sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

corinthians, sócrates, arte...

Domingo passado o Corinthians conquistou o seu 5° título do campeonato brasileiro, um dia que começou muito triste com a notícia do falecimento do Dr. Sócrates, figura singular, que extrapolou os campos de futebol. Médico formado ainda bem jovem, Sócrates militou em outras frentes. Teve forte presença no movimento das Diretas Já e liderou a Democracia Corinthiana em plena Ditadura Militar. Nunca foi um atleta, na acepção da palavra, e, ainda assim, foi um extraordinário jogador, daqueles que praticavam o futebol arte. Teve problemas quando se mudou para a Itália para atuar pela Fiorentina. Por lá, ficou pouco tempo, jogou bem mas menos do o clube esperava e a razão é um tanto inusitada. A cidade de Florença, sede do clube, envolta por tantas obras de arte, roubou a atenção e o foco do jogador pelo futebol, razão pela qual Sócrates foi contratado.

Foi-se uma voz, daquelas que fazem falta.

Mas volto ao Corinthians. Remexendo em arquivos, achei um rascunho em que relacionava o Corinthians e outros clubes com alguns movimentos de arte. Aproveitando esta conquista corinthiana, lá vai..:


“Com todo o respeito aos outros times, mas o Corinthians tem um 'quê' que o diferencia dos demais. Suas tintas (ainda que preta e branca) carregam uma dramaticidade, digamos, expressionista. É isso: acho que há times impressionistas, muitos, com tons mais amenos (Cruzeiro, Palmeiras, Fluminense..); românticos (os Américas, o Botafogo..); os realistas, pragmáticos (chatos, como a ausência da poesia, como o São Paulo, por exemplo). O Corinthians é expressionista. Não há clube que tenha tantas tentativas de entendimento: são inúmeras as teses de sociologia sobre o Corinthians na USP, Unicamp, Puc. A origem operária, e por conseqüência, o vínculo com as questões da opressão, das lutas, reivindicações etc, talvez traga alguma indicação. Osmar Santos, o grande narrador dramático, pintava cores extravagantes descrevendo o Corinthians entrando em campo. (Escutei outro dia, uma dessas narrações, descrevendo a cena épica do Corinthians entrando em campo no Maracanã em 1976 contra o Fluminense). Osmar dizia, exatamente, das perplexidades de um “povo sofrido” (estávamos na ditadura), que exaltava um time como quem tocava as portas do paraíso. Não por acaso, todos os intelectuais de esquerda, que falaram de futebol nos anos de chumbo, se auto-proclamavam corinthianos.
"Os dramas corinthianos sempre tiveram proporções enormes. Lembro, ainda menino, a final perdida para o Palmeiras em 1974(eram 20 anos sem títulos), com um choro coletivo de 120 mil corinthianos, que jogavam suas bandeiras arquibancada abaixo. Três anos depois, campeão contra a Ponte Preta, olhávamos uns para os outros e, perplexos, nos perguntávamos: o que será de nós, que agora somos campeões?”


Não sei quando fiz este rascunho. Talvez quando o time caiu para a segunda divisão. Mas vou dizer algo que dificilmente um são paulino entenderia. O Corinthians está se estruturando de uma forma que poderá transformá-lo em um ganhador emérito de títulos. É evidente que títulos são importantes, mas nunca foi essa a razão central do alicerce em que o Corinthians foi construído. Essa é a razão de ser do São Paulo. O projeto da atual direção do Corinthians é transformá-lo não só num clube super estruturado e vencedor, mas também elitizá-lo, o que me parece, neste ponto, ruim, porque contrapõe a construção histórica do clube.
Por outro lado - e não sei se é só marketing - essa mesma administração lançou uma campanha de marketing que tirará do uniforme oficial as estrelas, que representam conquistas, para realçar o emblema do clube, com o mote, “ O Corinthians não vive de títulos, vive de Corinthians”. Vamos ver...

Só espero que o “time do povo” não mude de corrente artística e passe a ser pintado, junto com o São Paulo, num quadro realista.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

coca cola

por Valmir Jordão, poeta pernabuncano

coca para os ricos

cola para os pobres


coca-cola é isso aí...

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

sábado, 15 de outubro de 2011

leon cakoff

Meu tornozelo ainda precisava de tratamento: alguns ajustes terapêuticos para o meu caminho mais seguro. E estava lá eu, na sala de espera aguardando ser chamado para mais uma sessão de fisioterapia. Apenas eu na sala, quando escuto a campainha. Alguém entra. Levanto a cabeça e vejo um homem, baixinho, roupa meio desgrenhada, na dúvida de qual poltrona se apossar. Alguns minutos em silêncio e aí, meio tímido, solto: “eu tô lendo um livro seu”. Surpreso, ele devolve, “qual?”. “Cinema sem fim”, respondo. O livro que conta a história da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Leon Cakoff , o criador da Mostra e o autor do livro que eu lia naquele momento, ali, sentado à minha frente numa confluência enquadrada de uma sala de espera. Ele, sem espera, me perguntou se eu acompanhava a Mostra e há quanto tempo. “Há muito tempo”, disse, sem precisar. Ele me pergunta sobre filmes. Neste momento fui chamado, mas deu tempo de lembrar do filme Malpertuis (um marco pra mim) que assisti, disse a ele, no Palácio das Convenções. “Do (Harry) Küme!l” disse ele. “Faz tempo hein!”, completou.


