizmente não pude ver o desfecho do filme, razão pela qual - só para este caso - sugiro a boa crítica de Luiz Santiago .

O Segredo da Câmara Escura, de Kiyoshi Kurosawa (França/Japão/Bélgica, 2016) - A realidade não pode ser fotografada. Uma instigante trama sobrenatural num filme essencialmente francês do japonês Kiyoshi Kurosawa.

David Lynch, a Vida de um Artista, de Rick Barnes (EUA, 2016) - Documentário sobre o enigmático diretor. Com começo, meio e fim.

Gurumbé.Canções de sua Memória Negra, de Miguel Ángel Rosales (Espanha, 2016) - Onde estão os negros de Sevilha?  E o Flamenco, qual a sua origem? Ótimo documentário sobre o tráfico negreiro.

Marie e os Náufragos, de Sebastian Barbeder (França, 2016) - Um escritor (por Eric Cantona. Sim, ele mesmo, Eric Cantona, o ex jogador), um sonâmbulo, um desempregado e ela, Marie ( a linda Vimala Pons). Une authentique comédie française.

Genco, o terrorista, de Esin Tepe ( Turquia, 2016) - . Documentário que trata da absurda condenação de Genco, após as manifestações em Gazi, em Istambul na Turquia. É perigoso viver.

A Vida na Fronteira  (Iraque/Síria, 2015) - A dor pode ser filmada. Não é um filme, é mais do que isso, razão da marcação com o destaque em vermelho. Deveria ser exibido em salas de aula pelo mundo afora. O diretor iraniano de origem curda Bahman Ghobaldi fornece a sua lente a oito crianças refugiadas em Kobani e Shangal na fonteira da Síria com o Iraque, para contarem elas mesmas as suas histórias como codiretoras. O resultado é tão emocionante quanto revoltante.  As crianças são: Basmeh Soleiman, Devlovan Kekha, Diar Omar, Hazem Khodeideh, Mahmod Ahmad, Ronah Ezzadin, Sami Hossein e Zohur Daeid.

Cameraperson, de Kirsten Johnson (EUA, 2016) - Uma câmera que procura imagens, seja na vida familiar, no cotidiano de uma parteira na Nigéria ou, sobretudo, nos horrores do mundo que a mídia ocidentalizada evita falar. Uma colcha de retalhos filmada durante 25 anos. Outro filme importante, num mundo em que até as comoções são seletivas.

Hide, de Mohamed Attia (Tunísia/Bélgica/França, 2016) - Hedi tem que tomar una decisão decisiva na sua vida. Não há dúvida quanto qual a melhor, menos para Hedi.