domingo, 30 de dezembro de 2012

bom ser simples como um poema de william carlos williams


 
Ao trepar sobre
o tampo do
armário de conservas
o gato pôs
cuidadosamente
primeiro a pata

direita da frente

depois a de trás
dentro

do vaso

de flores
vazio

 
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
tanta coisa depende
de um

carrinho de mão
vermelho

esmaltado de água de
chuva

ao lado das galinhas
brancas

 
A DURAÇÃO
Uma folha amarfanhada
de papel pardo mais
ou menos do tamanho

e volume aparente
de um homem ia
devagar rua abaixo

arrastada aos trancos
e barrancos pelo
vento quando

veio um carro e Ihe
passou por cima
deixando-a aplastada

no chão. Mas diferente
de um homem ela se ergueu
de novo e lá se foi

com o vento aos trancos
e barrancos para ser
o mesmo que era antes.

 
(traduções de José Paulo Paes)
 
PRELÚDIO AO INVERNO
A mariposa sob as goteiras
com asas como
a casca de um tronco, estende-se

e o amor é uma curiosa
coisa suavemente alada
imóvel sob as goteiras.

(tradução: José Lino Grünewald)

(*)William Carlos Williams também conhecido como WCW, foi um poeta estadunidense além de médico pediatra

sábado, 8 de dezembro de 2012

"entre rios" - a urbanização de São Paulo

Neste ótimo documentário de Caio Silva Ferraz, São Paulo é revelada a partir dos seus rios e, sobretudo, pela trajédia das intevenções humanas realizadas por administradores que, na busca de modelos externos, não enxergaram e não entenderam a espacialidade da cidade e as suas características físicas. Nos discursos pela modernização, o automóvel era a palavra chave, e foi através dele que se desenvolveu a construção histórica da cidade. A questão da mobilidade em São Paulo hoje, é o drama revelado, numa cidade em que os seus rios, mesmo encarcerados, não se calam.


terça-feira, 20 de novembro de 2012

albert camus; a descoberta do absurdo



O vídeo acima, em forma circular, aponta para um fragmento de um tema mais complexo, tratado por Albert Camus sobretudo no seu livro "Mito de Sísifo": o trabalho repetitivo sem sentido, aplicado à Sísifo como pena por este ter enganado os Deuses.
Sartre, bem antes do seu rompimento com Camus, resenhou O Mito de Sísifo de Camus: "O absurdo (...) não está nem no homem nem no mundo, se os tomamos à parte, mas como a característica essencial do homem é 'estar no mundo', o absurdo acaba por coincidir com a condição humana. Também o absurdo não é o objeto imediato de uma simples noção; é revelado por uma iluminação desolada. 'Levantar, bonde, quatro horas de escritório ou fábrica, refeição, quatro horas de trabalho, refeição, sono, bonde, e segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado no mesmo ritmo...', e depois, de repente, 'os cenários desabam', e chegamos a uma lucidez sem esperança".
Esta parte da resenha crítica de Sartre, se refere a um trecho do início do livro de Camus e, em coincidência, é o tema do vídeo.
Este ensaio de Sartre foi publicado no Brasil pela Cosac Naify com o nome "Explicação de O estrangeiro".
Em tempo: Camus recusava enfaticamente ser confundido com a filosofia "existencialista".

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

pitacos da mostra 2012

Comentários brevíssimos dos filmes que vou assistido...
DE PAI PARA FILHO, de Paul Lacoste (França) : minúcias culinárias. Cinema para gastrônomos.
SUPER NADA, de Rubens Rewald (Brasil/México): pouco a dizer, apenas que o Jair Rodrigues não merecia isso.
SAUDAÇÕES DE TIM BUCKLEY, de Daniel Algrant (Estados Unidos): biografias intercaladas dos músicos Tim e Jeff Buckley, pai e filho. 90 agradáveis minutos.
O PESO DA CULPA, de Lars Gunnar Lotz (Alemanha): um chute no estômago (literal e metaforicamente). Pesado, e ainda assim, muito bom.
TEMPO DE CRISE, de Anika  Wangard (Alemanha): crise com leveza.
MOSQUITA E MARI, de Aurora Guerrero (Estados Unidos): duas meninas; duas línguas; duas confusões...
A RIQUEZA DO LOBO, de Damien Odoul (França): por falha técnica, sessão cancelada. Dizem-me que tive sorte.
DINOTASIA, de David Krentz (Estados Unidos): filminho da história da Terra na época dos Dinos. Soube que a locução era do Herzog. E isso me enganou.
ANTIVIRAL, de Brando Cronenberg (Canadá): doentio. Sim, o menino é filho de David Cronenberg, e precisa de cuidados.
INDIGNADOS, de Tony Gatlif (França): crise com peso. Um filme necessário.
ÁGUA, de Nir Sa'ar, Maya Sarfaty, Mohamed Fuad, Yona Rozenkier, Mohamed Bakri, Ahmad Bargouthi, Pini Tavger e Tal Haring (Palestina/Israel): sete curtas dirigido por nove diretores que tem a água, mais como um elemento político do que químico. Fragmentariamente bom.
A HORDA, de  Andrei Proshkin (Rússia): épico ambientado no mundo Mongol do século 14. Boa fotografia mas um fio sem meada.
111 GAROTAS, de Nahid Ghobadi e Bijan Zmanpira ( Iraque/Irã): 111 garotas curdas ameaçam se suicidar pela ausência de homens na comunidade e mandam carta para o presidente do Irã. Mistura de drama com humor na pitada exata e com excelente fotografia. Grande filme.
CANÇÃO PARA MEU PAI, de Amos Gitai (França/Suiça): filme com grife. Gitai faz homenagem e ao mesmo tempo uma busca de compreensão do pai, Munio Gitai Weinraub, ligado à Bauhaus, escola fechada por Hitler. Acesso difícil.
POST MORTEM, de Pablo Larrain (Chile, México, Alemanha): cortante. Uma autópsia da ditadura chilena.
ISTAMBUL, de Török Ferenc ( Turquia/Hungria/Holanda): Katalin faz uma viagem, física e psicológica, para um encontro com sigo mesma, longe da família. Belo filme.

sábado, 20 de outubro de 2012

a 36° mostra

Já são 36 anos da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. 36 anos de uma insistência pessoal de Leon Cakoff, morto em outubro do ano passado pouco antes da abertura na Mostra de 2011. (Contei uma história pessoal na postagem leon cakoff em15 de outubro de 2011).
A insistência de Cakoff, foi exercitada em função de inúmeros fatores, desde as ingerências de Pietro Maria Bardi, o diretor do Museu de Arte de São Paulo - Masp -, onde teve início a Mostra, passando pelas censuras e enfrentamento, muitas vezes,  a agentes da repressão na época da ditadura,  até as dificuldades financeiras. Toda essa história pode ser degustada no livro "Cinema Sem Fim" de Leon Cakoff, publicado pela Editora da Imprensa Oficial em que Cakoff contava a história das 30 primeiras edições da Mostra. Para os cinéfilos, participantes ou não da Mostra, é uma obra imperdível. De cabeceira.
A 36° Mostra começou para o público no dia 19, última sexta-feira. Filmes, programações e outras informações podem ser obtidas na página da mostra .

