terça-feira, 22 de outubro de 2019

pitacos da mostra - 2019


Conforme dissemos na última postagem, tentaremos retomar o nosso tradicional "pitacos da mostra" nessa que é uma postagem dinâmica que será atualizada à medida que novos filmes forem assistidos. O "pitacos" é uma seção tradicional deste empório com comentários ( e não necessariamente sinopses) brevíssimos dos filmes que vamos assistindo.
Neste ano colocaremos também as sinopses oficias da página da Mostra.

(Terminado! Fecho, lá embaixo, com o filme premiado na Mostra, Syster Crasher e a partir dele comento: "
Acho que esse prêmio é indicativo de que esta Mostra esteve longe de ser das melhores. Seria o resultado do momento de tantas incertezas que vivemos no mundo?)

(Ver também 
cinema com pitacos de outros anos e outros textos)

Wasp Network, de Olivier Assayas (França/Brasil/Espanha/Bélgica, 2019) - Filme multinacional realizado a partir do livro "Os Últimos Soldados da Guerra Fria" de Fernando Morais, com presenças de Penélope Cruz, Gael Garcia Bernal e Wagner Moura. Apesar de uma certa quebra de ritmo, temos uma história bem contada. Até Fidel em carne e osso aparece por lá.

http://43.mostra.org/br/filme/10038-WASP-NETWORK )

Devorar, de Carlo Mirabella-Davis (EUA/França, 2019) - Hunter, mulher com um trauma familiar se  depara, após seu casamento, com uma estranha compulsão de engolir objetos. Grande interpretação da atriz Haley Bennett neste drama psicológico não resolvido.

http://43.mostra.org/br/filme/10011-PARTIDA )

Meu nome é Sara, de Steven Orittt (EUA, 2019) - Um equívoco. Imaginem um filme sobre Canudos no sertão nordestino, com atores falando em inglês. Oriitt fez isso para um filme passado na Ucrânia na Segunda Guerra e ainda com um padrão roliudiano. Não deveria estar na Mostra.
http://43.mostra.org/br/filme/9810-MEU-NOME-E-SARA )

Partida, de Caco Ciocler (Brasil, 2019) - Uma viagem quixotesca em busca de uma utopia. O filme só acontece no final quando há o encontro mágico com Mujica.

O Pássaro Pintado, de Václav Marhoul (República Theca, Ucránia Eslováquia, 2019) - A estética da crueldade humana jogada, jorrada, inundada na tela, amenizada pela linda fotografia preto&branco. O grande desafio é permanecer na sala durante as quase três horas de projeção. Não que o filme seja ruim, é que são muitos socos no estômago pelo caminho.
http://43.mostra.org/br/filme/9838-O-PASSARO-PINTADO )

Cavalos Roubados, de Hans Petter Moland ( Noruega/Suécia/Dinamarca, 2019) - Filme memorialístico. Roteiro trabalha muito bem as idas e vindas do tempo. Muito difícil um filme da Escandinávia que não seja bom. Esse é mais um exemplo.
http://43.mostra.org/br/filme/9949-CAVALOS-ROUBADOS )


Gutterbee, de Ulrich Thomsen ( EUA/Dinamarca, 2019) - Um erro eu ter entrado na sala. Acontece, por vezes, na Mostra. Vi que o diretor é dinamarquês e fui levado ao erro. Ele pode ser dinamarquês mas é um autêntico american way of life. Com pouquíssimas pessoas na grande sala do Cine Arte, o diretor estava presente para um debate. Não sei se teria pessoas suficientes para isso. Não conte comigo!

O Dia depois que eu parti, de Nimrod Eldar ( Israeal, 2019) - Trilogia da incomunicabilidade num mesmo filme. A primeira entre o pai e a filha adolescente. A segunda entre judeus e palestinos. A terceira entre o filme e o espectador.
http://43.mostra.org/br/filme/9811-O-DIA-DEPOIS-QUE-EU-PARTIR ) 


Bille, de Inara Kolmane ( Letônia, Repúplica Theca, Lituânia) - O mundo sobre o olhar da talentosa criança Bille, que escolheu se chamar Vizma. Não há a informação na sinopse oficial de que o filme retrata a infância da escritora Vizma Belsevica, prêmio Nobel de Literatura nascida na Letônia. Bom filme para a sessão da tarde.( http://43.mostra.org/br/filme/9773-BILLE )

O Turista Suicida, de Jonas Alexander Arnby (Alemanha, Noruega, Dinamarca, 2019) - Diante da imposição da morte, o duelo entre o real e o imaginário. Grande filme a lá David Lynch.
( Vi o filme de maneira diferente desta crítica: ( 
https://cinemascope.com.br/criticas/o-turista-suicida/ )

http://43.mostra.org/br/filme/9822-O-TURISTA-SUICIDA )

O Carcereiro, de Nima Javidi ( Irã, 2019 ) - Esqueçam Kiarostami, Makhmalbaf, Panahi. Javidi é a nova geração do cinema iraniano e trás com ele uma proposta rítmica diferente. Um novo jeito de contar uma história que ele fez bem com seu carcereiro, nos prendendo o tempo todo.
http://43.mostra.org/br/filme/10026-O-CARCEREIRO )

O Jovem Ahmed, dos irmãos Dardenne, Jean Pierre e Luc ( Bélgica, França, 2019) - Os Dardennes levaram mais um prêmio, desta vez o de melhor direção em Cannes pelo filme. Como sempre, a câmera agitada, acompanhando de perto os passos de Ahmed, um menino vítima do fanatismo que pode levar aos extremos. Bom filme.
http://43.mostra.org/br/filme/9895-O-JOVEM-AHMED )

Ecos, de Rúnar Rúnarsson (Islândia, França, 2019) - Não há um fio condutor. Não há uma história. São pedaços da vida na Islândia. Poderia ser caótico mas não é. A montagem é o filme, razão pela qual informo também o montador: Jacob Secher Schulsinger
http://43.mostra.org/br/filme/9782-ECOS )

Pewpewpew, de Sergey Vasiliev (Suécia, 2019) - Um retrato de uma nova geração que busca na fama um lugar no mundo. Uma espécie de vidas sem rumos em uma distopia. O filme fica entre o estranhamento e o incômodo.
http://43.mostra.org/br/filme/9901-PEWPEWPEW )

O Ritual, de Brendan Walter (Islândia/EUA, 2019) - A Islândia novamente em cena, mas agora uma Islândia mística, bonita e inóspita que recebe Benny, um desenhista estadunidense que perde sua companheira alcoólatra e, em um ritual macabro, acaba a reencontrando. Linhas que não se comunicam.
http://43.mostra.org/br/filme/9952-O-RITUAL )

