quarta-feira, 31 de outubro de 2018

domingo, 28 de outubro de 2018

um dia trágico

O país foi sendo empurrado para a beira do precipício e hoje despencou queda abaixo. Todos os avisos não foram o bastante. Para praticarem o golpe, o ódio foi disseminado. O monstro do fascismo foi libertado dos buracos e bueiros e agora, solto, as consequências são imprevisíveis.

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Morremos naturalmente a cada minuto, a cada dia. Hoje morro acentuadamente. Não convivo cotidiana e intimamente com ninguém capaz de escolher um neofascista, mas há quem me conheça além do cotidiano e da intimidade que fez essa escolha, bem sei. Pessoas que teriam todas as condições para estabelecerem os filtros necessários para não serem envolvidas por um ódio fabricado. Não perdoou. Há momentos na história em que o perdão acentua a estupidez; institucionaliza a crueldade. Escolheram a violência, agora legitimada. Muita gente vai sofrer, seja na pele, no corpo, diretamente, ou nas consequências construídas das medidas neoliberais, ultradireitistas que acentuam o fosso da desigualdade e promovem a exclusão em massas. O país terá perdas irreparáveis e os cúmplices acordarão amanhã tão satisfeitos quanto estúpidos. Não os perdoou.

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Este empório faz uma pausa para se repensar.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

eleições 2018: entre um projeto civilizatório ou a barbárie.

42° mostra internacional de cinema de são paulo

Amanhã, 18 de outubro, tem início a 42° Mostra Internacional de Cinema de São Paulo .
Este empório que tradicionalmente acompanha e fornece lacônicos comentários de alguns filmes no "pitacos da mostra", talvez este ano não consiga realizá-la em função de outras atividades e pela coincidência do calendário encaixado entre o primeiro e o segundo turno dessa eleição que coloca o Brasil diante da beira do precipício. Neste momento, a prioridade e a respiração estão mais concentradas em criar pequenas possibilidade que talvez unidas consigam tirar o país da possibilidade da queda precipício abaixo.

De qualquer forma, sugerimos o acompanhamento nos blogs e sites que indicamos na seção "cinema" ao lado, e o do Fernando Oriente aqui.

Dentro do que seja possível, boa Mostra!

terça-feira, 9 de outubro de 2018

editorial do el pais

A hora do Brasil

Editorial do El Pais
A taxativa vitória do ultradireitista Jair Bolsonaro (PSL) no primeiro turno das eleições presidenciais realizadas no domingo, 7, no Brasil coloca o eleitorado diante de uma decisão radical. No segundo turno, previsto para o dia 28 de outubro, já não se trata de escolher entre duas opções políticas diferentes, mas ambas democráticas, e sim entre um candidato que entende e cumpre os padrões de governança das democracias ocidentais e outro que despreza e considera inválido o sistema de liberdades que desde o final da ditadura garante a igualdade e o progresso de 208 milhões de brasileiros.
Bolsonaro, com um discurso abertamente xenófobo, racista, homofóbico e laudatório da ditadura militar (1964-1985) obteve 46% dos votos, muito perto da maioria absoluta que lhe teria outorgado diretamente a chefia do Estado. Fernando Haddad, do histórico Partido dos Trabalhadores (PT), e candidato sucessor do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, conseguiu passar ao segundo turno com 29,3%. Mais preocupante do que os números é o fato de que as falas de Bolsonaro tocaram amplas camadas da população brasileira que veem esse militar da reserva como a solução da profunda crise institucional e econômica que assola o país há quatro anos e pelas quais culpa exatamente o PT.
A diferença de votos entre os dois é grande, mas não intransponível porque o que está em jogo é muito mais do que uma vitória eleitoral. É assim que devem entender a situação tanto os eleitores de qualquer tendência política quanto Haddad, que pelo segundo turno é obrigado a realizar uma exposição integradora e de abertura em relação aos que até domingo eram seus grandes rivais no campo democrático. Sua candidatura já não é somente a do PT e sim a de todos os democratas do Brasil.
Nessa encruzilhada os que foram rivais de Haddad no primeiro turno farão bem em abandonar a exasperante colocação que apresenta o candidato do PT e Bolsonaro como dois extremos comparáveis. Nada mais longe da realidade. Com todas suas polêmicas, problemas, escândalos e processos judiciais, o PT é um partido que na oposição sempre respeitou as regras do jogo democrático, que ganhou três eleições presidenciais de forma absolutamente limpa, sob cujo governo a democracia brasileira se transformou em um exemplo de progresso e que entregou o poder como a lei exigiu mesmo considerando que o procedimento – o impeachment da presidenta Dilma Rousseff em 2016 – era politicamente ilegítimo. Pelo contrário, o candidato a vice de Bolsonaro fala abertamente em reformar a Constituição de uma forma ilegal – mediante um conselho de notáveis – e justifica a possibilidade de um golpe de Estado se as circunstâncias permitirem, propostas que Bolsonaro rejeitou. O próprio candidato, no entanto, fala abertamente em dar um papel preponderante ao Exército e carta branca à polícia para matar. Não é possível continuar dando pouca importância a declarações inaceitáveis marcando-as como uma estratégia para ganhar eleições. Nem tudo vale.
O Brasil não é a primeira democracia que vive essa situação. A França já passou por isso em 2002 quando Jean Marie Le Pen chegou ao segundo turno. Os franceses, à época, perceberam que a democracia não tem atalhos e votaram em Jacques Chirac. Agora é a vez dos brasileiros