sábado, 6 de outubro de 2012

o risco que corremos


A história da América Latina é marcada por inúmeros golpes contra as instituições democráticas, ainda que estejamos falando de democracias incipientes. Passamos pelo século 20 sempre sujeitos aos humores dos quartéis, sempre prestes a colocarem munição nos seus aparatos bélicos e os apontarem contra a população.
Na passagem para o século 21 tivemos a sensação que golpes faziam parte da nossa história, superados por constantes e persistentes processos de construção da nossa democracia.
Entretanto, as tentativas de golpe na Guatemala em 2009 e Equador em 2010 e os golpes consolidados em Honduras e Paraguai que derrubaram os presidentes Manuel Zelaya e Fernando Lugo, respectivamente, nos apontam para uma outra abordagem: que a essência conceitual dos “golpes” permanece; o que muda são as formas. Os tanques de guerra em volta dos palácios presidenciais são imagens que prescreveram. Não cabem mais nas lentes midiáticas e globalizadas que cruzam o planeta em tempo real. A arquitetura do golpe evoluiu. Ele, hoje, deve ter um caráter “democrático”, respaldado pelo aparato institucional constituído e pautado e disseminado pelos setores oligopolizados das redes de comunicação que, na América Latina, continuam nas mãos hereditárias de poucas famílias.

Um exercício plausível de se fazer é que as duas tentativas frustradas no Equador e na Guatemala, e o golpe bem sucedido em Honduras, ainda que a trancos e barrancos, serviram de laboratório para o êxito do golpe no Paraguai.
O risco e a preocupação evidentes, é que se module nos bastidores dos poderes paralelos, uma disseminação no continente de um certo, e novo, modus operandi do golpe. A base para isso existe, e são as nossas democracias ainda não firmemente constituídas.


A mídia que temos



Em 2005 tínhamos, além das novelas da sete e das nove, a novela das oito, com o nome de “Mensalão”. Hoje temos a segunda edição da mesma novela, agora com cenário mais pomposo e, da mesma forma, com um roteiro composto pela espetacularização, mas com outros cuidados. A agenda do julgamento da Ação Penal 470, o Mensalão, foi tão milimetricamente calculada que, mais do que ter sido aberta paralelamente às eleições municipais, culminou com o julgamento de José Dirceu exatamente no momento de fechamento das campanhas pelo primeiro turno. Os relógios do STF, do TSE e do Jornal Nacional foram acertados conjuntamente. Em 1997, todos sabemos, houve compra de deputados para a aprovação da reeleição de FHC. Ao contrário da Ação Penal 470, há provas cabais do comércio, mas o STF não a julgou. “A compra de votos para a reeleição de FHC” não recebeu um nome de impacto publicitário da imprensa, como por exemplo “Mensalão” e acabou esquecida.
Mas há outras tantas coisas que a imprensa também esquece, ou prefere não revelar. É necessário que se faça pesquisas para saber que a Federal Communications Commission (FCC), órgão regulador da área de telecomunicações e radiodifusão dos Estados Unidos fechou entre 1937 e 1987, 141 concessionárias de rádio e TV e em 40 delas, nem esperou que acabassem o prazo da concessão. Nunca foi mencionado por aqui que a indefectível Margareth Thatcher também cancelou concessões, em alguns casos por tentativa de formação de monopólio. O mesmo fizeram, sem nenhum contratempo, a França, o Canadá, a Espanha entre outros tantos países de democracias consolidadas. Leis de concessões e suas aplicações para a área de comunicação, fazem parte de qualquer país democrático. Democracias consolidadas pressupõem processos de construção de instituições sólidas e de uma imprensa responsável e plural. Na adolescência em que vivemos, as famílias que comandam o conglomerado de comunicação no Brasil, se irritam quando alguém, inadvertidamente, ousa afirmar a necessidade da “democratização dos meios de comunicação” e encontram nas figuras de Hugo Chavez e Cristina Kirchner os demônios a serem combatidos, em nome da “liberdade de expressão”.
A tarefa urgente desta mídia de pensamento único, neste momento, é pautar o Superior Tribunal Federal, envolto com a Ação Penal 470.
O STF que temos

O tribunal máximo da nação tem se esmerado em dar uma resposta contundente e rápida – como dissemos, respeitando o calendário eleitoral - aos anseios da sociedade que a mídia, essa que temos, tem propagado. E para tanto, tem criado, sobretudo na figura do seu relator, novas formas de entendimento da análise de uma ação penal, que é a de criminalização por indícios e não por provas. O exercício de retórica da maioria dos seus membros produz um contorcionismo por vezes extravagante, perceptível até mesmo na apreciação dos leigos. Vale até recuperar peças não tão em voga no universo jurídico atual, como a que vimos, sobretudo nesta semana, que é a tal da “Teoria do Domínio de Fato”. Rastreando aqui e ali sobre o entendimento de inúmeros juristas, percebemos que, com ela, José Dirceu será condenado mesmo que, em tese, não tenha nenhuma ligação com os casos tratados no julgamento. Ele será declarado culpado, se não por outra razão confirmada, mas porque exercia cargo de chefia. O que já tínhamos de fato, é que a imprensa, essa que temos, já tinha dado o seu veredicto. O STF apenas o confirmará. Durante o processo, o Jornal Estado de São Paulo chegou até a antecipar o texto do voto de um determinado juiz, o que fere completamente a liturgia do cargo. O Procurador Geral, Roberto Gurgel, declarou que "será salutar se o julgamento do mensalão tiver impacto nas eleições".
Rasgadas as hipocrisias, o STF está julgando a Ação Penal 470 de modo político e não técnico.


O risco que temos
O risco que corremos está delineado. Temos, ao contrário do que foi amplamente propagado, uma democracia ainda frágil e sujeita a determinados jogos de interesses que serão tão mais expoentes quanto ainda frágil for a nossa democracia. Escaparmos desse risco implica em sairmos deste círculo, e para tanto, há ainda um caminho sinuoso a ser percorrido.
Essa nossa mídia de pensamento único pleiteia, com os componentes de um discurso fácil e palatável, a defesa da “liberdade de expressão”.  Ora, qualquer liberdade pressupõe um objeto que incorpore o significado do que é ser livre. Que acolha, intrinsecamente, a responsabilidade da sua aplicação.
Em outro artigo neste Empório, tratei de liberdade ligada à arte, e dizia que a liberdade tem um limite, que é aquela em que o artista define a obra: a última pincelada, o último acorde. Liberdade tem sempre os seus limites. Nas regras de sociabilidade, eu não sou livre para, limpando a minha casa, jogar a minha sujeira na casa do vizinho. A imprensa não pode se arvorar do vasto conceito de “liberdade de expressão” para macular, indiscriminadamente, a vida de alguém, por exemplo, e, tão pouco, pode escolher um oponente e tratá-lo como inimigo, desconsiderando os ditames mais elementares da ética jornalística. A presidente Dilma, fez uma interessante síntese do que estamos abordando. Disse ela: " A multiplicidade de pontos de vista, a abordagem investigativa e sem preconceitos dos grandes temas de interesse nacional constituem requisitos indispensáveis para o pleno usufruto da democracia, mesmo quando irritantes, mesmo quando nos afetam, mesmo quando nos atingem. E o amadurecimento da consciência cívica da nossa sociedade faz com que nós tenhamos a obrigação de conviver de forma civilizada com as diferenças de opinião, de crença e de propostas." Liberdade de expressão, portanto, é um dos elementos da democracia e não pode ser confundida com liberdade pleiteada pelos donos da comunicação de poder fazer, indiscriminadamente, as suas escolhas baseadas nos seus interesses mais particulares.
Mas essas escolhas estão cada vez menos envergonhadas e, com a novela "Mensalão" e seu aparente sucesso, há indícios claros da continuação dos argumentos que irão alinhavar os novos capítulos que merecerão tentativas de colocarem outros protagonistas mais famosos: o ex presidente Lula e a atual presidente Dilma. Vivemos momentos perigosos.