Lembrei desse encontro inusitado de três ou talvez quatro anos atrás, é evidente, por conta da triste notícia da morte do Leon nesta sexta-feira, a uma semana da abertura da 35° Mostra.
Outubro é o mês tradicional da Mostra. O acaso escolheu um outubro para subir os créditos, apagar as luzes e cerrar as cortinas para Leon Cakoff.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

ainda o 11 de setembro

A internet nos leva, por vezes, a caminhos inusitados. Estava pesquisando sobre a chamada A Árvore da Vida - assim chamada porque vive, há pelo menos 400 anos, em pleno deserto do Bahrein em meio a um mundo de areia e sem água para alimentá-la - quando caí no blog microargumentos ( http://microargumentos.blogspot.com/ ) de Ângela Schoor, escritora que esculpe instigantes mini contos. De lá, pulei para um outro espaço, também da escritora, o idélia ( http://idealiapolaris.blogspot.com/ ) e ali descobri a existência de um filme, o 11th September, dirigido por 11 diretores.
O trecho abaixo é de Ken Loach (*) que nos lembra, como na minha postagem anterior, do outro 11 de setembro.


(*)..de Ventos da Liberdade, Palma de Ouro em Cannes em 2006 e, talvez, mais famoso, Terra e Liberdade de 1995.


domingo, 11 de setembro de 2011

o outro 11 de setembro

Há um outro 11 de setembro. O de 1973 no Chile, dia em que um golpe instalaria uma das mais sangrentas ditaduras do continente, depondo e matando Salvador Allende, presidente eleito pela via democrática.
Abaixo, a primeira parte do filme A Batalha do Chile de Patricio Guzmán. Mais abaixo, os links que continuam o filme.



http://www.youtube.com/watch?v=guxCOhh_MA0&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=vPRoAOvYH0w&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=hm-AIzvUfvY&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=qzKjmzrmMKY&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=m8_3PhxFhlU&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=m8_3PhxFhlU&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=nmlViidz-aM&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=Ya3tdUiqOS0&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=LOgYAK4pvqk&feature=related

artigo: a inauguração do século 21

Em 12 de setembro de 2001 escrevi o texto abaixo que foi publicado na edição daquele mês da Revés do Avesso. Hoje, evidentemente, teria uma outra abordagem para tratar do acontecimento. Mas o texto também seria outro se tivesse escrito na mesma semana, mas dois, três ou sete dias depois. Escrevi, portanto, ainda sob o impacto do evento já no prazo de fechamento da revista. Dez anos se passaram, mas o marco do início do século estava lá, na fumaça e nos escombros das duas torres.  Muita coisa passou por cima e por baixo de muitas pontes: Bush invadiu o Afeganistão e depois montou uma peça de ficção para justificar a invasão ao Iraque às portas de uma nova eleição; Madrid e Londres sofreram atentados; uma crise econômica eclodiu; Bin Laden morreu; a palavra "guerra" continuou sendo palavra de ordem nos EUA, que avisam, agora, que vetarão o reconhecimento do Estado Palestino na Onu.
Republico o artigo que, mesmo envelhecido, ainda trás algumas das tensões e incompreensões de um mundo, que desde 2001, é  menos livre e mais inseguro.




 •EUA/11 de setembro


A Inauguração do Século 21


Por César de Paula

O dia 11 setembro de 2001 já ficou na história como um marco de um novo estabelecimento das relações no planeta. O ataque aos EUA aponta um novo momento, como que abrindo o século para novas situações que o mundo terá que enfrentar daqui para frente.

Na Guerra do Golfo em 1991, a propaganda dos EUA falava em “ataques cirúrgicos" que atingiriam apenas alvos militares e nunca civis. Foi a primeira guerra transmitida ao vivo com imagens espetaculares, como jogos de videogame. Pessoas, civis, morriam com o distanciamento que a televisão permitia e com a estética que os índices de audiência apontavam para a venda dos espaços comerciais. Os tiros não foram cirúrgicos e os "heróis" americanos foram recebidos na Quinta Avenida com chuva de papéis picado.
Já no atentado aos EUA, a cirurgia foi precisa. Atingiu-se a economia e a defesa, patrimônio simbólico dos EUA representados pelo World Trade Center e o Pentágono.

Do ponto de vista mais objetivo, é quase irônico imaginar, como algumas poucas pessoas, ainda que colocando o próprio corpo, e portanto a vida, como a principal arma, sem nenhum caça supersônico; sem a posse de nenhuma bomba ou qualquer artefato explosivo; sem sequer estarem munidos de revólveres, mas tão somente portando facas e estiletes, puderam abalar como abalaram, uma nação que já gastou bilhões de dólares com programas militares como o “Guerra nas Estrelas" ou com o mais atual, o "Escudo Antimísseis".

O fato é que os EUA continuaram se preparando após a Guerra Fria, para enfrentar um adversário que hoje não existe. A guerra possível passa a não ser mais a dos mísseis balísticos, muito menos a da paranóia hollywoodiana de uma ação bélica nos corredores da via-láctea. O adversário do império militar e econômico neste 11 de setembro, não só não tinha armas, como não tinha rosto. Com o fim da Guerra Fria e a dissolução da União Soviética, uma ordem bipolar que regulava de certa forma as relações entre Estados, e situava as culturas dentro de quadros ideológicos mais consistentes, se desfez, criando uma nova ordem no tabuleiro do jogo das relações internacionais. O que parecia ser em princípio, a hegemonização e homogeneização dos conceitos, práticas e culturas vindas do norte da América (o american way of life, passando definitivamente a iluminar o mundo como um novo sol) mostrou, num tempo histórico muito rápido, que o quadro estava se transformando, ao contrário do que se supunha, num campo vasto, visualizado por uma janela de heterogeneidades étnicas, religiosas e de escolhas de verdades centradas no microcosmo de algumas e determinadas sociedades. O acirramento da defesa de conceitos in veritum que afloraram à medida que se abriu um vácuo antes ocupado por ideologias mais definidas e que eram, em última instância, fatores aglutinadores que se sobrepunham às questões de caráter étnico-religioso. O conflito nos Bálcãs foi o grande exemplo inicial dessa nova fase.