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

egberto gismonti - 70

O editor deste blog não é especialista em música. Aliás, não é especialista em nada. Mas é enxerido que é uma barbaridade. Dito isso, mudemos o verbo para a primeira pessoa.
Em relação à música me coloco na condição de ouvinte. Digamos que um bom ouvinte e daqueles em que uma definição de uma vida sem música implicaria no aprofundamento da nossa pobreza humana.
 A motivação de escrever este texto surgiu da experiência de ter assistido ao espetacular show pensado, desenvolvido e apresentado por Gaia Wilmer - de quem nunca tinha ouvido falar - realizado ontem, 22 de agosto de 2018 no Centro Cultural Banco do Brasil em São Paulo. Gaia é uma jovem compositora, arranjadora, saxofonista e produtora musical e montou o projeto "Egberto 70", segundo ela "para essa celebração, como um ato de amor e respeito à obra de Egberto Gismonti". Para tanto, Gaia reuniu 19 excelentes instrumentistas em que pôde criar novas roupagens para algumas das músicas de Gismonti. O resultado é de um primor excepcional, que causou comentários ao final do espetáculo, pelos corredores e escadas do CCBB como "o que foi isso que nós vimos aqui hoje?", ou "histórico!", ou "espetacular!", comentários envolvidos pela emoção.
Egberto Gismonti de cima dos seus 70 anos merece, de fato, ser celebrado. O músico, com um domínio extraordinário e incomum de vários instrumentos, um pesquisador obsessivo pela história da música, um compositor irrequieto e com experimentações que percorreram desde músicas indígenas até o dodecafonismo, acabou sendo pouco compreendido naquele Brasil do início dos anos 70 do século passado, período em que embarcou para Europa. Foi na Alemanha que grande parte da sua obra foi gravada o que dificultou por anos a sua divulgação no Brasil em um período em que os discos importados eram muito caros.
Hoje Gismonti é um dos raros músicos que detém o direito da sua obra, sendo o proprietário das matrizes dos seus fonogramas. E, por isso, contou-nos no show que disponibilizará gratuitamente toda a sua obra o que inclui os discos, os dvds e também as partituras.
 No show de ontem, além dos 19 músicos, tiveram participações mais do que especiais de Bianca Gismonti, Jaques Morelenbaum e Mauro Senise, além da presença iluminada de Egberto Gismonti, não só tocando, mas, como lhe é de costume, conversando com o público com sua fala mansa e poética.
 O evento que já passou por Brasília, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, tem em São Paulo mais duas apresentações nos dias 24 e 25/08, em princípio sem a participação direta de Gismonti, mas com as participações especiais de Gabriel Grossi, Jaques Morelenbaum e Yamandú Costa no dia 24 e André Mehamari, Ricardo Herz e mais uma vez Jaques Morelenbaum no dia 25.
 O Brasil é um país de contrastes, e não só na vergonhosa distribuição de renda, uma das piores do mundo. Por estas bandas, ao mesmo tempo e espaço, em que são produzidos anões morais que se aboletam no judiciário, no congresso nacional, na elite econômica, surgem gênios que nos fornecem luzes que nos permitem caminhar na escuridão. Um deles é, sem dúvida, Egberto Gismonti.

sábado, 30 de junho de 2018

100 anos de bergman

Direto ao ponto. O Cine Sesc homenageia Bergman no seu centenário:
centenário bergman

sábado, 2 de junho de 2018

todos os paulos do mundo

Paulo José, o grande ator, é, de fato, muitos Paulos. Cada um deles deixou uma marca na dramaturgia e, sobretudo, na cinematografia brasileira. "Todos os Paulos do mundo", filme de Gustavo Ribeiro e Rodrigo de Oliveira nos traz esses Paulos: dramáticos, cômicos, poéticos, românticos, políticos. Em tempos de escuridão, como o que vivemos, Paulo José nos acende uma vela.

Alessandra Alves colunista do Cinema em Cena, Carta Capital, detalha mais um pouco da trajetória que desembocou nesse belo documentário.
O link aqui

sábado, 5 de maio de 2018

o eterno retorno e o além do homem

A questão da temporalidade em Nietzsche através do "eterno retorno" e do "além do homem" na interpretação sintética de Oswaldo Giacoia Junior.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

nicolelis: uma entrevista imperdível

É necessário deixar aqui, neste empório, este registro. Esta entrevista do Miguel Nicolelis, ainda que carregada de tristezas, é fundamental para entender a isso que chamamos de Brasil.