A falta da essência democrática desse nosso oligopólio da comunicação, esse que temos, é, ao final, espantoso, principalmente quando esses anseios particulares encontram eco no principal tribunal jurídico do país. Um júri supremo que julga por inclinação política e não técnica é um risco que não deveríamos correr, sobretudo depois de vencermos uma etapa tão árdua que foram os anos de chumbo pelos quais passamos.
Como disse no primeiro parágrafo , me referindo aos militares, os humores de um tribunal político podem variar e amanhã poderá voltar-se contra quem tanto o bajulou.


segunda-feira, 24 de setembro de 2012

quem foi artemisia gentileschi ?


Quem for à exposição “Caravaggio e seus seguidores” no Masp, que se encerra em 30 de setembro, verá uma obra de Artemísia Gentilesch(1593-1653).  Como eu, acho que muitos tiveram ou terão a curiosidade de saber quem era essa figura que, em pleno século 17, em um meio tão essencialmente masculino se destacou entre tantos pintores.
Mas, evidentemente, seu percurso  não foi nada fácil. Filha do pintor Orazio Gentileschi – que também tem uma obra na exposição – Artemísia foi recusada na Escola de Artes de Roma, por ser mulher.  Depois dos primeiros ensinamentos de seu pai, ele mesmo a encaminha ao pintor e discípulo Agostino Tassi. Inicia-se aí um drama que percorrerá pela vida de Artemísia e influenciará na sua obra. Artemísia é violada por Tassi. Ao caso, sucedeu-se um longo processo judicial em que Artemísia foi muito exposta, tendo que sair de Roma para se preservar e sair da ótica e da moral da igreja romana. Tassi
acabou condenado, mas graça a influências, não cumpriu a pena.  Há versões que relatam que Artemísia passou de vítima à ré, e caiu nas mãos da inquisição, sendo torturada. Essa versão é apresentada por Susan Vreeland, no livro A paixão de Artemísia  (editora José Olyimpio)
De qualquer forma, Artemísia se instala posteriormente em Florença, onde é aceita como a primeira mulher na Academia de Artes de Florença, mas não antes sem ter se casado para ser aceita em sociedade.
Muitos dos temas em que Artemísia trabalha, como o quadro “Judite decapitando Holofermes” ( na sequência, após quebra de página), parece refletir um certo acerto de contas com o passado. É forte também na sua obra a presença da mulher como heroína, sempre em trabalhos com grande elaboração da luz e da sombra na linha da escola de Caravaggio.
Artemísia teve, tardiamente, grande reconhecimento.
{(*) nesta página, acima, um auto-retrato}

Além do livro, há também um filme: Artemísia (Artemmisia - passione estrema) de 1997, dirigido por Agnès Merlet, com Valentina Cervi no papel título
(veja outras obras clicando em "mais informações)


sábado, 15 de setembro de 2012

bienal de são paulo

 
 
A 30º Bienal de São Paulo está aberta ( http://www.bienal.org.br/ ). Pretendo escrever algo sobre esta Bienal. Enquanto não o faço, posto o link do artigo algo sobre arte, escrito por conta da 29º Bienal em 2010.


terça-feira, 11 de setembro de 2012

a cidade das exposições, e das filas

Filas, filas e mais filas. Essa é a São Paulo dos pontos de ônibus, das bilheterias e catracas do Metrô, dos bares, dos serviços públicos, da Famiglia Mancini, dos jogos do Corinthians, dos eventos e das exposições.
Sobre as exposições, são muitas - algumas delas mencionadas neste Empório - e entre elas as de muito apelo, como a dos Impressionistas no Centro Cultural Banco do Brasil, a de
Caravaggio no Masp, a Bienal, com 348 obras de Artur Bispo do
Rosário e de mais 110 artistas de vários cantos do mundo. Já terminaram as filas da Bienal do Livro e no mês que vem começam as filas da Mostra Internacional de Cinema.
A fila é um componente da paisagem da cidade, quase um patrimônio a ser tombado.  O paulistano está tão acostumado com elas que mesmo em cinemas e teatros com lugares previamente marcados, ela, displicente, aparece. Nos finais de semana, é de bom tom, não abandoná-las. São carregadas e esparramadas nas vias Anchieta e Imigrantes no caminho do litoral.
A significância da fila é tão grande em São Paulo que um prefeito, de má memória, tentou burlá-la, e criou o "Fura-fila", um projeto de transporte com veículo leve sobre pneus.  Não, este não era o apelido, cunhado pelo cancioneiro popular, era o nome oficial. O projeto patinou nas mãos dos prefeitos que o sucederam mas o nome foi alterado várias vezes, sempre sem muita criatividade, mas pelo menos deixaram no limbo, o nome tão pouco citadino.
(continua..)

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

quem foi sabina spielrein?

Quando fiz a pergunta "quem foi otto gross?" ( otto gross ) na postagem de 25 de abril, uma das postagens mais visitadas do blog, o fiz em função do enigmático personagem que aparece no filme "Um método perigoso", comentado na postagem trilogia da psicanálise . Um dos filmes ali comentados é "Jornada da Alma" de Roberto Faenza, que acabo de rever. A figura central do filme é Sabina Spielrein, personagem chave na história da psicanálise e que, apenas muito tardiamente, foi lhe dado o devido lugar na história.
Sabina, uma jovem russa, culta e poliglota, foi diagnosticada com histeria, fruto de um infância atormentada pela figura viloenta do pai, e internada na clínica em que trabalhava Gustav Jung na Suiça. Foi em Sabina que Jung aplicou pela primeira vez os métodos da psicanálise desenvolvidos por Freud. Os dois trocaram inúmeras correspondências em que Jung relatava os processos do tratamento, que acabou por ser bem sucedido, mas  evitava informar a Freud que havia desenvolvido um relacionmento amoroso com sua paciente.
Sabina foi estudar medicina na área de psiquiatria e a sua tese sobre questões relacionadas à esquizofrenia, é fruto da análise de uma paciente sua que já havia se tradado com Jung e que, da mesma forma que ela, também havia se apaixonado por ele.
A história da psicologia coloca como sua obra principal "A destruição como causa do nascimento" -como bem nos explica, Isaias Pessotti, ex professor de psicologia da USP/Ribeirão Preto -, "que traz a formulação pioneira do conceito de pulsão (ou instinto) de morte: o medo, a ansiedade ou as vivências defensivas, que acompanham o instinto de procriação resultam de 'sensações que correspondem à componente destrutiva do instinto sexual' ".