Viver para cantar, de Johnny Ma (China, 2019) - Trupe de ópera familiar que carrega as histórias e a tradição milenar chinesa, tenta resistir ao envelhecimento, à falta de renovação do seu público e as mudanças da China. Bonito plasticamente mas superficial e um tanto cansativo. Deve entra em cartaz.
http://43.mostra.org/br/filme/9916-VIVER-PARA-CANTAR )

Heróis Nunca Morrem, de Aude Léa Rapin (Bósnia, França, Bélgica, 2019) - Um filme dentro do filme mas não como uma metalinguagem. Somos espectadores de um projeto de filme que vai se desenvolvendo a partir de um absurdo. Neste percurso o filme em construção vai nos levando até um final redentor. Um final que transforma um filme ruim em muito bom.
http://43.mostra.org/br/filme/9788-HEROIS-NUNCA-MORREM )

Synonyms, Nadav Lapid (França, Israel, Alemanha, 2019) - Parece haver um propósito no filme que é estabelecer a desconexão e ruptura do personagem Yoav  já a partir de uma câmera tremida, agitada, nervosa. Não há o fio que estabeleça a condução e os personagens surgem mais no desvínculo que no vínculo. Yoav aparece pelado num apartamento em Paris depois do abandono de uma Israel que ele quer matar e termina no desencontro de uma liberdade que imaginava encontrar. Premiado com o Urso de Ouro e do Prêmio da Crítica de Berlim me pareceu um exagero, ou, pela falta, temos então uma crise de cinematografia.
http://43.mostra.org/br/filme/9825-SYNONYMS )

O Pai, de Kristina Grozeva e Petar Valchanov (Bulgária/Grécia, 2019) - Alguns exageros pelo caminho não comprometem o resultado final. Vale à pena!

http://43.mostra.org/br/filme/9830-O-PAI )

Pertencer, de Burak Çevik (Turquia, Canadá, França, 2019) - Depois de um longuíssimo off, começa o filme. E um ótimo filme. O mais inovador que assisti nesta Mostra até agora. Há uma cena em que a conversa se desenrola com a câmera fixa, focando apenas a mesa com alimentos e as mãos que os manipulam e fica a sensação que é assim mesmo que deveria ser feito, ainda que dessa forma inusitada. Muito bom!

Famyly Romance, de Werner Herzog (EUA, 2019) - Há que se respeitar Herzog, mas este Famyly Romance não atinge a ilusão comercializada do enredo do filme. Uma pena, porque haveria muito pano para manga com o tema proposto, neste mundo cada vez mais envolto pela solidão, pelas aparências e pelas falsificações.
http://43.mostra.org/br/filme/9874-FAMILY-ROMANCE,-LTDA )

A Garota com a Pulseira, de Stéphane Demoustier (França, 2019) - Filme de tribunal. Um bom filme de tribunal.
http://43.mostra.org/br/filme/9832-A-GAROTA-COM-A-PULSEIRA )

Apagada, Miha Mazzini (Eslovênia, Croácia, Sérvia, 2018) - A história parece inverosímel, mas é real e aconteceu como sequelas da guerra de divisão da Iugoslávia no início dos anos 90. Mais um retrato da capacidade ilimitada da estupidez humana. Bom filme.
http://43.mostra.org/br/filme/9936-APAGADA )

Crônica de um Desaparecimento, de Elia Suleiman (Palestina, 1996) -  Filme experimental. Sinceramente, não entendi a proposta e acabei não gostando, mas fiquei curioso para conhecer mais o seu trabalho. Coloco esta crítica da Folha https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/10/autor-personagem-elia-suleiman-mescla-humor-e-politica-em-seu-melhor-filme.shtml

http://43.mostra.org/br/filme/9745-CRONICA-DE-UM-DESAPARECIMENTO )

Sibyl, de Justine Triet (França, Bélgica, 2019) - Uma típica narrativa francesa que envolve a  psicanálise, o indivíduo como criador subjetivo da sua vida e toda a complexidade além do divã. Mas não acerta a mão e o resultado acaba não sendo mais do que um passatempo francês.
http://43.mostra.org/br/filme/9903-SIBYL )

De quem é o sutiã? , de Veit Helmer (Alemanha, 2018) - Não tenho informação, mas Helmer deve ter no mínimo pensado em "O Homem da Linha" do holandês Jos Stelling, filme que venceu o prêmio do público na longínqua 10° Mostra. São filmes diferentes mas o chute inicial parece ser o mesmo. Este "De quem é o sutiã", como em boa parte de "O homem da Linha", não tem diálogo e o enredo se dá entre o absurdo, ou inusitado, e a comédia farsesca. Começa muito promissor mas vai se perdendo pelo caminho.
http://43.mostra.org/br/filme/9954-DE-QUEM-E-O-SUTIA )

Simpathy For The Devil, de Guillaume Fontenay (França, 2019) - Outro filme que retrata a guerra na extinta Iugoslávia. A catástrofe humana se revelou de maneira muito contundente nessa guerra, sobretudo no cerco à Sarajevo a partir da ótica do jornalista Paul Marchand, no filme interpretado por Niels Schneider. Muito bom filme!

Monos, de Alejandro Landes (Alemanha, Argentina, Colômbia,Holanda,Suécia, Uruguai, 2018) - Em 102 minutos o pobre espectador não tem a mínima ideia do que é que está acontecendo. No popular, eu diria que o filme não tem nem pé e nem cabeça. Não tem origem e não tem destino. Achei esta crítica que dá mais conta disso que eu resumi: http://www.adorocinema.com/filmes/filme-255064/criticas-adorocinema/
http://43.mostra.org/br/filme/10040-MONOS )

Viajante da meia-noite, de Hassan Fazili e também destaque para Emelie Mahdavian pelo roteiro e montagem e da também cineasta Fátima Hussaine (Catar, EUA, Reino Unido, Canadá, 2019) - Documentário simplesmente extraordinário. Aula de cinema. Trata-se de um filme necessário. Filmado por celular, essa saga da família de Hassan e Fátima, nos coloca dentro de um problema central hoje no mundo, que são os refugiados e suas migrações pelo mundo. Deveria entrar em cartaz, mas, infelizmente, acho que não entrará.
http://43.mostra.org/br/filme/9806-VIAJANTE-DA-MEIA-NOITE )