domingo, 8 de abril de 2018

a tragédia consolidada / mas o ciclo ainda não se fechou

Foto de Francisco Proner Ramos, jovem
fotógrafo de 18 anos de idade.
Em 11 de junho de 2017 publicamos neste empório o artigo a tragédia brasileira, que procurou contextualizar essa trajetória da guerra em que fomos inseridos, pouco mais de um ano do Golpe parlamentar-jurídico-midiático de maio de 2016 sofrido pelo Brasil na figura da presidenta eleita Dilma Rousseff.
Nesta semana tivemos a consolidação do golpe e, portanto, dessa tragédia brasileira.
A tragédia não se dá tão somente pela prisão do ex-presidente Lula, o maior líder político da história do Brasil. Ela se dá, porque foi o resultado de uma manobra política que  o levou a uma condenação sem provas, que é o que define, na essência jurídica, o autoritarismo. É ainda uma tragédia porque, depois de 21 anos de ditadura em que vivemos - entre 1964 e 1985 -, vínhamos trilhando, com os naturais tropeções, um caminho de busca de um processo de consolidação de democracia e que acaba de ser interrompido. A retomada necessária desse processo será árdua e ainda de consequências imprevisíveis. E não será fácil, porque o ódio fabricado e disseminado pela grande mídia como estratégia política, saiu do controle. O fascismo volta a pisar firme pelas ruas brasileiras com a sua velha desenvoltura perdida há pelo menos três décadas. Não será fácil, ainda, porque as redes de conexões que produziram o golpe, produziram também um pacto de responsabilidade difícil de ser quebrado. O voto estapafúrdio e criminoso da ministra Rosa Weber, afirmando que votaria naquele momento de forma inconstitucional, é a evidência clara desse pacto.


Mas o ciclo ainda não se fechou


Para o enredo do golpe, a destituição da presidenta Dilma era apenas a etapa inicial. O fechamento seria com a decretação de inelegibilidade de Lula ou a sua prisão, e esta tendo, como a cereja do bolo, um cenário midiático: algemado e humilhado em praça pública.
Inelegível, mesmo preso, Lula não está. Sua candidatura será registrada e o TSE é que terá, diante de um quadro político complicadíssimo como este, de impugná-la. E, mesmo impugnada, caberá  recurso ao STF. Mas a disputa real que os executores do golpe terão é outra. Lula se entregou, mas não foi humilhado, porque ele decidiu a hora e como seria a sua chegada em Curitiba. Quando deveria estar preso, por determinação de Sérgio Moro, o ex-presidente estava fazendo um discurso histórico para dezenas de milhares de pessoas nas apertadas ruas do entorno da também histórica sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Um discurso que lembrava a todos que há abstrações, além do corpo, que não podem ser encarceradas.
Neste aspecto, entra um elemento que não pode ser matematicamente planejado. Mesmo com o país dividido e os ânimos cada vez mais acirrados, Lula deve sair desse processo ainda maior do que entrou e isso faz parte das variáveis que os roteiristas do golpe não tinham o poder de decidir.
Lula é, ainda que a narrativa oficial não diga, um preso político.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

um magistrado exemplar

Em um país em que a justiça age de forma a fazer as suas escolhas a dedo, dependendo da condição social, econômica e política do indivíduo, um texto saudosista como este de Milton Hatoum, deveria fazer, mas acaba não fazendo nenhum sentido..., para muitos dos que compõe o nosso corpo jurídico. 

Existe magistrado exemplar?
Não só existe, como conheci essa rara figura. Aliás, raríssima, de dar inveja (data venia) aos mais nobres magistrados. Não sei se era religioso; talvez sim, mas com uma generosa pitada de agnosticismo, que é o sal do niilismo moderno.
Sei que era francês. Eu o conheci nos meus primeiros dias de Paris, no inverno tenebroso de 1978. Passamos uma tarde inteira e uma parte da noite num café da rue Fouarre. Que magistrado incrível! Que exemplo de juiz de instrução, ainda mais neste tempo de privilégios, que há séculos é o tempo brasileiro.
(continua em "mais informações")

quarta-feira, 7 de março de 2018

o idiota tecnológico

Este artigo de Raphael Silva Fagundes, publicado no Le Monde Diplomatique Brasil deste mês, toca num tema que sobrepõe muitas das discussões rasteiras e cotidianas que acabamos travando, muito porque é o que nos sobra discutir. Acima dessas discussões existe um controle sistêmico sobre o comportamento das pessoas que se acomoda nas entranhas dos fios do tecido social. Muitos pensadores já se de debruçaram sobre o tema. Fagundes toma como partida, MacLuhan.
Em vez de reproduzimos o artigo indicamos o seu link abaixo:

o idiota tecnológico...

sábado, 17 de fevereiro de 2018

política com chapéu



Erratas: o vídeo, gravado em fluxo direto ( não sei fazer edição), merece ao menos três correções. (clicando em mais informações)

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

da natureza do golpe

O Brasil, todos sabemos, sofreu um golpe. Mais um na sua história. No dia seguinte ao golpe, a população brasileira acordou, se espreguiçou, bocejou, lavou o rosto, tomou o seu café, iniciou as suas atividades, cada um com os seus problemas, dilemas ou prazeres. Aqueles pobres, aqueles remediados, aqueles abastados... Os desonestos, muitos dos honestos; os que avançam os sinais, qualquer sinal, daqui, dali ou acolá; os clientes, todos os clientes, os inseridos no mercado e os que desejam se inserirem no mercado; os tristes e os alegres; os bons e os maus. 
Pelo dia, o Brasil foi seguindo o seu passo manso, introspectivo, com a calma paciente dos justos, distraídos por não se perceberem injustos. O Brasil atravessou o dia, comendo, bebendo, trabalhando, vagando, gozando, trocando idéias fúteis, inconseqüentes...
”como tá abafado”, “é, vai chover”, “odeio carregar guarda-chuva”, “eu também”, “será que vão prender o homem?”, “acho que sim”, “tem jogo hoje?”