Sabina casou-se com Pavel Scheftel, também médico, com quem teve duas filhas e voltou à Rússia, União Soviética à época, para viver em Rostov, sua cidade natal onde fundou o que ficou conhecido como "Berçário Branco", um espaço para cuidar de crianças, todo ele pintado de branco, e que foi fechado e destruído pelas autoridades soviéticas. Seu marido foi preso e morto em 1936 pela polícia política de Stalin e, em 1942, Sabina e suas duas filhas foram metralhadas pelas tropas alemãs que tomaram Rostov.

caravaggio

Caravaggio, é, sem dúvida, a outra grande exposição no momento em São Paulo, mas há outras, como a do venezuelano Cruz-Diez na Pinacoteca com nada menos do que 150 obras. Apenas citando as duas exposições já tão comentadas e difundidas, coloco os links: masp e pinacoteca

os impressionistas do masp

O Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo apresenta a exposição Impressionismo: Paris e a Modernidade - Obras-Primas do Museu d'Orsay, até 7 de outubro. A exposição tem causado enormes filas. Este empório recomenda a visita, e para melhor fruição, os horários noturnos são os mais adequados. De terça a quinta fica aberto até às 22 horas e de sexta à domingo até às 23 horas.
A coleção trás, de fato, grandes obras mas nem todas podem ser categorizadas como impressionistas.
O Masp tem no seu acervo muitas obras no século 19 francês e muito de alguns dos artistas representados na exposição do CCBB. Como temos neste empório a série obras do Masp, vou lembrar de duas postagens de pintores presentes na exposição - não, propriamente, impressionistas-, Van Gogh e Degas ( van gogh e degas ) que tratamos aqui, e telas de alguns outros de acervo do Masp.
Manet - O Artista

outras telas, clique em "mais informações"

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

terça-feira, 7 de agosto de 2012

o sono do judiciário

Enquanto o advogado de defesa Arnaldo Malheiros Filho fazia os seus pronunciamentos - os pronunciamentos que farão, ou deveriam fazer parte da substância que formulará a decisão do STF - dois dos seus ministros mais midiáticos dormiam(*). O mesmo não ocorreu nas horas discursivas do acusador e procurador Roberto Gurgel, que citou inadvertidamente, até Chico Buarque. Na ocasião, os dois estavam tão atentos quanto inflexíveis.

(*) em foto de André Coelho.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

é o julgamento do mensalão ou do holocausto?


Os Marinhos, os Frias, os Mesquitas e os Civittas dizem que se trata do "julgamento do século" e mais do que isso: já deram até o veredicto. Sobrou alguma coisa para o STF?

Um julgamento de exceção

por Antonio Lassance, na Carta Maior


Dizer que o mensalão é o maior escândalo de corrupção da história do país é corromper a própria história da corrupção do Brasil. É um favor que se faz a uma legião de notórios corruptos e corruptores de tantas épocas que jamais foram devidamente investigados, indiciados, julgados, muito menos condenados.

O que se pode de fato dizer sobre a Ação Penal 470 é que nunca antes, na história desse país, um escândalo foi levado, com está sendo agora, às suas últimas consequências.

Como é possível que, em apenas 2 anos (supostamente, de 2003 a 2005, quando foi denunciado), um único esquema tenha sido capaz de superar aqueles constantes de 242 processos engavetados e 217 arquivados por um único procurador-geral?

Também falta um pouco de noção de grandeza a quem acha que o financiamento irregular a políticos, de novo, em apenas dois anos, pudesse ter causado mais prejuízo aos cofres públicos do que o esquema que vendeu um setor econômico inteiro, como foi o caso da privatização do sistema de telecomunicações. Será mesmo que o mensalão também superaria, em valores e número de envolvidos, os esquemas que levaram ao único “impeachment” de um presidente brasileiro? Improvável.

Um espetáculo para inglês ver

O mensalão é o ponto culminante de um processo de crescente ativismo judicial que transborda para o jogo da política. Longe de ser um julgamento técnico, trata-se de um exemplo da politização da pauta do Judiciário. O grande problema para a Justiça é que a linha entre a politização e a partidarização é tênue. O bastante para que este Poder passe a ser alvo de suspeitas de que sua atuação esteja sendo orientada e dosada com base em quem se julga, e não no que se julga.
(continua)

terça-feira, 17 de julho de 2012

"o moinho e a cruz", um filme para pendurar na parede

Difícil a arte de juntar o cinema e a pintura, mas foi isso que fez, com maestria, o diretor polonês Lech Majewski com o seu premiado "O Moinho e a Cruz". Derek Jarman já havia colocado modelos humanos em representação de pinturas famosas no seu Caravaggio em 1986, mas Majewski foi além.
O filme, com poucos diálogos e um impacto visual fascinante, parte da pintura "O Caminho do Calvário" (também conhecida como  "A Procissão para o Calvário") de Pieter Bruegel e se passa na idade média nos Flandres - atual Bélgica - invadida pelos espanhóis.
Majewski recria os símbolos da crucificação de cristo com personagens como a virgem Maria e Judas, tendo como pano de fundo os ritos cotidianos da sociedade flamenga do século 16 sempre a partir da tela de Bruegel.
O ator Rutger Hauer representa Bruegel no filme.
Belíssima fotografia em um filme diferente que merece ser visto na telona. Pena que foi pouco distribuído. Em São Paulo está sendo exibido apenas no Espaço Itaú do Shopping Frei Caneca.

O diretor Lech Majewski, pouco conhecido no Brasil é, além de cineasta,  artista plástico, poeta, músico e diretor de teatro. Entre seus filmes, destacam-se Prisoner of Rio (1988), que conta a história do ladrão de trem Ronald Biggs e Wojaczek  de 1999,  vencedor do prêmio de melhor direção no Polish Film Festival. Em 1996, escreveu o roteiro de Basquiat - Traços de Uma Vida, de Julian Schnabel.

(Desta vez fiz apenas  o apontamento do filme. Sugiro duas boas críticas:

http://www.revistacinetica.com.br/omoinhoeacruz.htm )

quinta-feira, 5 de julho de 2012

é nóis



...nem precisava, mas enfim, ganhamos a Libertadores...

sábado, 30 de junho de 2012

gormley

Para Antony Gormley, não importa se o que  faz é arte ou não. O que lhe importa, como disse em entrevista à Marcelo Dantas e Catarina Duncan, curadores da mostra no Centro Cultural Banco do Brasil, é que a sua história de vida é a sua história de arte e que ela é resultado de seu "ceticismo materializado". Tamanha certeza é resultado do conflito que teve quando viveu na India por três anos. Na dúvida entre ser monge e artista, percebeu seu destino como artista, por ser um "materialista do aqui e do agora" e para chegar a essa constatação pessoal, o caminho foi o aprendizado e, mais do que isso, a individuação, através da meditação Vipassana, que segundo Gormley " é a forma de conhecimento que está ligada a experiência direta".
Talvez o resultado desta aparente contradição possa ser experenciada na exposição no centro velho de São Paulo, a partir do Centro Cultural Banco do Brasil. Digo, "a partir do Centro Cultural Banco do Brasil" e "no centro velho de São Paulo" porque as peças, os seus "homens de ferro", moldados a partir do seu corpo, estão espalhados nos topos de muitos prédios de São Paulo
Aqui algumas fotos que tirei das partes externas. A exposição se encerra em 15 de julho.

sábado, 16 de junho de 2012

mostra bergman

Em 30 de julho de 2007 morria Ingmar Bergman, o grande cineasta sueco. Neste Empório, arrumando as prateleiras e ainda com poucas mercadorias, eu poetizava:

Não há o premeditar quando se nasce: sempre se nasce quando menos se espera. Nasce-se muitas vezes na vida. Bergman fez um dos meus partos. Hoje Bergman morreu. Hoje nasci um pouco pelo avesso.