O Paraíso deve ser aqui, de Elia Suleiman (França, Catar, Alemanha, Canadá, Palestina, Turquia, 2019) - O palestino Elia Suleiman dirige e (se) interpreta neste filme de humor sarcástico e críticas sutis. Muito boa pedida.
http://43.mostra.org/br/filme/9789-O-PARAISO-DEVE-SER-AQUI )

Berlim-Jerusalém, de Amos Gitai (França, Israel, Itália, Holanda, Reino Unido, 1989) - O israelense Gitai é um clássico da cinematografia com cerca de 60 filmes, além várias publicações, exposições e uma peça de teatro. Critico da relação que seu país estabelece com a Palestina, viveu muito tempo em um autoexílio. Essa crítica se apresenta em muitas das suas obras. "Berlim-Jerusalém" é um dos seus filmes mais marcantes. Ganhou nesta Mostra o prêmio Leon Cakoff.
http://43.mostra.org/br/filme/1719-BERLIM-JERUSALEM )

A Grande Muralha Verde, de Jared P. Scott (Reino Unido, África - é assim que está no site da Mostra - , 2019) - Uma jornada de Inna Modja, cantora e ativista política de Mali pela região do Sahel, atravessando Senegal, Mali, Nigéria, Niger e Etiópia, 8 mil km, de oeste à leste da África, no ambicioso projeto de uma grande reflorestamento que tem como objetivo o resgate da natureza e consequente abertura de possibilidades para os povos locais. Ainda que ambicioso, um projeto plenamente factível à medida que consiga os recursos necessários. Precioso documentário de uma preciosa Inna Modja.
http://43.mostra.org/br/filme/9835-A-GRANDE-MURALHA-VERDE )

Fotógrafo de Guerra, de Boris Benjamim Bertran (Dinamarca, Finlândia, 2019) - Muito bom documentário sobre o fotógrafo Jan Grarup, que retrata o dilema da profissão com a vida familiar. Lembra um pouco a ficção vivida por Juliette Binoche em Mil Vezes Boa Noite.
http://43.mostra.org/br/filme/9875-FOTOGRAFO-DA-GUERRA )

Fim de Estação, de Elmar Imanov (Azerbaijão, Alemanha, Geórgia, 2019) - Drama vivido em família em que o tosco e o inusitado se apresentam. Não recomendaria.
http://43.mostra.org/br/filme/9783-FIM-DE-ESTACAO )

System Crasher, de Nora Fingscheid (Alemanha, 2019) - Muito difícil falar qualquer coisa desse filme. Há sempre a tensão no ar sobre a próxima ação que fará Benni, a menina de 9 anos incontrolável, interpretada de maneira rara por Helena Zengel. Levou o prêmio do juri da Mostra junto com Dente de Leite que não assisti. Acho que esse prêmio é indicativo de que esta Mostra esteve longe de ser das melhores. Seria o resultado do momento de tantas incertezas que vivemos no mundo?
http://43.mostra.org/br/filme/9826-SYSTEM-CRASHER )

Para fechar os Pitacos do ano, o lamento de não ter visto o documentário da Macedônia Honeyland e abaixo os ganhadores da Mostra:
http://43.mostra.org/br/conteudo/noticias-e-eventos/983

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

43° mostra internacional de cinema


Teve início a 43° Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (43.mostra), o mais tradicional e importante evento cinematográfico do país.
Nos últimos anos a Mostra teve como foco central os temas de ordem política, sobretudo aqueles que tratavam das migrações humanas (ver nossas críticas e pitacos anteriores em mostra).
A deste ano, além das obras premiadas nos festivais pelo mundo, o lado político se apresenta através do grande número de produções nacionais que serão apresentados como um caráter de resistência frente aos ataques obscurantistas às artes, à cultura e à educação do governo de extrema direita que governa hoje o país.
Essa resistência foi amplamente apontada por muitos daqueles que discursaram na abertura da Mostra na última quarta-feira no Auditório do Ibirapuera antes da exibição do filme brasileiro (apesar do nome) "Wasp Network", rodado em Cuba e em Miami, dirigido por um francês, Olivier Assayas, uma adaptação do livro "Os Últimos  Soldados da Guerra Fria" de Fernando Morais.
Assayas recebeu o prêmio Leon Kakof e terá uma retrospectiva com 15 dos seus filmes.

Este empório tentará, dentro das possibilidades deste editor, retomar o tradicional "pitacos da mostra".

Boa Mostra!

PS.: O catálogo da Mostra deste ano tem ilustração de Nina Pandolfo

terça-feira, 15 de outubro de 2019

democracia em colapso?

Seminário Internacional Democracia em Colapso?
 O Sesc São Paulo e a editora Boitempo realizam, em parceria, o Seminário Internacional Democracia em Colapso?. Em um momento em que a polarização política dita boa parte dos debates atuais na sociedade brasileira, cerca de 50 convidados nacionais e internacionais promovem um amplo debate sobre as origens e as diferentes perspectivas históricas, políticas e sociais que perpassam o conceito de democracia. Curso e ciclo de debates compõe a programação do seminário durante os 5 dias, que contará com a participação de Angela Davis, Michael Löwy, Patricia Hill Collins e Silvia Federici. A conferência de encerramento com Angela Davis, A Liberdade é Uma Luta Constante, será transmitida ao vivo pelo Portal Sesc SP. PROGRAMAÇÃO Curso "A Democracia Pode Ser Assim: História, Formas e Possibilidades" Em quatro aulas, Marilena Chaui, Antonio Carlos Mazzeo, Virgínia Fontes e Luis Felipe Miguel abordam de forma didática as origens do conceito de democracia a partir de diferentes perspectivas. Indo além, ao relacioná-lo com questões históricas, sociais e com formas de organização política, o curso visa apresentar uma abordagem inicial que permitirá balizar as reflexões e discussões da programação de debates e oferecer ferramentas de interpretação e intervenção social. 15/10 | terça 12h – 14 | Aula 1 | História da democracia Com Marilena Chaui. 16/10 | quarta 10h – 12h | Aula 2 | História da democracia na América Latina Com Antonio Carlos Mazzeo. 17/10 | quinta 10h – 12h | Aula 3 | Democracia e revolução Com Virgínia Fontes. 18/10 | sexta 10h – 12h | Aula 4 | Formas de organização política: partidos, sindicatos, movimentos sociais Com Luis Felipe Miguel. Clique aqui para mais informações sobre o Curso. Ciclo de Debates 15/10 | terça 17h – Trabalho e os Limites da Democracia no Brasil Debate com Vladimir Safatle, Ricardo Antunes e Laura Carvalho. Mediação de Bianca Pyl (Le Monde Diplomatique). 20h – Mulheres e Caça às Bruxas Palestra de Silvia Federici, comentários de Bianca Santana. Mediação de Eliane Dias. 16/10 | quarta 14h – Família, Religião e Política Debate com Amanda Palha, Pastor Henrique Vieira e Flávia Biroli. Mediação de Andrea Dip (Agência Pública). 17h – Judicialização da Política e Politização do Judiciário Debate com Alysson Mascaro, Luiz Eduardo Soares e Thula Pires. Mediação de Amanda Audi (The Intercept Brasil). 20h – Feminismo Negro e Política do Empoderamento Palestra de Patricia Hill Collins, comentários de Raquel Barreto. Mediação de Winnie Bueno. 17/10 | quinta 14h – Comunicação e Hegemonia Cultural Debate com Ferréz, Christian Dunker e Esther Solano. Mediação de Claudia Motta (Rede Brasil Atual). 17h – Por Uma Economia Para os 99% Debate com Leda Paulani, Ludmila Costhek Abilio e Eduardo Moreira. Mediação de Juliana Borges (CartaCapital). 20h – Crise da Democracia e Anticapitalismo do Século XXI Debate com Michael Löwy, Sabrina Fernandes e Ruy Braga. Mediação de Débora Baldin. 18/10 | sexta 14h – Educação Contra a Barbárie Debate com Jones Manoel, Aniely Silva e Daniel Cara. Mediação de Tory Oliveira (Revista Nova Escola). 17h – O que Resta da Ditadura? Debate com Maria Rita Kehl, Renan Quinalha e Janaína de Almeida Teles. Mediação de Pedro Venceslau (Estadão). 20h – Jornalismo e Defesa da Democracia Debate com Juca Kfouri (CBN/TVT), Marina Amaral (Agência Pública) e Patricia Campos Mello (Folha de S.Paulo). Mediação de Daniela Pinheiro (Revista Época). 19/10 | sábado 16h – A Liberdade é Uma Luta Constante Conferência de Angela Davis. Mediação de Adriana Ferreira da Silva (Marie Claire Brasil). (Essa conferência terá transmissão ao vivo pelo Portal Sesc SP)