Essa nova realidade entraria em conflito com o quase determinismo de uma nova ordem mundial arquitetada.

As imagens do atentado que todos assistimos ao vivo, como um filme catastrófico – bem ao gosto do público que lota as salas de cinema dos EUA -, mostrou, na população nova-iorquina, além do componente de sofrimento direto, objetivo, que foram as milhares de vidas que se perderam, um segundo componente: o drama psicológico de quem sente o orgulho ferido.

A construção de todo império se alicerça na positividade da auto-estima de sua sociedade. Esse foi o grande terceiro símbolo atingido. A lição dura e trágica, que o episódio nos aponta, é que o mundo rico e, sobretudo a sociedade estadunidense, devem voltar os olhos para além dos seus quintais ajardinados, e que os líderes dos países desafortunados, abram as janelas dos seus gabinetes acarpetados, ou então, as guerras que trazem os corpos como armas, se difundirão a ponto de se sobreporem, em números de vítimas, àquelas que já sucumbem pela fome nas periferias do planeta.



César de Paula é articulista colaborador da Revés do Avesso.



terça-feira, 30 de agosto de 2011

a casa amarela

Gero Camilo é uma daquelas figuras que sintetizam o ser artístico. Poeta, dramaturgo, ator, cantor, compositor, tem na bagagem mais de 40 trabalhos entre teatro, cinema televisão, atuando, dirigindo ou escrevendo, além de participações em inúmeros shows.

Neste momento vive Van Gogh, segundo ele,"(...) um grande homem, preocupado em dar à humanidade discernimento e espasmo. Sua loucura é demasiado grande para que a psicologia possa tratá-la. Sua pintura é poesia pura. Sua escritura, pura pintura. E sua carne, resistência e fortaleza".
O monólogo, escrito e interpretado por Camilo, encontra a sua perfeita espacialidade no palco do Tuca Arena, que lhe permite caminhar pelo círculo da vida ali representado, como os girassóis que se voltam em direção ao sol, e que o leva à Casa Amarela, o local onde o pintor holandês imaginava instalar uma comunidade de criação artística, depois de sair de Paris e encontrar a luminosidade da cidade de Arles.

Em cena, as cores, as idéias e o desespero de Van Gogh ganham força e vitalidade e se misturam com a veia pulsante de Gero Camilo.
Imperdível!

domingo, 21 de agosto de 2011

mais de philippe genty



Do sítio http://www.midiorama.com.br/
Philippe Genty, um dos maiores mestres do ilusionismo teatral deste século, o francês Philippe Genty, nascido em 1938, é considerado o criador do moderno teatro de fantoches em todas as suas dimensões.

Artista plástico por formação, Philippe Genty ganhou uma bolsa da UNESCO entre 1962 e 1966 para fazer um documentário sobre as várias manifestações do teatro de fantoches no mundo, quando percorreu lugares insólitos que mais tarde serviriam de base para suas criações. Apresentou seus primeiros espetáculos em cabarés e em programas de TV, e em 1968 fundou a Compagnie Philippe Genty, que rapidamente se tornou um marco ao misturar em suas apresentações vários tipos de fantoches, teatro, dança, mímica, sombras e luzes, música e sons.
Altamente influenciado pelas experiências de bonecos gigantes nos Estados Unidos, incluindo o Bread and Puppet Theatre, Philippe Genty começou gradualmente a usar cada vez mais materiais reciclados para fabricar as suas formas de animação e criação de pequenos bonecos. Suas criações foram desde o início um enorme sucesso, permitindo que sua companhia ficasse rapidamente conhecida por toda a França e, posteriormente, pelo mundo inteiro.
Até o final da década de 80, Genty levou sua arte a quase todo o planeta, em turnês que foram vistas nos Estados Unidos, Japão, África, Austrália, Grã-Bretanha, China, União Soviética, França, América do Sul, Índia, entre outros. Nos anos 80, transformou-se em um autor consagrado, com a criação de espetáculos como Rond comme un cube, Désirs parade, Sigmund Follies, e Dérives. No começo dos anos 90 ganhou o Prêmio da crítica no Festival de Edinburgo e, em 95, criou seu mais famoso espetáculo – Le Voyageur immobile (O Viajante Imóvel).
Em 96 participou do Festival de Adelaide, na Austrália, para o qual criou o espetáculo Passagers clandestins. Pouco depois aliou-se à Exposição Universal de Lisboa, criando e encenando Océans et utopies em um estádio coberto de 10 mil lugares, com 200 atores, bailarinos, artistas de circo e técnicos. “Uma isca para um público que nunca vai ao teatro”, coloca Genty, que teve 525 representações em cinco meses, em um total de três milhões e trezentos mil espectadores.
Em 2000, Genty criou Concert incroyable no quadro da Grande Galeria da Evolução em Paris com 40 coristas e 12 atores-bailarinos. Em 2003 foi a vez de Ligne de Fuite, trabalho experimental em torno da luz, que marcou uma nova colaboração musical com René Aubry e resultou em uma turnê internacional até outubro de 2005. De volta à França, Genty remontou Zigmund Follies e lançou La Fin des Terres, espetáculo como o qual iniciou nova turnê que se estendeu até o fim de 2008. Durante os anos de 2009 e 2010, Genty e sua esposa e parceira desde 1967, Mary Underwood, percorreram novamente o mundo com seus espetáculos e workshops, passando por lugares como a Austrália e a Patagônia, Ásia, Europa e América do Norte.

