sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

o perigoso momento da apatia



“Estado de alma não suscetível de comoção ou interesse; insensibilidade, indiferença.”
Puxei de um dicionário na internet esta que é a definição mais básica e sintética para isso a que chamamos de “apatia”. Escarafunchando mais um pouco, a palavra tem na sua etimologia a origem grega, “apatheia”, indicativa de “ausência de paixão”. Há ainda outra palavra, também de origem grega, “ataraxia” ( uma certa “ausência de preocupação” ou “imperturbabilidade” ), que mesmo não sendo sinônimas, aparecem muito próximas quando se estuda as escolas filosóficas helenísticas, a estoica, a cética e a epicurista.
Em cada uma dessas escolas, tanto a “apatheia” como a “ataraxia”, são assimiladas de maneiras diferentes, mas todas buscavam o objetivo da felicidade e de uma vida melhor.
A busca do prazer (não qualquer prazer, já que a serenidade deve levar a busca do prazer moderado, que não cause perturbações da alma e do corpo) e a ausência da dor, para Epicuro, e a total ausência do prazer para os estoicos, que devem se resignar com um mundo conforme é estabelecido pela natureza, onde não existe o acaso, valorizando assim, a racionalidade e a aceitação. No caso dos céticos, como não há verdade, não faz sentido se perturbar pelos aspectos externos. A atitude coerente para se afastar da infelicidade, para os céticos, é suspender o juízo e praticar a serenidade. 
Para todas essas definições, a busca de um mundo melhor parte da experimentação individual. Essas escolas helênicas – por volta do século III a.c -  a partir de Epicuro (Epicurismo), Zenão (Estoicos) e Pirro ( Céticos) surgiram a partir da desilusão com o cenário de ruína da polis, que era a estrutura política da antiga Grécia, e dominada naquele momento pelos macedônios. Era o meio do caminho que definiria a mudança da democracia para um regime centralizador e imperialista. Ou seja, depois da Grécia veio Roma.

Pulando 23 séculos e caindo no Brasil, nos deparamos com uma apatia contextualizada ao nosso tempo e espaço, no momento em que passamos muito rapidamente, de um embrionário projeto de democracia para o projeto abortivo deste projeto de democracia.  
As políticas públicas vão sendo substituídas pelas políticas do interesse privado. Os impactos dos desmontes das políticas ambientais, trabalhistas, previdenciárias, da saúde, da educação, da cultura serão enormes. O direcionamento ultraliberal da economia concentrará ainda mais a renda e a precarização do trabalho está sendo paulatinamente consolidada. E todo esse projeto tem como base uma desconstrução dos valores éticos, a institucionalização da imbecilidade, o acirramento do ódio, o ataque ao conhecimento e a ciência, o uso dos aparatos jurídicos para fins de controle de todo esse processo e com o acobertamento da mídia oligopolizada.

E temos assistido a tudo isso da arquibancada. Apaticamente.

E com a apatia vigente, chegaremos em 2022 com a terra arrasada e com as primeiras percepções tardias do tsunami que está se formando. A população chilena só agora, mais de duas décadas depois, está vendo a gigantesca onda que se formou e começou a reagir, abandonando a apatia.

A apatia (apatheia), diagnosticada, e sobretudo a ataraxia da filosofia helenística, tinham o objetivo de uma vida mais plena, alterando o corpo coletivo a partir de uma construção individual. O que temos hoje no Brasil é uma apatia sem a ataraxia. Um abandono da percepção da realidade trágica em que estamos metidos e das suas consequências e, até agora, sem o mecanismo do instinto de reação.

As histórias se repetem – como dizia Marx – a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa. Dentro da apatia que nos envolve neste momento, temos acatado a tragédia e aceitado a farsa. Ou seja, estamos cultivando o perigo.


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