Chegada a noite, os corpos cansados atravessam as portas residenciais, se acomodam nos seus cantos, se aconchegam..., todos aqueles que têm portas residenciais, que têm cantos e que têm a possibilidade do aconchego, e que poderão, depois de um boa noite de willian bonner, descansar para um outro dia, para um novo bocejo, um outro lavar de rosto, um novo café, para os novos dilemas, novos problemas ou novos prazeres. Tudo muito natural. Natural como um golpe.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

deu nisso

Viu só Lula! Você foi inventar de morar em São Bernardo do Campo, justo num lugar marcado pela luta operária...! Tanto lugar para você morar...,Higienópolis, por exemplo, ou Alto de Pinheiros...! Tomar café em padaria?! Onde já se viu...!,tendo a Vila Boim, por exemplo, onde você poderia ler o Le Monde. Ah, mas você não aprendeu o francês. Viu?, tinha que ter estudado mais! Foi inventar de ter uma chacrinha chamada “Los Fubangos”. “Los Fubangos??”, Lula! Aí não dá! E nem mesmo um apartamento no Guarujá você foi capaz de inventar. Mas seria pouca coisa. O bom seria se você tivesse comprado um em Paris. Olha que chique! Tem uma avenida lá Lula, chamada Avenue Foch. Dizem que é linda. Daria para você passear pelas alamedas floridas, pensar na vida, quem sabe até escrever a sua biografia. Foi se meter em vagar pelo Brasil... Falar com gente pobre, sem cultura. Por que você, em vez de ficar rodando pelas estradas, não comprou uma fazenda no coração do Brasil, em Buritis, por exemplo? Você poderia contratar um arquiteto renomado, ver, quem sabe, com a Camargo Correa, por exemplo, se ela não construía para você - um homem de prestígio- uma pista de pouso.
Foi inventar de juntar as consoantes de parte do nome do pai com o nome da mãe pra dar nome pra sua filha. Não seria melhor um nome mais, assim, digamos, normal, como Verônica, por exemplo, ou quem sabe Luciana? Imagina só, se tudo desse certo, ela poderia até virar sócia do homem mais rico do país, já pensou nisso?
Mas você foi inventar tantas outras coisa, Lula... Onde já se viu, você ficar de conversinhas com essa gente da África, essa gente esquisita da América Latina. Foi ainda falar grosso com o Bush, falar com a cabeça erguida com a Merkel. Imperdoável!
E ainda essa coisa de tirar gente da pobreza! Você provou, é verdade, que colocar essa gente no orçamento do Estado, faz girar e impulsionar toda a economia. Mas precisava? Eles já estavam lá quietinhos, acostumados. Os mais abastados estavam ali, tranquilos, não tendo que pensar em dividir espaço em aeroporto. E você foi mexer nisso!
Pensando bem, você tava lá, 50 ano atrás, empregado, numa empresa internacional, torneando peças (olha que bonito: “torneando”); o único problema foi perder um dedo, mas foi o dedo mindinho que não serve pra muita coisa. Batia a sua bolinha, tomava a sua cachacinha, ia ver o Corinthians... Não tava bom? Foi querer lutar pela gente; foi querer ocupar o lugar de quem sempre mandou. Deu nisso!


sábado, 6 de janeiro de 2018

o tempo, que não é de drummond, e a legião de imbecis

Há mais de dez anos publicamos neste empório uma sequência daquilo que chamamos de equívocos literários: textos falsamente atribuídos a grandes figuras da literatura.
Nesta passagem de ano, um poema circulou por todos os lados e foi parar até no elevador do meu condomínio, que é administrado pela tal da Lello. Trata-se do poema intitulado "O Tempo". Acho que muita gente deve tê-lo recebido na sua caixa postal. É aquele que começa assim: "Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, / a que se deu o nome de ano, / foi um indivíduo genial..." e blá, blá, blá.  Atribuíram-no ao coitado do Carlos Drummond de Andrade. A bem da verdade, o poema era até pouco tempo de autor desconhecido mas parece ter um autor já identificado, mas como não tenho certeza, não mencionarei o nome.
Atribuir falsas autorias parece que foi um dos primeiros vícios que a rede estimulou. Em momentos em que o fascismo saiu dos boeiros, como este em que vivemos, essas práticas podem parecer café pequeno, e de fato são: uma pequena imbecilidade diante das imbecilidades perigosas. Mas não há como não lembrar de Umberto Eco que disse, pouco antes de morrer, que "as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis".