Com atraso de três dias, lembro que o Cento Cultural Banco do Brasil apresenta a maior mostra do diretor já exibida no país. São cerca de cinquenta filmes. Dos clássicos aos poucos conhecidos.
Ainda haverá um curso com o crítico Sergio Rizzo: "O Cinema de Ingmar Bergman", com duração de três dias, e que irá abordar a trajetória e o trabalho do cineasta. As inscrições podem ser feitas pelo site da mostra: http://www.mostraingmarbergman.com.br/prog.html


De 13 de junho a 15 de julho.
Imperdível para cinéfilos.
  

domingo, 10 de junho de 2012

os "modigliani" do masp


Em 4 de abril postei comentário sobre as exposições de Giacometti, De Chirico e Modigliani
A exposição de Amedeo Modigliani estava na ocasião no Museu Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro e agora desembarca no Masp, oportunidade para eu seguir, aqui no Empório, com a série de obras do Masp que conta com 6 obras do artista italiano.






sexta-feira, 1 de junho de 2012

a imprensa e o boneco que não para em pé

Jornalismo

A propósito da última polêmica fabricada pela revista Veja, retomo um tema que tem perpassado a nossa recente história da pós-ditadura: o comportamento da imprensa brasileira.

A polêmica referida, é história da carochinha criada pelo ministro do STF Gilmar Mendes e a revista Veja que tingiram em cores envergonhadas ( já que de tão inverossímil, não mereceu nem matéria de capa) o encontro de Mendes e Lula, ciceroneados pelo ex ministro Nelson Jobim.

Não vou me deter nos detalhes da fantasia, já tão debatida e desmascarada na semana, mas apenas apontar a tentativa da grande mídia em repercuti-la.

O convênio Mendes&Veja, criou um boneco que não pára em pé e, ainda assim, assistimos da arquibancada, os grandes esforços dos Marinhos, dos Frias e dos Mesquitas em arquitetar hastes para manter o boneco, que nasceu cambaleante, de pé.

Algumas aparições dos agentes do jornalismo nos jornais televisivos noturnos da Globo como também colunistas e “bloguistas” das grandes corporações midiáticas, exercitaram da prática do contorcionismo radical, para tentar embaralhar os neurônios dos desavisados e distraídos leitores ou telespectadores, mas conseguiram, apenas, ofender a inteligência alheia.

Esse episódio é apenas mais um exemplo de uma imprensa que pauta o conceito de liberdade de expressão conforme seus parâmetros muito peculiares. E muito estreitos: da largura de seus muito particulares interesses.

Abaixo, uma boa análise sobre Jornalismo, em artigo de Luiz Gonzaga Belluzzo, publicado pela Carta Capital.


Jornalismo de resultados
Leio na coluna do ombudsman da Folha de S.Paulo que o Painel FC atribuiu ao dirigente do São Paulo, Carlos Eduardo Barros e Silva, o Leco, uma frase que não disse, pronunciada num lugar em que nunca esteve.

Não é um episódio isolado, uma anomalia, mas exprime uma tendência do jornalismo contemporâneo, imagino, à revelia dos Manuais de Redação. O jornalismo de resultados entrega-se à sanha de conquistar leitores ou arrebatar audiência a qualquer custo. Se a notícia é “quente” pouco importa a apuração do fato e muito menos avaliar suas circunstâncias. Ouvir o “outro lado”, nem pensar. Se, por descuido, isso ocorre, não passa de um ritual farsesco. Esse jornalismo de resultados e seu séquito de pretensos opositores na internet são agentes do novo totalitarismo, especialistas nas proezas da manipulação, da intimidação e da censura da opinião alheia.No estágio atual da sociedade de massa, o controle social despótico dispensa a obviedade dos dólmãs, dos coturnos ou da cadeira do dragão. O totalitarismo do Terceiro Milênio não usa coturnos nem câmaras de gás. Usa a “informação” que não pensa em si mesma. O propósito da manipulação e da espetacularização da notícia é tornar os “pacientes” incapazes de compreender a natureza perversa da frenética guerra de fatos e versões “construídas” sob o acicate da concorrência para alcançar o “fundo do poço”.
(continuação do texto, clicando em "mais informações", abaixo)

domingo, 27 de maio de 2012

luz com gotas

foto de gê césar de paula

do "ensaio com gotas da Luz não revitalizada"

domingo, 13 de maio de 2012

há esperanza



Este show, "Live in San Sebastian july 23, 2009", está na íntegra no Youtube.
Veja outros links:
Esperanza Spalding cantando, magnificamente, "Ponta de Areia" do Milton Nascimento
http://www.youtube.com/watch?v=nUcvLtTp9d0&feature=related

Uma entrevista em espanhol:
http://www.youtube.com/watch?v=9lNa5x6HZto&feature=related

Cantando e tocando Loro do Egberto Gismonti
http://www.youtube.com/watch?v=cNk9ihFCG-E&feature=fvwrel

Samba em Prelúdio de Vinícius e Baden
http://www.youtube.com/watch?v=ZViAreFHevk&feature=related

sábado, 28 de abril de 2012

herberto helder

Herberto Helder é um dos maiores poetas da língua portuguesa atual. E, talvez, o mais enigmático.

Abaixo, Fonte - I






Ela é a fonte. Eu posso saber que é
a grande fonte
em que todos pensaram. Quando no campo
se procurava o trevo, ou em silêncio
se esperava a noite,
ou se ouvia algures na paz da terra
o urdir do tempo ---
cada um pensava na fonte. Era um manar
secreto e pacífico.
Uma coisa milagrosa que acontecia
ocultamente.

Ninguém falava dela, porque
era imensa. Mas todos a sabiam
como a teta. Como o odre.
Algo sorria dentro de nós.

Minhas irmãs faziam-se mulheres
suavemente. Meu pai lia.
Sorria dentro de mim uma aceitação
do trevo, uma descoberta muito casta.
Era a fonte.

Eu amava-a dolorosa e tranquilamente.
A lua formava-se
com uma ponta subtil de ferocidade,
e a maçã tomava um princípio
de esplendor.

Hoje o sexo desenhou-se. O pensamento
perdeu-se e renasceu.
Hoje sei permanentemente que ela
é a fonte.

       

sexta-feira, 27 de abril de 2012

quarta-feira, 25 de abril de 2012

quem foi otto gross?

Há uma curiosidade que surge em muitos que assistem ao filme "Um Método Perigoso": saber mais sobre Otto Gross - interpretado por Vincent Cassel -, figura anárquica que em dado momento do filme, em uma participação curta e decisiva, coloca todas as pulgas atrás da orelha de Jung em relação ao distanciamento que o analista deve, ou, mais propriamente,  não deve ter do analisado, ou paciente.
Gross foi um dos pupilos de Freud, além de ter sido paciente de Jung, fase retratada no filme.
Abaixo copio e colo a síntese sempre suspeita do Wikipédia e em seguida um link de um estudo mais aprofundado assinado por Wolfgang Schwentker.

