domingo, 11 de setembro de 2011

artigo: a inauguração do século 21

Em 12 de setembro de 2001 escrevi o texto abaixo que foi publicado na edição daquele mês da Revés do Avesso. Hoje, evidentemente, teria uma outra abordagem para tratar do acontecimento. Mas o texto também seria outro se tivesse escrito na mesma semana, mas dois, três ou sete dias depois. Escrevi, portanto, ainda sob o impacto do evento já no prazo de fechamento da revista. Dez anos se passaram, mas o marco do início do século estava lá, na fumaça e nos escombros das duas torres.  Muita coisa passou por cima e por baixo de muitas pontes: Bush invadiu o Afeganistão e depois montou uma peça de ficção para justificar a invasão ao Iraque às portas de uma nova eleição; Madrid e Londres sofreram atentados; uma crise econômica eclodiu; Bin Laden morreu; a palavra "guerra" continuou sendo palavra de ordem nos EUA, que avisam, agora, que vetarão o reconhecimento do Estado Palestino na Onu.
Republico o artigo que, mesmo envelhecido, ainda trás algumas das tensões e incompreensões de um mundo, que desde 2001, é  menos livre e mais inseguro.




 •EUA/11 de setembro


A Inauguração do Século 21


Por César de Paula

O dia 11 setembro de 2001 já ficou na história como um marco de um novo estabelecimento das relações no planeta. O ataque aos EUA aponta um novo momento, como que abrindo o século para novas situações que o mundo terá que enfrentar daqui para frente.

Na Guerra do Golfo em 1991, a propaganda dos EUA falava em “ataques cirúrgicos" que atingiriam apenas alvos militares e nunca civis. Foi a primeira guerra transmitida ao vivo com imagens espetaculares, como jogos de videogame. Pessoas, civis, morriam com o distanciamento que a televisão permitia e com a estética que os índices de audiência apontavam para a venda dos espaços comerciais. Os tiros não foram cirúrgicos e os "heróis" americanos foram recebidos na Quinta Avenida com chuva de papéis picado.
Já no atentado aos EUA, a cirurgia foi precisa. Atingiu-se a economia e a defesa, patrimônio simbólico dos EUA representados pelo World Trade Center e o Pentágono.

Do ponto de vista mais objetivo, é quase irônico imaginar, como algumas poucas pessoas, ainda que colocando o próprio corpo, e portanto a vida, como a principal arma, sem nenhum caça supersônico; sem a posse de nenhuma bomba ou qualquer artefato explosivo; sem sequer estarem munidos de revólveres, mas tão somente portando facas e estiletes, puderam abalar como abalaram, uma nação que já gastou bilhões de dólares com programas militares como o “Guerra nas Estrelas" ou com o mais atual, o "Escudo Antimísseis".

O fato é que os EUA continuaram se preparando após a Guerra Fria, para enfrentar um adversário que hoje não existe. A guerra possível passa a não ser mais a dos mísseis balísticos, muito menos a da paranóia hollywoodiana de uma ação bélica nos corredores da via-láctea. O adversário do império militar e econômico neste 11 de setembro, não só não tinha armas, como não tinha rosto. Com o fim da Guerra Fria e a dissolução da União Soviética, uma ordem bipolar que regulava de certa forma as relações entre Estados, e situava as culturas dentro de quadros ideológicos mais consistentes, se desfez, criando uma nova ordem no tabuleiro do jogo das relações internacionais. O que parecia ser em princípio, a hegemonização e homogeneização dos conceitos, práticas e culturas vindas do norte da América (o american way of life, passando definitivamente a iluminar o mundo como um novo sol) mostrou, num tempo histórico muito rápido, que o quadro estava se transformando, ao contrário do que se supunha, num campo vasto, visualizado por uma janela de heterogeneidades étnicas, religiosas e de escolhas de verdades centradas no microcosmo de algumas e determinadas sociedades. O acirramento da defesa de conceitos in veritum que afloraram à medida que se abriu um vácuo antes ocupado por ideologias mais definidas e que eram, em última instância, fatores aglutinadores que se sobrepunham às questões de caráter étnico-religioso. O conflito nos Bálcãs foi o grande exemplo inicial dessa nova fase.

Essa nova realidade entraria em conflito com o quase determinismo de uma nova ordem mundial arquitetada.

As imagens do atentado que todos assistimos ao vivo, como um filme catastrófico – bem ao gosto do público que lota as salas de cinema dos EUA -, mostrou, na população nova-iorquina, além do componente de sofrimento direto, objetivo, que foram as milhares de vidas que se perderam, um segundo componente: o drama psicológico de quem sente o orgulho ferido.

A construção de todo império se alicerça na positividade da auto-estima de sua sociedade. Esse foi o grande terceiro símbolo atingido. A lição dura e trágica, que o episódio nos aponta, é que o mundo rico e, sobretudo a sociedade estadunidense, devem voltar os olhos para além dos seus quintais ajardinados, e que os líderes dos países desafortunados, abram as janelas dos seus gabinetes acarpetados, ou então, as guerras que trazem os corpos como armas, se difundirão a ponto de se sobreporem, em números de vítimas, àquelas que já sucumbem pela fome nas periferias do planeta.



César de Paula é articulista colaborador da Revés do Avesso.



2 comentários:

Lengo D'Noronha disse...

Muito bom artigo do Revés e 10 anos após.
Ficamos com os pontos de exclamação e interrogação pairando sobre nossas vidas.
Resta-nos as reticências... ou seria resistências?

Grande abraço, pois as amizades, estas sim, não são derrubadas.

Gê Cesar de Paula disse...

Grande Antonio, por vezes, sobra-nos as reticências...