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

transitório

transitório
como o cão que um dia tive
como a palavra interrompida e não dita
como a folha, que seca,
pousa de eterna entre as letras do livro

transitório
como o movimento minimalista da mão que cerca esta taça

como a poeira que penetra e se adensa
no espaço a que não pertenço
porque nele me instalo como transitório

como a partícula, a célula, a bactéria
que se acomodam na não existência do olhar

transitório como a lupa
que amplia o passar

como o passo que não acolhe o caminho

como o rio heráclito

como a relva orvalhada desfalecida ao meio do dia

transitório como a dor sentida
e o amor perdido

transitório como a pausa irrefletida
como o cansaço ora assumido

como a intenção
(não qualquer intenção mas aquela imprudente que se acerca do que não a extrapola,
daquilo que lhe escapa, daquilo que lhe corrompe)

como a matéria não aparente
aquela que transborda
aquela que sucumbe

transitório
como o esteves sem metafísica
como todas as tabacarias
como o ar neblinado e como o tempo não acolhido

transitório
como o interregno
(mais que o interregno: aquilo que não mais sendo, ainda não é)

como a pedra que ensina
a pedra lisa
a pedra áspera
a pedra densa
a pedra de joão

transitório como a queda

transitório como uma vida sem rumo

como as sobras esfareladas
que vão se perdendo
uma
a
uma

uma
a
uma
...
.
.
.


segunda-feira, 27 de novembro de 2017

o fim do sonho americano

Agora liberado no Youtube, o documentário/entrevista com Noam Chomsky é uma peça fundamental para entendermos a construção do mundo em que vivemos.


sexta-feira, 27 de outubro de 2017

pitacos da mostra 2017

Os "pitacos da mostra" é uma seção tradicional deste empório com comentários ( e não necessariamente sinopses) brevíssimos dos filmes que vamos assistindo neste post que é dinâmico. Neste ano, o tempo ( sempre ele) se apresenta mais curto e talvez a seção seja mais enxuta. Boa Mostra!
(a partir de "mais informações")

sábado, 21 de outubro de 2017

41° mostra internacional de cinema de são paulo


Com dois dias de atraso, este empório que tradicionalmente acompanha a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, dá boas vindas ao maior e mais antigo evento cinematográfico do país.
Se na Mostra de 2016 os temas políticos foram a essência ( lembramos a postagem feita no ano passado aqui e os costumeiros pitacos da mostra ) a deste ano não fugirá dessa essência, tratando novamente da questão dos refugiados com o essencial filme do chinês radicado na Alemanha Ai Weiwei com o seu filme "Human Flow " e de outros temas da emergência do mundo atual. Há ainda, neste ano pela primeira vez, a apresentação de filmes com tecnologia de realidade virtual. Serão 19 ao todo. Mas como se tratam de mais de 400 filmes, a definição de uma linha conceitual acaba por ficar mais flexível, como de certa forma, sempre foi a proposta da Mostra.

Com o atropelo do tempo - tema, aliás, tão pertinente nos nossos "tempos" e do editor deste empório - trago o texto de Maria do Rosário Caetano da Revista de Cinema que apresenta as suas impressões a partir das considerações da diretora da Mostra, Renata de Almeida. O texto aqui 


(S
e o tempo for um aliado nas duas próximas semanas, este empório tentará postar paulatinamente os seus Pitacos da Mostra).



terça-feira, 26 de setembro de 2017

jardim de epicuro, por josé américo motta pessanha

Em tempos tenebrosos como o que vivemos, Epicuro pode ser um "phármakon", na sua forma de remédio. O professor José Américo Motta Pessanha, falecido precocemente em 1993, nos deu uma boa síntese do tema.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

art blakey & the jazz messangers live in '58

Uma preciosidade
(o vídeo postado anteriormente era o show inteiro mas foi bloqueado. Do mesmo show tiramos, então, liberada, a música Moanin)

na estrada com hettie jones

O movimento beat do final do anos 50 e início dos 60 nos EUA e que precedeu o movimento hippie, foi sinteticamente definido por Allen Ginsberg "como um grupo de amigos que trabalharam juntos na poesia, na prosa e numa consciência cultural". Além de Ginsberg, os outros dois expoentes do movimento sempre lembrados são  Jack Kerouac e William  S. Burroughs.
Mas há muitos mais e muitas mulheres compuseram o movimento. A professora Miriam Adelman trabalhou sobre o tema no estudo "Metáforas de autoria feminina" publicado inicialmente naRevista Contemporartes ". Um outro estudo, pesquisando na internet, é de Priscila Finger do Prado, que se debruçou sobre o tema com enfoque principal sobre a poeta Hettie Jones que tem como obra central o livro "Drive". O estudo aqui. "Drive" remete à estrada, à liberdade, mas diante de uma perspectiva femininista. Abaixo o poema Direção ( Hard Drive) de Hettie Jones com tradução de Miriam Adelman.
Direção 

No sábado os ursos de pelúcia flutuavam de novo
sobre o Major Deegan
dançando no plástico ao longo do corrimão da ponte
sob um céu meio nublado, meio azul
e havia nuvens brancas
chegando do oeste

o que talvez fosse suficiente
para alguém acostumado ao prazer
em pequenas dosagens