Outros links:
http://www.youtube.com/watch?v=yYMIpOIii6Y&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=toYCGhdSeI8&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=I3vAFmD9IVY&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=OyIcT_V_TG8&feature=related

compagnie philippe genty - voyageurs lmmobiles (viajantes imóveis)

Um maravilhoso acaso me direcionou para o Teatro Municipal (de São Paulo) em 15 de julho passado que me colocou diante de um segundo acaso: um casal com um ingresso sobrando para um espetáculo cujos ingressos haviam se encerrados há dias. Tratava-se da Cia. francesa Philippe Genty, que eu não conhecia e que me supreendeu como um dos melhores espetáculos que eu vi. Abaixo, uma pequena amostra da parte final da apresentação. Mais abaixo um texto tirado do sítio http://www.midiorama.com.br/



Há mais de três décadas a conceituada Companhia Philippe Genty é responsável por fantásticas criações multidisciplinares, nas quais mistura teatro, dança, música e marionetes. O trabalho é baseado na relação entre o corpo e diferentes objetos, e explorada através de uma linguagem visual original e tocante. As criações da célebre companhia francesa pertencem ao mundo do sonho, onde atores e bailarinos, manipulando marionetes e objetos de várias dimensões, surgem em cena tecendo histórias diante dos olhos do público.

Na criação de seus espetáculos, Genty mantém a exploração da linguagem visual que é a mais marcante característica de sua companhia, refletindo o conflito do homem contra si mesmo e onde a “cena” é o próprio ”inconsciente”.


Na forma de um sonho, o espetáculo não mostra a psicologia de personagens clássicos, “o intuito é mexer com as nossas paisagens interiores, tirar das profundezas de nossos medos essas esperanças selvagens, as vergonhas por desejos reprimidos, esses espaços sem limites, enfrentando o impossível, produzindo choques visuais”, diz Genty.

Em “Viajantes Imóveis”, o espectador deixa de ser um mero observador passivo de um drama ou de uma comédia. Ele é atraído para uma viagem através de uma série de quebra-cabeças, cada um produzindo uma impressão diferente, um eco de suas próprias perguntas ou simplesmente fazendo-o mergulhar em uma desordem inquietante.

No palco, a arte de Genty cria uma ilusão visual, onde os espectadores não sabem se os bonecos estão dando vida aos atores ou vice-versa. Com Genty, os objetos e materiais têm uma alma. Eles representam as nossas paisagens interiores, com nossos momentos de loucura, conflitos e monstros internos. Tudo é possível.

O cenário nunca é realista e está em constante mutação, a idéia, segundo Genty, “é deixar sempre o campo aberto para a imaginação do espectador”. Os personagens surgem em cena – o lugar do inconsciente – para se transformarem, evoluírem e desaparecerem.

Genty começou a imaginar o espetáculo durante uma passagem pelo deserto do Baluquistão, no Paquistão, em 1962




sábado, 6 de agosto de 2011

meia noite em paris

Desse filme não quero falar muito, até porque muito já foi dito. Na realidade, tudo que foi dito, foi dito com meias palavras. Mesmo o trailer não diz mais do que meias palavras e meias imagens, porque esse é um daqueles filmes que ser tagarela estraga as surpresas que Woody Allen nos presenteia nessa viagem por Paris. Embarque! Nem precisa levar bagagens.

gainsbourg

Por aqui foi traduzido por "Gainsbourg - o homem que amava as mulheres" e está em cartaz, ainda, em algumas poucas salas. Serge Gainsbourg , como nos diz Thales de Menezes na crítica com link abaixo, tinha inúmeros predicados para ser biografado e o foi brilhantemente, em filme dirigido por Joann Sfar, um conhecido ilustrador francês, que entre outras coisas, se dedica aos quadrinhos.
Abaixo, então, a crítica de Menezes e o trailer legendado.
http://ancine.myclipp.inf.br/default.asp?smenu=ultimas&dtlh=24273&iABA=Not%EDcias


segunda-feira, 25 de julho de 2011

cópia fiel

Abbas Kiarostami é um daqueles raros cineastas que abre as suas lentes com o foco direcionado para um certo reaprendizado do olhar, com o qual se deparam os fruidores dos seus filmes. O seu tempo é outro, muito diferente da pirotecnia hollywoodiana.



O desenrolar de seus filmes, com narrativas simples e planos sequências longos, entremeados de silêncios, percorrem, via de regra, estradas, lugares inóspitos, que culminam com encontros que vão deixando pelo caminho a impressão que nada está sendo dito e o quase incômodo da percepção que se apresenta ao final, de que muito foi dito; e mais do que isso: que não poderia ser dito de outra forma. Kiarostami sempre foi exigente com o espectador de seus filmes e, aos atentos, o recompensava. Foi assim com “Onde fica a casa do meu amigo” de 1987, ou a “Vida e nada mais” de 1991, ou “Através das Oliveiras”, de 1994, ou “Gosto de Cereja” de 1997 ou outros tantos de sua já extensa filmografia de quase 20 filmes.


Há uma característica marcante: o diretor sempre nos leva de carona para algum lugar. Há sempre um itinerário; um deslocamento.