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

domingo, 28 de outubro de 2018

um dia trágico

O país foi sendo empurrado para a beira do precipício e hoje despencou queda abaixo. Todos os avisos não foram o bastante. Para praticarem o golpe, o ódio foi disseminado. O monstro do fascismo foi libertado dos buracos e bueiros e agora, solto, as consequências são imprevisíveis.

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Morremos naturalmente a cada minuto, a cada dia. Hoje morro acentuadamente. Não convivo cotidiana e intimamente com ninguém capaz de escolher um neofascista, mas há quem me conheça além do cotidiano e da intimidade que fez essa escolha, bem sei. Pessoas que teriam todas as condições para estabelecerem os filtros necessários para não serem envolvidas por um ódio fabricado. Não perdoo. Há momentos na história em que o perdão acentua a estupidez; institucionaliza a crueldade. Escolheram a violência, agora legitimada. Muita gente vai sofrer, seja na pele, no corpo, diretamente, ou nas consequências construídas das medidas neoliberais, ultradireitistas que acentuam o fosso da desigualdade e promovem a exclusão em massas. O país terá perdas irreparáveis e os cúmplices acordarão amanhã tão satisfeitos quanto estúpidos. Não os perdoou.

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Este empório faz uma pausa para se repensar.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

eleições 2018: entre um projeto civilizatório ou a barbárie.

42° mostra internacional de cinema de são paulo

Amanhã, 18 de outubro, tem início a 42° Mostra Internacional de Cinema de São Paulo .
Este empório que tradicionalmente acompanha e fornece lacônicos comentários de alguns filmes no "pitacos da mostra", talvez este ano não consiga realizá-la em função de outras atividades e pela coincidência do calendário encaixado entre o primeiro e o segundo turno dessa eleição que coloca o Brasil diante da beira do precipício. Neste momento, a prioridade e a respiração estão mais concentradas em criar pequenas possibilidade que talvez unidas consigam tirar o país da possibilidade da queda precipício abaixo.

De qualquer forma, sugerimos o acompanhamento nos blogs e sites que indicamos na seção "cinema" ao lado, e o do Fernando Oriente aqui.

Dentro do que seja possível, boa Mostra!

terça-feira, 9 de outubro de 2018

editorial do el pais

A hora do Brasil

Editorial do El Pais
A taxativa vitória do ultradireitista Jair Bolsonaro (PSL) no primeiro turno das eleições presidenciais realizadas no domingo, 7, no Brasil coloca o eleitorado diante de uma decisão radical. No segundo turno, previsto para o dia 28 de outubro, já não se trata de escolher entre duas opções políticas diferentes, mas ambas democráticas, e sim entre um candidato que entende e cumpre os padrões de governança das democracias ocidentais e outro que despreza e considera inválido o sistema de liberdades que desde o final da ditadura garante a igualdade e o progresso de 208 milhões de brasileiros.
Bolsonaro, com um discurso abertamente xenófobo, racista, homofóbico e laudatório da ditadura militar (1964-1985) obteve 46% dos votos, muito perto da maioria absoluta que lhe teria outorgado diretamente a chefia do Estado. Fernando Haddad, do histórico Partido dos Trabalhadores (PT), e candidato sucessor do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, conseguiu passar ao segundo turno com 29,3%. Mais preocupante do que os números é o fato de que as falas de Bolsonaro tocaram amplas camadas da população brasileira que veem esse militar da reserva como a solução da profunda crise institucional e econômica que assola o país há quatro anos e pelas quais culpa exatamente o PT.
A diferença de votos entre os dois é grande, mas não intransponível porque o que está em jogo é muito mais do que uma vitória eleitoral. É assim que devem entender a situação tanto os eleitores de qualquer tendência política quanto Haddad, que pelo segundo turno é obrigado a realizar uma exposição integradora e de abertura em relação aos que até domingo eram seus grandes rivais no campo democrático. Sua candidatura já não é somente a do PT e sim a de todos os democratas do Brasil.
Nessa encruzilhada os que foram rivais de Haddad no primeiro turno farão bem em abandonar a exasperante colocação que apresenta o candidato do PT e Bolsonaro como dois extremos comparáveis. Nada mais longe da realidade. Com todas suas polêmicas, problemas, escândalos e processos judiciais, o PT é um partido que na oposição sempre respeitou as regras do jogo democrático, que ganhou três eleições presidenciais de forma absolutamente limpa, sob cujo governo a democracia brasileira se transformou em um exemplo de progresso e que entregou o poder como a lei exigiu mesmo considerando que o procedimento – o impeachment da presidenta Dilma Rousseff em 2016 – era politicamente ilegítimo. Pelo contrário, o candidato a vice de Bolsonaro fala abertamente em reformar a Constituição de uma forma ilegal – mediante um conselho de notáveis – e justifica a possibilidade de um golpe de Estado se as circunstâncias permitirem, propostas que Bolsonaro rejeitou. O próprio candidato, no entanto, fala abertamente em dar um papel preponderante ao Exército e carta branca à polícia para matar. Não é possível continuar dando pouca importância a declarações inaceitáveis marcando-as como uma estratégia para ganhar eleições. Nem tudo vale.
O Brasil não é a primeira democracia que vive essa situação. A França já passou por isso em 2002 quando Jean Marie Le Pen chegou ao segundo turno. Os franceses, à época, perceberam que a democracia não tem atalhos e votaram em Jacques Chirac. Agora é a vez dos brasileiros