Porém mais tarde ao pôr do sol
dirigindo rumo ao norte pelo Saw Mill
no vento forte, com as nuvens grandes que flutuavam
por sobre a estrada como animais
mostrando orgulhosomente suas rosadas barrigas
num momento de luz intensa
vi uma casa tipo Edward Hopper
tão simultânea e extraordinariamente clara e escura
que eu chorei todo o caminho da Rota 22
aquelas lágrimas incontroláveis
 “como se o corpo chorasse”

e portanto,  mulheres jovens
eis aqui o dilema
em si a solução:

sempre fui ao mesmo tempo
mulher o suficiente para comover-se até o pranto
e homem o suficiente
para pegar o carro e me mandar
em qualquer direção




terça-feira, 11 de julho de 2017

a tragédia brasileira

Talvez a questão ou a pergunta central hoje é: "como chegamos nesta situação?"
A história do Brasil se mistura com a construção histórica de colonização pela qual passa e, de uma certa forma continua passando, a América Latina.
As cercas que foram sendo instaladas no continente, arquitetaram uma dominação hereditária moldada pela perpetuação e, por isso, as classes dominantes sempre se eriçaram quando ameaçadas, usando as forças compatíveis para cada ameaça. O resultado foram os inúmeros golpes de estado perpetrados, muitos deles de forma sanguinária. Os golpes hoje têm caráter diferente. Não são mais necessários os tanques dos exércitos nas ruas (para lembrar de um artigo premonitório de 2012, o risco que corremos). É o que acontece no Brasil neste momento de rompimento do processo de construção da democracia que vínhamos exercitando. E o rompimento se deu não porque tivesse havido uma ameaça que pudesse mudar a propriedade do capital. Nem tão pouco um pequeno abalo sísmico nessa propriedade fazia parte do roteiro. De 2003 a 2014 o país apenas deu uma guinada civilizatória; um olhar novo, que apontava para as classe sociais que mais necessitavam, e esse desvio do olhar passou a chamar a atenção e incomodar os hereditários donos do poder. Pobres tendo mais dignidade, negros sendo inseridos, indígenas sendo respeitados, mulheres exercendo posições de comando, questões de gênero sendo discutidas com respeito. É tudo que os donos do poder não admitem. E pouco importa se a economia cresceu barbaramente. Se as suas empresas venderam como nunca. Se o desemprego desapareceu. O que eles não queriam e não querem é que o sumo desse crescimento seja melhor distribuído, ainda que isso não altere em nada as suas fortunas. O que não aceitam é que, ainda que timidamente, os dos andares de baixo vislumbrem alguma possibilidade de se colocarem em espaços aos quais a eles não foram destinados. Os aeroportos se estabeleceram, no período, como locais do simbolismo do incômodo. Por definição histórico-elitista, aos serviçais a rodoviária ou, nos aeroportos, apenas na condição de serviçais.
Aos donos hereditários do poder não importa que o Brasil seja respeitado no hemisfério norte. Preferem o vexame da sua elite representada ao sucesso, se este vier de um representante com a cara do povo.
(segue em "mais informações")


segunda-feira, 26 de junho de 2017

alice..., do giramundo

Neste empório, variados são os produtos na prateleira. É como a Mercearia Paraopeba, objeto de duas postagens aqui . Os nossos temas são variados. Quando falamos de cultura em geral ou das artes, fazemos artigos que se relacionam com eventos que visitamos ou assistimos e, das observações, cunhamos as críticas. Não é o caso desta postagem. Não é possível acompanhar tudo que a vontade instiga. O tempo é sempre escasso. Como uma metáfora da vida, mais acumulamos perdas do que achados.
É o caso do espetáculo "Aventuras de Alice no País das Maravilhas" do excelente grupo mineiro de teatros de bonecos, o Giramundo, que não assistimos, o que acumula a nossa pilha das perdas.
O "Alice no País das Maravilhas" do Giramundo explora com maestria, segundo a maioria das críticas, o universo construído por Lewis Carrol, essa obra que gera infindáveis interpretações e que cabem nas mais variadas caixas. O Giramundo abriu as suas e liberou seus bonecos para adentrar a toca do coelho.
Abaixo, o vídeo que conta a construção dessa viagem.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

gonçalo m. tavares

Acabo de ler o livro "Aprender a rezar na era da técnica" do escritor português Gonçalo M. Tavares. Já havia lido dele "Os velhos também querem viver". Gostei, sobretudo de "Aprender a rezar...", mas é pouco para dizer qualquer coisa a respeito do escritor. Este livro faz parte da tetralogia "O Reino" que inclui ainda Um homem: klaus Klump, A Máquina de Joseph Walser e Jerusalén.
Saramago, ao entregar ao escritor um dos vários prêmios que recebeu, disse-lhe: "você não tem o direito de escrever tão bem aos 35 anos: dá vontade de te bater". E essa é uma questão. Tavares, apesar de jovem ( tem hoje 47 anos) já tem uma estante cheia só com os seus livros e isso, segundo o crítico português Gonçalo Mira, torna a sua obra muito irregular.
Abaixo a crítica, publicada no portal português Público

