segunda-feira, 26 de março de 2012

a parede no escuro

Quatorze ou quinze narradores. O autor não sabe ao certo. Mas é com esta engenharia literária que o escritor Altair Martins deu forma ao romance “A parede no escuro”, livro vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura de 2009, na categoria primeiro romance.
O nome do livro nos remete imediatamente à A maça no escuro, da Clarisse Lispector, mas a semelhança fica apenas na lembrança que o nome sugere. Já a forma, lembra, em princípio, Willian Faulkner, autor estadounidense da primeira metade de século 20 que encadeava algumas das suas histórias com narrações de um mesmo fato sendo contado por várias personagens alternadamente. No romance de Martins, entretanto, não há, como em Faulkner, a identificação direta do narrador. Descobre-se, ou percebe-se cada um dos narradores pela linguagem, pelo jeito, pela dicção. Cada um deles desfiará o fio de uma meada que será, ora linear, ora circular. Martins faz ainda, algo que poderia desandar o bolo. Ele constrói o texto com o esmero de uma prosa poética, mas não há excessos ou desperdícios: cada palavra é encaixada com cuidado, e não há perdas no caminho da estrada principal, que é contar a história de uma trama muito bem enredada.

O tema central passa pela questão da paternidade, ou, mais propriamente, pela crise da paternidade e do desamparo.

Entre muitos personagens, quatro formam a célula principal. O padeiro Adorno, pai de Maria do Céu a quem, em dado momento, a expulsa de casa, e o professor de matemática Emanuel e seu pai Fojo, com quem vive uma crise que se inicia ainda na infância.
O principal ponto de inflexão do romance se dá quando Adorno, numa manhã de muita chuva e pouca visibilidade, é atropelado e morto por Emanuel. A partir daqui, o fluxo de linguagem segue com suas cuidadosas minúcias, e coloca o leitor como o observador que só a ele é dado saber o autor do atropelamento.

Grande estréia do jovem autor gaúcho em narração mais longa, já que ele já trazia na bagagem três livros de contos, Como se moesse ferro, Se choverem pássaros e Dentro do olho dentro.

Abaixo, o primeiro parágrafo de A parede no escuro, início que já prenuncia que teremos um grande texto pela frente.

Se enxergasse no escuro, Adorno veria os dois olhos vermelhos do rato. Os pêlos do focinho experimentariam o ambiente, e o rato faria o simples: com oito patas, deslizaria rente à parede da janela do quarto, pararia junto a um pilar de madeira, escutaria perigos e seguiria para uma nova parede onde cheiros o fariam erguer levemente a cabeça e provar o ar. E seria nesse momento que, se pudesse ver no escuro, Adorno levantaria os olhos muito acima do rato e veria no relógio da parede, na imagem do Cristo, que estava atrasado. Sem ser notado, o rato escorreu para dentro de um buraco mínimo do assoalho, num canto à esquerda da cabeceira da cama.




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