Quando nos deparamos com Cópia Fiel, seu primeiro filme rodado fora do seu habitat natural, o Irã, parece que estamos, em princípio, diante de um outro Kiarostami. O cenário agora é europeu, não há mais a dureza da paisagem; os rostos e as vestes são ocidentalizados; a narrativa se apresenta de forma mais evidente; a língua é outra (na realidade são outras) mas a essência está lá. Trata-se do velho Kiarostami que nos leva em carona até um vilarejo e, da mesma forma que em outros de seus filmes, ele também nos provocará um estado de inquietação.
O filme se passa na Itália, em Toscana e se inicia com a palestra do escritor inglês James Miller (interpretado por Willian Shimmell) que no lançamento do seu livro defende a ideia de que uma boa cópia vale tanto, ou ainda mais que o original e, a partir dessa questão filosófica, há uma pergunta que transcorrerá em metalinguagem por todo o filme: uma cópia pode ser tão verdadeira quanto a original? Elle, interpretado brilhantemente por Juliette Binoche, é uma francesa que há anos vive na Itália e além de proprietária de uma galeria de arte é leitora de Miller. Ela discutirá a questão com ele, tão logo se conhecem (ou se reencontram..), e a discussão tomará formas inusitadas quando ela o leva para um passeio à Comuna de Lucgnato. Lá, há um museu onde se encontra uma pintura reconhecidamente como cópia que é a principal atração do lugar. Mas a obra, que seria em princípio o exemplo melhor acabado do tema em discussão não atrai nenhuma atenção de James, para surpresa de Elle. A “cópia” se apresentaria, mais do que nas artes, na vida.
O fio condutor é alterado, quando a dona de um Café confunde os dois com um casal e enxerga neles, as questões relativas a qualquer casal. Aparece nesse momento um outro elemento: os idiomas, ou a forma que se trava a comunicação ( o que lembra aqui, “Um filme Falado”, de Manoel de Oliveira, pela razão inversa já que Oliveira fala dos idiomas numa "anti-torre de babel”). Mas enfim, a comunicação é o que une ou o que separa? É também ela, cópia da realidade? De qualquer forma, a partir da cena do Café, um jogo parece ser montado e Elle e James são agora (ou sempre foram?) um casal. Há uma verdade na condição de casados ou a representação de uma situação de casados é um simulacro que se apresenta? Ou ainda, indiferente de uma cópia ou de um original, o que importa são os olhos de quem vê? Pela nossa janela, pouco importa se Elle e James brincam, representando para eles mesmo que são um casal ou se realmente o são. A questão central já está posta. Reprodução ou originalidade? Quantas vezes nosso padrão de relacionamento se apresenta como cópia? Quantas vezes a aparência das coisas nos acomoda na escolha de não ir além ou se, de fato, se faz necessário ir além? Na arte como na vida o que vale mais, o que se apresenta como verdade ou a verdade que a nossa subjetividade representa?
Walter Benjamin escreveu um longo ensaio para discutir a reprodução da obra de arte em "A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica". Para Benjamin, "...em sua essência, a obra de arte sempre foi reprodutível. O que os homens faziam sempre podia ser imitado por outros homens". Imitar faria parte, assim, da cultura de ser humano mas, da mesma forma, a criação e a recriação também o são. A reprodução em grande escala coloca a obra acessível àqueles que, sabendo que não estão diante do original, a acomodam com o valor que a possibilidade permite.
Não sei se Kiarostami tentou traçar um paralelo ou buscar uma inspiração no texto do filósofo alemão. Mas de alguma forma, a condição da cópia em Kiarostami, ponto de partida de seu “Cópia Fiel”, extrapolou a arte e alcançou a vida, o que nos remete a tão propalada e talvez ainda verdadeira frase, que “a arte imita a vida”.



amy, mais nova

amy, mais uma

amy

sábado, 23 de julho de 2011

sábado, 9 de julho de 2011

sábado, 2 de julho de 2011

os "hieronymus bosch" do masp

Cristo perante Pilatos

As tentações de Santo Antão





sexta-feira, 27 de maio de 2011

mais uma morte e, de novo, anunciada



Eu queria falar de cinema, literatura, teatro etc, mas novamente desvio o assunto, nesta semana da aprovação do Código Florestal, para replicar a matéria do Acrítica Amazônia.



Líder de assentamento do Amazonas é assassinado por pistoleiros
Agricultor foi assassinado enquanto vendia verduras em município do Estado de Rondônia
Manaus , 27 de Maio de 2011
Elaíze Farias
O agricultor e líder de assentamento Adelino Ramos já havia feito várias denúncias sobre as ameaças de morte que vinha sofrendo
Adelino Ramos, 57, líder do Projeto de Assentamento Florestal (PAF) Curuquetê, localizado no município de Lábrea (a 701,62 quilômetros de Manaus), foi assassinado na manhã desta sexta-feira (27). Foram desferidos seis tiros contra o agricultor.
Conhecido como Dinho, o agricultor foi assassinado por volta de 10h em frente à casa de um cliente das verduras que ele vendia no município de Vista Alegre de Abunã, em Rondônia, na divisa com o Estado do Amazonas.
Ele também era líder do Movimento Camponês Corumbiara (MCC), que surgiu após o massacre de Corumbiara (RO), em 1996.
O advogado do assentamento e de Adelino Ramos, que pediu para não ter seu nome relevado, disse que o agricultor já havia denunciado as várias ameaças que vinha sofrendo para a Ouvidoria Agrária do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e para a Polícia Federal.
“As ameaças eram de fazendeiros e de toreros (pessoas que roubam toras de madeiras). Desde que o Incra doou a terra aos agricultores, os fazendeiros se viram lesados”, disse o advogado, que mora em Porto Velho (RO), onde Adelino será enterrado.
No PAF Curuquetê vivem aproximadamente 20 famílias. “As famílias estão com medo, algumas pessoas querem ir embora, se sentem desprotegidas”, disse ele.
Para o advogado, a demora do Incra em publicar a portaria regularizando o assentamento também contribui para aumentar a insegurança na área.
Denúncia
Adelino vinha recebendo várias ameaças de morte desde que a o PAF foi criado pelo Incra, há três anos.
No dia 22 de julho de 2010, Adelino Ramos esteve em Manaus onde participou de uma audiência com a Ouvidoria Agrária Nacional do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), intermediada pela Comissão Pastoral da Terra (CPT).
Segundo Auriédia Costa, coordenadora da CPT no Amazonas no Amazonas, representantes da ouvidoria se comprometeram de enviar um grupo até o assentamento, mas isto nunca aconteceu.
“Ele denunciou vários fazendeiros, deu nome e sobrenome. Mas ninguém fez nada. Os fazendeiros estavam revoltados porque, para eles, os assentados estavam fazendo denúncias para o Ibama sobre desmatamento”, disse Auriédia.
Para a coordenadora da CPT, o assassinato de Avelino é resultado da omissão do Estado e das autoridades policiais.
“Onde não há lei para regularizar, alguém faz esta lei. E quem está no comando é quem tem o capital”, comentou Auriédia.
Em 2008, outra liderança da então gleba Curuquetê, Francisco da Silva, também foi assassinada.
Fuga
Conforme Auriédia, vários líderes do movimento da reforma agrária e de assentamentos sofrem ameaças de madeireiros no sul do Amazonas, mas pouco se comenta sobre estes casos.
“O que parece é que não há ameaça, nem violência. Mas ao contrário do que se pensa, muitos trabalhadores estão impedidos de voltar hoje para Lábrea. Muitos fugiram”, disse.
Uma dessas lideranças é Nilcilene Miguel de Lima, 44, que fugiu da gleba Iquiri, próximo ao assentamento Gedeão, também no município de Lábrea.
“Fui espancada, queimaram minha casa, não posso voltar. Os fazendeiros nos ameaçam porque dizem que estamos denunciando desmatamento. Estou jurada de morte”, disse Nilcilene, que era amiga de Adelino Ramos. "Mataram meu amigo", disse, indignada.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