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

egberto gismonti - 70

O editor deste blog não é especialista em música. Aliás, não é especialista em nada. Mas é enxerido que é uma barbaridade. Dito isso, mudemos o verbo para a primeira pessoa.
Em relação à música me coloco na condição de ouvinte. Digamos que um bom ouvinte e daqueles em que uma definição de uma vida sem música implicaria no aprofundamento da nossa pobreza humana.
 A motivação de escrever este texto surgiu da experiência de ter assistido ao espetacular show pensado, desenvolvido e apresentado por Gaia Wilmer - de quem nunca tinha ouvido falar - realizado ontem, 22 de agosto de 2018 no Centro Cultural Banco do Brasil em São Paulo. Gaia é uma jovem compositora, arranjadora, saxofonista e produtora musical e montou o projeto "Egberto 70", segundo ela "para essa celebração, como um ato de amor e respeito à obra de Egberto Gismonti". Para tanto, Gaia reuniu 19 excelentes instrumentistas em que pôde criar novas roupagens para algumas das músicas de Gismonti. O resultado é de um primor excepcional, que causou comentários ao final do espetáculo, pelos corredores e escadas do CCBB como "o que foi isso que nós vimos aqui hoje?", ou "histórico!", ou "espetacular!", comentários envolvidos pela emoção.
Egberto Gismonti de cima dos seus 70 anos merece, de fato, ser celebrado. O músico, com um domínio extraordinário e incomum de vários instrumentos, um pesquisador obsessivo pela história da música, um compositor irrequieto e com experimentações que percorreram desde músicas indígenas até o dodecafonismo, acabou sendo pouco compreendido naquele Brasil do início dos anos 70 do século passado, período em que embarcou para Europa. Foi na Alemanha que grande parte da sua obra foi gravada o que dificultou por anos a sua divulgação no Brasil em um período em que os discos importados eram muito caros.
Hoje Gismonti é um dos raros músicos que detém o direito da sua obra, sendo o proprietário das matrizes dos seus fonogramas. E, por isso, contou-nos no show que disponibilizará gratuitamente toda a sua obra o que inclui os discos, os dvds e também as partituras.
 No show de ontem, além dos 19 músicos, tiveram participações mais do que especiais de Bianca Gismonti, Jaques Morelenbaum e Mauro Senise, além da presença iluminada de Egberto Gismonti, não só tocando, mas, como lhe é de costume, conversando com o público com sua fala mansa e poética.
 O evento que já passou por Brasília, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, tem em São Paulo mais duas apresentações nos dias 24 e 25/08, em princípio sem a participação direta de Gismonti, mas com as participações especiais de Gabriel Grossi, Jaques Morelenbaum e Yamandú Costa no dia 24 e André Mehamari, Ricardo Herz e mais uma vez Jaques Morelenbaum no dia 25.
 O Brasil é um país de contrastes, e não só na vergonhosa distribuição de renda, uma das piores do mundo. Por estas bandas, ao mesmo tempo e espaço, em que são produzidos anões morais que se aboletam no judiciário, no congresso nacional, na elite econômica, surgem gênios que nos fornecem luzes que nos permitem caminhar na escuridão. Um deles é, sem dúvida, Egberto Gismonti.

sábado, 30 de junho de 2018

100 anos de bergman

Direto ao ponto. O Cine Sesc homenageia Bergman no seu centenário:
centenário bergman

sábado, 2 de junho de 2018

todos os paulos do mundo

Paulo José, o grande ator, é, de fato, muitos Paulos. Cada um deles deixou uma marca na dramaturgia e, sobretudo, na cinematografia brasileira. "Todos os Paulos do mundo", filme de Gustavo Ribeiro e Rodrigo de Oliveira nos traz esses Paulos: dramáticos, cômicos, poéticos, românticos, políticos. Em tempos de escuridão, como o que vivemos, Paulo José nos acende uma vela.

Alessandra Alves colunista do Cinema em Cena, Carta Capital, detalha mais um pouco da trajetória que desembocou nesse belo documentário.
O link aqui

sábado, 5 de maio de 2018

o eterno retorno e o além do homem

A questão da temporalidade em Nietzsche através do "eterno retorno" e do "além do homem" na interpretação sintética de Oswaldo Giacoia Junior.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

nicolelis: uma entrevista imperdível

É necessário deixar aqui, neste empório, este registro. Esta entrevista do Miguel Nicolelis, ainda que carregada de tristezas, é fundamental para entender a isso que chamamos de Brasil.

domingo, 8 de abril de 2018

a tragédia consolidada / mas o ciclo ainda não se fechou

Foto de Francisco Proner Ramos, jovem
fotógrafo de 18 anos de idade.
Em 11 de junho de 2017 publicamos neste empório o artigo a tragédia brasileira, que procurou contextualizar essa trajetória da guerra em que fomos inseridos, pouco mais de um ano do Golpe parlamentar-jurídico-midiático de maio de 2016 sofrido pelo Brasil na figura da presidenta eleita Dilma Rousseff.
Nesta semana tivemos a consolidação do golpe e, portanto, dessa tragédia brasileira.
A tragédia não se dá tão somente pela prisão do ex-presidente Lula, o maior líder político da história do Brasil. Ela se dá, porque foi o resultado de uma manobra política que  o levou a uma condenação sem provas, que é o que define, na essência jurídica, o autoritarismo. É ainda uma tragédia porque, depois de 21 anos de ditadura em que vivemos - entre 1964 e 1985 -, vínhamos trilhando, com os naturais tropeções, um caminho de busca de um processo de consolidação de democracia e que acaba de ser interrompido. A retomada necessária desse processo será árdua e ainda de consequências imprevisíveis. E não será fácil, porque o ódio fabricado e disseminado pela grande mídia como estratégia política, saiu do controle. O fascismo volta a pisar firme pelas ruas brasileiras com a sua velha desenvoltura perdida há pelo menos três décadas. Não será fácil, ainda, porque as redes de conexões que produziram o golpe, produziram também um pacto de responsabilidade difícil de ser quebrado. O voto estapafúrdio e criminoso da ministra Rosa Weber, afirmando que votaria naquele momento de forma inconstitucional, é a evidência clara desse pacto.