"Otto Gross (1877 - 1920) foi um psiquiatra psicótico inspirador da teoria bleueriana da esquizofrenia. Gross foi atendido por Jung na segunda década do século XX. Este homem foi um dos primeiros responsáveis pela "liberação sexual". Havia elaborado um delírio segundo o qual o fim do mundo era iminente e não poderia ser evitado se o culto a Ishtar não fosse realizado de maneira imperiosa. José Maria Alvarez, no livro Fundamentos de Psicopatologia Psicoanalitica, nos conta que o culto em questão implicava uma luta contra o paternalismo e a prática intensiva de relações sexuais entre homens e mulheres - como forma de libertar estas últimas da alienação masculina -, tema este ao qual se entregava sem freio apoiando-se do uso de diversas drogas. Em razão de seus comportamentos desafiadores para a moral da época, foi também chamado por alguns de anarquista."  

http://www.anpocs.org.br/portal/publicacoes/rbcs_00_32/rbcs32_10.htm   

quinta-feira, 5 de abril de 2012

trilogia da psicanálise

Por sugestão do amigo, psicólogo e cinéfilo Mario Milanello, anoto (e dessa vez apenas anoto mesmo) três filmes que tratam de psicanálise. O primeiro, o já clássico, "Freud Além da Alma" de 1962 com roteiro de Sartre (*) e dirigido por Jonh Huston. O filme percorre a história do ínicio da psicanalise e os tormentos de Freud com as pressões da classe médica.
O segundo é "Jornada da Alma", de 2003, dirigido por Roberto Faenza com o enfoque na história de Jung com sua cliente e depois amante Sabina Spielrein.
Os dois filmes encontrados em DVD.

 
O terceiro está em cartaz em São Paulo:  "Um Método Perigoso", dirigido por David Cronenberg, que coloca  Freud, Jung e a paciente Sabina, naquilo que poderíamos chamar de um "triângulo psicanalítico".

Três formas de contemplação cinematrogáfica. No divã ou na poltrona.

(*)Alertado que fui, o roteiro final não é de Sartre.  Luiz Zanin nos relata: "Tocado pela aura de Freud, Huston tinha em mente um projeto ambicioso. Tanto assim que convidou ninguém menos que o filósofo francês Jean-Paul Sartre para escrever o roteiro. Sartre aceitou, demorou-se para entregar o texto e, quando o fez, este veio na forma de um calhamaço de centenas de páginas, definido por Huston como “infilmável”. Sartre não baixou o facho e, ofendido, comentou que diretores de cinema “ficavam tristes quando tinham de pensar”. Enfim, Freud, segundo Sartre, não foi para o celuloide. Acabou publicado em forma de livro (no Brasil pela Nova Fronteira, com 769 págs.).Dessa forma, o roteiro de Freud Além da Alma vem assinado por Charles Kaufman e Wolfgang Reinhardt que, se pode dizer, fizeram bom trabalho para Huston, fornecendo-lhe uma base sólida sobre a qual ele pudesse construir suas imagens. "

quarta-feira, 4 de abril de 2012

giacometti, de chirico e modigliani

Jean-Paul Sartre descreveu as esculturas de Giacometti como "retrato de todos os homens". O filósofo francês escreveu dois belíssimos ensaios sobre a obra de Alberto Giacometti, suiço-italiano nascido em 1901. Os ensaios foram publicados pela Editora Martins Fontes.
A oportunidade de mencionar os ensaios de Sartre se dá pela grande exposição de Giacometti aberta em março e que ficará até 17 de junho na Pinacoteca de São Paulo contando com 280 obras. Seguirá para o Rio, no MAM, e encerrará esse curto ciclo sulamericano em Buenos Aires a partir de outubro.
Giacometti não é, propriamente, um artista popular, mas suas obras sempre causaram grande fascínio. Em 2010 um exemplar de "O homem caminhado I" alcançou em um leilão em Londres a exorbitante quantia de 65 milhões de libras.
Véronique Wiesinger, curadora da mostra e diretora da Fundação Alberto e Annette Giacometti tenta resumir: "A arte de Giacometti é muito generosa, já que fala para todos. É como um buraco negro no qual você é estimulado a depositar tudo que está dentro de você: memórias, sensações, visões, experiências" . Essas sensações talvez sejam a razão das enormes filas que têm se formado quase todos os dias em frente à Pinacoteca.

Em São Paulo uma outra grande exposição: a do artista grego Giorgio De Chirico, " o sentimento da arquitetura".
Nascido no final do século 19, De Chirico influenciou não só muitos artistas, mas também um  movimento, o surrealismo, ainda que de uma forma indireta. As formas de um delírio pictórico, não representavam os sonhos, base do surrealismo, mas a visão metafísica do artista inspiraram os surrealistas a transgredirem a ordem direta da representação. Tarsila do Amaral e Di Cavalcanti foram dois artistas brasileiros muito identificados com De Chirico e outro, Iberê Camargo, chegou a ser seu aluno.
A exposição, com 45 pinturas, 11 esculturas e 66 litografias fica no MASP até maio e segue para a Casa Fiat de Cultura em Belo Horizonte.

A terceira grande exposição é a do italiano Amedeo Modigliani, intitulada "Modigliani: imagens de uma vida". São apenas 12 pinturas e 5 esculturas, mas o enfoque principal é apresentar a trajetória do artista e para isso, são apresentadas obras de pintores contemporâneos que influenciaram ou foram influenciados por ele, além de documentos que perpassam a conturbada vida do artista precocemente falecido com apenas 36 anos.
A Mostra fica no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro até maio, ou talvez junho, e depois desembarca em São Paulo no MASP.

sexta-feira, 30 de março de 2012

militares: os fardados e os de pijama



No vídeo acima, aparece uma mulher encostada na parede, mais ou menos na passagen dos 30 segundos, observando tudo atentamente. É Hildegard Angel, filha de Zuzu Angel e irmã de Stuart Jones, mortos pela ditadura. Hildegard escreveu um texto sobre a manifestação. Segue o link: http://noticias.r7.com/blogs/hildegard-angel/2012/03/29/a-manifestacao-dos-caras-pintadas-diante-do-clube-militar/

quarta-feira, 28 de março de 2012

pina (economizando palavras)

É necessário que se assista Pina, obra prima de Wim Wenders.
Mas veja a versão em 3D.


Espetacular!

segunda-feira, 26 de março de 2012

a parede no escuro

Quatorze ou quinze narradores. O autor não sabe ao certo. Mas é com esta engenharia literária que o escritor Altair Martins deu forma ao romance “A parede no escuro”, livro vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura de 2009, na categoria primeiro romance.
O nome do livro nos remete imediatamente à A maça no escuro, da Clarisse Lispector, mas a semelhança fica apenas na lembrança que o nome sugere. Já a forma, lembra, em princípio, Willian Faulkner, autor estadounidense da primeira metade de século 20 que encadeava algumas das suas histórias com narrações de um mesmo fato sendo contado por várias personagens alternadamente. No romance de Martins, entretanto, não há, como em Faulkner, a identificação direta do narrador. Descobre-se, ou percebe-se cada um dos narradores pela linguagem, pelo jeito, pela dicção. Cada um deles desfiará o fio de uma meada que será, ora linear, ora circular. Martins faz ainda, algo que poderia desandar o bolo. Ele constrói o texto com o esmero de uma prosa poética, mas não há excessos ou desperdícios: cada palavra é encaixada com cuidado, e não há perdas no caminho da estrada principal, que é contar a história de uma trama muito bem enredada.