"uma informação sobre a banalidade do amor", ou seria "sobre a banalidade do teatro"?

Neste empório, tenho a vantagem de ter a prerrogativa de escolher os filmes, as peças teatrais e os livros sobre os quais rascunho críticas. Quase que invariavelmente escolho apenas aquilo que me causa impressões positivas. Abro uma exceção para “Uma Informação Sobre a Banalidade do Amor”, peça dirigida e encenada por Antonio Abujamra, em companhia de Tatiana de Marca que encerrou a sua temporada ontem em São Paulo, no teatro Eva Herz, na Livraria Cultura.
A peça é de uma integralidade poucas vezes vistas nos palcos brasileiros. Ela é integralmente ruim. São 60 minutos de um equívoco contumaz. A começar pelo texto, ou a tradução, do próprio Abujamra. O texto original é do dramaturgo argentino Mario Diament.
O roteiro pretende discorrer sobre a paixão entre Martin Heidegger e Hannah Arendt. Para aqueles que têm a expectativa de um diálogo com um mínimo de profundidade - já que a proposta é trazer à cena duas das principais figuras da filosofia do século 20 -, se deparam com clichês que talvez não fizessem feio em qualquer folhetim rasgado de uma novela mexicana. Heidegger, um expoente da filosofia da primeira metade do século vinte, flertou com o ideal nazista de Hitler. Arendt, judia, foi perseguida e exilada, primeiro na França (onde foi presa num campo de concentração) e depois nos EUA. O conflito existencial da relação traz enormes possibilidades de abordagem, mas o resultado final apresentou uma relação constrangedoramente adolescente. Constrangedora também são as interpretações. Abujamra está fora de forma e não cabe no papel. Ele, quase sempre estático (e pelo menos nessa noite, com erros freqüentes de texto) não se movimenta com a energia que a fala de Arendt faz supor, de um amante impetuoso. De Marca, por outro lado, comporta-se como uma menina leitora assídua da revista Contigo.
Mas parece que não basta. A peça traz mais surpresas. Ela pretende-se didática, e, em meio aos cinco encontros relatados, surgem imagens projetadas de atores (seriam atores?) que apresentam depoimentos que tentam transformar todo o imbróglio em uma mistura de teatro-cine-documentário. O resultado culmina em mais um constrangimento.
Tamanho mal entendido não poderia terminar de outra forma. Abujamra e De Marca, sentados em um banco de praça, desconfortáveis, preparam-se para o gran finale: se olham e começam, em um slow motion quase interminável, o caminho que selará a peça com um beijo. Nenhum final seria mais adequado.

domingo, 8 de maio de 2011

os "degas" do masp

O Masp conta com uma coleção completa de 73 esculturas e mais 3 pinturas de Edgar Degas. Interessante lembrar que apenas três museus no mundo contam com a coleção completa de esculturas de Degas: o D' Orsay, de Paris, o Metropolitan, de Nova Iorque e o Masp, em São Paulo.
Alguns exemplos:













quinta-feira, 28 de abril de 2011

o cotidiano desmonte da tv cultura

Para Medaglia, TV Cultura barateia custos com prejuízo à qualidade dos programas

'É triste. Estão desmontando a Cultura'





