segunda-feira, 25 de julho de 2011

cópia fiel

Abbas Kiarostami é um daqueles raros cineastas que abre as suas lentes com o foco direcionado para um certo reaprendizado do olhar, com o qual se deparam os fruidores dos seus filmes. O seu tempo é outro, muito diferente da pirotecnia hollywoodiana.



O desenrolar de seus filmes, com narrativas simples e planos sequências longos, entremeados de silêncios, percorrem, via de regra, estradas, lugares inóspitos, que culminam com encontros que vão deixando pelo caminho a impressão que nada está sendo dito e o quase incômodo da percepção que se apresenta ao final, de que muito foi dito; e mais do que isso: que não poderia ser dito de outra forma. Kiarostami sempre foi exigente com o espectador de seus filmes e, aos atentos, o recompensava. Foi assim com “Onde fica a casa do meu amigo” de 1987, ou a “Vida e nada mais” de 1991, ou “Através das Oliveiras”, de 1994, ou “Gosto de Cereja” de 1997 ou outros tantos de sua já extensa filmografia de quase 20 filmes.


Há uma característica marcante: o diretor sempre nos leva de carona para algum lugar. Há sempre um itinerário; um deslocamento.


Quando nos deparamos com Cópia Fiel, seu primeiro filme rodado fora do seu habitat natural, o Irã, parece que estamos, em princípio, diante de um outro Kiarostami. O cenário agora é europeu, não há mais a dureza da paisagem; os rostos e as vestes são ocidentalizados; a narrativa se apresenta de forma mais evidente; a língua é outra (na realidade são outras) mas a essência está lá. Trata-se do velho Kiarostami que nos leva em carona até um vilarejo e, da mesma forma que em outros de seus filmes, ele também nos provocará um estado de inquietação.
O filme se passa na Itália, em Toscana e se inicia com a palestra do escritor inglês James Miller (interpretado por Willian Shimmell) que no lançamento do seu livro defende a ideia de que uma boa cópia vale tanto, ou ainda mais que o original e, a partir dessa questão filosófica, há uma pergunta que transcorrerá em metalinguagem por todo o filme: uma cópia pode ser tão verdadeira quanto a original? Elle, interpretado brilhantemente por Juliette Binoche, é uma francesa que há anos vive na Itália e além de proprietária de uma galeria de arte é leitora de Miller. Ela discutirá a questão com ele, tão logo se conhecem (ou se reencontram..), e a discussão tomará formas inusitadas quando ela o leva para um passeio à Comuna de Lucgnato. Lá, há um museu onde se encontra uma pintura reconhecidamente como cópia que é a principal atração do lugar. Mas a obra, que seria em princípio o exemplo melhor acabado do tema em discussão não atrai nenhuma atenção de James, para surpresa de Elle. A “cópia” se apresentaria, mais do que nas artes, na vida.
O fio condutor é alterado, quando a dona de um Café confunde os dois com um casal e enxerga neles, as questões relativas a qualquer casal. Aparece nesse momento um outro elemento: os idiomas, ou a forma que se trava a comunicação ( o que lembra aqui, “Um filme Falado”, de Manoel de Oliveira, pela razão inversa já que Oliveira fala dos idiomas numa "anti-torre de babel”). Mas enfim, a comunicação é o que une ou o que separa? É também ela, cópia da realidade? De qualquer forma, a partir da cena do Café, um jogo parece ser montado e Elle e James são agora (ou sempre foram?) um casal. Há uma verdade na condição de casados ou a representação de uma situação de casados é um simulacro que se apresenta? Ou ainda, indiferente de uma cópia ou de um original, o que importa são os olhos de quem vê? Pela nossa janela, pouco importa se Elle e James brincam, representando para eles mesmo que são um casal ou se realmente o são. A questão central já está posta. Reprodução ou originalidade? Quantas vezes nosso padrão de relacionamento se apresenta como cópia? Quantas vezes a aparência das coisas nos acomoda na escolha de não ir além ou se, de fato, se faz necessário ir além? Na arte como na vida o que vale mais, o que se apresenta como verdade ou a verdade que a nossa subjetividade representa?
Walter Benjamin escreveu um longo ensaio para discutir a reprodução da obra de arte em "A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica". Para Benjamin, "...em sua essência, a obra de arte sempre foi reprodutível. O que os homens faziam sempre podia ser imitado por outros homens". Imitar faria parte, assim, da cultura de ser humano mas, da mesma forma, a criação e a recriação também o são. A reprodução em grande escala coloca a obra acessível àqueles que, sabendo que não estão diante do original, a acomodam com o valor que a possibilidade permite.
Não sei se Kiarostami tentou traçar um paralelo ou buscar uma inspiração no texto do filósofo alemão. Mas de alguma forma, a condição da cópia em Kiarostami, ponto de partida de seu “Cópia Fiel”, extrapolou a arte e alcançou a vida, o que nos remete a tão propalada e talvez ainda verdadeira frase, que “a arte imita a vida”.



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