O tema central passa pela questão da paternidade, ou, mais propriamente, pela crise da paternidade e do desamparo.

Entre muitos personagens, quatro formam a célula principal. O padeiro Adorno, pai de Maria do Céu a quem, em dado momento, a expulsa de casa, e o professor de matemática Emanuel e seu pai Fojo, com quem vive uma crise que se inicia ainda na infância.
O principal ponto de inflexão do romance se dá quando Adorno, numa manhã de muita chuva e pouca visibilidade, é atropelado e morto por Emanuel. A partir daqui, o fluxo de linguagem segue com suas cuidadosas minúcias, e coloca o leitor como o observador que só a ele é dado saber o autor do atropelamento.

Grande estréia do jovem autor gaúcho em narração mais longa, já que ele já trazia na bagagem três livros de contos, Como se moesse ferro, Se choverem pássaros e Dentro do olho dentro.

Abaixo, o primeiro parágrafo de A parede no escuro, início que já prenuncia que teremos um grande texto pela frente.

Se enxergasse no escuro, Adorno veria os dois olhos vermelhos do rato. Os pêlos do focinho experimentariam o ambiente, e o rato faria o simples: com oito patas, deslizaria rente à parede da janela do quarto, pararia junto a um pilar de madeira, escutaria perigos e seguiria para uma nova parede onde cheiros o fariam erguer levemente a cabeça e provar o ar. E seria nesse momento que, se pudesse ver no escuro, Adorno levantaria os olhos muito acima do rato e veria no relógio da parede, na imagem do Cristo, que estava atrasado. Sem ser notado, o rato escorreu para dentro de um buraco mínimo do assoalho, num canto à esquerda da cabeceira da cama.




domingo, 18 de março de 2012

vidigal vendo leblon e ipanema


 

fotos de gê césar de paula

outras fotos:

sexta-feira, 16 de março de 2012

aziz ab'sáber

Depois de mais de um mês, reabro este empório com uma notícia muito triste. O Brasil fica mais pobre: acaba de falecer o professor Aziz Ab'Sáber.
Muito mais que o brilhante cientista, decano da geografia física, foi voz ativa nas discussões que trazem a  dimensão humana como elemento fundamental.
Lembro-o, em uma palestra, escorrerem-lhe as lágrimas com aquilo que se chamou à época, de "privatização" da Cia Vale do Rio Doce, depois de destrinchar o valor real da Cia.

Há aqueles que fazem falta quando nos deixam. O professor Aziz é um daqueles que nos deixam órfãos.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

a terceira margem do rio


Depois de anos, reli este belíssimo conto de Guimarães Rosa e resolvi compartilhá-lo neste empório.



Guimarães Rosa

Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente — minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.


Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, própria para dever durar na água por uns vinte ou trinta anos. Nossa mãe jurou muito contra a idéia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se poder ver a forma da outra beira. E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta.
(continua..clique em "mais informações")

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

raimundo belmiro será assassinado

Não se trata de novela da Globo.
Em 25 de maio de 2011 eu postei
"madereiros em festa: a morte anunciada de zé cláudio na semana de aprovação do código florestal ". Dois dias depois eu postei  "mais uma morte e, de novo, anunciada". Naquela oportunidade  foi assassinado Adelino Ramos, agricultor e líder comunitário.
Na Amazônia é assim. Raimundo Belmiro tem a cabeça a prêmio. É mais um..Vejam reportagem de Eliana Brum:

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

yoani sánches não vê, mas “Esta noite, 200 milhões de crianças dormirão nas ruas do mundo. Nenhuma delas é cubana”.

O Lúcio de Castro é uma figura e tanto no meio jornalístico. Ótima pena e, meio sem paciência com as coisas tortas do mundo, acaba sendo um tanto ranzinza e mal humorado à cerca das discussões referentes aos temas que trata. Ganhou  inúmeros prêmios como Anamatra Direitos Humanos 2009, Prêmio Direitos Humanos MJDH/OAB 2008 e 2010, Ibero-Americano (UNICEF-EFE) Fundación Nuevo Periodismo (dirigida por Gabriel Garcia Márquez) e Vladimir Herzog (2011). A sua praia hoje é o jornalismo esportivo. Saiu da Sportv, vinculada à Rede Globo, porque lá  era impedido de dizer o que pensava da CBF, do Ricardo Teixeira, do Nuzman, do COB e congêneres, e hoje atua na  ESPN onde mantém um blog. Mas como ele é um cara diferente, por vezes, ele não trata de esportes, como esta postagem em que ele trata da, hoje famosa,  blogueira cubana Yoani Sánchez.
Os seus comentários e a entrevista com Yoani realizado por Salim Lamrani e que o Lúcio nos trás, são, mais do que brilhantes, reveladores. A entrevista, como o próprio Lúcio aponta, é muito longa, mas é, eu diria, imperdível e eu a coloquei após a quebra de página.( Para quem quiser ir direto à fonte...:
http://espn.estadao.com.br/luciodecastro/post/238103_A+BLOGUEIRA+QUE+VIROU+SANTA+E+A+DONA+DA+SEMANA#comentarioAba )
A blogueira que virou santa é a dona da Semana

ENTREVISTA COM YOANI SÁNCHEZ, por SALIM LAMRANI:
por Lúcio de Castro
Não sei se ainda é a ressaca da volta das férias, relatada aqui no último texto. Não sei nem ao certo se as coisas sempre foram e são assim ou se esse sentimento de que tudo em volta anda carregado é desses dias ou desde sempre. O fato é que os últimos dias tiveram cor de chumbo. Não o chumbo dos anos de sufoco, mas um chumbo misturado com cinismo, com a “força da grana que mata e destrói coisas belas”, e uma sensação de que as coisas estão passando como rolo compressor por todo mundo, e a tal força da grana, o poderio econômico, a concentração de poder nos meios de comunicação e os tempos do pensamento único no mundo chegaram definitivamente para paralisar todo mundo. Com a agravante de que, em tempos de redes sociais, todo mundo se acha fazendo sua parte tuitando. É a rebeldia emoldurada em 140 caracteres.

Dias de envergonhar a espécie humana, com a barbárie do Pinheirinho, a omissão de sempre dos governantes nos prédios que desabam (como já tinha sido no bonde, nos temporais, em tantas coisas...), com o chocante relato na reportagem de Eliane Brum (sempre ela...!), “A Amazônia, segundo um morto e um fugitivo”, disponível na internet. Para completar, na semana que entra, temos a monótona, repleta de chavões e inverdades, parcial, acrítica, e muitas vezes beirando o desonesto, cobertura da visita da presidenta Dilma a Cuba. Desde já, nossa imprensa elegeu a personagem da viagem, não importando o que irá acontecer: Yoani Sánchez, a blogueira cubana. Eleita estrela pop pela imprensa mundial já há algum tempo.