Mas o ciclo ainda não se fechou


Para o enredo do golpe, a destituição da presidenta Dilma era apenas a etapa inicial. O fechamento seria com a decretação de inelegibilidade de Lula ou a sua prisão, e esta tendo, como a cereja do bolo, um cenário midiático: algemado e humilhado em praça pública.
Inelegível, mesmo preso, Lula não está. Sua candidatura será registrada e o TSE é que terá, diante de um quadro político complicadíssimo como este, de impugná-la. E, mesmo impugnada, caberá  recurso ao STF. Mas a disputa real que os executores do golpe terão é outra. Lula se entregou, mas não foi humilhado, porque ele decidiu a hora e como seria a sua chegada em Curitiba. Quando deveria estar preso, por determinação de Sérgio Moro, o ex-presidente estava fazendo um discurso histórico para dezenas de milhares de pessoas nas apertadas ruas do entorno da também histórica sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Um discurso que lembrava a todos que há abstrações, além do corpo, que não podem ser encarceradas.
Neste aspecto, entra um elemento que não pode ser matematicamente planejado. Mesmo com o país dividido e os ânimos cada vez mais acirrados, Lula deve sair desse processo ainda maior do que entrou e isso faz parte das variáveis que os roteiristas do golpe não tinham o poder de decidir.
Lula é, ainda que a narrativa oficial não diga, um preso político.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

um magistrado exemplar

Em um país em que a justiça age de forma a fazer as suas escolhas a dedo, dependendo da condição social, econômica e política do indivíduo, um texto saudosista como este de Milton Hatoum, deveria fazer, mas acaba não fazendo nenhum sentido..., para muitos dos que compõe o nosso corpo jurídico. 

Existe magistrado exemplar?
Não só existe, como conheci essa rara figura. Aliás, raríssima, de dar inveja (data venia) aos mais nobres magistrados. Não sei se era religioso; talvez sim, mas com uma generosa pitada de agnosticismo, que é o sal do niilismo moderno.
Sei que era francês. Eu o conheci nos meus primeiros dias de Paris, no inverno tenebroso de 1978. Passamos uma tarde inteira e uma parte da noite num café da rue Fouarre. Que magistrado incrível! Que exemplo de juiz de instrução, ainda mais neste tempo de privilégios, que há séculos é o tempo brasileiro.
(continua em "mais informações")

quarta-feira, 7 de março de 2018

o idiota tecnológico

Este artigo de Raphael Silva Fagundes, publicado no Le Monde Diplomatique Brasil deste mês, toca num tema que sobrepõe muitas das discussões rasteiras e cotidianas que acabamos travando, muito porque é o que nos sobra discutir. Acima dessas discussões existe um controle sistêmico sobre o comportamento das pessoas que se acomoda nas entranhas dos fios do tecido social. Muitos pensadores já se de debruçaram sobre o tema. Fagundes toma como partida, MacLuhan.
Em vez de reproduzimos o artigo indicamos o seu link abaixo:

o idiota tecnológico...

sábado, 17 de fevereiro de 2018

política com chapéu



Erratas: o vídeo, gravado em fluxo direto ( não sei fazer edição), merece ao menos três correções. (clicando em mais informações)

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

da natureza do golpe

O Brasil, todos sabemos, sofreu um golpe. Mais um na sua história. No dia seguinte ao golpe, a população brasileira acordou, se espreguiçou, bocejou, lavou o rosto, tomou o seu café, iniciou as suas atividades, cada um com os seus problemas, dilemas ou prazeres. Aqueles pobres, aqueles remediados, aqueles abastados... Os desonestos, muitos dos honestos; os que avançam os sinais, qualquer sinal, daqui, dali ou acolá; os clientes, todos os clientes, os inseridos no mercado e os que desejam se inserirem no mercado; os tristes e os alegres; os bons e os maus. 
Pelo dia, o Brasil foi seguindo o seu passo manso, introspectivo, com a calma paciente dos justos, distraídos por não se perceberem injustos. O Brasil atravessou o dia, comendo, bebendo, trabalhando, vagando, gozando, trocando idéias fúteis, inconseqüentes...
”como tá abafado”, “é, vai chover”, “odeio carregar guarda-chuva”, “eu também”, “será que vão prender o homem?”, “acho que sim”, “tem jogo hoje?”

Chegada a noite, os corpos cansados atravessam as portas residenciais, se acomodam nos seus cantos, se aconchegam..., todos aqueles que têm portas residenciais, que têm cantos e que têm a possibilidade do aconchego, e que poderão, depois de um boa noite de willian bonner, descansar para um outro dia, para um novo bocejo, um outro lavar de rosto, um novo café, para os novos dilemas, novos problemas ou novos prazeres. Tudo muito natural. Natural como um golpe.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