CRÍTICA LIVROS

De mau a excelente

Não é incompatível dizer que Gonçalo M. Tavares é o melhor escritor português do século XXI e que também faz livros maus. Duas obras simultâneas provam-no

segunda-feira, 15 de maio de 2017

"deserto vermelho", um incômodo

Revi ontem, depois de, não sei, talvez vinte anos, o filme "Deserto Vermelho" de Michelangelo Antonioni que faz parte da grande mostra Aventura Antonioni que ocorre no Centro Cultural Banco do Brasil e no Sesc.
Terminado o filme, pensei que este deve ter sido um dos filmes de cabeceira de David Lynch em função da peculiar construção da narrativa e comecei a rascunhar uma crítica, interrompida, porque me senti contemplado com a crítica de Ruy Gardnier da Revista de Cinema Contracampo.
A personagem Giuliana, vivida por Monica Vitti, tem uma pertubação mental e a trama é toda enredada a partir dessa pertubação o que causa um certo incômodo no espectador.
Destaco uma frase, antes de reproduzir a crítica na íntegra: Deserto Vermelho consegue a enorme façanha de ser fiel à desorientação de sua personagem. É, de fato, uma façanha.


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(o texto clicando em "mais informações")

sexta-feira, 12 de maio de 2017

foi-se antonio candido

Já com 98 anos, o mestre Antonio Candido concedeu esta generosa entrevista.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

belchior em 1974

Um vídeo raro e muito interessante de Belchior ainda antes de "Alucinação". O programa era o MPB Especial, que daria no Ensaio, consagrado por Fernando Faro.
Uma curiosidade é que a música "A Palo Seco" já existia quando foi feita a entrevista e o trecho em que Belchior, no disco lançado em 1976, diz "...que esse desespero é moda em 76" no vídeo que é de 74, o trecho era "...que esse desespero é moda em 73".
Vale à pena assistir.



sexta-feira, 28 de abril de 2017

mac usp

foto de gê cesar de paula
Foi muito difícil o processo. A partir de 2009 uma contenda entre a Secretaria da Cultura e a reitoria da USP do então reitor, e de não boas lembranças, João Grandino Rodas, escolhido a dedo pelo governador da ocasião José Serra, atrasou a ocupação do MAC no histórico prédio no Ibirapuera por décadas ocupado pelo Detran.
O prédio, originalmente projetado por Oscar Niemeyer, foi inaugurado em 1954 para abrigar o Palácio da Agricultura mas de 1959 a 2008 foi sede do Detran.
E, finalmente, precisando ainda de alguns ajustes, os 8 andares do prédio principal, inclusive o terraço, estão disponíveis para a visitação. E apresenta grandes exposições (veja aqui ) com uma parte do acervo que conta com mais de 10 mil obras, entre elas, Picasso, Miró, Matisse, De Chirico, Klee, Morandi, Kandisnk, Modigliani entre muitos outros, bem como mestres da arte contemporânea brasileira como Tarsila, Anita, Di Cavalcanti, Volpi, Brecheret...
Vale se debruçar também sobre a exposição "Vizinhos Distantes", que apresenta grandes obras, de arte latino americana, também do acervo do museu. Mas chama atenção a exposição-experiência "Momentos Temporários" do artista russo Fyodor Pavlov-Andreevich que instiga a reflexão sobre opressões e desigualdades sociais e que, segundo uma fonte, exatamente pelos temas que aborda, o folheto da exposição teria sido recolhido. Ficamos assim, com o verbo no condicional.

Como o prédio fica no complexo do Parque do Ibirapuera, sugiro um ótimo artigo de Leão Serva "Quem roubou a metade do Ibirapuera" publicado em agosto de 2014. O texto aqui .

sexta-feira, 31 de março de 2017

primeira dor

O conto "Primeira dor" inicia uma sequência de quatro pequenos contos de "Um Artista da fome" que, junto com a novela "A Construção" fazem, conforme o crítico e tradutor da obra Modesto Carone, "o testemunho literário de Franz Kafka". A coletânea foi escrita pouco antes da morte do escritor que ocorreu em 1924.
"Primeira dor", o menor conto do livro, nos apresenta o trapezista que - como o Barão de o "Barão nas Árvores" de Ítalo Calvino que escolheu nunca mais descer ao solo - não tinha como perspectiva da sua vida descer do trapézio. A dor não física, é apresentada por Kafka de maneira cortante.
A partir de "mais informações", o pequeno grande conto na íntegra.

domingo, 5 de março de 2017

chega de saudade e la fiesta



 ...e de quebra (e que "quebra") um (ou o grande) clássico de Chick Corea, "La Fiesta", também com mágica participação de Gary Burton.

sexta-feira, 3 de março de 2017

os moedeiros falsos e o brasil privatizado

Neste momento de neoliberalismo subserviente e antiquado pelo qual passa o país, nos parece pertinente lembrar de um artigo escrito em 1994 por José Luis de Fiori, e que depois virou livro, os dois com o mesmo nome: "Os moedeiros falsos", uma alusão ao livro de mesmo nome de André Gide. Outro livro que procura dar conta do momento de entrega do país através de FHC é o "Brasil Privatizado" de Aloysio Biondi, escrito inicialmente em 1999 e reeditado em 2014 ( boa matéria aqui ). São duas obras que explicam o país.
Abaixo o longo artigo publicado pela Folha, uma outra Folha, a de 94.