Yoani Sánchez todos conhecem. Ou acham que sim. A tal blogueira que virou símbolo mundial na luta “pelos direitos humanos em Cuba”, “contra a falta de liberdade de expressão em Cuba”, etc... Não iria aqui (prestem atenção nesse trecho antes de enviar afirmações deturpadas sobre minhas opiniões... ) ignorar problemas, alguns graves, ocorridos ao longo do processo revolucionário em Cuba, desde 1959. Apenas é preciso tentar ver o outro lado sem a dose de cinismo com que geralmente a nossa imprensa o faz, assim como a maioria esmagadora da imprensa do ocidente. Sem ignorar os bloqueios, as sabotagens, as criminosas tentativas de homicídio partidas de Washington e outras variáveis. Estive na ilha por diversas e diferentes razões, e por isso gosto mais ainda dos versos de Pablo Milanez, equilibrado em reconhecer as contradições da revolução e seus méritos em “Acto de Fe”.

É preciso se despir de preconceitos, conceitos prontos e chavões para ao menos manter o senso crítico quando se vê, repetidas e monótonas vezes, a afirmação dos “desrespeitos e violação aos direitos humanos em Cuba”. Ou se fala com absoluto conhecimento de causa, se é capaz de afirmar com conhecimento e critério jornalístico, provando, ou nos resta como referência o órgão mundial que trata sobre o assunto. E segundo a Anistia Internacional, que de forma alguma pode ser apontada como conivente com Cuba, (muito pelo contrário), em parecer de abril de 2011, “no continente americano, é o país que menos viola os direitos humanos ou que melhor os respeita é Cuba. O parecer está no sítio da Anistia Internacional, em três idiomas. De qualquer forma, sempre chega a ser risível falar em “violação aos direitos humanos” vivendo no Brasil de Pinheirinhos, das remoções nas grandes cidades pelo estado de exceção que se instala por causa da Copa de 2014 e das Olimpíadas de 2016, da Candelária, do Carandiru, da reportagem acima citada de Eliane Brum... E poderíamos seguir dando tantos exemplos, infinitos, né?

O mesmo informe da Anistia Internacional dá conta de que 23 dos 27 países que votaram por sanções contra Cuba por violações dos direitos humanos são apontados pela própria Anistia como violadores muito maiores do que Cuba nos direitos humanos. O que nos leva a crer que a maior violação aos direitos humanos em Cuba está mesmo na base militar americana de Guantánamo. Quem dirá o contrário, quem será capaz?

Tampouco eu seria panfletário ou bobinho de falar em “liberdade de expressão” em Cuba. Apenas não sou panfletário ou bobinho de omitir o nosso quadro. Ou o das grandes corporações, dos barões da mídia mundiais. Alguém ignora o quanto de poderio econômico serve de filtro para o noticiário nosso de cada dia, para escolher o que vai para as páginas ou ao ar? Se não acredita, então fique esperando no horário nobre a apuração séria dos desmandos da Copa de 2014 ou 2016. Não vale algo pontual, quando o próprio interesse está em jogo...

Esqueçam as duas linhas de quatro, o 4-2-3-1 e as confusões da Turma do Didi (diretoria do Flamengo) e Luxemburgo, além da operação de Rogério Ceni. A semana que começa será de Yoani Sánchez, alguém tem dúvida? Brasileiros envolvidos na cobertura da visita de Dilma a Cuba irão procurar a blogueira. Traçarão perfis. Ela que ganhou espaço como colunista do Globo, que recebeu o Jornal Nacional esses dias e tem dado entrevista pra todos os órgãos de imprensa brasileiros, irá falar mais do que nunca. Espera-se que os envolvidos na cobertura tenham ao menos um pouco da categoria e cumpram os deveres do ofício como fez o jornalista francês Salim Lamrani, professor da Sorbonne. O único jornalista do mundo até aqui a fazer algumas perguntas elementares para Yoani. O único a estranhar que a blogueira tenha recebido Bisa Williams, diplomata americana em sua casa e não tenha revelado. O único a pelo menos questionar o que poderia estar por trás da dimensão que Yoani ganhou no mundo, além dos 300 mil euros recebidos em prêmios nos últimos tempos. Uma entrevista que vale a pena. É enorme, mas vale. Pelo menos para que possamos ter algumas interrogações quando começar a “semana Yoani”.

Aos colegas envolvidos na cobertura in loco, boa sorte. Independentemente de sistemas políticos, o que fica ao fim de tudo, sempre, é gente. Curtam essa gente especial. Em alguns momentos, não saberão se estão na Pedra do Sal, aqui em São Sebastião do Rio de Janeiro ou em Habana Vieja. Esqueçam as questões ideológicas e travem conversa com aqueles que mais rápido falam no mundo. Ninguém consegue falar mais rápido do que um cubano, quase engolindo sílabas. Esqueça os chavões, o que leu. Não comece a conversa por “companheiro”. Quem é de rua sabe que nas quebradas o papo é outro. Bote a mão no ombro, chame de “sócio”, “cumpadre”, “amigo” que seja. Vai encontrar uma gente altiva, de cabeça erguida. Na correria, como em qualquer lugar do mundo. Lembrem-se também que o mojito é na Bodeguita e o daiquiri na Floridita... E na hora em que estiver trabalhando, oxalá possa deixar os preconceitos de lado. Nem de um lado nem do outro. Do mesmo jeito que não valem as versões e protocolos oficiais, se der para relativizar pelo menos tudo o que vê de mazelas, tentar entender o contexto, ir além, vai dar para sair de cabeça erguida. Do contrário, se for mais um voltando com velhos chavões e preconceitos, será mais um a conhecer a maldição da despedida em Cuba. Consta que todos aqueles que não foram capazes de manter o equilíbrio e a correção em coberturas habaneiras, ganharam um nó eterno na garganta, adquirido na hora de ir embora e que acompanha o resto da vida, em forma de vergonha. Bate forte como arrependimento quando se pensa em tudo o que se escreveu pensando na voz do dono. Um mal que acomete a quem pecou diante de Gutemberg, e vem quando se passa pelos dizeres na saída do aeroporto (nada pode ser mais devastador):

“Esta noite, 200 milhões de crianças dormirão nas ruas do mundo. Nenhuma delas é cubana”.
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(para ler a entrevista, clicar em "mais informações)

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

névoa na paisagem: foi-se angelopoulus

Tristeza! Só agora fiquei sabendo do acidente estúpido que matou o grande cineasta grego Theo Angelopoulus aos 76 anos.


Filmes como “O passo suspenso da cegonha” (1991), “Um olhar a cada dia” (1995) a “A eternidade e um dia” (1998), ou “Paisagem na neblina” são filmes que marcam a história do cinema, aquela história que se contrapõe a inúmeras bobagens visuais que a indústria do entretenimento despeja mundo afora a todo momento.


Talvez a grande voz da arte grega atual, Angelopoulus estava em processo de filmagem. As suas lentes estavam captando, com a sua sensibilidade incomum, os sérios problemas que atingem hoje a Grécia. Infelizmente, não poderemos nos defrontar com a subjetividade do grande diretor sobre esse tema tão marcante da nossa atualidade.


Para quem gosta de cinema, ver ou rever os seus filmes é uma experiência emocionante.