deu nisso

Viu só Lula! Você foi inventar de morar em São Bernardo do Campo, justo num lugar marcado pela luta operária...! Tanto lugar para você morar...,Higienópolis, por exemplo, ou Alto de Pinheiros...! Tomar café em padaria?! Onde já se viu...!,tendo a Vila Boim, por exemplo, onde você poderia ler o Le Monde. Ah, mas você não aprendeu o francês. Viu?, tinha que ter estudado mais! Foi inventar de ter uma chacrinha chamada “Los Fubangos”. “Los Fubangos??”, Lula! Aí não dá! E nem mesmo um apartamento no Guarujá você foi capaz de inventar. Mas seria pouca coisa. O bom seria se você tivesse comprado um em Paris. Olha que chique! Tem uma avenida lá Lula, chamada Avenue Foch. Dizem que é linda. Daria para você passear pelas alamedas floridas, pensar na vida, quem sabe até escrever a sua biografia. Foi se meter em vagar pelo Brasil... Falar com gente pobre, sem cultura. Por que você, em vez de ficar rodando pelas estradas, não comprou uma fazenda no coração do Brasil, em Buritis, por exemplo? Você poderia contratar um arquiteto renomado, ver, quem sabe, com a Camargo Correa, por exemplo, se ela não construía para você - um homem de prestígio- uma pista de pouso.
Foi inventar de juntar as consoantes de parte do nome do pai com o nome da mãe pra dar nome pra sua filha. Não seria melhor um nome mais, assim, digamos, normal, como Verônica, por exemplo, ou quem sabe Luciana? Imagina só, se tudo desse certo, ela poderia até virar sócia do homem mais rico do país, já pensou nisso?
Mas você foi inventar tantas outras coisa, Lula... Onde já se viu, você ficar de conversinhas com essa gente da África, essa gente esquisita da América Latina. Foi ainda falar grosso com o Bush, falar com a cabeça erguida com a Merkel. Imperdoável!
E ainda essa coisa de tirar gente da pobreza! Você provou, é verdade, que colocar essa gente no orçamento do Estado, faz girar e impulsionar toda a economia. Mas precisava? Eles já estavam lá quietinhos, acostumados. Os mais abastados estavam ali, tranquilos, não tendo que pensar em dividir espaço em aeroporto. E você foi mexer nisso!
Pensando bem, você tava lá, 50 ano atrás, empregado, numa empresa internacional, torneando peças (olha que bonito: “torneando”); o único problema foi perder um dedo, mas foi o dedo mindinho que não serve pra muita coisa. Batia a sua bolinha, tomava a sua cachacinha, ia ver o Corinthians... Não tava bom? Foi querer lutar pela gente; foi querer ocupar o lugar de quem sempre mandou. Deu nisso!


sábado, 6 de janeiro de 2018

o tempo, que não é de drummond, e a legião de imbecis

Há mais de dez anos publicamos neste empório uma sequência daquilo que chamamos de equívocos literários: textos falsamente atribuídos a grandes figuras da literatura.
Nesta passagem de ano, um poema circulou por todos os lados e foi parar até no elevador do meu condomínio, que é administrado pela tal da Lello. Trata-se do poema intitulado "O Tempo". Acho que muita gente deve tê-lo recebido na sua caixa postal. É aquele que começa assim: "Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, / a que se deu o nome de ano, / foi um indivíduo genial..." e blá, blá, blá.  Atribuíram-no ao coitado do Carlos Drummond de Andrade. A bem da verdade, o poema era até pouco tempo de autor desconhecido mas parece ter um autor já identificado, mas como não tenho certeza, não mencionarei o nome.
Atribuir falsas autorias parece que foi um dos primeiros vícios que a rede estimulou. Em momentos em que o fascismo saiu dos boeiros, como este em que vivemos, essas práticas podem parecer café pequeno, e de fato são: uma pequena imbecilidade diante das imbecilidades perigosas. Mas não há como não lembrar de Umberto Eco que disse, pouco antes de morrer, que "as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis".

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

transitório

transitório
como o cão que um dia tive
como a palavra interrompida e não dita
como a folha, que seca,
pousa de eterna entre as letras do livro

transitório
como o movimento minimalista da mão que cerca esta taça

como a poeira que penetra e se adensa
no espaço a que não pertenço
porque nele me instalo como transitório

como a partícula, a célula, a bactéria
que se acomodam na não existência do olhar

transitório como a lupa
que amplia o passar

como o passo que não acolhe o caminho

como o rio heráclito

como a relva orvalhada desfalecida ao meio do dia

transitório como a dor sentida
e o amor perdido

transitório como a pausa irrefletida
como o cansaço ora assumido

como a intenção
(não qualquer intenção mas aquela imprudente que se acerca do que não a extrapola,
daquilo que lhe escapa, daquilo que lhe corrompe)

como a matéria não aparente
aquela que transborda
aquela que sucumbe

transitório
como o esteves sem metafísica
como todas as tabacarias
como o ar neblinado e como o tempo não acolhido

transitório
como o interregno
(mais que o interregno: aquilo que não mais sendo, ainda não é)

como a pedra que ensina
a pedra lisa
a pedra áspera
a pedra densa
a pedra de joão

transitório como a queda

transitório como uma vida sem rumo

como as sobras esfareladas
que vão se perdendo
uma
a
uma

uma
a
uma
...
.
.
.


segunda-feira, 27 de novembro de 2017

o fim do sonho americano

Agora liberado no Youtube, o documentário/entrevista com Noam Chomsky é uma peça fundamental para entendermos a construção do mundo em que vivemos.


sexta-feira, 27 de outubro de 2017

pitacos da mostra 2017

Os "pitacos da mostra" é uma seção tradicional deste empório com comentários ( e não necessariamente sinopses) brevíssimos dos filmes que vamos assistindo neste post que é dinâmico. Neste ano, o tempo ( sempre ele) se apresenta mais curto e talvez a seção seja mais enxuta. Boa Mostra!
(a partir de "mais informações")

sábado, 21 de outubro de 2017

41° mostra internacional de cinema de são paulo


Com dois dias de atraso, este empório que tradicionalmente acompanha a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, dá boas vindas ao maior e mais antigo evento cinematográfico do país.
Se na Mostra de 2016 os temas políticos foram a essência ( lembramos a postagem feita no ano passado aqui e os costumeiros pitacos da mostra ) a deste ano não fugirá dessa essência, tratando novamente da questão dos refugiados com o essencial filme do chinês radicado na Alemanha Ai Weiwei com o seu filme "Human Flow " e de outros temas da emergência do mundo atual. Há ainda, neste ano pela primeira vez, a apresentação de filmes com tecnologia de realidade virtual. Serão 19 ao todo. Mas como se tratam de mais de 400 filmes, a definição de uma linha conceitual acaba por ficar mais flexível, como de certa forma, sempre foi a proposta da Mostra.

Com o atropelo do tempo - tema, aliás, tão pertinente nos nossos "tempos" e do editor deste empório - trago o texto de Maria do Rosário Caetano da Revista de Cinema que apresenta as suas impressões a partir das considerações da diretora da Mostra, Renata de Almeida. O texto aqui 


(S
e o tempo for um aliado nas duas próximas semanas, este empório tentará postar paulatinamente os seus Pitacos da Mostra).