" O real não foi criado para eleger FHC, FHC é que foi concebido para viabilizar no Brasil as teses do Consenso de Washington".


OS MOEDEIROS FALSOS
JOSÉ LUÍS FIORI
ESPECIAL PARA A FOLHA
"Afinal é preciso admitir, meu caro, que há pessoas que sentem necessidade de agir contra seu próprio interesse..."
André Gide
"É importante para um 'technopol' vencer a próxima eleição para continuar a implementar sua agenda e não para manter-se no cargo. Vencer uma eleição abandonando suas posições é para ele uma vitória de Pirro."
John Williamson
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Entre os dias 14 e 16 de janeiro de 1993, o Institute for International Economics, destacado "think tank" de Washington, tendo à frente Fred Bergsten, reuniu cerca de cem especialistas em torno do documento escrito por John Williamson, "In Search of a Manual for Technopols" (Em Busca de um Manual de 'Tecnopolíticos'), num seminário internacional cujo tema foi: "The Political Economy of Policy Reform" (A Política Econômica da Reforma Política).
Durante dois dias de debates, executivos de governo, dos bancos multilaterais e de empresas privadas, junto com alguns acadêmicos, discutiram com representantes de 11 países da Ásia, África e América Latina "as circunstâncias mais favoráveis e as regras de ação que poderiam ajudar um 'technopol' a obter o apoio político que lhe permitisse levar a cabo com sucesso" o programa de estabilização e reforma econômica, que o próprio Williamson, alguns anos antes, havia chamado de "Washington Consensus" (Consenso de Washington).
Um plano único de ajustamento das economias periféricas, chancelado, hoje, pelo FMI e pelo Bird em mais de 60 países de todo mundo. Estratégia de homogeneização das políticas econômicas nacionais operada em alguns casos, como em boa parte da África (começando pela Somália no início dos anos 80), diretamente pelos técnicos próprios daqueles bancos; em outros, como por exemplo na Bolívia, Polônia e mesmo na Rússia até bem pouco tempo atrás, com a ajuda de economistas universitários norte-americanos; e, finalmente, em países com corpos burocráticos mais estruturados, pelo que Williamson apelidou de "technopols": economistas capazes de somar ao perfeito manejo do seu "mainstream" (evidentemente neoclássico e ortodoxo) à capacidade política de implementar nos seus países a mesma agenda e as mesmas políticas do "Consensus", como é ou foi o caso, por exemplo, de Aspe e Salinas no México, de Cavallo na Argentina, de Yegor Gaidar na Rússia, de Lee Teng-hui em Taiwan, Manmohan Singh na Índia, ou mesmo Turgut Ozal na Turquia e, a despeito de tudo, Zélia e Kandir no Brasil.
Um programa ou estratégia sequencial em três fases: a primeira consagrada à estabilização macroeconômica, tendo como prioridade absoluta um superávit fiscal primário envolvendo invariavelmente a revisão das relações fiscais intergovernamentais e a reestruturação dos sistemas de previdência pública; a segunda, dedicada ao que o Banco Mundial vem chamando de "reformas estruturais": liberalização financeira e comercial, desregulação dos mercados, e privatização das empresas estatais; e a terceira etapa, definida como a da retomada dos investimentos e do crescimento econômico.
(continua em "mais informações")

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

sábado, 18 de fevereiro de 2017

o dia em que raduan enfrentou o guarda

O DIA EM QUE RADUAN ENFRENTOU A GUARDA

por Irajá Menezes

'Infelizmente, nada é tão azul no nosso Brasil. Vivemos tempos sombrios'.
Do começo ao fim de seu discurso, Raduan Nassar se posicionou sem meias palavras contra o golpe e seus cães de guarda.
'Não há como ficar calado', concluiu.
Lendo sobre a atitude do nosso grande escritor, lembrei de uma história com o Roberto Freire, mas não esse, da triste figura de ministro golpista. Refiro-me a Roberto Freire o psicanalista-escritor-teatrólogo-novelista, criador da Somaterapia e pai daquele moço que toca viola que é uma maravilha.
Esse Freire de que vos falo, não muitos sabem, foi jurado de todos os concursos da chamada 'Era dos Festivais', no período entre 1965 e 1972.
Foi Freire, por exemplo, quem comunicou à produção da Record, em 66, que Chico Buarque não aceitava ganhar de 'Disparada' (e aí, "deu" empate entre 'A Banda' e a música do Vandré).
É importante lembrar que eram dois os grandes festivais que aconteciam anualmente na TV, um na Record e outro na Globo. O da Globo tinha duas etapas, a nacional e a internacional. As duas primeiras colocadas da primeira fase defendiam o Brasil no certame internacional.
No Festival da Globo de 1972 - aquele que teve 'Cabeça', de Walter Franco, 'Fio Maravilha' com Maria Alcina e 'Eu Quero é Botar meu Bloco na Rua' (desclassificada!!!), de Sérgio Sampaio - dias antes da final nacional, Solano Ribeiro, o diretor artístico, recebeu de Walter Clark (chefão da Globo) a seguinte instrução: 'Os militares mandaram você afastar a Nara do júri'.
(continua em mais informações)