Júlio Medaglia, de 73 anos, foi surpreendido nesta terça-feira. Após 25 anos na TV Cultura, teve o contrato rescindido. O maestro apresentava o Prelúdio (programa de calouros de música erudita), e mantinha na Rádio Cultura o programa diário Temas e Variações, às 11 horas.
O último programa foi ao ar na própria terça, sobre o compositor Bernard Hermann. Ex-aluno de Pierre Boulez, Stockhausen e John Barbirolli, Medaglia foi fundador da Amazônia Filarmônica e dirigiu a Orquestra da Rádio de Baden-Baden e a Rádio Roquete Pinto.
O que lhe disseram ao demiti-lo?
Quem me chamou foi o João Sayad (presidente da TV Cultura). Disse muito obrigado, que fui importante, mas que ia colocar jovens para fazer o programa de rádio e a cobertura dos projetos de ópera e ia comprar um enlatado americano para a TV. Curioso porque, quando assumi, ele me chamou e ficamos quase duas horas conversando. Ele me perguntava coisas e tomava notas em um caderninho. Mas, ao me demitir, não demorou nem um minuto e meio. Tinha 24 anos de programa e fui demitido em um minuto e meio. Ele resolveu seguir as opiniões de outras pessoas. Sei quem é a pessoa que conduz esse desmonte, mas não vou dizer porque não tenho como provar.
O sr. era caro para a emissora?No começo, eu era funcionário. Fui demitido em 2005 e transformado em PJ (Pessoa Jurídica). A direção achou que eu não podia ser personalidade física e jurídica ao mesmo tempo. Passei a ganhar R$ 4 mil, mas sem direitos trabalhistas, sem plano de saúde. No fim, estava pagando para trabalhar. Mas continuei porque achei que valia a pena. Tivemos até 2 mil jovens no programa Prelúdio. Prestamos alguns serviços, e revelamos uma geração inteira de novos músicos. O programa trazia um público jovem para a casa, o Instituto Goethe dava uma bolsa na Alemanha para o vencedor, o Consulado Italiano dava outra para a Itália. E não custava nada para a emissora. A orquestra era paga por um convênio. Recebíamos toneladas de cartas. Estão desmontando a Rádio Cultura inteira, a TV Cultura também. É uma coisa triste. Estão sendo dirigidos por pessoas que não sabem dirigir, com uma programação sucateada, programas infantis que vão sendo repetidos.
Qual era o tamanho da sua equipe?Eu tinha um produtor, mas foi demitido há alguns meses. Era apenas o locutor. Depois que demitiram a Marta Fonterrada (produtora e radialista), eu mesmo estava pesquisando e produzindo tudo. Marta era uma pessoa muito bem preparada, uma profissional de grande gabarito. Desde então, eu definia algum tema, como por exemplo "Compositores que ficaram cegos", e aí reunia a obra de Bach, Haendel, e assim por diante, e montava o programa. Foi assim nos últimos seis anos, cada dia uma ideia diferente.(...)



fonte: jornal O Estado de São Paulo

quinta-feira, 14 de abril de 2011

os "van gogh" do masp





"Em meu trabalho, arrisco minha vida e nele metade da minha razão sucumbiu". V.Gogh em carta ao irmão Theo, após pintar "Passeio ao crepúsculo", a segunda imagem de cima para baixo.

domingo, 3 de abril de 2011

um corte na paisagem urbana

(retomando a publicação de artigos publicados na extinta revista Revés do Avesso apresento nesta postagem este artigo publicado no longínquo julho de 1997)


"Uma baleia". "Uma montanha, um mar e o sol se pondo". "Uma paisagem, não sei bem!". "Não estou entendendo". Estas frases foram impressões de algumas pessoas que passando pelas ruas, se defrontaram com um out-door diferente. Nele nada era anunciado, nada era vendido. Não havia marca ou nome de produto. O out-door em questão fez parte de um projeto único proposto por Leila Reinert, artista plástica catarinense radicada em São Paulo e realizado pela Publicidade KJimes.
Colocado em alguns pontos estratégicos de São Paulo, entre 15 e 31 de julho, a obra fotográfica de Reinert é um fragmento ampliado de uma outra obra da artista que também foi exposta, só que entre paredes do MAM (Museu de Arte Moderna) também em julho.
O objeto em questão é o corpo, mais propriamente pernas em uma banheira. Mas qual a importância de uma definição precisa de imagem? Há um corpo e ao mesmo tempo não há. Uma paisagem se apresenta mas não se identifica.
O out-door é a mídia do impacto imediato, a dos transeuntes apressados. Os textos, quando os há, são curtos e objetivos. As mensagens visuais são de rápida assimilação. Pretendem-se sedutores. Quando usam as formas do corpo humano, apresentam corpos esculpidos pelas academias de ginástica. Vendem a imagem que está na superfície. Não há interesse para o que está sob a pele. O que é obscuro não é a mensagem e portanto não vende. E é nesse espaço que a obra de Reinert apresenta o íntimo que deixa de ser privado. E, à medida que essa transposição se dá, o caráter de voyeur se dilui; quebra o valor psicológico da intimidade revelada, exposta e ampliada para o domínio público. O estranho enquanto linguagem.
Alguns são os elementos envolvidos. O corpo que se banha invade a cena. Toma lugar. Ocupa o espaço urbano. Se a intimidade enquanto rito toma como símbolo o sagrado, nesse caso ela se dessacraliza tomando parte do que é público. Numa medida ampliada, é o endo que se transfigura em exo. O corpo se aproxima da lente (ou vice-versa) numa quase colisão; a "subjetividade da lente", levando a junções: as pernas, a água, o ralo, a banheira, que formam outros seres ou uma paisagem. Exposto, transforma-se em intersubjetividades. Múltiplas e individuais sensações. Não há literalidades, mas metaforizações.

Reinert tem uma sensibilidade de difícil acesso: são portas semi-abertas; arestas que iluminam parcialmente. O caminho não é traçado. Há nessa artista, as descobertas por centímetros percorridos, e a (imprescindível) inquietação da obra já realizada. Seus objetos têm o caráter perturbador, que quase invariavelmente se contrapõem com o espaço ao qual está sendo exposto o trabalho.
Se a passagem da areia na ampulheta se amplia e derrama o tempo com mais velocidade; se o final do século nos coloca questões novas, confundindo a ordem dos acontecimentos; se já não há espaços para vanguardas artísticas, há ainda a possibilidade real (e é preciso trabalhar por isso) de pensarmos além das tecnologias.
Obras que mexem ou alteram a rotina, mesmo que minimamente, acabam tendo o caráter do corte (ou arranhão!) e da imprevisibilidade, importante para "cutucar" os processos que se querem definidos por serem pré-determinados.