terça-feira, 26 de setembro de 2017

jardim de epicuro, por josé américo motta pessanha

Em tempos tenebrosos como o que vivemos, Epicuro pode ser um "phármakon", na sua forma de remédio. O professor José Américo Motta Pessanha, falecido precocemente em 1993, nos deu uma boa síntese do tema.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

art blakey & the jazz messangers live in '58

Uma preciosidade
(o vídeo postado anteriormente era o show inteiro mas foi bloqueado. Do mesmo show tiramos, então, liberada, a música Moanin)

na estrada com hettie jones

O movimento beat do final do anos 50 e início dos 60 nos EUA e que precedeu o movimento hippie, foi sinteticamente definido por Allen Ginsberg "como um grupo de amigos que trabalharam juntos na poesia, na prosa e numa consciência cultural". Além de Ginsberg, os outros dois expoentes do movimento sempre lembrados são  Jack Kerouac e William  S. Burroughs.
Mas há muitos mais e muitas mulheres compuseram o movimento. A professora Miriam Adelman trabalhou sobre o tema no estudo "Metáforas de autoria feminina" publicado inicialmente naRevista Contemporartes ". Um outro estudo, pesquisando na internet, é de Priscila Finger do Prado, que se debruçou sobre o tema com enfoque principal sobre a poeta Hettie Jones que tem como obra central o livro "Drive". O estudo aqui. "Drive" remete à estrada, à liberdade, mas diante de uma perspectiva femininista. Abaixo o poema Direção ( Hard Drive) de Hettie Jones com tradução de Miriam Adelman.
Direção 

No sábado os ursos de pelúcia flutuavam de novo
sobre o Major Deegan
dançando no plástico ao longo do corrimão da ponte
sob um céu meio nublado, meio azul
e havia nuvens brancas
chegando do oeste

o que talvez fosse suficiente
para alguém acostumado ao prazer
em pequenas dosagens

Porém mais tarde ao pôr do sol
dirigindo rumo ao norte pelo Saw Mill
no vento forte, com as nuvens grandes que flutuavam
por sobre a estrada como animais
mostrando orgulhosomente suas rosadas barrigas
num momento de luz intensa
vi uma casa tipo Edward Hopper
tão simultânea e extraordinariamente clara e escura
que eu chorei todo o caminho da Rota 22
aquelas lágrimas incontroláveis
 “como se o corpo chorasse”

e portanto,  mulheres jovens
eis aqui o dilema
em si a solução:

sempre fui ao mesmo tempo
mulher o suficiente para comover-se até o pranto
e homem o suficiente
para pegar o carro e me mandar
em qualquer direção




terça-feira, 11 de julho de 2017

a tragédia brasileira

Talvez a questão ou a pergunta central hoje é: "como chegamos nesta situação?"
A história do Brasil se mistura com a construção histórica de colonização pela qual passa e, de uma certa forma continua passando, a América Latina.
As cercas que foram sendo instaladas no continente, arquitetaram uma dominação hereditária moldada pela perpetuação e, por isso, as classes dominantes sempre se eriçaram quando ameaçadas, usando as forças compatíveis para cada ameaça. O resultado foram os inúmeros golpes de estado perpetrados, muitos deles de forma sanguinária. Os golpes hoje têm caráter diferente. Não são mais necessários os tanques dos exércitos nas ruas (para lembrar de um artigo premonitório de 2012, o risco que corremos). É o que acontece no Brasil neste momento de rompimento do processo de construção da democracia que vínhamos exercitando. E o rompimento se deu não porque tivesse havido uma ameaça que pudesse mudar a propriedade do capital. Nem tão pouco um pequeno abalo sísmico nessa propriedade fazia parte do roteiro. De 2003 a 2014 o país apenas deu uma guinada civilizatória; um olhar novo, que apontava para as classe sociais que mais necessitavam, e esse desvio do olhar passou a chamar a atenção e incomodar os hereditários donos do poder. Pobres tendo mais dignidade, negros sendo inseridos, indígenas sendo respeitados, mulheres exercendo posições de comando, questões de gênero sendo discutidas com respeito. É tudo que os donos do poder não admitem. E pouco importa se a economia cresceu barbaramente. Se as suas empresas venderam como nunca. Se o desemprego desapareceu. O que eles não queriam e não querem é que o sumo desse crescimento seja melhor distribuído, ainda que isso não altere em nada as suas fortunas. O que não aceitam é que, ainda que timidamente, os dos andares de baixo vislumbrem alguma possibilidade de se colocarem em espaços aos quais a eles não foram destinados. Os aeroportos se estabeleceram, no período, como locais do simbolismo do incômodo. Por definição histórico-elitista, aos serviçais a rodoviária ou, nos aeroportos, apenas na condição de serviçais.
Aos donos hereditários do poder não importa que o Brasil seja respeitado no hemisfério norte. Preferem o vexame da sua elite representada ao sucesso, se este vier de um representante com a cara do povo.
(segue em "mais informações")


segunda-feira, 26 de junho de 2017

alice..., do giramundo

Neste empório, variados são os produtos na prateleira. É como a Mercearia Paraopeba, objeto de duas postagens aqui . Os nossos temas são variados. Quando falamos de cultura em geral ou das artes, fazemos artigos que se relacionam com eventos que visitamos ou assistimos e, das observações, cunhamos as críticas. Não é o caso desta postagem. Não é possível acompanhar tudo que a vontade instiga. O tempo é sempre escasso. Como uma metáfora da vida, mais acumulamos perdas do que achados.
É o caso do espetáculo "Aventuras de Alice no País das Maravilhas" do excelente grupo mineiro de teatros de bonecos, o Giramundo, que não assistimos, o que acumula a nossa pilha das perdas.
O "Alice no País das Maravilhas" do Giramundo explora com maestria, segundo a maioria das críticas, o universo construído por Lewis Carrol, essa obra que gera infindáveis interpretações e que cabem nas mais variadas caixas. O Giramundo abriu as suas e liberou seus bonecos para adentrar a toca do coelho.
Abaixo, o vídeo que conta a construção dessa viagem.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

gonçalo m. tavares

Acabo de ler o livro "Aprender a rezar na era da técnica" do escritor português Gonçalo M. Tavares. Já havia lido dele "Os velhos também querem viver". Gostei, sobretudo de "Aprender a rezar...", mas é pouco para dizer qualquer coisa a respeito do escritor. Este livro faz parte da tetralogia "O Reino" que inclui ainda Um homem: klaus Klump, A Máquina de Joseph Walser e Jerusalén.
Saramago, ao entregar ao escritor um dos vários prêmios que recebeu, disse-lhe: "você não tem o direito de escrever tão bem aos 35 anos: dá vontade de te bater". E essa é uma questão. Tavares, apesar de jovem ( tem hoje 47 anos) já tem uma estante cheia só com os seus livros e isso, segundo o crítico português Gonçalo Mira, torna a sua obra muito irregular.
Abaixo a crítica, publicada no portal português Público

CRÍTICA LIVROS

De mau a excelente

Não é incompatível dizer que Gonçalo M. Tavares é o melhor escritor português do século XXI e que também faz livros maus. Duas obras simultâneas provam-no