Ocupar um espaço que é destinado para o chamamento ao consumo, com um trabalho gerado por uma concepção puramente estética, tem um valor particularmente importante nesse momento, em uma metrópole como São Paulo. Falar com o corpo se transvalora numa condição de "matéria humana". O pensador e teatrólogo Antonin Artaud (1896-1948)"montou" um corpo sem órgãos, integral: o estômago ligado ao sistema nervoso; o fígado filtrando o pensamento. No out-door de Reinert, o corpo, mesmo com outro caráter, tem uma unidade que se estabelece na união cênica, na composição de uma possível paisagem que se forma. Um olhar único entre a frieza de carros, prédios e fumaças.








REVÉS DO AVESSO JULHO -1997

sábado, 2 de abril de 2011

morro da capela de são francisco em tiradentes e seu poema de todo final das tardes de sábado




(sugestão: clique no link abaixo para acompanhar esta postagem com música) http://dc111.4shared.com/img/89521375/b85ba5b4/dlink__2Fdownload_2FtgAcQsBP_3Ftsid_3D20110402-213650-ea557dc9/preview.mp3 Morro da Capela de São Francisco da cidade de Tiradentes ao por do sol com a música de Mozart, de Chopin... ecoando. Pessoas chegando e outras já sentadas na grama: em silêncio e encantadas. Como criador do cenário, um maestro sem a batuta, que alinhava e envolve a todos com esses elementos. Ele é o sr. Mário, Mário Del Soldato, um pediatra aposentado de 84 anos que, junto com a sua mulher, Dona Kika, compartilham com todos que ali chegam, o amor pela música clássica em todos os sábados por aquele horário em que a tarde começa a cair. Eu por ali cheguei e o fotografei, envolto pela poesia.


fotos de gê césar de paula

Para ver
Tiradentes Musical 1 e 2:
http://www.youtube.com/watch?v=M4D6qZ_KT3k
http://www.youtube.com/watch?gl=UG&feature=related&hl=en-GB&v=rgg7LFs-R4I

Abaixo o link de uma reportagem:
http://g1.globo.com/bomdiabrasil/0,,MUL753175-16020,00-CASO+DE+AMOR+UNE+HISTORIA+E+MUSICA+CLASSICA+EM+MINAS+GERAIS.html

quarta-feira, 30 de março de 2011

serra da canastra, onde nasce o velho chico

no alto do parque

a fabulosa casca d'anta




cachoeira da chinela
na janela do chalé
um veado campeiro nos observa
um tamanduá na relva
a silhueta de um gavião
um carcará

um gavião pomba e sua presa


tinha uma cascavel no caminho







fotos de gê césar de paula

sexta-feira, 18 de março de 2011

debate: focault e chomsky

O vídeo abaixo apresenta um interessante documento histórico com um debate ocorrido em 1971 na Holanda entre dois influentes intelectuais da época, o filósofo Michel Foucault, falecido em1984 e o linguísta Noam Chomsky hoje com 83 anos.
A discussão pode parecer em princípio datada, mas algumas das questões levantadas, ou permanecem ou foram substituídas por verdades pré-moldadas e necessidades fabricadas, sobre as quais um outro filósofo, Herbert Marcuse, se debruçou naquela efervescente virada dos anos 60 para os 70.
O debate começa pela questão da sociedade tecnológica e caminha para noções de poder e conceitos de natureza humana e justiça. O vídeo mostra apenas um trecho do debate mas, ainda assim, vale pela curiosidade.


o belas artes fecha as portas







Ontem à noite fui ao Belas Artes, não para assistir algum filme mas apenas para me despedir. Pena não ter levado minha câmera. A cena lembrava a de um velório, em que pessoas formam pequenos grupos, murmuram coisas, se recostam em cantos, se apoiam em paredes. De repente alguém se exalta, dizendo da importância cultural do espaço, como aqueles que, em velórios, exaltam as qualidades morais do defunto.
Por aquelas salas escuras, visitei a Veneza de Visconti, a Berlim de Fassbinder, a Roma de Fellini e também de Rosselinni, a Estocolmo de Bergman, a Tókio de Kurosawa, a Paris de Truffaut, o espaço sideral de Tarkovsky e também de Kubrick, o imaginário psicológico de Antonioni...
Não sei, é bem verdade, se todas estas visitas e sensações se deram no Belas Artes, ou em outro cinema enterrado de São Paulo: a memória nos prega peças por vezes. Mas fica a memória afetiva, do mesmo jeito que falou o Ugo Giorgetti, em coluna recente na Folha. Giorgetti disse outra coisa ainda, que se assemelha ao que sinto: “Agora, acompanhando o mundo a que pertenceu, o Belas Artes se vai para sempre. Não vou sentir saudades dele. O que sinto, no fundo, é saudades de mim, nele”.
PS: um link:
http://letrasdespidas.wordpress.com/2011/01/09/o-fim-do-cinema-belas-artes/



quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

universidade livre de música tom jobim, o desmonte


A sanha privatista do Governo do Estado de São Paulo parece não ter fim. O alvo agora é a área cultural. Depois de um processo lento de descaracterização da TV Cultura, o governo apura o foco agora para o desmonte da Universidade Livre de Música Tom Jobim. Criada em 1989, Tom Jobim foi seu primeiro reitor. A universidade oferece cursos regulares e cursos livres, além de recitais, workshops e masterclasses. Os cursos são gratuítos e visam a formação de músicos profissionais. Sua sede principal fica na Luz, justamente ali, onde os governos municipal e estadual projetam uma revitalização do bairro.
Para não ser repetitivo, aponto o link abaixo com os comentários do Luis Nassif e do Gustavo Cherubine Belic:

http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/o-desmonte-da-universidade-livre-de-musica